Fazem tudo para nos assustar, mas as razões objetivas desmentem-nos!

(Por Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 17/01/2018)
assembleia1
Todos os meses a Associação Gandaia da Costa da Caparica organiza, sob a égide do escritor Reinaldo Ribeiro, um debate sobre um ou mais temas da atualidade. No de ontem, e por ser o primeiro do ano, decidiu-se que ele seria de Mesa Aberta, ou seja, disponibilizando-se o espaço de troca de ideias para aquelas que a assistência entendesse como as mais pertinentes.
Vindo a talhe de foice alguns dos temas de recente atualidade – incêndios vs. indicadores económicos, trumpismo, guerra na Síria, aquecimento global, ameaça nuclear – duas atitudes vieram ao de cima: as mais abertamente otimistas e as depressivamente pessimistas.
Não preciso de me alongar muito em que lado de tais posicionamentos me situei: as ideias que professo levam-me a ir mais além do que a célebre fórmula de Gramsci, assumindo-me como otimista na Razão e muito, mas muito, otimista na vontade.
É verdade que os quotidianos telejornais justificam o temor de muitos quanto à nossa aproximação de um inevitável Apocalipse, seja na forma de um inverno nuclear, seja no de uma fome generalizada, seja no de guerras à escala global motivadas por grandes migrações de populações devastadas por inundações, secas e outros efeitos das alterações climáticas.
Essa atitude leva-me a evocar o terror em que Virginia Woolf ou Stefan Zweig terão vivido os seus derradeiros dias antes de se suicidarem, convencidos da inevitabilidade da vitória nazi, que tenderia a dar-lhes o  mesmo destino, que aos de milhões de seus semelhantes, sujeitos por essa altura a encarneirarem-se para os fornos crematórios.
Socorro-me por isso de um trecho do artigo hoje publicado no «Diário de Notícias» por Viriato Soromenho Marques em que este lembra que “as melhores armas desenvolvidas entre 1939 e 1945, com a exceção da bomba atómica, foram produzidas pela Alemanha. Os melhores submarinos, os melhores carros de combate (como o Tiger e o Panther), os primeiros aviões a jato (Heinkel He 178), os primeiros equipamentos de visão noturna, os primeiros mísseis de cruzeiro (V1), os primeiros mísseis balísticos (V2). Contudo, e apesar das suas pioneiras “armas secretas”, a Alemanha perdeu a guerra. Os erros políticos e estratégicos na condução da guerra, multiplicando as frentes, subestimando os inimigos e sobrestimando as forças próprias, esmagaram os ganhos da superioridade tecnológica e do talento militar, esgotaram o espaço de manobra que é uma condição indispensável para a vitória.
É, pois, a própria História a ensinar-nos que, se formos suficientemente inteligentes e determinados no esforço de contrariarmos as ameaças mais intimidantes, elas acabarão por ser vencidas.
Esta lição também é verdadeira para outro dos temas, que temos na ordem do dia: a estratégia inaceitável das grandes empresas – e estamos aqui a falar da EDP e da Galp – para contrariarem a governação socialista escusando-se ao pagamento de impostos. Algo que os grandes operadores de televisão por cabo também andam a teimar como forma de recusarem o seu contributo para o financiamento do cinema nacional.
Aqui nem se compreende a tibieza com que o governo tem tratado este assunto: sendo impostos decididos legitimamente pelos poderes  legislativo e executivo, não pode haver contemplações com quem se quer ufanar de incumprimento das obrigações fiscais. No Parlamento, o ministro da Economia proclamou o óbvio: “Porque não é aceitável que as empresas digam que não querem pagar porque concordam ou não com o Governo, porque concordam ou não com o imposto. Não nos é perguntado a nenhum de nós, e é essa a natureza dos impostos, se concordamos ou não, não é perguntado a quem tem obrigações fiscais. A única resposta que [a EDP e a Galp] têm de dar é cumprir as suas obrigações fiscais”. Agora Manuel Caldeira Cabral só tem de ser consequente com tais palavras e fazê-las cumprir. Tanto mais que as reservas agora levantadas pela empresa de Mexia nunca existiram enquanto Passos Coelho foi primeiro-ministro. Se isto não é a tentativa de boicote ao governo atual, não sei que mais será preciso demonstrar.
Mas esse tal capitalismo em pantanas, que se procura eternizar, mesmo já não tendo condições geográficas para se expandir e assegurar o seu imprescindível crescimento – chegado o tempo da globalização para onde pode agora ampliar-se? Para Marte? Para Alfa de Centauro? – vem ensaiando uma nova tática a nível internacional, que mais não constitui do que uma recauchutagem da Terceira Via: quando surgiu na paisagem política francesa, Emmanuel Macron, era tido como um banqueiro próximo dos socialistas (como se essas duas condições não se excluíssem por natureza…).
Candidato ao Eliseu, conseguiu destruir o Partido, que o tinha feito ministro (que acaba agora de vender a sede histórica de Marselha, depois de já o ter feito com a de Paris e ainda mantendo-se abaixo da linha de água a nível financeiro), apresentando-se como um político independente, mas situado na matriz de centro-esquerda, o que tendo em conta a alternativa (Marine le Pen) acabava por representar um mal menor.
A surpresa que muitos dos antigos deputados e outros altos quadros do Partido Socialista, que se mudaram de armas e bagagens para o seu movimento En Marche, é que, quer na emigração, quer nos refugiados, quer sobretudo no indecoroso aumento das desigualdades de rendimentos entre os muito ricos e os demais extratos da população, o banqueiro confirmou a sua natureza. A revisão das leis fiscais, agora  apresentada, não desmerece da de Trump, que consegue exatamente o mesmo: a redução dos impostos para a minoria mais abastada e o agravamento da dos demais. Daí que haja já quem se comece a interrogar se não vendeu a alma ao Diabo. Que, afinal, em vez de andar a iluminar as expetativas dos principais apaniguados do PSD, parece andar à solta por terras gaulesas.

François Chesnais e os impasses do capitalismo

(Tradução por Eleutério F. S. Prado, in Blog Outras Palavras, 16/01/2018)

O sistema emparedou a si mesmo ao esgotar o planeta, eliminar trabalho em massa e financeirizar-se. “Solução” tem sido exploração inédita, ataque aos direitos, corrosão da democracia. Reagiremos a tempo?

capital

É preciso começar pelo fim. François Chesnais escreveu em novembro de 2017 uma série de três pequenos artigos para o portal A l’encontreem que atualiza a sua compressão dos impasses atuais do capitalismo globalizado. Na última sentença do terceiro artigo, cita com aprovação uma frase de um filósofo francês muito conhecido por seus trabalhos seminais em sociologia da ciência: “numa perspectiva diferente, compartilho o julgamento de Bruno Latour segundo o qual as classes dominantes já não pretendem governar, mas apenas se protegerem do mundo”. Pois, diante das perspectivas para manter o modo de vida dominante, chegaram à conclusão paradoxal – e que permanece amplamente tácita – de que “não há mais lugar na terra para eles e para o resto dos habitantes do mundo”.

Nessa visão, pois, a classe dominante está assustada com o presente e sem esperanças em relação ao futuro.

Os três artigos, em última análise, procuram encontrar os fundamentos econômicos dessa percepção. Ainda que more reconditamente na subjetividade social das classes dominantes nos países capitalistas em geral, ela se revela, por exemplo, no comportamento amalucado de um governante como Donald Trump. Mas não só na cabeça atual do imperialismo norte-americano. Revela-se também na atuação política da direita fascista que, com diferenças locais, brota e cresce agora em muitos países do mundo sejam eles do centro ou da periferia. Ainda que ela possa, sim, produzir também enormes desastres humanitários, deve-se observar que essa direita aparece no cenário político contemporâneo como uma nova farsa – não oferece qualquer futuro digno para as mulheres e para os homens, apenas a violência que procura manter ainda o que já está em processo acelerado de decomposição.

Os três artigos são muito técnicos, mas traduções para o português podem ser encontradas no sítio Economia e Complexidadeparte 1parte 2parte 3. Aqui se apresenta um resumo desse material que pretende colher as suas principais teses de um modo acessível para aqueles que não são nem economistas nem críticos da economia política. Antes desses três textos, ele escreveu em fevereiro de 2017, ainda no A l’encontre, um artigo inicial que suscitou muitas controvérsias e mesmo críticas fortes. Pois, a sua tese central afirmava peremptoriamente que o capitalismo encontrara agora dois limites intransponíveis:

No livro III de O Capital, Marx afirma que “a produção capitalista tende constantemente a exceder os limites que lhe são imanentes, mas só o consegue fazer utilizando meios, que, mais uma vez, e agora em escala maior, recolocam depois perante si essas mesmas barreiras”. A questão posta é a de saber se a produção capitalista está agora se confrontando com barreiras que ela não pode mais ultrapassar, nem mesmo temporariamente. Estaríamos em presença de duas formas de limites intransponíveis, com implicações muito fortes para a reprodução do capital e a gestão da ordem burguesa, sobretudo para a vida civilizada. Uma delas, decorrente dos efeitos da automação, remonta ao século XIX e tem um caráter imanente, interno ao movimento do capital, sobre o qual Marx insistiu fortemente. A outra, decorrente da destruição pela produção capitalista dos equilíbrios ecossistêmicos, particularmente da biosfera, não foi prevista por Marx e foi inicialmente definida como um limite externo.

Ora, a tese de que o capitalismo encontrou agora um limite interno insuperável sofreu críticas porque não tem apoio nem nas estatísticas nem nos textos de Marx. Na verdade, parece reeditar um velho argumento determinista, segundo o qual o desenvolvimento do capitalismo termina necessariamente num colapso. Assim posta, entretanto, ela contraria a dialética do desenvolvimento da relação de capital. Entretanto, como se verá em sequência, também é possível encontrar em seus textos uma tese alternativa e esta, sim, tem boa procedência. E, diante dela, a figura de tal “limite intransponível” vai aparecer ao final – mesmo sendo um erro em sentido estrito – apenas como exagero, como ênfase retórica.

Na verdade, quando se lê o conjunto dos artigos, vê-se que Chesnais apresenta duas barreiras internas e um limite externo para o desenvolvimento atual do modo de produção capitalista. Note-se, porém, que barreiras são limites, mas não limites intransponíveis. Assim compreendidas, então de acordo com a lógica de evolução do capital com sujeito automático do capitalismo. Como ele mesmo lembra, Marx escrevera no Livro III de O capital que “a produção capitalista tende constantemente a superar os limites que lhes são imanentes, porém consegue isso apenas em virtude de meios que voltam a elevar diante dela esses mesmos limites, em escala mais formidável”.  E isto se vale apenas para os limites internos, os quais são transformados em barreiras pelo “sujeito” capital que sempre atua, na verdade, por meio da vontade e do tino dos capitalistas e dos agentes do Estado.

Para compreender a questão, é preciso começar dizendo que o capitalismo não pode sobreviver de modo sadio senão elevando a massa de mais-valor (M) que é gerada nos processos de produção de mercadorias reais sob o comando da relação de capital. E essa massa (M) é algebricamente igual à razão do mais-valor por unidade de produção (M/P) multiplicada pelo próprio volume de produção (V) (ver quadro).

quadro

Note-se, então, que a elevação da força produtiva, isto é, o aumento da produtividade do trabalho – uma característica intrínseca e crucial desse modo de produção –, tende constantemente a reduzir a massa de mais-valor por unidade de produção. E isso tende a ocorrer no longo prazo mesmo se aumenta a razão entre o mais-valor e o valor adicionado. Resulta daí que o capitalismo está sempre sabotando a sua própria saúde de explorador bem-sucedido. Portanto, para que essa massa aumente constantemente e para que ele permaneça são e salvo, é preciso que o volume de produção se eleve sem cessar, numa taxa superior à taxa de redução da razão mencionada.

Ora, a elevação do volume de produção depende da taxa de lucro prospectiva e, assim, da capacidade do próprio capitalismo de gerar demanda efetiva por meio do investimento. Porém, essa taxa de lucro também tende a cair no longo prazo com o progresso das forças produtivas, ou seja, com o próprio processo de acumulação. Como se sabe, o aumento da produtividade eleva o capital constante (capital investido em máquinas, instalações, materiais primas) em relação ao capital variável (capital investido na contratação de trabalhadores) e isto tende a reduzir a taxa de lucro. Como também se sabe, há também tendências contrariantes que impedem essa queda no curto prazo, mas não no longo em princípio.

Essas relações têm enorme importância na história real do capitalismo. E elas, por isso, estão subjacentes aos argumentos aqui examinados. Contudo, é preciso ir por partes.

Considere-se agora, em primeiro lugar, o limite externo tal como indicado pelo autor. Ele advém da deterioração progressiva, atualmente acelerada, das condições ambientais ou ecossistêmicas da atividade humana no planeta. Como ficou claro no parágrafo anterior, o capitalismo, para sobreviver, precisa expandir constantemente o volume da produção e, para tanto, ele tem de explorar sem cessar e imensamente a natureza. Ocorre que essa expansão, como indicam os inúmeros estudos ecológicos, está atingindo ou mesmo já atingiu a capacidade de carregamento do planeta Terra.

Como se sabe, essa capacidade tem sido ampliada rapidamente desde o último quartel do século XVIII pelas fantásticas conquistas da ciência e da tecnologia. Porém, há inúmeros indícios, tais como o aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a poluição ambiental, a destruição das espécies, etc., indicando que a natureza não está mais disposta a suportar os desatinos da civilização humana. Em consequência, ou certas atividades extrativas de recursos da natureza se tornam impossíveis ou os seus custos fixos tendem a se tornar extraordinários. Eis como o próprio autor aqui discutido explica a emergência dessa limitação:

Marx escreveu que “o capital, enquanto representa a forma universal da riqueza – o dinheiro – é a tendência ilimitada e incomensurável a superar os seus próprios limites. Caso contrário, deixaria de ser capital (…)”. Deve, portanto, extrair sem limites, nas reservas terrestres de matérias-primas, os recursos do solo e do subsolo, até que em algum momento começa a minar de forma cada vez mais séria a biosfera e os ecossistemas. A exploração ilimitada da força de trabalho comprada vai junto com a exploração sem limites, até ao esgotamento, dos recursos naturais. Ora, essa tendência, a partir de meados do século XX, tem se realizado por modos de produzir e de consumir que causam um crescimento exponencial (…) devorador de recursos dificilmente renováveis e altamente emissor de gases com efeito estufa.

Além desse limite externo que hoje não parece assustar apenas os ignorantes e os celerados da produção sem limites, os textos aqui examinados mencionam ainda duas poderosas barreiras à expansão do capitalismo no seu estágio atual de desenvolvimento.

A primeira delas advém da terceira revolução tecnológica (isto é, da informática e da comunicação), assim como da quarta (ou seja, da impressão 3D, da robotização). Segundo Chesnais, com elas, estão sendo introduzidas nos processos de produção tecnologias “drasticamente poupadoras de trabalho”. Ademais, isto está acontecendo num momento em que o capitalismo deixou de ter “o planeta inteiro para conquistar”. Assim, com o advento em sequência dessas duas revoluções tecnológicas, a razão do mais-valor por unidade de produção tende a cair fortemente sem que tal queda possa mais, supostamente, ser compensada pelo aumento do volume de produção.

Em resumo, com adventos das novas tecnológicas, a massa de mais-valor passa a cair e o capitalismo entra supostamente em declínio. A classe dominante enxerga essa possibilidade como mera destruição de empregos, como substituição de trabalhadores por robôs – não como algo que mina a sua própria riqueza.

Se isto ocorrer, apenas acentuará uma tendência que já se manifesta contemporaneamente: a emergência de tal limite não significará, como convém o próprio Chesnais, “o fim da dominação política e social da burguesia, menos ainda a sua morte, mas abrirá a perspectiva de que ela conduza a humanidade para a barbárie”. Assim, fica claro que não existe outro limite decisivo ao capitalismo – ainda não mencionado aqui – do que a ação política de todos aqueles que ele esfola e oprime, principalmente dos trabalhadores que, por impulso próprio, podem se organizar livremente para conseguir a própria libertação.

Uma outra barreira econômica, como já se indicou, é mencionada nos escritos aqui resenhados. Em decorrência da grande crise dos anos 1970, os estados capitalistas mais importantes, em particular os Estados Unidos, por meio de desregulações, desencadearam aquilo que ficou conhecido como o processo de financeirização do capitalismo. A onda de mundialização do capital decorrente foi um processo amplo que trouxe várias transformações importantes seja na esfera da produção de mercadorias seja na esfera do comércio nacional e internacional. Contudo, as transformações financeiras se mostraram como as mais decisivas para a reconfiguração do modo de produção.

Chesnais entende que a financeirização deve ser compreendida como a ascensão do capital portador de juros ao comando da acumulação.  “O capital como propriedade” – segundo ele – “invadiu os poros do capital como função”. Mais do que isso, ele afetou não apenas “a produção e a gestão industrial, mas invadiu toda a vida social”. O crescimento dos ativos financeiros – as ações, títulos privados, títulos públicos e depósitos bancários – cresceu espetacularmente durante as últimas três ou quatro décadas. Se o seu montante, em porcentagem, equivalia ao PIB mundial em 1990, agora, ele corresponde a cerca de 300 por cento dele. É, pois, essa enormidade que se levanta agora como uma barreira ao desenvolvimento do capitalismo.

Pois, em consequência dela, os direitos de extração de renda cresceram e continuam crescendo bem mais rápido do que a produção da renda, isto é, a geração de valor. Estes ativos são capitais fictícios, isto é, dão direito a rendimentos na forma de juros principalmente, mas não têm valor e não comandam eles próprios a produção de qualquer valor – ainda que assim pareça para os seus proprietários. Trata-se, porém, de uma ilusão. Eis que a geração de valor e de mais-valor se dá apenas na esfera do capital industrial. A valorização dos capitais fictícios apenas pode ser mantida porque ela também se dá em parte ficticiamente, por meio da simples rolagem das dívidas – algo que se revela no crescimento vegetativo dos ativos financeiros.

Por isso, concordando agora com os críticos, ele escreve: nas últimas décadas, “se houve um aumento do volume de mais-valor, isto não significa que ocorreu um aumento dele em relação ao capital acumulado. A característica saliente do momento atual do capitalismo é uma inadequação crônica desse volume relativamente à massa de direitos de extração de renda”.

Ora, como o capitalismo pode enfrentar essa barreira que ele mesmo pôs para si mesmo? Das duas, grosso modo, uma: ou ocorre uma destruição de capital real e fictício para exterminar o peso das dívidas e para restaurar a lucratividade do capital industrial ou se eleva cada vez mais a taxa de exploração. A primeira alternativa só acontecerá por erro ou inevitabilidade; se sobrevir, ocorrerá por meio de um grande dominó de quebras sucessivas. Como o capitalismo contemporâneo é de fato capitalismo de Estado, essa possibilidade tem sido evitada de todos os modos possíveis, em particular por meio do salvamento dos grandes bancos e grandes empresas. Eis que geraria uma ruptura imensa, uma depressão profunda, com consequências devastadoras para a sobrevivência do sistema.

Assim, apenas a segunda alternativa tem sido posta em prática por meio do neoliberalismo, por meio da “doutrina do choque” (Naomi Klein), por meio da mentira sistemática. Busca-se por todos as maneiras por nas costas dos trabalhadores em geral o peso de uma restauração improvável da saúde do sistema. Em consequência, todas as conquistas dos trabalhadores ao longo do século XX estão sendo, pouco a pouco, espantosamente, destruídas no centro e na periferia… E, com elas, todas as esperanças na socialdemocracia… mesmo se isto produz, como também observou agudamente Bruno Latour, uma desagregação cada vez maior das sociedades.

De qualquer modo, uma frase que se encontra no começo do primeiro artigo parece adequada para encerrar esta nota. Tudo isso em conjunto, segundo Chesnais, propõe um desafio: é preciso “que aqueles e aquelas que são explorados pela burguesia, ou que não estejam a ela vinculados, encontrem maneiras de se libertarem desse curso mortífero”.


Fonte aqui

O monstro cibernético

(António Guerreiro, in Público, 24/11/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

Não se deve ignorar que o motor de busca Google nasceu da aplicação à web do método usado, desde o final do século XIX, para “medir” o valor das publicações universitárias pelo número de citações que obtêm. O algoritmo PageRank da Google calcula o valor de cada link e decide sobre a importância e visibilidade de um dado documento com base no número e na qualidade dos links que enviam para ele. Por isso, este algoritmo já foi estudado no campo da economia política como um diagrama empírico da acumulação de valor no capitalismo cognitivo, como acumulador de informações que acrescentam valor. De modo semelhante ao algoritmo PageRank, nas chamadas “redes sociais”, como o Facebook e o Twitter, o prestígio pessoal calcula-se precisamente com base no número de likes e followers. Em maior ou menor grau, estamos hoje todos conectados e um processo cibernético total, do qual somos agentes e espectadores, já está consumado. E tornou-se bem claro que há hoje uma forma de governo através das redes. Podemos — e devemos — preocuparmo-nos com a facilidade com que se procede a julgamentos e se difundem hoje proclamações, veredictos, narrativas pessoais. Mas tornou-se difícil, quase impossível, mesmo a quem se quer manter à distância, não colaborar como agente. A oposição esclarecida (não a oposição obscurantista e retrógrada) ao processo de cibernetização fez parte do programa dos protagonistas da revista Tiqqun. Das suas posições teórico-políticas decorria logicamente o apelo à sabotagem. A figura do hacker surge aí com um potencial revolucionário, aquele que sabe introduzir-se pelos lados fracos da engrenagem, que só ele conhece. O hacker espalha o pânico, a imprevisibilidade que a cibernética não pode calcular, pratica o acto insurrecional irrecuperável. E desde há mais de dez anos que um grupo italiano de investigação independente e interdisciplinar chamado Ippolita faz uma análise dos efeitos da World Wide Web e da data economy que ela desenvolveu. A promessa inicial era bem bonita: uma sociedade e uma economia contributivas, em que a participação na produção de saber para todos seria possível. Ora, o que triunfou, afinal, foi um hipercontrolo imposto pela “governamentalidade algorítmica”. As novas tecnologias digitais abriram imensas possibilidades, criaram uma vertigem de inovações, mas também são a origem de perigos inauditos e imprevistos. Com as suas publicações, o grupo Ippolita teve um papel pioneiro na compreensão do que significava o desenvolvimento alucinante, à escala planetária, do social engineering e do chamado “efeito de rede” que ele explora.

Uma premissa fundamental deste grupo é o de que a tecnologia se transforma em ideologia. A adopção de um utensílio tecnológico modifica directamente a maneira como percebemos o meio envolvente, de um ponto de vista físico, social e psicológico. As tecnologias digitais ofereceram ao capitalismo um novo campo de experimentação e de desenvolvimento, caracterizado por uma quase ausência de regras.

E o Google ensina-nos que a democracia digital se baseia em filtros e algoritmos que permitem deduzir a opinião da maioria e empurrar para zonas invisíveis o que é minoritário. Os pioneiros da informática tinham já alguma consciência do significado das suas descobertas. Wiener escreveu mesmo um pequeno livro em que compara os primeiros computadores, que tinham uma potência ridícula face aos que conhecemos hoje, ao Golem da Cabala. “Golem Alpha” foi, aliás, o nome que Gershom Scholem, o grande estudioso da mística judaica, amigo de Walter Benjamin, deu ao primeiro computador israelita, fabricado em 1965.