
Passos sempre disse: Eu acredito!


(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 15/05/2017)

A economia cresceu 2,8% no primeiro trimestre de 2017? Huuuuum…. O valor é melhor do que todas as estimativas que tinham sido feitas pelas diversas instituições? Huuuum, huuuuum…. É o melhor resultado desde o quarto trimestre de 2007, ou seja, há quase dez anos?! Essa é que não. Não pode ser! Há aqui de certeza engenharia, qualquer coisa por explicar. O Centeno, com aquela cara de santo, deve estar a adiar despesa ou a antecipar receitas ou, sei lá, foi à bruxa. De qualquer modo, o que ele está é a colher os frutos do Governo do Passos Coelho. Esse é que deixou o terreno preparado para este crescimento. Não fosse ele e ainda andávamos aqui todos a penar. Mas isto, com os socialistas, já se sabe: dois anos de fartura e depois lá temos de pedir outro resgate.
Como é que o Centeno faz isto? Devolve salários e pensões, acaba com a taxa extraordinária do IRS para quase todos os escalões e consegue um défice de 2?! Como é possível?! Então isto não ia só lá com os cortes em salários e pensões e aumento de impostos?
Estes resultados fazem-me lembrar o cubo de Rubik, que nunca consigo resolver. Como é que o Centeno faz isto? Devolve salários e pensões, acaba com a taxa extraordinária do IRS para quase todos os escalões e consegue um défice de 2?! Como é possível?! Então isto não ia só lá com os cortes em salários e pensões e aumento de impostos? Pelo menos, foi o que o Schäuble e o Dijsselbloem passaram a vida a dizer-nos e nós fizemos tudo o que eles disseram. Privatizámos tudo o que podíamos, cortámos todos os apoios sociais que conseguimos, reduzimos os direitos sociais, flexibilizámos o despedimento individual, o subsídio de desemprego passou a ser menor e mais curto, as indemnizações por despedimento são agora irrisórias e só não fizemos mais porque volta e meia lá vinham os tipos do Tribunal Constitucional dizer que esta ou aquela coisa é que não podia ser.
Agora estes fazem tudo ao contrário, revertem o que cortámos e mesmo assim o défice diminui para o valor mais baixo da democracia, como eles enchem a boca a dizer?! Um economista que nos explique isto, mas não pode ser o Gaspar, porque esse agora que está em Washington já vê as coisas de maneira diferente. Passou a ser adepto das politicas orçamentais inteligentes. Segundo ele, “uma política orçamental inteligente é aquela que valoriza o investimento público eficiente e facilita uma reforma estrutural”. E ele que se fartou de cortar no investimento público! E que fez disparar o desemprego para mais de 17%! E que nos fez penar durante três anos em recessão!
De qualquer modo, tem de haver truque. O Centeno faz-me lembrar um tipo que vi no cruzamento da Gulbenkian, quando os carros param no semáforo, e ele tem uma bola de vidro que faz deslizar pelo mão, pelo braço, pelo sovaco, pelo pescoço e aquilo nunca cai e ainda atira o chapéu ao ar e cai-lhe na cabeça! É de artista!
Eu sei, eu sei o que foi. O Centeno veio com aquela história de que tinha de devolver salários e pensões para fazer o consumo privado crescer e que isso é que ia suportar o aumento do PIB. Agora, o que se vê, é que nos enganaram a todos, porque quem está a empurrar a economia são as exportações e o investimento, como nós sempre dissemos. Sim, porque o que eles estão a aplicar é a nossa receita. E isso ninguém diz, a não sermos nós!
E depois aparece o Costa sempre com um ar muito satisfeito, ora em Fátima, ora no Estádio da Luz, ora a felicitar o Salvador Sobral, sempre a sorrir como se tudo fosse obra dele, até a canonização dos pastorinhos, o tetra do Benfica e a vitória na Eurovisão! Arre que é demais!
Mesmo assim, se olharmos bem para os números, isto vai correr mal. Se não for este ano é para o próximo. E mesmo este ano, os números estão martelados e nós não estamos a ver o que importa. A comparação que conta não é a homóloga, essa não interessa para nada. É em cadeia. A comparação em cadeia é que conta. E aí, oh lá, lá, aí cai o investimento e cai o consumo. Está-se mesmo a ver que isto vai correr mal já no segundo trimestre. E depois vai ser sempre a caminho do desastre. Ou melhor, do resgate. Tenho a certeza que nessa altura nos vem pedir de novo para tirar as castanhas do lume.
Mas até lá temos de perceber como é que o Centeno conseguiu resolver este cubo de Rubik.
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(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 11/05/2017)

Como Pessoa temia: será este um país bipolar? Maníaco-depressivo numas alturas (os “anos de chumbo” que culminaram com a Troika) e entusiasta-compulsivo noutras (como já se bem nota em alguns mercados)? Ou, como Agostinho da Silva desejava: um país que, apesar dos desacertos, encontra de vez em quando o seu caminho?
Apesar da política económica tendencialmente mais baseada na procura, a balança comercial melhorou recentemente: exportações a crescer 17,1% e importações a 15,3% no primeiro trimestre de 2017. Ou seja, mais movimento resultou em mais equilíbrio. Um princípio que, quem anda de bicicleta, reconhecerá.
Mas as boas notícias são em cachos. A taxa de desemprego em contínua trajectória descendente e a perfurar os 10%. E o emprego criado não só é em quantidade como também em maior qualidade: mais duradouro, melhor pago. Há mais um sucesso no leilão de obrigações do tesouro (com a taxa de juro abaixo da última emissão). E tudo isto apesar do peso da dívida, das implosões em mercados externos importantes como Angola ou Venezuela, ou da sucessão de broncas bancárias e do atrito recalcitrante das instituições europeias que mantém Portugal debaixo de suspeita por alegada incontinência orçamental.
Valerá a pena discutir o porquê deste aparente círculo virtuoso em crescente auto-reforço? E, ao nível das expectativas, valerá a pena discutir porque a desconfiança se transformou em bom “karma”?
Do nosso lado preocupamo-nos aqui mais com factos e, de acordo com a nossa estimativa de datação, a inflexão terá sido há um ano: Maio de 2016. Porém, compete sem dúvida aos arautos do anterior arranjo governativo CDS-PSD esclarecerem por que razão durante tanto tempo procuraram fechar o caixão económico com forças vivas lá dentro: têm muito de explicar esses que directamente fizeram a economia olhar para o abismo e para a então chamada “espiral recessiva”. Por exemplo, quiseram um Conselho das Finanças Públicas para fustigar as costas do Estado mas nunca um Conselho para a Modernização e Produtividade que servisse para nos tirar do buraco. E têm também muito de explicar as consultoras de serviço, os comentadores sabichões, e as faculdades de economia “yuppies”. É claro, sabemos que estão todos mortinhos por ter razão outra vez, tal como o proverbial e avariado relógio de ponteiros que acerta sempre duas vezes por dia.
Neste artigo o que gostaria de relevar é o seguinte. Sim, a presente governação empenhou-se na gestão da conjuntura. Mas a natureza da sua manobra quanto à re-engenharia de estrutura merece escrutínio.
Vejamos a situação: o excesso de sucesso do turismo agudizou o risco de sobre-especialização nesse sector e a recuperação europeia movida a Draghi fez novamente crescer a dependência de Portugal face à União Europeia. Sabemos como é a vida real: mais cedo ou mais tarde será tempo de meter o optimismo na gaveta.
Assim, perante estes riscos, qual a estratégica económica da governação? Qual a doutrina para o lado da oferta? Que novos mercados externos e que novos sectores produtivos? Como está a governação a preparar o pós-optimismo?
Algumas pistas. Sobre a diversificação dos mercados externos já vimos o próprio Primeiro-Ministro em acção várias vezes em paragens menos habituais para as exportações portuguesas: este ano foram já a Índia e o Qatar, para dar dois exemplos. Sobre a diversificação sectorial surge crescente a concepção da ciência como um quase-serviço-transaccionável, apoiada por uma “diplomacia de investigação e inovação” e definida como um instrumento para a captação de investimento directo estrangeiro.
São precisas ver mais peças do puzzle, porém a questão é esta: como sustentar a aparente espiral de progressos em curso e aproveitar o conjuntural para fazer algo de estrutural?