AS PIN-UPS DO FEMINISMO

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 29/04/2017)

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                         Clara Ferreira Alves

O feminismo, exceto em manifestações dispersas e localizadas, arregimentadas a causas ditas fraturantes, está morto e enterrado.

Christine Lagarde não devia jogar póquer a dinheiro.


O momento foi espetacular e dá uma ideia do que é hoje o pós-feminismo, ou a representação enviesada do feminismo por um conjunto de mulheres cuja característica é a acumulação de poder e dinheiro. A senhora Merkel, com a mesma hesitação e tibieza que caracterizam a sua política pan-europeia, sumarizada na frase tão depressa uma coisa como outra, e que tão bons resultados tem dado, resolveu organizar uma cimeira em Berlim chamada Mulheres20, um G20 de saias. Esta cimeira fez-se de propósito para dar palco a uma recém-chegada, uma das novas combatentes pelos direitos das mulheres também conhecida como la fille Trump. Parece que Merkel digeriu a humilhação que Trump lhe assentou ao recusar apertar-lhe a mão, e resolveu chegar ao coração do pai através da filha. Vimos Jared no Iraque como agora vemos Ivanka na cimeira. No encontro de Berlim, Ivanka brilhou pela compostura e a elegância, como diria a revista “Hola”, o meio de comunicação adequado a momentos de espuma cor de rosa e sorriso frou frou. A Lagarde, suma-sacerdotisa das mulheres poderosas, e tal como a Merkel um péssimo exemplo de coerência política na questão das dívidas soberanas, sumarizada na frase façam como eu digo e não façam como eu faço, estava sentada ao lado de la fille Ivanka. A coisa parecia ser um debate, com uma moderadora a perguntar à fille como é que ela se revia no feminismo do papá. Sem um cabelo fora do sítio, e batendo as pestanas ao jeito da mãe, a saudosa e plástica Ivana dos anos 80, Ivanka declarou que o pai era um “tremendo” campeão dos direitos das mulheres (a mania do tremendo é genética). A Lagarde coçou o nariz nervosamente enquanto Merkel olhava por cima da linha do horizonte. Nestes momentos, Merkel nunca está lá e não ouviu nada. A Lagarde, que como todas as mulheres por esse mundo fora assistiu ao feminismo de Trump durante a campanha eleitoral, e que conhece Hillary e sabe que esta pode ter todos os defeitos mas foi sempre uma defensora dos direitos das mulheres, coçou o nariz numa aflição. Devia abster-se de jogar póquer a dinheiro porque denuncia-se muito. Só a feijões.

A seguir ao momento espetacular, em que Ivanka foi assobiada pela assistência, vieram as comentadoras femininas, não necessariamente feministas, que interpretaram o convite de Berlim para uma cimeira feita de propósito para la fille Trump como um modo de restabelecer as boas relações entre a Alemanha e os Estados Unidos. Um verdadeiro coup para Merkel, chamou-lhe um jornal, em francês no texto. Portanto, nada que tenha que ver com mulheres ou direitos das mulheres. É por causa de momentos tão espetaculares como este, que são uma forma de subjugação de mulheres poderosas ao macho alfa que ocupa a Casa Branca, que as mulheres continuam a não se fazer respeitar. Todo aquele W20 foi uma encenação deprimente. Os alemães não sabem mesmo o que andam a fazer. Humilham os fracos e humilham-se perante os fortes. Insultam a Grécia e dobram-se a Trump. Boa sorte com isso.

Acho que prefiro Kushner no Iraque a Ivanka na cimeira. Nada, até hoje, a recomenda como uma campeã dos direitos das mulheres, dentro ou fora da empresa do pai ou das empresas de luxo que criou à sombra do pai. A sua vida e obra não passam dos trabalhos de uma existência manicurada ao serviço de uma dinastia que não hesita em faturar a propósito de tudo e todos e que, como a pobre Melania disse com abandono, acha a Casa Branca uma oportunidade de negócio. Os Trump exploram o mundo a seu favor e são cumprimentados por isso. Ivanka vai vendendo a linha Ivanka nos países com os quais vai tratando no sossego da diplomacia que lhe ofereceu um lugar ao lado do pai. Se os Clintons eram dois pelo preço de um, os Trumps são três pelo preço de um.

Na verdade, o feminismo, exceto em manifestações dispersas e localizadas, arregimentadas a causas ditas fraturantes, está morto e enterrado. Os símbolos feministas são hoje as mulheres mais poderosas do capitalismo financeiro ou tecnológico, que nunca mexeram uma palha por uma mulher privada de recursos, que nunca ergueram a voz para ajudar ou protestar contra uma mulher queimada, injustiçada, humilhada, violada, proletarizada, torturada, mutilada, refugiada ou assassinada.

Nem podiam. Não fazem a menor ideia do que é a destituição das mulheres da Nigéria ou do Sudão, da Somália ou da Bolívia, do Brasil ou da Índia, ou a perseguição das mulheres na Rússia, no Afeganistão ou no Paquistão. Na envidraçada redoma, nos palácios forrados a dólares, nenhuma daquelas mulheres reconhece uma geografia que caia fora da “Vogue” e da “Forbes”. Marisa Meyer, a CEO da Yahoo que afundou a Yahoo, acaba de ser recompensada com 168 milhões de dólares. Sheryl Sandberg, que publicou um livro para mulheres profissionais da sua classe e do seu meio, “Lean In”, um livro pueril diga-se de passagem, confessa que só ao perder o marido se deu conta de que era uma privilegiada. Os biliões da chefe operacional do Facebook ajudam muito.

São estas as pin-ups do feminismo, como a nossa Ivanka. E ninguém se lembrou de convidar la fille Le Pen, de que o velho Trump tanto gosta.

Em Roma já não sobra nada

(Francisco Louçã, in Público, 24/03/2017)

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   Francisco Louçã

Djisselbloem parece ser tudo o que a União Europeia tinha para dar. Tem sido ele quem faz, pois é uma marreta de Schauble, que cuida do controlo político sobre o euro através dessa instituição sem regras, o Eurogrupo. É ele, o dogma de uma política económica destruidora. É ele, a transumância política entre socialistas e a direita, nesse nevoeiro em que se tornou a “governança” europeia. Ou, como escrevia Viriato Soromenho Marques, europeísta lúcido, esta gente é a figuração de “um dos problemas europeus, sem remédio aparente, o défice de competência política e o excesso de cabotinismo que reina no fervilhar das chancelarias”.

A esse cabotinismo respondeu António Costa com um ultimato em tempo certo: demita-se, ou o euro não tem futuro. Só que pode parecer ou exagerado ou ambíguo. Se Djisselbloem sair, e vai sair dentro de alguns meses para salvar as aparências, outro virá para um caminho que poderá ser semelhante. O que é que então quer dizer que o euro não tem futuro – é por ter um cabotino à frente do Eurogrupo (a obedecer à Alemanha) ou é por seguir uma política cabotina (que a Alemanha impõe)? No dia da triste festa de Roma, não creio que haja outra pergunta.

Será então que o ministro holandês se limitou a exagerar os seus preconceitos, em contraste com a frieza equilibrante dos burocratas europeus, nada dados a exageros? A experiência diz que não. Afinal, tivemos a Grécia (vendam as ilhas, dizia um ministro alemão). Afinal, temos Guenther Oettinger, o comissário europeu promovido para dirigir o Orçamento e que exigia que os países endividados ficassem com a bandeira a meia haste (além de outras aleivosias racistas). Afinal, temos Juncker, que afirma que a França deve ser isenta das obrigações dos Tratados por ser a França. Se portanto nos perguntamos se Dijsselbloem é simplesmente uma anedota que se pode descartar com o abanar da mão, a prudência pede que se olhe para a floresta e não só para a árvore: o homem foi simplesmente a voz do governo europeu.

Terá sido por isso mesmo que Sampaio já se tinha erguido, aqui no PÚBLICO, contra o caminho do desastre: uma “corrida para o abismo”, com o “ponto de não retorno” do Brexit, tudo agravado pela inviabilidade de 10-15 anos de austeridade impostos pelo Tratado Orçamental aos países periféricos, a que ainda acresce a “gestão desastrosa” da questão dos refugiados e “uma clara acumulação de dificuldades, problemas mal resolvidos e alguns estrondosos insucessos” e, em consequência, “o esboroamento a olhos vistos da confiança na União Europeia, nas suas instituições e nos seus líderes”. O “esboroamento”, nada menos.

Mais, acrescentava o ex-Presidente, isto não vai ser corrigido: “o pior é que, de facto, ninguém parece acreditar que Bruxelas (ou Berlim) tenha qualquer iniciativa nos próximos meses para responder à crise da eurozona, para alterar a ortodoxia financeira dos credores ou para criar as condições institucionais e orçamentais que tornem possíveis programas de reforma nas economias mais frágeis”. O teste está a ser feito na Cimeira que decorre este fim de semana em Roma: haverá palavras de circunstância sobre o atentado de Londres e sobre os 60 anos da fundação, enquanto os cinco cenários de Juncker serão misericordiosamente enterrados e não haverá nada sobre como deve a União superar a desunião e o desprezo pela vida dos desempregados, ou dos trabalhadores, ou dos jovens. Afinal, o dijsselbloismo tem triunfado sem oposição nas cimeiras europeias.

Claro que em Portugal, apesar da indignação espraiada até entre os partidos de direita contra “as mulheres e os copos”, ainda sobrou a brigada conservadora que veio defender Dijsselbloem. Helena Garrido já tinha dito que o chefe dele, Schauble, tinha razão, aliás os chefes têm sempre razão e, se anuncia que vem um resgate, é porque sim e até é um favor que nos faz. Camilo Lourenço, um homem do CDS, alinhou imediatamente com Dijjselbloem, que andava tudo a exagerar e no fundo o homem tem razão.

José Manuel Fernandes reconhece, pesaroso, que a frase é “infeliz”, para logo também concluir que tem razão. Mais ainda, entusiasmado com a ideia, Fernandes ensaia no Observador a sua própria versão do dijsselbloemês, advertindo-nos paternalmente: “a próxima vez que um filho vosso (ou um irmão) que está em riscos de chumbar o ano vos vier pedir dinheiro para ir ‘com a malta’ para ‘a noite’ na véspera de um exame decisivo, passem-lhe logo o cartão do multibanco e o respectivo código, não vá ele acusar-vos de ‘moralismo’ e ‘preconceitos’, talvez mesmo de ‘xenofobia’, porventura de ‘racismo’ e ‘sexismo’. Como sabem, assim ele irá longe na vida”. Este catálogo de pecados é maravilhoso e serve para explicar porque é que Dijsselbloem, no fim das contas, é como o nosso pai quando cuida de nós e não cede à tentação de nos deixar ir para a “noite”. Os conservadores continuam a lastimar a falta do Diabo, que vinha e não veio, e ficam-se por agora pela certeza de que “copos e mulheres” ou os “copos” e a “noite” na “véspera de um exame decisivo” nos levam pelo caminho da condenação aos infernos.

Ainda não perceberam que de inferno sabemos todos muito, vivemos a caminho dele desde que Passos Coelho nos explicou que, com a troika, precisamos mesmo de empobrecer – sem “copos” e sem “mulheres”, diria o presidente do Eurogrupo.

Social-democrata sempre

(In Blog O Jumento, 23/03/2017)
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Quando vejo o Jeroen Dijsselbloem puxando dos seus galões para dar ares de político caridoso para com povos dados a putas e vinho verde questiono-me sobre o que é ser social democrata. Também por cá tivemos um artista que promoveu um discurso muito similar ao do ministro das Finanças holandês e que, na hora de se apresentar a um congresso do seu partido, e depois de ter destruído a classe média e empobrecido os pobres ainda mais do que já estavam, usou o lema “social-democracia sempre”.
Temos, portanto, dois políticos muito semelhantes, com idênticos argumentos para fundamentar a austeridade e que na hora da recauchutagem se lembram de serem social-democratas. A dúvida está em saber se o holandês é social democrata pois só ouvi falar dele quando já tinha um discurso de quase de extrema-direita. Quanto ao nosso, que tanto quanto se sabe passou boa parte da sua vida “nas putas e vinho verde”, nunca foi social-democrata, nem ele, nem a maioria dos do seu partido.
Não é só o Jeroen Dijsselbloem que me faz recear que os partidos sejam vistos, por alguns políticos ambiciosos, mais como uma espécie de clube do que como uma organização que une cidadãos com os mesmos valores. Também por cá temos muita gente que se diz socialista ou social-democrata e que nada tem que ver com os valores ideológicos da social-democracia, uma corrente marxista com mais de um século de existência.
Há dois fenómenos que são preocupantes, há partidos que na luta por chegar ao poder atraem personalidades que seguem mais a sua ambição do que quaisquer valores ideológicos, da mesma forma que há personalidades que escolhem um determinado partido, não pelos seus valores, mas porque é o que lhe dá mais garantias de chegar ao poder. Quando Trump deixou de ser social-democrata foi porque teve uma crise de republicanismo? Quando Durão Barroso mudou numa noite do MRPP para o PPD foi porque viu uma luz no discurso de Sá Carneiro? Quando muitos militantes empedernidos do PCP se mudaram do dia para a noite para o PS ou para o PSD foi porque descobriram as virtudes da democracia?
Os partidos são cada vez mais máquinas de conquista do poder. Assim como os fãs dos clubes não se importam que estes sejam comprados por árabes ou chineses porque estes trazem os recursos financeiros necessários para ganhar títulos, também muitos militantes partidários tanto apoiam as políticas de extrema-direita de Passos Coelho, como no próximo congresso o vão acusar dessas mesmas políticas.
Esta degeneração dos partidos é um processo perigoso, não admirando que sucedam algumas cambalhotas políticas como as que temos vindo a assistir. O tão apregoado fim das ideologias deu lugar à prostituição ideológica.