A esquerda acelerada

(António Guerreiro, in Público, 02/06/2017)

Autor

António Guerreiro

Um assentimento geral dá vida longa a esta piada: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Esta paralisia de ordem política não é igual a tantas outras do passado porque o que está em causa, agora, não é só o curso da História e as representações e configurações de ordem política, é também um cataclismo ecológico global que nos reenvia para o nosso frágil estatuto de earthbound, de seres ligados à terra, como diz o sociólogo Bruno Latour. Uma heresia política contemporânea que interpela sobretudo a esquerda e as suas tendências nostálgicas (veja-se, por exemplo, como ela joga muito mais na miragem do pleno emprego do que na lógica de um mundo sem trabalho com o qual estamos confrontados) é um polémico manifesto publicado em 2013 por dois universitários ingleses: Nick Srnicek e Alex Williams. Trata-se do Accelerate Manifesto for an Acclerationist Politics. Parece certamente estranho como é que um programa “aceleracionista” pode ser uma alternativa numa época em que a regra a que tudo está sujeito é precisamente a velocidade. O que leva todo o pensamento ecológico a defender o regresso à lentidão. Diga-se, em boa verdade, que o Manifesto Aceleracionista cai numa tecnofilia ingénua, quando não ganha até a dimensão de um “prometeísmo demente”, como observou o filósofo francês Yves Citton (que o traduziu para francês, na revista Multitudes). O Manifesto pretende superar o capitalismo neoliberal e recuperar, para a esquerda, a ideia perdida de futuro. Este modo de pensar suscita imediatamente esta interrogação: o capitalismo neoliberal não impôs precisamente a lei da aceleração, em todos os domínios? Fazendo uma distinção entre velocidade e aceleração, os autores do Manifesto defendem que o que se passa é que temos o sentimento de que avançamos rapidamente, mas os fundamentos não sofrem qualquer mudança. Aumentamos a velocidade sem alterar a mudança da bicicleta. Por isso, precisamos de pedalar cada vez mais.

Ora, o Manifesto Aceleracionista é de um grande optimismo: entende que a passagem para um pós-capitalismo se pode dar aproveitando as infra-estruturas do capitalismo, da logística à finança, transformando do interior a sua estrutura material.

E critica a negatividade da esquerda, a sua obsessão pela resistência (que tem como efeito confirmar pura e simplesmente as regras daquilo que recusa), a sua incapacidade em ser afirmativa e constituir um horizonte positivo de superação. Podemos mesmo dizer que este Manifesto tem uma enorme capacidade de mostrar, com grande verosimilhança, os anacronismos, as ineficiências e as impotências da esquerda tradicional. O movimento de aceleração deve consistir num pragmatismo que reorienta as potencialidades sociais do capitalismo numa outra direcção, reapropriando-se do progresso científico e tecnológico. Não se trata de destruir ou fazer tábua-rasa, mas de transformar do interior. O ponto mais polémico do Manifesto é aquele em que os seus autores escrevem: “Os aceleracionistas querem libertar as forças produtivas latentes. No âmbito deste programa, a plataforma material do neoliberalismo não precisa de ser destruída. Tem de ser reorientada para finalidades comuns”. Tratando-se de um Manifesto, não admira que o texto deixe muitas coisas em suspenso e ostente um impulso idealista (limitei-me aqui a descrever as suas proposições mais gerais). Mas ele tem uma grande virtude, que um dos seus comentadores mais notáveis, Toni Negri, resumiu desta maneira: “A aceleração tem as características de um processo experimental de descoberta e de criação no interior do espaço de possibilidades determinado pelo próprio capitalismo”.

Esquerda e Direita no século XXI

(Por Immanuel Wallerstein, in Blog OutrasPalavras, 16/05/2017)

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As turbulências e reviravoltas políticas que vivemos irão recrudescer. A esquerda só vencerá se souber aliar os que lutam por direitos sociais às forças multiculturais. Este é, hoje, o sentido da luta de classes.


O período entre 1945 e 1970 foi, ao mesmo tempo, de altíssima concentração de capital ao redor do mundo e de hegemonia geopolítica dos Estados Unidos. Na geocultura da época, liberalismo de centro estava em seu ápice, como ideologia dominante. Nunca antes o capitalismo parecia ter funcionado tão bem. Mas isto não iria durar.

O alto nível de acumulação de capital, que favorecia em particular as instituições e o povo estadunidense, chegou ao limite de sua capacidade de garantir o quase monopólio de empresas produtivas necessário. A ausência deste quase monopólio fez com que a acumulação de capitais em todos os lugares começasse a estagnar. Os capitalistas foram obrigados procurar maneiras alternativas para sustentar seus rendimentos. As principais formas foram transferir as empresas produtivas para regiões de custo mais baixo e se envolver em transferências especulativas de capital, procedimento mais conhecido como financeirização.

Em 1945, o quase monopólio geopolítico dos Estados Unidos só era desafiado pelo poder militar da União Soviética. Para assegurar este quase monopólio, Washington teve de entrar num acordo tácito, porém efetivo, com a União Soviética, chamado “Yalta”. Este pacto envolveu uma divisão do poder sobre o mundo: dois terços para os Estados Unidos, um terço para a URSS. De forma recíproca, concordaram em não desafiar tais limites, nem interferir nas transações econômicas do outro em sua respectiva esfera. Também iniciaram uma “guerra fria”, cuja finalidade não era derrubar o outro (ao menos no futuro previsível), e sim preservar à risca a lealdade de seus respectivos satélites. Este quase monopólio também foi aniquilado devido ao crescente questionamento sobre sua legitimidade, por parte dos perdedores, no status quo de então.

Para acrescentar, este foi um período no qual os movimentos anticapitalistas tradicionais,  ou “velha esquerda” (em que se incluem comunistas, social-democratas e partidos de libertação nacional), assumiram o poder em várias regiões do sistema mundo, fato que parecia altamente inimaginável em 1945. Um terço do globo era governado por partidos comunistas e seus equivalentes. Outro terço era governado pelos partidos social-democratas na região pan-europeia (América do Norte, Europa Ocidental e Australásia); nesta, o poder alternava-se entre partidos social-democratas que adotavam o Estado de Bem-estar Social (Welfare State) e partidos conservadores que também o aceitavam, embora procurassem reduzir sua extensão.

E, na última região, no chamado “Terceiro Mundo”, movimentos de libertação nacional chegaram ao poder, com promessas de conquista da independência, na maior parte da Ásia, da África e do Caribe; e promovendo regimes populares na América Latina, que já era independente.

Dada a força dos poderes dominantes, especialmente dos Estados Unidos, pareceria insólito que movimentos antissistêmicos chegassem ao poder nesse período. Mas, de fato, ocorreu o oposto. Com o propósito de lutar contra o impacto dos movimentos anticoloniais e anti-imperialistas, os Estados Unidos fizeram concessões, na esperança de que forças moderadas assumissem o poder nestes países. Calculavam que tais forças estariam mais dispostas a governar segundo normas convencionais do comportamento interestatal. Tal expectativa mostrou-se correta.

O ponto de inflexão ocorreu com a revolução mundial de 1968, cuja notável — embora curta — insurreição, entre 1966 e 1970, trouxe dois grandes resultados. Um foi o fim de uma longa hegemonia do liberalismo de centro (1848-1968) como única ideologia legítima na geocultura. Em seu lugar, tanto a ideologia radical de esquerda como a ideologia conservadora de direita, reconquistaram suas autonomias, e o liberalismo de centro viu-se reduzido a ser apenas uma entre três ideologias concorrentes entre si.

A segunda consequência foi a afronta mundial contra a “velha esquerda”, por movimentos de todos os cantos, que concluíram que a mesma não tinha nada de antissistêmica. Sua ascensão ao poder não havia mudado nada relevante, diziam seus agressores. Estes movimentos passaram a ser vistos como partícipes do sistema que devia ser rejeitado, para que os verdadeiros movimentos anticapitalistas tomassem seu lugar.

O que ocorreu depois? No início, esta nova direita assertiva parecia ser a vencedora. Tanto o presidente Reagan, dos EUA, como a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher proclamaram o fim do até então dominante “desenvolvimentismo”, e o advento da produção orientada para o mercado mundial. Eles afirmaram que “não havia outra alternativa” (TINA = “there is no alternative”). Dada a queda das receitas do Estado, na maior parte do mundo, a maioria dos governos solicitou empréstimos, que só seriam concedidos se aceitassem os novos termos da TINA. Estes termos eram exigidos para reduzir drasticamente o tamanho dos governos e, assim, eliminar o protecionismo, enquanto acabava o estado de bem-estar social e aceitava-se a supremacia do livre mercado. É o que conhecemos como o Consenso de Washington — e quase todos os governos se renderam a esta grande mudança de foco.

Governos que não se enquadraram, caíram, culminando no colapso espetacular da União Soviética. Depois de algum tempo, os Estados complacentes descobriram que o aumento prometido na renda real, tanto do governo quanto da maior parte dos trabalhadores, não ocorreu. Pelo contrário, esses Estados sofreram com a austeridade imposta a eles. Surgiu uma reação à TINA, marcada pela insurreição dos zapatistas, em 1995, as manifestações bem-sucedidas contra a tentativa de decretar garantias obrigatórias para os chamados “direitos de propriedade intelectual”, em Seattle, 1998, e a fundação do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em oposição ao Fórum Econômico Mundial, pilar de longa data da TINA.

Com a esquerda global ganhando força novamente, as forças conservadoras tiveram que se reagrupar. Deslocaram-se de sua ênfase exclusiva em economia de mercado e lançaram sua face sócio-cultural. Inicialmente, gastaram muita energia em questões como a proibição do aborto e a insistência no comportamento heterossexual exclusivo. Utilizaram tais temas para atrair apoiadores à ação política. E mais tarde voltaram-se para posturas xenofóbicas anti-imigração, abraçando o protecionismo a que os conservadores econômicos especificamente se opunham.

No entanto, os apoiadores dos direitos sociais expandidos para todos e do “multiculturalismo” copiaram a nova tática política da direita e legitimaram, com sucesso, ao longo da última década, avanços significativos em questões sócio-culturais. Direitos das mulheres, os primeiros direitos ao casamento homossexual, direitos dos indígenas, tudo isso se tornou vastamente aceito.

Então, onde estamos? Os conservadores econômicos venceram primeiro, e depois perderam força. Seus sucessores, os conservadores sócio-culturais venceram, depois perderam força. Mesmo assim, a Esquerda Global parece hesitar. Isso acontece porque ela ainda não parece disposta a aceitar que a luta contra a Direita Global é a luta de classes, e que isso deveria ser explicitado.

Na crise estrutural do sistema mundo moderno, que começou nos anos 1970 e provavelmente vai durar mais uns vinte a quarenta anos, a questão não é a reforma do capitalismo, mas seu sistema sucessor. Se a Esquerda Global quer vencer a batalha, deve aliar solidamente as forças anti-austeridade com as forças multiculturais. Só o reconhecimento de que os dois grupos representam os mesmos 80% de baixo da população mundial tornará possível a vitória. É preciso lutar contra o 1% e buscar atrair os outros 19% para seu lado. Isso é exatamente o que significa, hoje, a luta de classes.

Um novo Centrão

(Manuel Carvalho da Silva, in Jornal de Notícias, 14/05/2017)

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Os últimos anos têm sido marcados pela implosão eleitoral da social-democracia europeia. Este movimento começou na Grécia, com o quase desaparecimento do PASOK, passou por Espanha, atravessou a Holanda, está em curso em França com as eleições presidenciais e legislativas e, aparentemente, terá mais uma sequela no próximo mês no Reino Unido. As razões para este colapso têm raízes nas trajetórias políticas específicas de cada país e de cada partido, mas esta coincidência geográfica e temporal não é alheia às causas que geraram e alimentam a crise económica, financeira e social sob a qual vivemos há quase dez anos. Desde então, os partidos socialistas/sociais-democratas têm oscilado entre uma adesão mais ou menos entusiástica a políticas de austeridade e tentativas de rutura pela Esquerda. Esta via tem sido minada por virulentas oposições internas alinhadas com o centrão político – agora também designado “centro extremo” – e por ambiguidades em relação à UE.

O realinhamento social-democrata tem integrado uma espécie de movimento tectónico para a Direita. No vazio político resultante desse resvalar contínuo, o “centro extremo” tenta reinventar-se a partir de uma grelha política que, recusando a divisão Esquerda-Direita, anuncia agora uma nova divisão entre “abertura” e “fechamento”. Neste exercício, o “centro extremo” coloca-se sempre do lado “positivo” da dicotomia, ou seja, os seus ideólogos e intérpretes são os “abertos”. É a única forma de tentarem alguma credibilidade, face à destruição de esperança e confiança que as suas práticas de poder têm provocado nos cidadãos.

Macron surge como o exemplo último dessa interpretação, que se encontra um pouco por toda a Europa. Em Portugal é assumida por “sociais-democratas” com partido ou independentes, mas em particular na ala direita do Partido Socialista. No seu discurso e elaboração de propostas – que partem do “pragmatismo” da inevitabilidade da era neoliberal – o comando do mercado é tido como condição para a validade de troca de ideias e de contributos, mas também para a fundamentação das mobilidades, flexibilidades e adaptações a que os trabalhadores se deveriam sujeitar no plano nacional ou no espaço internacional. Para este Centrão em reconfiguração, a União Europeia, ao organizar e promover a financeirização e a globalização hegemónica, constitui-se automaticamente como o garante de uma convivência sã entre os diferentes espaços nacionais. Nestes já não se justificariam medidas de regulação e proteção específicas e objetivas.

A realidade em que temos vivido e que tende a acentuar-se é bem diferente dos cenários credibilizados por esse “centro extremo”. Vimos de décadas de acrescida competição internacional que destruiu milhões e milhões de postos de trabalho, que degradou direitos, que esvaziou de dignidade os próprios direitos humanos. Na Europa esse tem sido o alimento de uma extrema-direita xenófoba e fascista, bem como da indiferença e hipocrisia de outros perante os dramas do exílio forçado e de um Mediterrâneo transformado em cemitério.

Se este novo discurso é facilmente desmontável pelos factos concretos das nossas vidas, deve contudo merecer particular preocupação a diabolização em curso de expressões como “segurança” ou “proteção”, apresentadas como características de sociedades “fechadas”.

O que a história do movimento operário e sindical e de toda a luta social e política por direitos sociais e culturais nos mostra é que foram a segurança e a proteção das pessoas, desde logo no emprego, a base material e ideológica de um mundo mais solidário e internacionalista. Jamais essas grandes conquistas foram sinónimo de autoridade desmedida do Estado ou fontes de ódios ao estrangeiro.

A Esquerda tem de enfrentar os fortes poderes internacionais, de assumir com determinação a vontade de recuperar dimensões de soberania indispensáveis para um novo modelo de desenvolvimento. São precisas as experiências de outros países, o diálogo e a cooperação internacionais, nomeadamente, dentro de projetos coletivos sérios como deveria e deve ser a União Europeia. Estes serão caminhos seguros para a salvaguarda dos bens comuns da Humanidade.

* INVESTIGADOR E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO