A fasquia de Domingues está na estratosfera

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/10/2016)

Autor

                         Daniel Oliveira

António Domingues só recebe 30 mil euros porque a lei foi mudada. E para a lei ser mudada foi preciso que os partidos e o Presidente da República a quisessem mudar. Por ação ou por omissão. A verdade é que cada um manteve a sua posição inicial e não apoiou a proposta alheia. O PSD era contra este salário mas opôs-se à proposta do Bloco, o Bloco era contra este salário mas impediu que se voltasse à lei do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa era contra este salário mas queria que Domingues fosse nomeado. Eu também sou contra este salário mas acho excelente não ter de ser eu a encontrar um gestor para o maior banco nacional. Só que eu não sou nem deputado nem Presidente.

Por mais justa que pareça, é inexequível a proposta de criar um teto no salário dos gestores públicos que corresponda a 90% do salário do Presidente da República (o que corresponderia a um salário bruto de 6.000 euros e atiraria para pouco mais de 3.000 euros líquidos, a que temos de somar prémios e ajudas de custo). É difícil acreditar que algum gestor bancário medianamente competente aceite receber tão abaixo do que é praticado no mercado. É uma função ultra-especializada e, é bom recordar, isto implicaria que todos os gestores abaixo dele teriam de receber menos. Seria difícil encontrar quem assumisse esta brutal responsabilidade sem ser para construir a sua agenda de contactos para futuros negócios privados ou para fazer currículo político. O presidente do conselho de administração do maior banco português, do qual depende a pouquíssima estabilidade que se vive na banca nacional, não pode receber o mesmo do que recebe um quadro superior de um pequeno banco. Poder pode, mas é capaz de não ser grande administrador.

Quando Manuela Ferreira Leite nomeou Paulo Macedo como diretor-geral das Finanças, o Estado ficou a pagar-lhe muito mais do que estava estipulado para aquela função. Na altura fiquei sozinho, à esquerda, defendendo tal opção. Macedo, que foi, na minha opinião, um mau ministro da Saúde, era um bom técnico (não chega ser bom técnico para ser bom ministro). A sua competência poderia compensar largamente o seu custo. O tempo veio dar razão Ferreira Leite: a profunda reforma que Macedo fez na Autoridade Tributária garantiu milhões de euros de poupança para o Estado. O seu custo foi irrelevante no meio desses ganhos. Equilibrar entre os princípios e o pragmatismo dos resultados é uma arte difícil e fundamental na política. E por isso mesmo este debate é complicado.

O meu problema com António Domingues não é propriamente o seu salário. Apesar de, por mais acertado que seja, ser muito difícil de explicá-lo às pessoas, neste tempo de crise e dificuldades. E de ser ainda mais difícil explicar como exige as mesmas condições que tinha no BPI quando, ao que parece, vai acumular a reforma do BPI com o salário, melhorando assim substancialmente as suas condições remuneratórias. Como já expliquei, penso que pagar mais por um bom gestor pode ser o melhor negócio que o Estado faz, poupando muitíssimo nos resultados. Não faço ideia se António Domingues vale o dinheiro que exigiu e o facto de um banco lho ter pago, com os salários absurdos que se praticam numa banca falida e mal gerida, diz-me muito pouco. O que me incomoda é que António Domingues tenha exigido, para aceitar o lugar, todas as condições que tinha no BPI.

A Caixa é um banco público com funções públicas. Se Domingues faz um paralelo absoluto entre a sua anterior função e a que desempenhará na CGD quer dizer que acha que o seu trabalho é o mesmo. E isso quer dizer que não está consciente da especificidade da Caixa. E a primeira é esta: sendo um banco público, quem o dirige está a prestar um serviço público à comunidade, coisa que seguramente não se pode dizer de um gestor de um banco privado.

Para o fazer não precisa de receber um salário mais habitual num bancário de topo de um pequeno banco. Mas teria de compreender que o serviço que presta tem uma natureza absolutamente diferente das suas funções anteriores. Entre seis mil e 30 mil há muitos euros. Uma coisa é certa: com este salário, o escrutínio público do trabalho de António Domingues terá de ser implacável. Quem exige para si o que Domingues exigiu tem de provar uma competência muitíssimo superior à de todos os gestores públicos. É com eles, e não com os restantes banqueiros, que Domingues terá de se comparar. É com o salário deles, e não com o dos restantes banqueiros, que hoje o comparamos. A fasquia está, portanto, na estratosfera.

Como o governo salvou a Caixa sem se salvar a si

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 25/08/2016)

Autor

                    Pedro Santos Guerreiro

O Governo fez o caminho todo errado para chegar ao destino certo. O mais importante na Caixa nunca foi a nomeação da administração, mas convencer Bruxelas a não impor uma ajuda Estado, o que teria consequências dramáticas sobre todo o sistema financeiro. O PS perdeu a oportunidade de capitalizar-se a si próprio com a vitória política de hoje. E o PSD devia estar calado sobre este assunto, que ele próprio deixou causar por inércia e medo.

Os administradores chumbados foram os bobos da corte e o assunto tornou-se o bombo dos cortes e costura. Com razão: o processo de nomeação da administração envergonhou todos os envolvidos, começando e acabando no governo, que para mais reagiu de forma patética. A Caixa precisa de uma boa administração e de um sistema de governo que a proteja do capcioso poder político e da soberba de uma comissão executiva demasiado convencida consigo própria. Correu tudo mal no processo de nomeação da administração. Mesmo que a comissão executiva tenha prevalecido, apesar do vexame de ser mandada estudar. E mesmo que, pela primeira vez em décadas, a equipa agora conhecida não seja contaminada por representantes de partidos políticos.

Mas o que esteve sempre em causa na Caixa Geral de Depósitos era um problema infinitamente maior. A necessidade de capitalização. De injeção de dinheiro fresco, conversão de dívida do Estado em capital e emissão de obrigações para financiar a sua reestruturação. Uma enormidade de dinheiro, que totaliza 4,6 mil milhões (dos quais 2,7 mil milhões em dinheiro fresco). Estava nas mãos da Comissão Europeia autorizá-lo. Ou não.

Não é, nunca foi, uma questão de semântica. Ser ou não ser considerado ajuda de Estado teria consequências completamente diferentes e avassaladoras. Se a Direção Geral de Concorrência tivesse obrigado a considerar a injeção de capital como ajuda de Estado, duas coisas aconteceriam: o valor seria considerado no défice do Estado e lá iam as contas públicas este ano para ar; e, sobretudo, teria de haver “bail in” na Caixa.

Sim, leu bem. A Caixa Geral de Depósitos, banco do Estado, o maior banco português, esteve durante os últimos meses sob ameaça de “bail in”. Na prática, isso significaria que antes do dinheiro do Estado entrar, credores privados perderiam o seu.

Se a Direção Geral de Concorrência tivesse obrigado a considerar a injeção de capital como ajuda de Estado, duas coisas aconteceriam: o valor seria considerado no défice e lá se iam as contas públicas este ano; e teria de haver “bail in” na Caixa.

Dados os montantes em causa, os grandes depositantes não seriam chamados a perder dinheiro, mas os obrigacionistas sim. Incluindo muitos detentores de obrigações de retalho. Ou seja, pequenos investidores.

As consequências sobre as contas públicas, sobre a reputação dessa “caixa forte” que é a CGD e sobre todos os bancos nacionais seriam gravíssimas. Os mercados aumentariam os custos de financiamento de todos os bancos, a possibilidade de aumentos de capital noutros bancos (como o BCP e o Novo Banco, que deles precisam) seria dificultada, muitos obrigacionistas perderiam dinheiro e a inexpugnabilidade da Caixa, último reduto na percepção pública de banco seguro, ruiria.

Foi isto que o governo conseguiu e que se confirmou hoje: a injeção de capital pode ser feita sem ser considerada ajuda de Estado. Depois da vitória de António Costa nas sanções, a vitória de António Costa na Caixa. Ambas em Bruxelas. Ambas contra o fatalismo preconizado por Passos. Costa matou duas vezes Coelho com uma cajadada. E Marcelo Rebelo de Sousa, que anunciou o seu empenho na “questão da banca” desde o seu primeiro discurso, também. A vitória política é de ambos.

A situação calamitosa da Caixa Geral de Depósitos resulta do adiamento sucessivo do problema, que o anterior governo caucionou. O grande mérito de Passos no caso BES resultou, paradoxalmente, no grande demérito no Banif, no Novo Banco e na Caixa. Porque em todos estes casos fez o mesmo: nada. Fazer nada no BES significou não ceder ao poderoso lóbi de Ricardo Salgado e essa é uma coroa de louros que ninguém no governo antes de Passos Coelho pode reclamar. Fazer nada no Banif foi uma vergonha perdulária, como é uma vergonha despesista termos de capitalizar a Caixa num enorme balúrdio. Felizmente, sem “bail in”. Foi essa a vitória do governo PS que António Costa não consegue aproveitar, porque de tanto amadorismo em querer festejar com foguetes para o ar acabou por virar os tiros todos para os seus próprios pés. Mas hoje safámo-nos de boa. Provavelmente, nem nunca saberemos bem de quão “boa” era. Ainda bem.

A CGD – SÓLIDA NAU NO MEIO DA TORMENTA

A IMPORTÂNCIA DA CGD PARA O PAÍS E PARA OS PORTUGUESES E A FORMA INACEITÁVEL COMO TEM SIDO TRATADA A CGD tem um papel fundamental na economia do país. Para concluir isso, basta observar os dados do quadro 1. Apesar da redução do crédito bancário em Portugal, a CGD continua a ser o principal, e […]

via A CGD É UM DOS BANCOS QUE TEM REVELADO MAIOR RESILIÊNCIA À MÁ GESTÃO E À CRISE – por EUGÉNIO ROSA — A Viagem dos Argonautas