Take two: o bolsotrumpismo ensaia-se uma outra vez

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 26/03/2019)

Francisco Louçã


Diz Bolsonaro para Trump, lado a lado no jardim da Casa Branca, há uma semana: “o que nos une é sermos contra a ideologia de género, o politicamente correto e as fake news.” Desconte o servilismo da tentativa de seduzir o chefe com a repetição do seu mantra, ou de reduzir a política a três mistérios. E perguntemo-nos como é que as direitas portuguesas mostram ter reagido a este episódio.

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Terão reagido com um frémito de vergonha, com um envergonhado “logo eu”, ou, eu que ando a invetivar a “ideologia de género”, e agora revela-se que sou instigado por aqueles dois, que são vagamente infrequentáveis, ou pelo menos que tenho que dizer que me provocam alguma repulsa ou que, dos quais, definitivamente, nada me aproxima? Nada disso, note bem como em poucos meses se fizeram anos luz de caminho. Esta velocidade é que revela o novo mundo que se está a formar na radicalização das direitas que, sem vergonha e antes com garbo, se vai transformando em lumpendireita, como sugeria há semanas uma das suas inspiradoras. Assim, a tomar em consideração a cerimónia oficiada por Miguel Morgado na fundação de um pomposo M5.7, que se pretende apropriar da memória da AD de Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Ribeiro Telles, dos quais aliás tudo os separa, foi mesmo com orgulho que se sentiram representados no resumo lapidar de Bolsonaro.

A este ritmo e, como lembra Steve Bannon em entrevista curiosa ao El Pais, como só estamos a sessenta dias das eleições europeias, teremos um frenesim de ensaios

De facto, foi assim que Morgado, ao lado de uma deputada do CDS e de um representante de um partido estreante, apresentou o seu guião, não passa um par de meses depois de ter exaltado o país com um tremendo “estou a ponderar muito a sério a possibilidade de ser candidato” contra Rui Rio. Foi a repetição, tintim por tintim, da jura dos jardins da Casa Branca. Estamos agora aqui por causa da “ideologia de género”, lembrou desta vez, sem grandes delongas sobre essa torpe conspiração das mulheres que querem tomar conta do mundo condenando a violência doméstica, portanto humilhando os coitados dos homens. Acrescentou, numa leve evocação dos neoconservadores da geração anterior, que precisa dos democratas-cristãos para trazer a moral para a política (com Bolsonaro vai-se mais diretamente ao “voto de Deus”, mas isto para já serve). E tudo contra o “politicamente correto” e os social-democratas que são socialistas, os malandrins infiltrados ao serviço do Dr. Costa, porque há um “inverno” socialista em que as empresas são desmerecidas e certamente lhe falta o carinho dos subsídios públicos, acusação aliás injusta para Centeno. Embrulha-se tudo isso com uma conclusão, há uma nuvem de corrupção que, como não se sabe onde começa e onde acaba, está em todo o lado, de Belém a S. Bento.

Dir-me-ão que este take two, depois desse episódio exuberante que foi o coming-out do deputado Bruno Vitorino na semana anterior, vem depressa demais, é demasiado Neto de Moura, é esotérico demais, cheira demais a CDS à caça no PSD, e que não faz um Tea Party quem quer mas quem consegue. Será certo. Mas, a este ritmo e, como lembra Steve Bannon em entrevista curiosa ao El Pais, como só estamos a sessenta dias das eleições europeias, teremos um frenesim de ensaios.

Em Portugal, como só lhes pode correr mal, ou para já só Ventura poderia tentar traduzir em votos esta demanda, o que não lhe é fácil, resta reduzir todo o movimento glorioso do contra-a-ideologia-de-género-e-contra-o-politicamente-correto a uma disputa dentro do PSD, acolitada pela malta do Observador e para já unicamente subordinada ao grande objetivo patriótico de fazer o Morgado figurar nas listas do partido para deputados. É poucochinho, mas um pequeno passo para a humanidade é um grande passo para quem “pondera muito a sério” anunciar-se como o prometido.

“Ligação de Bolsonaro aos suspeitos de matar a Marielle é aterrorizante”

(In Diário de Notícias, 09/03/2019)

Um ano depois do crime, Fernanda Chaves, a assessora que seguia no carro e sobreviveu, conta ao DN os pormenores daquela noite, quais as suas impressões da investigação e porque, desde então, prefere omitir o seu paradeiro.


Marielle Franco e Fernanda Chaves.

No dia 14 de março de 2018, uma rajada de tiros atingiu a viatura onde seguia Marielle Franco, no centro do Rio de Janeiro. A vereadora pelo PSOL (extrema-esquerda), cuja carreira política estava em fase ascensional, morreu no ataque. O motorista Anderson Gomes também. A terceira passageira, a assessora Fernanda Chaves, sobreviveu sem nenhuma consequência física.

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Durante uma semana, para assinalar um ano sobre a execução, Fernanda enviou depoimentos áudio ao DN, a partir de uma cidade que prefere não revelar e durante o horário de trabalho de um emprego que também opta por omitir, sobre a noite do crime, a perda da amiga íntima e como o crime afetou a sua vida desde então.

Sobre as investigações, a jornalista de 43 anos age com prudência. “Não devo dar respostas, tenho é o direito de recebê-las.” Mas confessa-se assustada por a polícia suspeitar de uma milícia, o Escritório do Crime,cujos chefes têm forte ligação ao clã Bolsonaro.

Do que se recorda daquela noite?
Tínhamos saído por volta das 21.00 de um evento chamado Jovens Negras Movendo as Estruturas, com jovens negras ligadas ao cinema, à comunicação, à produção. Foi um encontro muito positivo, ficou lotado, e saímos muito satisfeitas. Muito satisfeitas, portanto, entrámos no carro. A Marielle foi para trás, coisa que ela nunca fazia, gostava de ir à frente, porque ela sempre foi muito do tipo copiloto, de reclamar com o trânsito e tal. Nesse dia, ela ainda chegou a abrir a porta da frente, mas atirou as bolsas para lá e brincou com o Anderson, dizendo que ele ia de motorista e ela de madame. Ele então puxou o banco para a frente para lhe dar mais conforto.

Marielle Franco e a assessora Fernanda Chaves.© D.R.

Ela queria ficar junto a mim porque precisávamos de escolher fotos do evento e, sobretudo, de combinar uma reunião do dia seguinte que estava a deixá-la ansiosa, já que ela seria proposta como pré-candidata a vice-governadora do Rio pelo PSOL, ao lado do Tarcísio Mota. Penso que ela quis ir atrás, também, porque não queria expor muito essa ansiedade perante o Anderson, até porque ele não era muito íntimo nosso, ele era o motorista substituto.

Estávamos também a falar sobre um artigo dela no Jornal do Brasil, que seria enviado nesse dia e que eu tinha revisto antes de chegar ao evento. Ela perguntou o que eu tinha achado, eu disse que mudara o título e outros detalhes. Vínhamos falando ainda com as famílias por WhatsApp, ela hesitava se passava numa padaria para levar um pãozinho para casa porque a Mónica [companheira de Marielle] estava meio febril e eu falava com o meu marido sobre a minha filha, que também estava febril. E, entretanto, ela ainda comentava sobre o jogo do Flamengo que tinha acabado de começar. Portanto, estávamos as duas com as cabeças baixas a olhar para os celulares quando, de repente, oiço um “eita”, algo do tipo, da Marielle, mas não em forma de susto, ainda acredito que a interjeição se referisse a alguma coisa que ela estivesse a ver no celular e não com algo em que ela tenha reparado do lado de fora. Foi nesse momento que chegou a rajada, os vidros estouraram, eu não vi nada, nada, nada, porque os vidros do Anderson eram de película muito escura, a Marielle estava do meu lado ombro a ombro, ela era grande, de cabelo volumoso, tapou-me a visão. O Anderson deu um “ai”, um gemido baixo, e eu percebi que as mãos dele soltaram o volante. Puxei então o travão de mão. Entretanto, ainda abaixada, com o rosto entre os bancos da frente e as pernas da Marielle, só pensava que tinha havido um tiroteio, porque naquele lugar, no Carnaval de semanas antes, isso havia acontecido. Por isso, saí rastejando para ver se via alguma movimentação por baixo da porta do carro.

Como estava tudo muito silencioso, comecei a chamar pessoas na rua, que se aproximaram, sem entender também o que tinha acontecido. Não encontrava o meu celular, perdido no carro, e pedi para uma senhora chamar uma ambulância. Disse, “por favor, avise que é uma vereadora!”. Mas ao dizer isso as pessoas começaram a tirar fotografias, a filmar, a gerar caos. A polícia chegou então ao local para isolar a área, já eu tinha visto o meu celular a piscar no chão do carro e por isso conseguido ligar para o meu marido e para um colega da coordenação do mandato. Para mim, àquela hora, a Marielle estava apenas desmaiada. É que eu sentia-me tão inteira, tão bem, apesar do sangue e dos estilhaços na cara, que não concebia que ela e o Anderson pudessem estar algo além de desmaiados. Nessa hora, o agente via rádio informou à minha frente “são dois mortos por tiro e uma sobrevivente”. Foi dessa forma que eu soube que a Marielle estava morta. Esse foi um dos piores momentos de todo este processo. Antes eu estava muito nervosa, trémula, abalada mas esforçando-me para ficar racional. Quando ouvi aquilo ali foi difícil não me descontrolar porque não tinha ninguém com quem dividir. E estava preocupada porque sempre trabalhei com a realidade da polícia do Rio e de repente via-me com vários agentes num lugar isolado, escuro. Lembro-me de que os agentes não tinham identificação no uniforme…

A ambulância, entretanto, chegou mas eu não queria deixar a cena. Os polícias até diziam “você não está sozinha, está aqui a polícia, você não confia na polícia?”, o que gerou uma espécie de “saia justa”. Mas o meu colega da coordenação e o meu marido entretanto chegaram e convenceram-me a entrar mesmo na ambulância. Acabei por recusar ir para o hospital e fui diretamente para a delegacia na Barra da Tijuca prestar depoimento durante toda a madrugada.

De então para cá, onde esteve?
Amigos meus, advogados da área dos direitos humanos, começaram logo a avaliar que seria importante para mim sair do Rio de Janeiro. E algumas pessoas da polícia também me aconselharam a sair de cena. Eu recebi essa informação como se me tivessem a dizer que bastava ir para o sítio do meu sogro uma semana. Só depois, ao não me ser permitida a ida ao funeral e a todos esses rituais de despedida por ordem de especialistas em segurança, é que eu comecei a entender a gravidade da situação e que eu precisava de sumir, de sumir mesmo do Brasil. O Marcelo Freixo [hoje deputado federal pelo PSOL e padrinho político de Marielle] falou-me, entretanto, da possibilidade de ir para Madrid, ao abrigo de um programa de proteção da Amnistia Internacional. E no dia seguinte bate à porta de casa a [antiga presidente] Dilma Rousseff, que foi de extrema sensibilidade e explicou-nos que a Marielle se tornaria um Chico Mendes [referência do ambientalismo mundial assassinado em 1988]. Ela disponibilizou-se para me ajudar com contactos de entidades fora do Brasil mas eu acabei optando pelo tal acolhimento da Amnistia Internacional, em Madrid, onde ficaria três meses, o tempo do visto.

Chico Buarque exibe placa em homenagem a Marielle Franco num comício de Fernando Haddad, candidato do PT, derrotado, nas eleições de outubro, por Jair Bolsonaro.© Ricardo Moraes/Reuters

Como eu saí do Rio achando que em poucas semanas o crime fosse resolvido mas depois senti que não havia expectativa de regresso, que não havia nenhuma informação das investigações, que o assunto até parecia ir morrendo, esses tempos foram muito difíceis emocionalmente. Contraí até uma infeção séria no ouvido, no processo. Quando melhorei, o meu marido, que é jornalista freelance mas teve de abandonar o escritório para ir comigo e com a minha filha de 7 anos, que esteve esse tempo todo fora da escola, insistiu que fizéssemos passeios para me distrair um pouco.

Quando eu estava num deles, em Paris, a polícia civil pediu-me para voltar ao Rio para fazer uma reconstituição do crime. Como a Amnistia Internacional é que teve de pagar essa viagem, que foi de última hora e cara, os fundos do programa que me mantinham em Madrid terminaram após dois meses e não três. Fui então para Roma, a conselho de um amigo diplomata que reforçou que era muito importante ficarmos afastados do Brasil enquanto durassem as investigações e nos acolheu em sua casa. Por lá, algures em junho, como já havia calor na Europa, tinha uma comunidade brasileira em redor e participei até em seminários no Senado italiano sobre direitos humanos a propósito do caso, eu já estava melhor de humor. Na passagem de junho para julho, recorri a um programa de proteção a defensores de direitos humanos no Brasil e voltei. Não voltei para o Rio. Eu não posso voltar ao Rio, o Rio não é opção, pelo menos enquanto não descobrirem os autores e os mandantes, sobretudo os mandantes, do crime. Estou noutra cidade. Eu não sou testemunha ocular, não tenho muito mais a contribuir com informações porque não vi nada, nem percebi nada a não ser a rajada de tiros, logo, não sou propriamente uma testemunha ameaçada. Mas, quando a gente não sabe quem disparou e quem mandou disparar, a gente não sabe como e de quem se proteger, não é? Eu trabalhei toda uma vida no Parlamento do Rio e veio à tona que parlamentares podem estar envolvidos, por isso como é que eu posso voltar a um lugar onde está gente que pode ser responsável do atentado a um carro onde eu estava?

Escola de samba Vai-Vai homenageou Marielle Franco nos desfiles de Carnaval.© Amanda Perobelli/Reuters

Em que cidade está e em que está a trabalhar?
Prefiro não divulgar ambas as informações. Assim como prefiro não partilhar dados ou fotografias da minha família, do meu marido, da minha filha. Espero que compreendam.

Qual a sua opinião sobre a investigação?
Durante esse tempo todo eu tenho evitado divagar sobre as possibilidades da autoria do assassinato. É uma posição pensada porque eu sinto que não tenho de dar respostas, tenho é de recebê-las: o estado brasileiro, a polícia é que me está a dever respostas a mim, a todos nós, ao mundo. No entanto, não dá para negar, pelo perfil do crime, pela arma utilizada, que há envolvimento de milícias. E não é novidade que a família do presidente Jair Bolsonaro tem ligação com as milícias – ele já as exaltou e o filho dele homenageou polícias envolvidos em milícias.

As milícias são grupos armados compostos por polícias, bombeiros, agentes penitenciários – uma espécie de braço armado do Estado atuando no crime, portanto. No fundo, são máfias, porque dominam territórios, cobram às populações por serviços de gás, televisão por cabo ou aluguer de forma criminosa. E agem sobre decisões políticas. As ligações de Bolsonaro e do filho, através de muitos membros dos seus gabinetes, a milícias e, mais precisamente, ao grupo miliciano acusado de executar a Marielle, são aterrorizantes. E têm de ser investigadas e cobradas. Mas a minha avaliação sobre o assunto acaba aí. Quem tem de falar são as autoridades.

Porque acha que a queriam matar?
A Marielle foi morta por causa do seu pensamento: foi um crime político. E a extrema-direita tem que ver com esse crime bárbaro. E as milícias estão ao serviço da extrema-direita. Basta ver quem são os políticos que as homenageiam e quem são os políticos que elas ajudam a eleger. É assustador. E o Brasil tem de dar uma resposta para o mundo.

Marcelo Siciliano, deputado estadual pelo PHS, chegou a ser dado como responsável. Ele nega e afirma-se amigo de Marielle. O que acha?
Acho uma loucura. Diz-se que seria por uma disputa de território mas a Marielle não fazia disputa territorial, não era esse o tipo de atuação dela. Por isso, parece-me um engano. Ou uma enorme cortina de fumo.

Manifestante participa em protesto pela morte de Marielle Franco em frente à embaixada do Brasil em El Salvador, em março de 2018.© Jose Cabezas/Reuters

Jean Wyllys, deputado do PSOL, abandonou o Brasil por medo das ameaças. A Marielle era ameaçada? Vocês tinham medo?
A Marielle impressionava-se muito com a situação do Jean. Os deputados do PSOL do Rio encontravam-se com frequência, fosse em reuniões, fosse em atividades de rua das sextas-feiras, fosse até num bloco de Carnaval. E o Jean nunca estava. E não estava por causa das ameaças. A Marielle sempre dizia que não suportaria o que o Jean suportava, que jamais conseguiria viver ameaçada, que jamais conseguiria viver enclausurada. Ambos são alvos da extrema-direita, que vive de ameaças. E, quando não ameaça, mata mesmo em vez de disputar ideias na base do diálogo. Agem como monstros, como primatas.

Nós tínhamos medo da violência, claro, como quaisquer cidadãs cariocas. Mas não tínhamos medo de que acontecesse algo do tipo do que aconteceu. Se tivéssemos, teríamos tomado alguma atitude. Ela nunca foi ameaçada, nem de forma implícita. No máximo, de vez em quando havia um ataque de ódio ou outro nas redes sociais. E ela era especialista em segurança, por isso jamais negligenciaria esse lado. Até porque, além do mais, ela era uma apaixonada pela vida. O que ela tinha, por outro lado, era preocupação com as pessoas em redor porque nós tínhamos no gabinete outras mulheres faveladas, negras, LGBT, transexuais, pessoas de religiões de origem africana que, pela roupa ou por outro motivo, causavam incómodo até em vereadores que se recusavam a subir no mesmo elevador… Com ela própria, no entanto, nunca detetámos algo suspeito.

Seria Marcelo Freixo, que tem um histórico de ameaças de milícias, o alvo dos criminosos?
Não, não acredito. Mas acho que quem matou a Marielle quis assassinar uma ideia e aí o Marcelo está incluído, como padrinho político dela, por se sentir que ela era uma continuidade dele.

Familiar de Marielle Franco chora sobre o seu caixão no dia a seguir à sua morte, a 14 de março de 2018.© Ricardo Moraes/Reuters

Qual a sua relação com a Marielle?
Eu conheci-a em 2006, através do Marcelo, na Lapa, lembro-me bem do dia. Eu fui coordenadora de campanha dele a deputado estadual e ela, que já atuava na favela da Maré e cursava Sociologia, começava a aproximar-se da política. Trocamos contactos e passamos a conversar muito. Eleito, o Marcelo convidou-nos a trabalhar com ele. Tornámo-nos colegas, depois amigas, fomos madrinhas de casamento uma da outra, e ela foi madrinha de consagração da minha filha. Entretanto, fui para a Bolívia como correspondente do jornal Brasil de Fato, depois passei por Brasília, como assessora de um outro deputado, mas mantivemos sempre o contacto. Eu participei à distância na campanha dela. E estava com ela no dia da eleição, quando ela se virou e perguntou: “E agora? Tamo junto?” Aí, uns quatro dias depois ela liga-me a perguntar como estava a correr a mudança de Brasília para o Rio. Eu disse: “Espera aí, Marielle, eu te ajudo mas daqui.” Ela respondeu: “Não, você teve a vida toda a fazer assessoria para homem, agora eu fui eleita, não abro mão de te ter aqui na coordenação, conto com isso.” Falei com o meu marido, ele sentiu-se empolgado, e não era para menos porque a eleição dela coincidia com a eleição de um bispo da IURD para prefeito [Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo], o que era extraordinário, empolgante, de facto. E foi assim.

Marielle Franco numa fotografia do seu Facebook com a data de 2 de agosto de 2017.© D.R.

Um ano depois, como vai viver a data?
Estou muito contente porque no dia em que se completa um ano estarei na Universidade de Princeton a convite da [ativista negra norte-americana] Angela Davis, que a Marielle idolatrava, a assinalar a data e a homenageá-la. O nome da última iniciativa em que ela participou, Jovens Negras Abalando as Estuturas, era até baseado numa frase da Angela. Estou contente não apenas pelo evento mas porque saio do Brasil: seria doloroso estar novamente aqui mas afastada dos ritos, das missas, das orações. Não poder ter dado ainda um abraço nos pais da Marielle ou na Ágata, a mulher do Anderson, é talvez o mais difícil.


A estratégia perdedora de Trump – abraçar o Brasil e confrontar a China

(Por James Petras, in Resistir, 29/01/2019)

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Os EUA adotam um regime destinado ao fracasso e ameaçam a economia mais dinâmica do mundo. O presidente Trump elogia Jair Bolsonaro, o recém-eleito presidente do Brasil, e promete promover estreitamento dos laços económicos, políticos, sociais e culturais. Em contraste, o regime de Trump está empenhado em desmantelar o modelo de crescimento da China, impondo sanções severas e generalizadas, e fomentar a divisão e fragmentação duma China maior.

Washington escolhe os seus aliados e inimigos com base num acanhado conceito de vantagens a curto prazo e de perdas estratégicas.

Neste artigo, vamos analisar as razões por que a relação EUA-Brasil se encaixa no objetivo de Washington para o domínio global e porque é que Washington receia o crescimento dinâmico e o desafio de uma China independente e competitiva.

O Brasil à procura de um patrono 

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, anunciou desde o primeiro dia, um programa de inverter quase um século de crescimento económico orientado pelo estado. Anunciou a privatização de todo o setor público, incluindo setores estratégicos, como as finanças, a banca, os minérios, as infraestruturas, os transportes, a energia e as atividades de manufatura. Além disso, dá prioridade à centralidade das empresas multinacionais estrangeiras. Os anteriores regimes autoritários, civis e militares, protegeram as empresas nacionalizadas que faziam parte de alianças tripartidas que incluíam empresas privadas estrangeiras, estatais e nacionais.

Em contraste com os anteriores regimes eleitos que tentaram – nem sempre com êxito – aumentar as pensões, os salários e o nível de vida e reconheceram a legislação laboral, o presidente Bolsonaro prometeu despedir milhares de funcionários do setor público, reduzir as pensões e aumentar a idade da reforma, ao mesmo tempo que reduzir os salários, a fim de aumentar os lucros e baixar os custos dos capitalistas.

O presidente Bolsonaro promete inverter a reforma agrária, expulsar, prender e assaltar as famílias rurais para reinstalar os latifundiários e encorajar os investidores. A desflorestação da Amazónia e a sua entrega aos barões da pecuária e aos especuladores de terras incluirá a ocupação de milhões de hectares de terras indígenas.

Na política externa, o novo regime brasileiro compromete-se a seguir a política dos EUA em todas as questões estratégicas: o Brasil apoia os ataques económicos à China, apoia a ocupação de terras de Israel no Médio Oriente (incluindo a mudança da capital para Jerusalém), defende os esquemas dos EUA de boicote e políticos para derrubar os governos de Cuba, da Venezuela e da Nicarágua. Pela primeira vez, o Brasil pôs à disposição do Pentágono bases militares e forças militares para quaisquer invasões ou guerras futuras.

A satisfação dos EUA quanto à cedência gratuita do presidente Bolsonaro de recursos e riquezas e à perda de soberania é apreciada nas páginas do Financial Times, do Washington Post e do New York Times, que preveem um período de crescimento, de investimento e de recuperação – se o regime tiver a “coragem” de impor a venda ao desbarato.

Como já aconteceu em inúmeras experiências recentes com mudanças de regime para a direita neoliberal na Argentina, no México, na Colômbia e no Equador, jornalistas e especialistas das páginas financeiras deixaram-se cegar pelos dogmas ideológicos quanto a possíveis dificuldades e crises.

A política económica do regime de Bolsonaro ignora o facto de que o Brasil depende das exportações agrominerais para a China e compete com as exportações dos EUA… as elites da agroindústria brasileira vão ressentir-se da mudança dos seus parceiros comerciais. Vão opor-se, derrotar e corroer a campanha anti-China de Bolsonaro, se ele se atrever a persistir.

Os investidores estrangeiros vão apoderar-se das empresas públicas, mas tudo indica que não vão expandir a produção, dada a profunda redução do emprego, dos salários, à medida que o mercado dos consumidores vai decaindo.

Os bancos podem fazer empréstimos, mas exigirão altas taxas de juro para ‘riscos’ altos, em especial à medida que o governo for enfrentando uma oposição social crescente dos sindicatos e dos movimentos sociais, e uma violência maior da militarização da sociedade.

Bolsonaro não tem a maioria no Congresso que depende do apoio eleitoral de milhões de funcionários públicos, de trabalhadores assalariados, de pensionistas e de minorias étnicas. Uma aliança no Congresso será difícil sem corrupção e sem compromissos… O gabinete de Bolsonaro inclui vários ministros fundamentais que estão a ser investigados por fraude e lavagem de dinheiro. A sua retórica anticorrupção irá evaporar-se perante as investigações judiciais e as denúncias.

O Brasil dificilmente poderá fornecer quaisquer forças militares de préstimo para aventuras militares, regionais ou internacionais, dos EUA. Os acordos militares com os EUA terão pouco peso perante o profundo turbilhão interno.

A política neoliberal de Bolsonaro dependerá das desigualdades, em especial entre os cinquenta milhões que acabaram de sair da pobreza. O apoio dos EUA ao Brasil enriquecerá a Wall Street que vai agarrar no dinheiro e desaparecer, deixando os EUA a enfrentar a ira e a rejeição do seu aliado frustrado.

O confronto dos EUA com a China 

Ao contrário do Brasil, a China não está disposta a sujeitar-se a uma pilhagem económica e a abdicar da sua soberania. A China está a seguir uma estratégia a longo prazo, concentrada no desenvolvimento dos setores mais avançados da economia – incluindo a tecnologia de ponta da eletrónica e das comunicações.

Os investigadores chineses já produziram mais patentes e artigos científicos de referência do que os EUA. Formam mais engenheiros, mais investigadores de ponta e mais cientistas inovadores do que os EUA, apoiados por altos níveis de financiamento estatal. A China, com uma taxa de investimento de mais de 44% em 2017, ultrapassa em muito os EUA. A China passou de um baixo valor acrescentado para um alto valor, nas exportações, incluindo carros elétricos a preços competitivos. Por exemplo, os iPhones chineses estão a ser mais competitivos do que a Apple, tanto no preço como na qualidade.

A China abriu a sua economia às empresas multinacionais dos EUA, em troca do acesso à tecnologia avançada, uma coisa que Washington classificou como apreensões “forçadas”.

A China tem promovido acordos multilaterais de comércio e investimento, incluindo mais de sessenta país, em acordos de infraestruturas de grande escala e a longo prazo, por toda a Ásia e África.

Em vez de seguir o exemplo económico da China, Washington queixa-se de comércio desleal, roubo tecnológico, restrições de mercado e constrangimentos estatais aos investimentos privados.

A China oferece oportunidades a longo prazo para Washington atualizar o seu desempenho económico e social – se Washington reconhecer que a concorrência chinesa é um incentivo positivo. Em vez de investimentos públicos de grande escala na melhoria e promoção do setor de exportações, Washington virou-se para as ameaças militares, as sanções económicas e as tarifas que protegem os setores industriais de retaguarda dos EUA. Em vez de negociar os mercados com uma China independente, Washington favorece regimes vassalos, como o recém-eleito presidente Jair Bolsonaro do Brasil, que confia no controlo e nas conquistas económicas dos EUA.

Os EUA têm um caminho fácil para dominar o Brasil em termos de ganhos a curto prazo – lucros, mercados e recursos – mas o modelo brasileiro não é viável nem sustentável. Em contraste, os EUA precisam de negociar, discutir e firmar acordos reciprocamente competitivos com a China. O resultado final da cooperação com a China permitirá aos EUA aprender e crescer de modo sustentável.

Conclusão 

Porque é que os EUA escolheram a via de apoiar um Brasil retrógrado em vez de um líder, um país, virado para o futuro?

Basicamente, os EUA estão mergulhados estruturalmente num sistema político profundamente militarizado que é movido pela ânsia do domínio mundial – o ‘imperialismo’. Os EUA não querem competir com uma China inovadora, procura coagir a China a desmantelar as instituições, a política e as prioridades que engrandecem a China.

Washington exige que a China abdique da relativa autonomia do estado, aumente a penetração dos EUA nos setores estratégicos e confie nos banqueiros e académicos do mercado livre. A política económica dos EUA é modelada por banqueiros, especulações corruptas e ‘lobbyists’ de interesses regionais especiais, incluindo regimes como Israel. A política económica da China é modelada por interesses industriais, orientada pelos objetivos estratégicos da autoridade central do estado, capaz e disposto a prender centenas de funcionários de altos cargos, se forem corruptos.

Os EUA não podem conter a trajetória ascendente da China com um cerco militar – porque a estratégia económica de Pequim neutraliza as bases militares dos EUA e derrota os constrangimentos tarifários através da diversificação de importantes acordos comerciais. Por exemplo, a China está a negociar com a Índia um grande aumento de importações de mercadorias agrícolas, que incluem arroz, açúcar, leite, soja e algodão. A Índia tem atualmente um grande défice comercial com a China, em especial em maquinaria e bens industriais e está ansiosa por substituir os exportadores norte-americanos. A China tem importantes acordos comerciais e de investimento em todo o sudeste asiático, na Coreia do Sul, no Japão, no Paquistão, na Rússia e na Austrália, assim como em África, na América Latina (Brasil e Argentina) e no Médio Oriente (Irão, Iraque e Israel).

Os EUA têm pouca margem de manobra para “espremer” a China, mesmo em setores de alta tecnologia, à medida que a China é menos dependente do ‘know-how’ dos EUA. Washington garantiu acordos com a China, aumentando as exportações de carros e de entretenimento. A China pode facilmente concordar em reduzir o alegado “roubo de propriedade”, especialmente desde que deixou de ser um fator importante, dado que a maior parte das inovações da China são criadas internamente. Além disso, o big business e a Wall Street exigem que o regime de Trump chegue a um acordo de mercados livres com a China e ignore os seus inimigos autárquicos.

Dada a continuada economia pujante da China (6,5% do PIB em 2018), a crescente ênfase na expansão dos serviços sociais, no mercado de consumo e na facilidade de crédito, as políticas de tarifas coercivas de Trump estão condenadas e as ameaças militares só encorajarão a China a aumentar e atualizar a sua defesa militar e programas espaciais superiores.

Quaisquer que sejam os acordos comerciais temporários e limitados que surjam das negociações EUA-China, o regime de Trump continuará a sua agenda imperial unipolar de apoiar regimes vassalos, como o Brasil, e confrontar a China.

O futuro pertence à China independente, inovadora e competitiva e não a regimes vassalos, militarizados e subservientes como o Brasil.


Fonte aqui