De homens providenciais andamos nós fartos

(Mário Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 17/05/2017)

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Mário Centeno corre um risco importante: o de se tornar o Ministro das Finanças com melhores resultados da década, ou mesmo deste século mesmo antes de atingir os dois anos de mandato. O problema é esse.

Ao presidir ao défice mais baixo da Democracia, ao maior crescimento homólogo do PIB em 10 anos, à mais rápida redução de desemprego de que tenho memória, tudo isto enquanto repõe salários e pensões anteriormente cortados e restabelece um módico de rede de segurança social, com modestos incrementos nas prestações sociais, o perigo é só um. São dois, aliás. Primeiro, que Mário Centeno se ache um homem providencial. Segundo, que alguém ache que ele o é.

Não é. Julgo que o saberá. Espero que o saiba. E espero que saiba que tem um mundo de problemas pela frente, o menor dos quais não será saber o que fazer com a (desejável) recuperação da Economia e que se entenda com o Primeiro-Ministro sobre isso. Em Portugal, erramos mais em tempos de crescimento do que em tempos de crise.

E é aqui que o Governo pode entrar em dificuldades. Desde logo, porque o Governo não foi feito para isto. Foi, antes, concebido para ser um Governo puramente anti-austeridade.

Concluída a fase crítica da reversão da austeridade (ainda assim, longe de estar terminada) o Governo pode estar à beira da mais grave crise desde a sua incepção. Ficar sem propósito. É fatal em política.

Então o que fica a faltar? O propósito. Uma ideia, um objetivo, um rumo, que cole a ação governativa, que o eleitorado compreenda e que a maioria de suporte parlamentar possa subscrever. Um objetivo e um caminho para o atingir.

Até essa definição, há que ir atendendo ao que é urgente. Primeiro passo? Mais emprego, menos pobres, menos desigualdade. Com metas e estratégias claras. Dá pano para mangas. Os fenómenos são, obviamente interdependentes. Por exemplo, o risco de pobreza é quatro vezes maior para os desempegados que para os empregados, segundo dados de ontem do INE (resultantes do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento 2015).

Países com mais emprego têm menos pobreza e, não menos importante, empregos com salários justos reduzem a desigualdade. Países menos desiguais, por sua vez, crescem mais, e mais depressa. Isso cria, pois, todos sabemos, mais emprego. É um ciclo virtuoso emprego-combate à pobreza-atenuação das desigualdades.

Por onde começar? Temos de chegar aos mais pobres primeiro. E depressa. Ao contrário de tudo quanto nos foi dito (e mentido) foram eles que sofreram, desproporcionalmente, o custo dos erros dos últimos anos (dados do INE, idem).

Também é ali, portanto, que qualquer ajuda produzirá mais frutos. Faz sentido do ponto de vista económico, mas devemos ir para além desse tipo de consideração. É o que devemos àqueles de nós que menos podiam e mais pagaram. Estamos a falar de uma população que tem um rendimento médio (rendimento mediano, na realidade, mas não compliquemos) de 3.865 euros por ano. Por ano. Pensemos nisto por um instante.

O emprego poderá ajudar, e muito, uma parte do milhão e seiscentos mil portugueses em risco de pobreza que estão em idade ativa. Contudo, não chega. Há mais um milhão de portugueses com menos de 18 anos ou mais de 65, em risco de pobreza, para quem a Sociedade tem de ter uma resposta, e mal faria que o Estado não assumisse a liderança na construção dessa resposta. São os nossos filhos e os nossos pais (ou avós).

Mais simples é difícil. Também é certo, contudo, que é mais fácil dizê-lo do que fazê-lo.

Por obra e graça da NS de Fátima

(In Blog O Jumento, 17/05/2017)
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Se Cavaco ainda fosse Presidente da República é muito provável que tivesse explicado o crescimento económico de 2,8% ocorrido no primeiro trimestre como resultado das rezas e promessas da sua esposa à santinha da sua devoção. No ambiente de fervor religioso criado com a vinda do Papa Francisco, não faltaria quem se esquecesse da opinião do papa sobre os milagres baratos, e concordasse com Cavaco.
Marcelo, que vai a mais procissões, missas e peregrinações do que ia Cavaco, parece optar por uma posição mais agnóstica e explica o crescimento económico como um mero acaso, talvez resultado de uma combinação de estrelas mais favorável ou de uma qualquer outra causa desconhecida. Se em vez de adepto de Braga, talvez Marcelo defendesse, como se discutia há alguns anos atrás, que o crescimento inesperado se devia ao título do Benfica.
Em tempo houve quem sugerisse que se todos os portugueses fossem para a beira-mar talvez o país se inclinasse. Não me admiraria se alguém viesse defender que o crescimento tenha sido estimulado pelo aumento da procura de telemóveis para tirar selfies com Marcelo ou, quem sabe, em consequência do bom ambiente em que se vive desde que Cavaco regressou a Boliqueime.
A ideia com que se fica das últimas declarações de Marcelo, (Ver aqui) pedindo para não se querer saber quem teve mérito, é a de que o crescimento económico resulta de um qualquer bom austral, ou foi o resultado inesperado de políticas económicas que não podiam ser mais contraditórias. A crer em Marcelo quando os médicos salvarem um doente que está à beira da morte e ao qual foram ministrados vários tratamentos, devem abster-se de querer saber qual o tratamento que resultou e atribuir a cura ao acaso.
Esta opinião é do mais ridículo que já se ouviu, um país à beira do colapso consegue crescer e devemos abster-nos de tentar perceber o que nos trouxe tranquilidade, sugerindo de forma hipócrita que a evolução económica positiva é resultado de todas as políticas. Só não explicou se os efeitos retroativos do bom austral começaram com Passos ou ainda antes, já que pelo menos o crescimento das exportações começou antes do governo da direita.
Mas a hipocrisia de Marcelo Rebelo de Sousa vai um pouco mais longe, não só diz que nos devemos abster de reconhecer o mérito de uma política económica, optando por considerar que todos contribuiram por igual, como diz que o sucesso é conjuntural e devemos transformá-lo em estrutural. Ora, se Marcelo acha que o crescimento resulta em simultâneo do congelamento e do aumento do salário mínimo, do corte brutal de vencimentos e da sua reposição, do corte abusivo das pensões e do regresso da ilegalidade, isso significa que para que o crescimento estrutural temos de adoptar as duas políticas económicas.
Assim, sugiro a Marcelo que proponha que daqui para a frente haja alternância entre a Maria Luís e o Centeno: nos meses pares governa a Maria Luís para cortar vencimentos e pensões aterrorizando o país com mais medidas brutais se não comerem e calarem. Nos meses ímpares seria empossado o Centeno para eliminar as políticas da Maria Luís, e nestes meses o Marcelo sairia à rua para servir muitos jantares aos sem-abrigo e tirar muitas selfies com o povo.

Say cheeeeeeeesee…..

(In Blog Um Jeito Manso, 17/05/2017)

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Não, meus Caros. Não vos estou a pedir para rirem comigo das cambalhotas, do flic-flac à rectaguarda, do mortal encarpado, do pino num dedo e do pé-cochinho do José Gomes Ferreira, há pouco na SIC, a dizer bem do António Costa e das políticas que tem seguido. Nem estou a pedir para se posicionarem para uma selfie com cara de riso ao verem o dito-cujo José Gomes Ferreira a querer salvar a face e a dizer devagarinho que parte dos bons resultados que ao fim de um ano e tal o governo do Costa está a alcançar se deve às políticas do láparo (relembro: o mesmo láparo que fez tudo ao contrário disto, nunca atingiu nenhum objectivo e, por pouco, não deu cabo do país de alto a baixo).


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