Os estandartes de Outubro

(Por Joseph Praetorius, in Facebook, 15/11/2017)
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Joseph Praetorius

Sete dias volvidos sobre o Sete de Novembro, recordo a excitação com que aos 14 anos recebi um pequeno busto de Lenine, clandestinamente trazido da URSS e em cuja memória eu admirava o homem que mudara a face do mundo. Percorri boa parte dos 40 volumes das suas obras completas (44 volumes se bem me lembro).
E foi Georges Gusdorff quem me salvou da perspectiva marxista da História e inviabilizou uma adesão cega, que os primeiros impulsos certamente teriam determinado. Conheci o texto pelas fotocópias de minha mãe, que nessa altura decidiu frequentar o ISPA. (Só quinze anos depois me lembrei de procurar aquilo em Paris e foi fácil encontrar, nunca encontrei o texto aqui). Miranda Santos, em História da Psicologia, exigia a leitura daquilo. E eu li também. Em 85 encontrei-o no bar da Faculdade de Letras em Coimbra, onde um acaso profissional me levara. E pude agradecer-lhe essa indicação bibliográfica e a importância que ele teve na minha adolescência. Não falhava uma aula dele. Dois anos depois dessas aulas, nos jesuítas, sistematizei as concepções medievais da periodização da História. Nesse exercício percebi muitas coisas.
Trasímaco também foi importante e por isso estou grato ao bom velho Platão que no-lo deu a conhecer. O reconhecimento da luta de classes não é uma originalidade de Marx. Não é isso que o singulariza. Já o descobri em Filosofia – onde as escandalosas lacunas de formação filosófica e histórica dos professores de Direito me obrigaram a ir – Platão e Gusdorff foram portanto as duas armas de que dispus para o solitário combate às duas barbáries. A das bestas que se imaginavam comunistas e a das bestas que se imaginavam de direita. Pouco mais tarde as minhas inquietações de cristão a braços com a clerezia papista, que me escandalizava em tudo, levar-me-iam à leitura do De Civitate Dei onde descobri um pensamento político radical ancorado nas referências do Direito Romano. A Lenine, só o percebi melhor quando li um dos livros de Michelet das estantes do meu avô. Há uns vinte anos, talvez. A minha mãe tinha-se esquecido de mo passar. Havia coisas que o meu avô sabia e eu ignorava completamente, portanto. Michelet caracteriza a sociedade russa em 1858, data da edição das Légendes démocratiques du nord, pelo “comunismo russo”. Referia-se às comunas de servos cujos pressupostos e teleologia Lenine alterou. mantendo a estrutura, se bem vejo.
Tenho sido surpreendido por uma espécie de euforia dos monárquicos russos. Isto notado, indiquem-me um nome de general monárquico no comando de qualquer dos exércitos brancos. Que comandante branco se bateu pelo trono? E expliquem-me que posição tomaram os brancos face ao número desproporcionado de destacamentos militares que “o ocidente” para ali tinha mandado, com claros intuitos de partilha do território.
É inútil branquear os brancos. Aquilo é completamente pardo. Nenhum deles se batia pelo imperador, embora houvesse uns mais respeitáveis que outros e outros completamente desprezíveis. Koltchac, homem de alguns méritos, proclamou-se Chefe do Estado e assim foi tratado até ser passado pelas armas. O desprezível Krasnov chegou a formar governo e também não se notou ali nenhuma fidelidade a não ser à Alemanha. Entregue pelos americanos a Stalin, suponho que foi enforcado. Denikin era um homem razoável. Burocrata dedicado. E claramente honesto. Muito longe de ser um aristocrata, aliás. Filho de servo libertado no serviço do exército imperial. Aristocratas eram muitos dos bolchevistas. Esses, sim. E os apelidos do Comité Central não enganam, de resto.
Os bolchevistas minaram o esforço de guerra do Exército imperial? Claro. Fizeram-no aliás com o heroísmo de militantes da paz em toda a Europa. Na Rússia também. E pagaram um preço elevado. A guerra foi criminosa. E o crime foi punido com a queda de todos os tronos que a desencadearam, somando o turco que com eles simpatizava. Não é possível deixar de honrar a memória dos que ousaram combater politicamente tal barbaridade. Os bolchevistas, claro. Houve outros?
Todavia tomaram o poder aos traidores de Fevereiro – onde estavam homens em quem o ódio ao Imperador era patente, como Kornilov – esses, em apoio de cujos compromissos a Rússia foi invadida por um milhão de homens em destacamentos militares “ocidentais” (mas Japão incluído) pretendendo erguer padrões nos territórios de que se assenhoreariam durante a guerra civil.
Tal guerra foi desencadeada pelos fantoches de Fevereiro, para serviço dos seus interesses pessoais e alheios, se bem vejo. Não obstante a presença de homens respeitáveis e aos quais ainda hoje os russos mantêm respeito. Denikin é um deles. E por isso repousa finalmente em solo pátrio. A desgraça militar é produto do fraccionamento de intenções, da rivalidade em avidez que fazia deles inimigos uns dos outros. Vinha isto a par de um sentimento de fraqueza de quem exigia ao “ocidente” o suprimento da força que lhes faltava. A coisa confessa-se até num hino – decalcado de uma canção de combate do Exército Vermelho, mas eles dizem que foi ao contrário – que cantavam em francês e aqui deixo a título documental.
O Exército Vermelho venceu a guerra – fazendo apelo ao povo, maioritariamente aos camponeses – sob o comando de não raros aristocratas, que se desincumbiram e bem dos seus compromissos com a integridade do solo pátrio. Salvaram-se as fronteiras. Sem contar com mais ninguém, senão com russos e povos a eles ligados. A história da Paz de Brest – sob a premência política de um momento único – foi antes disto; e mesmo aí os bolchevistas não foram meigos com os alemães.
A reconstrução da unidade em novo quadro jurídico foi também obra dos bolchevistas. Proclamadas as repúblicas nacionais, foram os tratados de adesão à URSS ratificados reconstruindo a unidade dos povos que no Império se tinha materialmente cristalizado.
A pobre família Romanov foi barbaramente assassinada, de modo absolutamente inútil, para mais. E já não era a Família Imperial. É este aliás um dos aspectos da inutilidade. A Revolução de Outubro não se fez contra o Imperador, que este já tinha caído, abdicado e sido preso. A Revolução fez-se contra os de Fevereiro. Foi a tal gente de Fevereiro que o poder foi tomado e bem tomado. Sem isso não haveria hoje Rússia, que aquela corja estava disposta a vender tudo, como de resto o tentou fazer.
O Grão Duque Aleksander Mihailovitch escreveu um depoimento claro. Foi Lenine quem salvou a integridade das fronteiras. E não é seguramente o meu papel discutir com tão qualificada testemunha. Melhor fariam os monárquicos russos – começando pelos que se reclamam titulares – em dirigir contra si próprios as principais censuras. Que fizeram eles para salvar o Imperador de si próprio e dos outros? Não sabiam – e ainda não sabem – que antes do trono cair, devem cair os que o defendem? É esse o sentido da nobreza. O escol é a escolta – quem deixou só o Imperador? Fui eu? Sorte têm eles por não lhes ter sido dito até agora que tais títulos, em razão de tal infâmia, caducaram, i.e. caíram. Também eles. E caíram por indignidade. É um pressuposto elementar da ordem cuja restauração pretendem (de modos muito pouco inteligentes, diga-se de passagem).
Sem querer absolver a estupidez – sempre homicida, como o ensina Platão – recuso-me completamente a absolver a hipocrisia, sempre cobarde, sempre calculista, sempre desprezível. E jamais absolverei o snobismo.
Razão teve – e teve, pobre e nobre homem – o embaixador do Imperador Russo junto do Trono do Pavão, que trabalhou como operário o resto da sua vida, em França, recusando aliás outro destino e qualquer alívio, porque “alguém tinha que assumir a responsabilidade pelo que ocorrera”. Quem no-lo disse foi seu filho (com quatro anos à data do início da rota rumo ao refúgio, do Irão a Paris) príncipe notabilíssimo da Santa Igreja Russa e de uma fidelidade sem quebras ao Patriarcado de Moscovo, refiro-me ao Metropolita Anthony Bloom, médico dos corpos e das almas, cientista e poeta e, por tudo, talvez, teólogo e bispo de excepção.
Independentemente de tudo, a Revolução fez o que o Imperador não quis, não pôde ou não soube fazer. A Revolução de Outubro salvou a Rússia. Antes de mais. E não é pouco.
E perspectivou-se como russa. Isto é, assumindo o compromisso russo e único com a liberdade e a transfiguração do mundo. À sua escala e com as suas referências, não vejo isto muito diferente (embora evidentemente laicizado) do modo como antes se vivia o radical compromisso dos únicos fiéis livres. na Nova Jerusalém representada na Catedral de S. Basílio no Kremlin. A Rússia foi – porventura sê-lo-á ainda – a única fronteira Ortodoxa sem ocupação ou vassalagem. Nada que não se veja com clareza na mais singela das liturgias da mais pobre das paróquias. Creio que Stalin o percebeu. Não sei de mais ninguém que o tenha visto. Mais ninguém além do (dissimulado) poeta georgiano – naquela direcção política – estava suficientemente perto da Igreja para o entender, ou seja, para se entender a si próprio como russo. O resto são equívocos. E há muitos.
Que temos mais? O Czar Nicolau que – como me ocorreu dizer um dia, por sugestão dele, talvez – libertado das práticas pôde subir aos princípios e foi canonizado por isso. Ah e os infelizes – tão nobres, de todos os pontos de vista a começar pelo da bravura – a quem o sentimento do dever forçou a sair do domínio dos princípios para descerem à prática dispersante dos pragmatismos em guerra. Honro-lhes a memória por não terem esquecido nunca, porque lhes estava nas veias, a causa da liberdade do mundo e a necessidade da sua transfiguração.
No Grande Lavra de Saint Petersburgo deambulei entre as campas de grandes vultos cujas sepulturas se distinguiam pelos símbolos. As cruzes, evidentemente. E a foice cruzada com o martelo. Sepulturas unidas no mesmo chão e à sombra do mesmo Sobor. No mosteiro dedicado a Santo Alexandre Nevsky. Eles fizeram a síntese por nós. Uns e outros olham-nos dos Jardins Eternos. E disseram-nos isso em tempo, ao escolherem jazer no mesmo campo sagrado, alinhados diante do túmulo do Príncipe Fundador. Cumpriram as suas vigílias. Repousem em paz.
Resta exigir ao pretensiosismo que não divida o que a terra une, como se fosse possível viver hoje o conflito com os homens de ontem. Ou como se pudesse ter sobrevivido alguma coisa a merecer a continuação, ou repetição, daquele específico combate. Os combates são outros, hoje. E convém travá-los com a bravura que mereça e construa a vitória.
A vitória é a liberdade do mundo. Evidentemente. E a sua transfiguração.
Aqui fica o documento, com o contra-documento já agora

Sobre mortos que insistem em não morrer: o fantasma da história atormenta o capitalismo

(Por Heribaldo Maia, in Blog LavraPalavra, 07/11/2011)

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(Dedico este texto ao habitual comentador dos artigos que aqui publico e cujo pseudónimo é “anticapitalistaincorrigivel”. Estátua de Sal, 07/11/2017)


O fim do século XX trouxe à tona um grande debate sobre o fim da história – teoria do filósofo Francis Fukuyama – e de uma sociedade pós-ideológica, onde não se teria mais espaços para o discurso ideológico nem âmbito político nem referente a políticas económicas. Isso porque a humanidade já teria chegado ao ápice da organização societária: na esfera política a democracia liberal e na esfera económica o capitalismo liberal.

Porém ao voltarmos um pouco no tempo e observarmos o mundo do século XX, em especial o período da guerra fria (1945-1991), o que vemos é o oposto dos dias atuais: o movimento da história estava a todo vapor impulsionado por uma grande disputa ideológica que permeava debates e práticas políticas – um verdadeiro ambiente de disputa em aberto e de devir histórico a ser construído “no agora”. O fim da segunda guerra mundial em 1945 marca a história do século XX sob dois aspectos fundamentais: a) a derrota militar e política do nazismo e fascismo e b) a consolidação da URSS (União das República Socialistas Soviéticas); criando assim uma nova geografia do poder mundial, sob o desenho de uma dualidade entre: Estados Unidos da América (EUA) e URSS.

Há uma importante afirmação de Thomas Hobbes em seu Leviatã: “a guerra consiste não só na batalha, ou no ato de lutar: mas num período de tempo em que a vontade de disputar pela batalha é suficientemente conhecida”. Partindo do ponto de vista hobbesiano, podemos dizer que o fim da segunda grande guerra mundial marca o início do que Eric Hobsbawn chamou de “Terceira Guerra Mundial” (na Era dos Extremos). Esse era o clima da Guerra Fria. Tal período, que vai de 1945-1991, evidenciou o acirramento definitivo de duas visões de mundo antagônicas: de um lado o capitalismo (representado pelos EUA) e o socialismo (representado pela URSS).

A guerra fria ficou marcada, dentre outras coisas, pela dicotomia ideológica entre capitalismo e socialismo. Gerações inteiras foram criadas na sombra de uma batalha ideológica – e real, obviamente – sem precedentes na história. Ameaças de guerras nucleares rondavam os noticiários do mundo, a propaganda foi usada por ambos os lados para atacar, defender e cooptar novos aliados. Estados Unidos e União Soviética travaram uma guerra “sem armas” nos mais diversos campos possíveis: nos desportos, nas artes, nas ciências, no desenvolvimento da tecnologia, no militarismo, etc.

Ao contrário do período da guerra fria, o mundo atual aparenta não existir uma divisão dicotômica tão evidente, pelo contrário, parece que a queda do Socialismo Real e a perda de imantação teórica do marxismo levantaram uma “poeira ideológica” que impede uma visão clara, criando uma confusão intelectual nos pensadores contemporâneos – uma espécie de paranoia intelectual coletiva, que deu origem a aberrações como a pós-modernidade. Essa “confusão” que marca os tempos atuais é agravada quando se constata fatos como: ondas fundamentalistas/conservadoras no Oriente Médio, crescimento do nazi-fascismo no leste europeu, o fortalecimento de movimentos separatistas e o aparente fim da luta de classes enquanto elemento político central no debate político, e se colocando no lugar lutas por reconhecimento.

Assim, o cenário atual é bastante complexo – não que o século XX não o fosse. O debate político no século XXI se diluiu em inúmeras pseudo-possibilidades postas como “a última novidade”: o neoliberalismo reinventado, eco-capitalismo, economia solidária, novos hippies e suas comunidades, etc. Junto a essa aparente pulverização da política temos também a mudança de foco da intelectualidade que tirou da centralidade das reflexões teóricas as questões político-económicas e deslocou para questões culturais e subjetivas, colocando o homem não mais inserido em uma estrutura de classes, mas como seres individuais em disputas de afirmações “identitárias” do ser, mesmo que o próprio conceito de identidade como posto na modernidade seja colocado em cheque (mas esse ponto requer outro debate).

O fim do Socialismo real trouxe uma falsa impressão de que o esquema de democracia liberal capitaneado pelo capitalismo havia vencido. O fim da Guerra Fria e a temporária vitória capitalista fez com que Francis Fukuyama dissesse que “os seres humanos haviam alcançado o ápice da organização social e política”. Porém essa sensação de que o mundo e os homens haviam chegado ao máximo das formas organizativas de sociedade durou pouco tempo. O mundo “pós-ideológico”, como aponta alguns, se revelou um cenário perigoso, já que essa “ausência ideológica” deixa um buraco a ser preenchido e com isso a situação mundial fica totalmente aberta, e tal abertura é como,  segundo Mauro Iasi, “um copo vazio pronto para ser preenchido”. Mas preenchido pelo que? Essa pergunta é, do ponto de vista intelectual, uma das grandes questões do tempo atual. Existe hoje uma avalanche de ideias e práticas prontas para preencher esse “copo pós-ideológicos”. Outra observação é tirada de Slavoj Zizek, o esloveno afirma que quanto mais nos afirmamos afastados da ideologia, é exatamente nesse ponto que a ideologia nos tomou por completo – um exemplo é o “Escola sem partido”.

O que fez uma pergunta de caráter puramente político/ideológico/económico vir à tona e, novamente, trazer o foco para questões políticas? A resposta foi: o constante estado de crise, que culmina em 2008. Crise essa que corrobora com a teoria de “crise cíclicas do capitalismo” descrita por Karl Marx – o que também recoloca o pensador alemão no cenário intelectual. Ao contrário da falácia neoliberal de que as crises eram frutos de políticas sociais, fazendo o Estado gastar mais do que deve, essa crise, como aponta Zizek, teve sua gênese com a articulação de políticas pró-capitalistas de caráter neoliberal promovidas pelo então presidente norte-americano George W. Bush (o filho). A crise fez grandes empresas mundiais falirem e pedirem ajudas financeiras, ironicamente, aos governos.

Governos desesperados com a derrocada económica e os desajustes políticos tomaram medidas, tipicamente neoliberais guiados pela cartilha do FMI (Fundo Monetário Internacional) e demais organizações para acalmar “o mercado” – entidade que ninguém vê, mas que exige tanto de nós – na busca de reverter os efeitos da crise para recolocar a economia nos trilhos.

Enquanto o Estado salvava os “haters do Estado”, os trabalhadores sentiram as primeiras mediadas: vieram então demissões em massa, arrocho salarial, aumento nos impostos para os mais pobres e exoneração fiscal para os investidores, negociações forçadas das dívidas públicas e esfacelamento do que restou de seguridade social. A pressão dos operadores capitalismo para que países seguissem as regras foi enorme, porém a revolta popular que não aceitou tais medidas ressurge com grande força, recolocando em pauta questionamentos sobre o capitalismo. Para desespero de Fukuyama e dos “agnósticos da New age”, como Zizek chama os pós-modernos, a história não acabou.

O povo retornou as ruas, e de acordo com Zizek a mensagem é clara: “eles não sabem o que querem, mas sabem o que não querem” (no sugestivo livro: O ano em que sonhamos perigosamente) – e eles não querem o capitalismo atual. As pessoas na Europa foram as ruas contra as políticas econômicas aplicadas para conter a crise, mas quando pessoas insatisfeitas se revoltam sem um claro direcionamento ideológica o resultado pode ser o mais aberto e imprevisível possível – mesmo que toda situação histórica seja imprevisível e aberta. Em diversos países, e até na Alemanha, ressurge o nazi-fascismo; no Oriente Médio o sionismo Israelense ganha força e apoio norte-americano; o fundamentalismo religioso muçulmano alimentado pela geopolítica do petróleo expande e aterroriza as populações locais (recomendo o filme “Timbuktu” do diretor ”Abdarrahmane Sissako”; já a América Latina observa a ofensiva imperialista norte-americana; o Occupy Wall Street colocou pessoas nas ruas do maior centro financeiro do mundo com a seguinte mensagem: não aceitamos mais esse sistema como ele é. A revolta, muitas vezes puramente reativa, ao modelo neoliberal gerou soluções mais diversas: seja pela via de um retorno ao autoritarismo de direita (o nazi-fascismo), mas também soluções difusas e sem objetivos como o Occupy Wall Street ou a tentativa de se retornar a “um capitalismo com face humana” através de um “reformismo fraco, mas seguro” promovido pelo Podemos, Syriza e no Brasil o PT.

O século XXI nos trouxe uma realidade muito complexa. A crise atual nos colocou numa situação em que o modelo atual de políticas já não dá mais conta das demandas sociais, em contrapartida ainda não existe uma alternativa posta como “o novo”, mesmo o comunismo precisa ser recolocado em tal patamar, uma nova forma de pensar e gerir essas demandas vindas da sociedade. Como bem colocou o filósofo italiano Antonio Gramsci “os tempos de crise são tempos em que o velho ainda não morreu e o novo ainda não nasceu”, portanto vivemos em um tempo-transição, sabendo que não há problemas que não sejam gerados com suas possibilidades de soluções, mesmo que tais soluções ainda não sejam claras e visíveis – não esqueçamos das lições do velho Marx, que apesar de tantas tentativas, se recusa a morrer.

“A história acabou” disse Francis Fukuyama após a queda do socialismo real, mas não foi preciso que um grupo de pensadores e intelectuais para refutar essa tese. Clio e suas artimanhas tratou de mostrar que a história não acabou – pois ela não acaba – pelo contrário, está viva e se movimentando diante dos olhos de todos nós. O século XXI fez Fukuyama engolir cada palavra. Foram inúmeros eventos históricos como a crise financeira de 2008, as questões ambientais, a insurreição das minorias, o direito a cidade, o questionamento aberto ao neoliberalismo, etc.

É difícil fazer um prognóstico para o decorrer do século atual diante de um cenário de tantos impasses. Do ponto de vista político é necessário considerar a emergência de novos agentes sociais como mulheres, negros, LGBT’s, etc. Assim é necessário levar a sério uma análise das chamadas “lutas por reconhecimento”. Porém, a constatação de que novos sujeitos sociais ganham cada vez mais protagonismo político não nos deve levar, como levou Axel Honneth, a dar por eliminado a questão da “luta de classes”. É necessário, primeiramente, interpretar o mundo, dar um passo atrás. Como diz Zizek, é necessário não se levar por impulsos pseudo-ativistas e pensar o mundo atual e suas demandas. Cabe aqui um detalhe: o fato de o momento exigir mais da teoria que da práxis não significa o abandono da prática, pelo contrário, serão as demandas práticas que guiaram as novas exigências teóricas. Como Freud, que ao clinicar partia de suas concepções teóricas, porém ao perceber as limitações práticas de sua teoria, as adaptava, mudava, abandonava pressupostos, assimilava novas questões e, de tal forma, superava sua antiga prática indo além. Retornando ao argumento: o momento político requer pensar uma política do reconhecimento, mas que tenha como elemento norteador a questão de classe. Negros, mulheres, LGBT’s, minorias étnicas, etc., estão inseridas na sociabilidade capitalista, que continua, em sua essência a mesma: dividindo possuidores e despossuídos. É partindo de uma estrutura classista que as pessoas buscam reconhecimento, ao menos enquanto houver capitalismo – o que vai além da questão de classe-em-si e classe-para-si. É importante que o horizonte revolucionário não saia do escopo político, mesmo em uma teoria do reconhecimento, visto que grandes conquistas de liberdade e segurança para o sujeito ser se deu através do movimento socialista. Ao contrário de dar um diagnóstico a cerca do problema, coloco aqui elementos que considero fundamental para repensar uma teoria da ação política que não abandone as grandes contribuições do marxismo e das experiências socialistas, já que considero que esse abandono leva ao fim de qualquer perspectiva emancipatória, caindo numa esquerda que se resume a fazer mimeses do liberalismo.

O seguimento do século XXI será de um acirramento das contradições impostas pelo sistema capitalista neoliberal. Contradições que se refletem até mesmo no adoecimento mental: vejam-se os inúmeros casos de depressão. O sistema de democracia liberal tem seus últimos dias de vida. Países como Bolívia, Venezuela e Cuba tentam implantar modos de dar voz as pessoas, superando as limitações da democracia liberal, o que também não significa que não tenham problemas, apenas que seus problemas são qualitativamente diferentes.

Portanto o século XXI será um tempo de caótico, onde vários fatos provarão que a história não acabou, mas segue seu rumo. Os acirramentos gerados pelo capitalismo e a luta refletirão numa série de disputas no campo ideológico político, justamente campos dados como secundários pelos pós-modernos. É provável, na verdade necessário, que o pensamento marxista e a esquerda recuperem sua vitalidade e força de cooptação até como resposta a essas incompletudes e injustiças causadas pelo capitalismo. Porém não será a esquerda que vimos tempos atrás, nem mais será uma esquerda que recairá em políticas de reformismos fracos e seguros como o PT no Brasil, mas uma nova esquerda renovada pelos próprios erros e que pela prática pense o mundo superando sua ação política.

Gilles Deleuze tem uma frase interessante, dizia o francês que “o século XX não trouxe soluções erradas para os problemas, mas problemas errados”. Cabe a esquerda, tomando como ponto de partida essa ideia de Deleuze, do século XXI não ignorar e dar como dado os fatos passados, mas partindo desse histórico tentar interpretar melhor o mundo atual e as conjunturas envolvidas, e a partir de suas experiências tomadas como legado a ser assumido, corrigir, através de sua ação política, a visão dos problemas postos na atualidade. Aí sim, a solução surgirá da própria materialidade que interage com a prática humana, cabendo aos homens sua emancipação.


Fonte aqui

A grande regressão

(António Guerreiro, in Público, 04/11/2017)

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António Guerreiro

Se alguém fizesse uma história semântica da ideia de progresso, encontraria a razão pela qual o qualificativo “progressista”, que teve outrora um uso político imoderado e de grande utilidade, já só emerge quando se fazem escavações lexicais. Parece que já ninguém acredita no progresso nem encontra nele uma razão capaz de fundar uma visão do mundo. Em contrapartida, a palavra “regressão” está em alta e revela-se mesmo capaz de dar sentido a um conjunto de sintomas patentes nos processos sociais e políticos que marcam o nosso tempo. Uma prova eloquente desta nova fortuna concedida à ideia de regressão é um livro colectivo que foi publicado na Alemanha, este ano, e logo traduzido nas principais línguas europeias. O título original é Die große Regression – Eine international Debatte über die geistige Situation der Zeit, um título que cita um outro, famoso, de Karl Polanyi, The Great Transformation (1944). Mas o subtítulo, que fala da “situação espiritual [geistige] da época”, só aparece no original por razões óbvias: ele dialoga de maneira explícita com a filosofia e a literatura alemãs (retoma, ipsis verbis, o título de um famoso ensaio de Karl Jaspers, de 1931). A regressão como categoria analítica da governamentalidade e das tendências de ordem política já tinha sido introduzida, há alguns anos, por um importante sociólogo e teórico da cultura, Stuart Hall (1932-2014), que configurou a política de Margaret Thatcher como uma “modernização regressiva”. O thatcherismo teria inaugurado o projecto de uma modernização reaccionária. Quais são então esses sintomas que justificam o uso da regressão como categoria psico-política? Antes de mais, a “fadiga da democracia”, fazendo emergir por todo o lado não apenas formas de autoritarismo, mas também um conjunto de práticas políticas e gestionárias que dão razão a um conceito que foi entrando no léxico da teoria política: pós-democracia. Num plano mais englobante, a regressão adquire a figura de uma “des-civilização”, como se pode ler no ensaio de Oliver Nachtwey, incluído neste livro. Remetendo para o “processo civilizacional” de Norbet Elias, enquanto resultado de uma mutação das estruturas sociais e da personalidade e manifestando-se no controle dos afectos e no alargamento do espaço mental (cujo resultado foi a constituição progressiva de um poder centralizado que detém o monopólio da violência), a des-civlização que Nachtwey vê como uma dinâmica fundamental das sociedades ocidentais a partir da última década do século passado seria um processo de erosão e declínio.

A ideia de que o progresso traz consigo uma regressão pode então ser deduzida destes sintomas: a sujeição ao mercado e a ausência de alternativa económica;  a interrupção do processo colectivo de mobilidade social ascendente; o triunfo da “modernidade regressiva” que se traduz por uma igualdade horizontal de grupos com traços característicos diferentes (a pertença sexual ou étnica, por exemplo), mas simultaneamente por novas desigualdades e discriminações verticais. Estes e outros factores instalaram um mal-estar que é simultaneamente social, político e cultural.

O processo da civilização de Norbert Elias já comportava esta ideia de uma des-civilização. Como muitos outros espíritos lúcidos, Elias não acreditou no progresso como uma caminhada irreversível nem viu a “civilização” como uma conquista definitiva. Essa foi a ilusão da utopia iluminista e, mais perto de nós, a dos arautos do “fim da história”. Como é que em tão pouco tempo se passou de uma feliz escatologia para uma grande regressão?