(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 27/10/2026)

Aproxima-se o momento em que terá que se aceitar a derrota ocidental na Ucrânia. O Presidente Trump está decidido a substituir Volodymyr Zelensky, que fez aliança com organizações criminosas que lutam contra os Estados Unidos. O Exército russo continua a avançar. Musk, que proíbe o uso da rede Starlink para atacar e matar civis, acaba de abrandar o seu ritmo na Ucrânia. A Rússia está a ponto de atingir o seu objectivo militar. Resta saber: o que vão fazer os Europeus para mascarar o seu fracasso?
A Rússia levou muito tempo cumprir o papel que a Resolução 2202 do Conselho de Segurança [1] lhe havia fixado e a desencadear a sua “operação militar especial” na Ucrânia.
É verdade que os seus parceiros alemães e franceses, igualmente designados como potências garantes dos Acordos de Minsk nada fizeram a propósito.
O Presidente Vladimir Putin até repreendera o oligarca Konstantin Malofeïev que, em nome da Santa Rússia, havia recrutado cossacos para vir em ajuda dos habitantes de Donbass, massacrados pelos «nacionalistas integralistas» com o assentimento do Presidente Petro Poroschenko. É verdade que Malofeïev, proprietário do grupo de comunicação Tsargrad, e de uma parte do das telecomunicações Rostelecom, é um monárquico e que agia em favor de um Grão-Duque. O Presidente lembrou-lhe que, hoje em dia, o facto de dispor de grandes meios não permite que se substitua o Estado.
Vladimir Putin só interveio quando os «nacionalistas integralistas» planearam uma operação militar de envergadura, não só no Donbass, mas também contra a Crimeia, que tinha aderido à Federação da Rússia [2]. Acabou por fazê-lo a correr, reconhecendo as repúblicas do Donbass como Estados soberanos, em 21 de Fevereiro de 2022, antes mesmo do Kremlin ter conseguido arranjar as bandeiras das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk para o acto.
O objetivo militar que então ele se havia fixado era o de libertar todas estas regiões; uma meta que deverá alcançar nas próximas semanas. Apenas porque os ocidentais forneceram armas aos ucranianos e a guerra escalou é que Vladimir Putin considerou libertar também a Novorossia; novo objetivo que deverá também alcançar nos próximos meses.
Seja como for, Donald Trump sucedeu a Joe Biden. Ao contrário deste, não tinha nenhum interesse privado neste conflito. Portanto, ele tentou pôr-lhe fim, advertindo publicamente Volodymyr Zelensky na Casa Branca, em 28 de Fevereiro de 2025. Mas este, sendo amplamente apoiado pela imprensa internacional, conseguiu fazer esquecer durante nove meses que já não passava de um impostor, ou seja, desde o fim do seu mandato, em Maio de 2024, e tratou de virar as opiniões públicas ocidentais a seu favor.
Donald Trump propôs várias rondas de negociações, nenhuma das quais teve sucesso. Zelensky foi apanhado com as mãos na massa, mas descartou-se sucessivamente sobre o director da sua administração, Andriy Yermak, depois sobre a sua substituta, Mariia Vitushok. Conseguiu encobrir os escândalos de corrupção da sua equipa, principalmente o caso Midas, e até mesmo o papel do seu sócio comercial, Timur Minditch, no escândalo de Jeffrey Epstein.
No entanto, graças a uma total impunidade, Volodymyr Zelensky acabou a formar aliança com os cartéis da droga mexicanos, que o Presidente Trump havia designado como «organizações terroristas estrangeiras» e aos quais dedicava uma guerra sem quartel [3].
Em poucas semanas, na América Latina, narcotraficantes atacaram as forças da polícia e os agentes da Drug Enforcement Agency-DEA (Agência de Combate às Drogas) . Eles conseguiram monitorizar as transferências de droga através da fronteira méxico-americana e assassinaram funcionários norte-americanos. Entretanto, as suas drogas estão disponíveis gratuitamente na UE, onde penetram sem risco através da fronteira ucraniana.
Assim sendo, o Presidente Trump decidiu sinalizar o fim da paródia. Ele enviou o seu representante especial, Steve Witkoff, à Ucrânia, depois à Noruega junto dos europeus, e finalmente à Rússia. O seu acólito, Jared Kushner, seguiu os contactos por teleconferência. O jovem estava a fazer negócios algures e viu-se surpreendido pela publicação de um livro denunciando os seus próprios esquemas [4].
Simultaneamente, Elon Musk, constatando que o Exército ucraniano utilizava o seu acesso Starlink, violando o contrato, para acções contra civis, restringiu o fluxo na Ucrânia. Atacado por esta decisão, ele republicou um post de Vladimir Zelensky gabando-se de utilizar esta rede para atacar a profundidade da Rússia [5].
Dmitri Medvedev, o antigo presidente russo e actual Secretário do Conselho de Segurança do país, divulgou uma lista dos problemas criados a Trump pelo «toxicómano de Kiev» [6]. Assim:
“1. Ele apoiou sempre abertamente, e em todo o lado, o velho Biden.
2. Ele recusou transmitir a Trump reais elementos comprometedores sobre o rival aquando das precedentes eleições.
3. Com uma insistência importuna — tal como uma grande mosca verde caída no pote de mel — e num tom grosseiro, ele exigiu a Trump dinheiro e armamento para levar a cabo a guerra contra a Rússia.
4. Ele manipulou os dirigentes europeus, empurrando-os quotidianamente contra Trump e a sua equipa
5. Em muitas ocasiões, ele ignorou Trump e seus colaboradores quando lhe apresentavam diferentes propostas tendo em vista negociações sobre o conflito.
6. Ele desprezou os Estados Unidos, recusando cessar os ataques contra as refinarias russas, ignorando os argumentos de Trump sobre o impacto destas acções nos preços mundiais dos produtos petrolíferos, bem como sobre a situação nos Estados Unidos na véspera das eleições.
7. Com o seu comportamento irrefletido, ele levou os Estados Unidos e a OTAN ao limiar de um conflito nuclear mundial com a Rússia.
8. Ele desviou, sem vergonha — junto com seus acólitos, tais como o foragido Minditch ou Yermak (agora caído em desgraça) — os fundos dos EUA que o velho Biden lhe entregava generosamente para a guerra ; ele continuou a meter a mão no que restava destas somas mesmo já com a Administração Trump.
9. Ele teceu laços com os cartéis mexicanos — que Trump abomina —; estes últimos enviam os seus homens de mão à Ucrânia para aí aprender a usar drones, pagando ao «toxicómano de Kiev» com dinheiro proveniente da venda de substâncias ilícitas nos Estados Unidos.
10. Em vez de ter em conta a posição de Washington, ele exerceu chantagem sobre os Estados Unidos, brandindo a ameaça de uma derrota na Ucrânia e agitando o espectro de consequências desastrosas para todo o Ocidente.”
Está claro que desta vez não haverá escapatória.
Yuri Ushakov, antigo embaixador russo em Washington e actual Conselheiro de Vladimir Putin, indicou que negociações trilaterais Rússia /Ucrânia /EUA poderiam se realizar no Abu Dhabi depois de 4 de Novembro. Ele lembrou entretanto que a oferta anterior de Moscovo, de 18 a 20 de Setembro, tinha sido recusada pela parte ucraniana [7].
Dmitry Preskov, porta-voz do Kremlin, comentou a procura da UE por um negociador, mas sem nada fazer a respeito. «Eles discutem ainda e não tomam qualquer decisão». A propósito de uma eventual nomeação de Alexander Stubb, Presidente finlandês, ele declarou : «Se houver um negociador, muito bem. Se for um negociador que sinceramente se esforce para contribuir para uma solução pacífica, será ainda melhor.» O Kremlin não esconde a sua preferência por Gerhard Schröder, antigo Chanceler alemão e actual administrador da Gazprom.
O deputado Leonid Slutsky, presidente do Partido Liberal Democrata (fundado por Vladimir Zhirinowski), declarou : «Kyiv não busca negociações de paz. Zelensky já bloqueou uma grande cimeira trilateral na diáspora ucraniana com raides brutais às assembleias de voto durante as eleições para a Duma. Ele decidiu repetir esta acção antes de preparar a reunião em Abu Dhabi. A parte norte-americana deveria igualmente tirar conclusões e «não congelar», mas sim parar completamente toda a ajuda militar à Ucrânia. Isso é que seria uma contribuição real para o processo de paz». Geralmente, este Partido é utilizado pelo Kremlin para dizer bem alto o que a etiqueta força a não expressar.
O Kremlin rejeita, sem cerimónia, todos aqueles que propõem timidamente um simples cessar-fogo. Fala agora de um verdadeiro tratado de paz, no pleno sentido do termo, com a desnazificação do país.
O conjunto das potências membros da «Coligação dos Dispostos» enfrenta hoje as consequências de tudo isto.
• Como se vai reconhecer que, sim, havia «nacionalistas integralistas», «banderistas», no seio do governo ucraniano?
• Como se vai reconhecer que eles não se consideravam Eslavos, mas antes pretendiam erradicar todos os Eslavos, Ucranianos e Russos, até ao último descendente?
• Como se vai aceitar que foi esta gente que foi apoiada sem reservas às custas de grandes aumentos de impostos na União Europeia e no Canadá?
É provável que depois desta carnificina, que custou a vida a mais de um milhão de pessoas, não seja apenas Volodymyr Zelensky a pôr-se na alheta rapidamente, mas também dirigentes políticos da União Europeia e do Canadá.
No entanto, a Alemanha, a França, a Itália, a Polónia e o Reino Unido assinaram, em 26 de Outubro, uma declaração comum sublinhando o seu compromisso sem falhas ao lado da Ucrânia e anunciando que se comprometiam a reforçar o seu papel no seio da OTAN [8].
NOTAS
1] «Résolution 2202 du Conseil de sécurité», dite S/RES/2202 (2015), adoptée le 17 février 2015.
[2] «Plan d’attaque ukrainien», Révélé par l’Agence Tass, 9 mars 2022.
[3] “A aliança de V. Zelensky com cartéis latino-americanos põe em perigo estratégia antidroga da Casa Branca”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Outubro de 2026.
[4] Princes and Thieves: Jared Kushner and Mohamed bin Zayed’s Secret Plot to Remake the Middle East, Matthew Cole, Atria/One Signal Publishers.
[5] «@elonmusk», Elon Musk, X, October 25, 2026.
[6] Dmitri Medvedev, VK, 24 октября 2026 года.
[7] «Commentary by Presidential Aide Yury Ushakov following Vladimir Putin’s meeting with US President’s Special Envoy Steve Witkoff», Kremlin, October 21, 2026.
[8] «Déclaration conjointes des ministres de la défense du E5», Ministère français de la Défense, 26 octobre 2026.
Fonte aqui
Destaco, na Nota 1, o texto integral dos Acordos de Minsk (Resolução 2202/2015, do Conselho de Segurança das Nações Unidas), para memória futura. Se vos aparecer numa língua que desconheçam (a mim apareceu-me em arábico), basta clicar nos três pontinhos no canto superior direito do ecrã e usar a ferramenta “Traduzir”. Até eu, incurável infoexcluído, consegui fazê-lo.
https://digitallibrary.un.org/record/787968?ln=fr&v=pdf