(Rui Pereira, in Facebook, 28/10/2026, Revisão da Estátua)

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Sem a pretensão de responder por inteiro à pergunta, limito-me a anotar que alguns termos de comparação – entre as dores de quem sofre a impossibilidade de ter uma vida “normal” e os ardores hipócritas que pautam os “debates” entre aqueles que cinicamente, em nome dos interesses que os fazem eleger e que efetivamente representam -, são causas profundas do estado a que “isto” chegou.
Por uma vida “normal” quero apenas designar a possibilidade de uma existência – não vamos mais longe -, materialmente equivalente à das gerações anteriores. As pessoas deixaram de ir trabalhar aos oito anos de idade, numa geração. A seguinte já pôde estudar e trabalhar em conformidade com o que estudara. Teve uma relativa autonomia nas escolhas do seu emprego, da aquisição da sua casa e de bens de conforto que se tomaram como sendo direitos adquiridos. Em contrapartida, reproduziram-se, pagaram impostos, trabalharam, descontaram para a Segurança Social, enfim, fizeram a sua vida comum, anónima, conjunta… “normal”.
Por “estado a que isto chegou” – paráfrase de Salgueiro Maia na noite de 24 para 25 de abril de 1974 -, quero sintetizar a deceção, para tantos e tantos, surpreendente, que consiste no facto de o sistema económico do capitalismo (vulgo mercado) não mais ser capaz de assegurar à geração seguinte o melhoramento material da sua vida em relação à geração anterior.
Assim, o Luís bem pode trabalhar “todos os dias, t-o-d-o-s”, como assegurou ontem, no Parlamento, em resposta ao deputado entrevistadeiro que lhe perguntava por onde andava, nestas últimas semanas, em que “as principais praças do país estavam a ferro e fogo”. Sabemos, como dizem os franceses, como “les bons esprits se rencontrent” e, aqui, as almas estão bem uma para a outra.
Porém, não foram as praças do país que estiveram “a ferro e fogo”. O que esteve e está em suspenso, congeladas, são as vidas das pessoas. Dos velhos porque têm de optar entre comer e tratar-se, sob risco de serem despejados da casa onde subvivem. Dos intermédios que a qualquer momento podem ser vítimas do bastão empresarial das leis laborais. Dos mais novos, que olham para diante e preferem fechar os olhos perante o buraco negro a que os Luíses deste mundo – e, sobretudo, os que estão detrás deles -, os condenaram e a que chamam “futuro”.
Não há em Portugal um irresolúvel problema de habitação. Como não o há em Espanha. Da mesma maneira como não há na França ou na Albânia um problema de educação.
Há em todos aqueles lugares – a que se somam aqueles que por ora ainda ardem apenas em lume brando -, um problema entre vida humana e sistema rentista de acumulação de capital. Os seus protagonistas, argumentos, causa das coisas são mais diferentes ou mais iguais de lugar para lugar, mas aquilo que temos pela frente é o último reduto do capital. Aquilo que Peter Sloterdijk, refletindo sobre a chamada “globalização”, traduziu com total exatidão como representando a garantia de que já não há para onde escapar!
Sem ponto de fuga, os homens e mulheres da “situação” podem arguir nas televisões com decretos e regulamentos, podem absurdamente falar dos “acampados” como se alguém pretendesse construir parques de campismo no centro das cidades, como se as “tendas” não fossem um símbolo de uma vida tornada impossível, mas sim um projeto urbanístico com fins residenciais, para onde os que as montam pretendessem mudar-se em substituição da casa que não têm.
Em complemento, o procedimento do MAI, algo ao estilo do “new sheriff in town”, não deve surpreender quem tenha um conhecimento mínimo do funcionamento das forças policiais em Portugal (nomeadamente da PJ, de onde vem Luís Neves): primeiro faz-se, depois inquire-se se alguém prevaricou e, se sim, a seguir reintegra-se, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
Não, não se trata de tendas, nem de casas, nem de escolas, nem de empregos, nem de passado, nem de presente, mas sim do “problema do futuro”.
O que me remete para a última intervenção pública de José Mário Branco, um ano antes da sua morte, durante uma das poucas homenagens que aceitou: a de ter o seu nome numa tília do Palácio de Cristal. Quando perguntado sobre esse problema, o problema “do futuro”, respondeu significativamente, “esse está resolvido, não há!”.
Na batalha das tendas é disso que se trata. O problema urgente de um futuro que, a continuar como o circo do passado e do presente, está resolvido: “não há”.
D. Totó Seguro, que ficará para a História como Totó Rolha ou Chico Rolha, em virtude da sua reconhecida flutuabilidade, pronunciou-se, finalmente, sobre as manifestações pelo direito à habitação e a actuação da polícia. E pronunciou-se mal, politicamente, moralmente e, last but not least, gramaticalmente. Segue a confirmação, ou, melhor dizendo, o “fact-checking”, para usar a língua que os súbditos do império compreendem:
— “Sempre defendi o diálogo. Fui eleito SOBRE a bandeira do diálogo.”
Imagino a pobre bandeira, tentando respirar sob o peso da flutuante criatura que sobre si foi eleita.
— “Para nos respeitarmos todos, temos de COMPRIR a lei.”
É realmente importante COMPRIR a lei, mas não menos importante será LARGURAR a lei. E, eventualmente, ALTURAR a lei, se trabalharmos a três dimensões.
— “Ainda ontem reuni com o primeiro-ministro e, naturalmente, este foi um dos temas QUE FOI FALADO.”
Eu a pensar, na minha parvidez, que, na reunião com o primeiro-ministro, FORAM FALADOS vários temas, mas se calhar estou enganado, porque, do alto (ou baixo) das suas concordâncias flutuantes, Sua Excelência informa que vários temas “FOI FALADO”.
Haverá, porventura, algum exagero no meu antiquado respeito pelas concordâncias, essas vetustas senhoras, mas, perdoar-me-á Sua Obsolescência… perdão, Sua Excelência D. Totó Seguro, já estou velho para mudar. Burro velho não aprende línguas, reza a sabedoria popular, e a língua flutuante de D. Totó está muito para lá do meu alcance.
Saravá!