Resposta a Manuel Alegre

(Catarina Martins, in Expresso, 24/09/2019)

Catarina Martins

(SE A GERINGONÇA VIESSE NOS BOLETINS DE VOTO…

Teria a maior maioria absoluta da história eleitoral de Portugal. Não vindo, andam todos os “geringonços” muito nervosos com farpas recíprocas. Rio afivela um sorriso amarelo e diz que são só arrufos de namorados. Só espero que ele esteja certo.

Comentário da Estátua, 24/09/2019)


Caro Manuel Alegre, li com gosto a sua ​carta​ no Público. Sei que divulga em todas as eleições um manifesto de apoio ao seu partido e é justo que o faça. Mas, ao tomar-me como alvo, comete dois erros sobre os quais quero conversar consigo.

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O primeiro é de facto. Ao reproduzir a frase de António Costa (na formação da geringonça, “o Bloco veio atrás”) avaliza uma versão falsa do que aconteceu. Semanas antes das eleições de 2015, em debate televisivo, coloquei a António Costa três condições para que nos entendêssemos para uma maioria de governo: não congelar as pensões (1660 milhões de euros), não facilitar despedimentos, não reduzir as contribuições patronais para a segurança social (2550 milhões). Sem que o tivesse feito durante quatro anos, António Costa diz agora, para me insultar, que foi “teatro”. O certo é que no sábado de reflexão combinámos que um representante seu, Fernando Medina, se reuniria com uma pessoa indicada por mim, Jorge Costa, para um encontro informal e exploratório, que ocorreu ​na manhã do domingo das eleições​. Ficou então claro que o PS aceitaria as três condições que coloquei e começou-se a conversar sobre salário mínimo, salários, pensões, nacionalizações e outros temas. O enviado do PS, cordial e empenhado, não estava a “fazer teatro”. Nessa noite, quando se abriram os votos, Costa e eu sabíamos que era possível abrir negociações formais para um acordo.

Até percebo que agora, na ânsia eleitoral, ele tenha a deselegância de reduzir este esforço comum a uma corrida para saber quem “veio atrás”. Só que, entre parceiros, isso não se faz. Por isso, digo ao secretário-geral do PS que quem triunfa, como nós conseguimos juntos nestes quatro anos, não se rebaixa à hostilização de um aliado com uma ficção sobre como nos aproximámos.

O segundo erro do seu texto, caro amigo, é sobre o contexto destas eleições. Não gostou da minha frase sobre a disputa entre o PS e a esquerda. Reconhecerá em todo o caso que foi Costa quem, na sua primeira entrevista de campanha, explicou que um Bloco forte significaria “ingovernabilidade”, e outros dirigentes encarregaram-se de multiplicar os apelos contra os “devaneios” deste “empecilho” ou alertas sobre a “prisão” que um acordo com a esquerda imporia. Dispenso-me de fazer a lista, por ser evidente demais que a estratégia do PS é atacar o Bloco. Essa escolha estratégica não lhe passou por certo despercebida. Chega aliás ao paradoxo: Centeno acusa-nos de irresponsabilidade por propormos uma forma de reestruturação da dívida que é precisamente a que assinamos há dois anos, o PS e o Bloco, com a participação do Ministério das Finanças. O PS mostra que está zangado com os últimos quatro anos, o Bloco elogia cada um dos avanços que conseguimos em conjunto.

A minha resposta é que a questão é mesmo entre o PS, que quer maioria absoluta para se ver livre dos “empecilhos”, e a esquerda, que quer um governo com mais exigência nos próximos quatro anos. Por isso, o PS recusa acordos, o Bloco estabelece pontes. O PS pede poder absoluto, o Bloco quer entendimentos para medidas. Sim, há uma escolha entre o PS e as esquerdas, ou entre a maioria absoluta que o PS deseja e as soluções que as esquerdas defendem.

Quando o Bloco apresenta propostas para defender o SNS, recuperar o pagamento das horas extraordinárias ou salvar os CTT, Costa chama-lhes “ingovernabilidade”. Mas, caro Manuel Alegre, essas tricas partidárias são irrelevantes. No fim do dia, o que conta é mesmo saber qual vai ser o governo: o que, como Arnaut e Semedo queriam, recusa as parcerias público-privado nos hospitais públicos ou o que estabelece o período experimental que as associações patronais festejam.

Despeço-me concordando num ponto consigo. O meu amigo lembra quem apelava ao voto no PS, “mesmo se ele não merece”. O voto no Bloco, em contrapartida, virá de quem entende que o merecemos em nome de uma maioria que defenda o nosso povo.

E se o BE e PCP falassem um com o outro?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/05/2019)

Daniel Oliveira

Ainda faltam cinco meses para as eleições legislativas. Um verão com ou sem incêndios, meio ano com ou sem casos de famílias, um fim de legislatura com mais ou menos revelações sobre Tancos. Uma caminhada com ou sem greve cirúrgica inorgânica ou revolta nada cirúrgica e bastante orgânica dos professores. Ainda a procissão vai no adro e não sei se foi inteligente a facada que Costa deu aos seus aliados. Ou o ganho foi brutal (não parece), ou precipitou-se. Não devemos cuspir no prato onde ainda vamos ter de comer.

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Divergências sempre as houve, algumas com um impacto orçamental bem mais profundo do que este — o resgate do Banif ou a ‘venda’ do Novo Banco, por exemplo. E houve separações em votações, com entendimentos maioritários do PS com o PSD. Não vieram da esquerda ultimatos e ameaças. Ao tentar pôr fim à geringonça sem sequer se dar ao trabalho de avisar os parceiros de maioria (aqueles que permitem que ele governe sem ter ficado em primeiro), António Costa cimentou um ambiente de desconfiança estrutural dentro da maioria que o suporta.

Suspeito que sei como Costa vai tentar resolver isto. Não vai agudizar um confronto com o PCP e com o BE que lhe retiraria a simpatia dos eleitores do PS mais à esquerda. Vai tentar explorar as más relações entre o PCP e o BE. E vai fazê-lo, antes de tudo, na Lei de Bases da Saúde. Não cedendo em nada na relação com os privados (mais altos valores se levantam), mas tendo toda a disponibilidade para regressar ao que tinha aceitado em relação às taxas moderadoras e que o grupo parlamentar do PS também fez andar para trás. Só que dando esse trunfo ao PCP. O objetivo não é premiar os comunistas. Nem sequer é, como prioridade, tramar os bloquistas, com quem disputa mais eleitores. É negociar com um e não com outro, alimentando a competição entre os dois. É dividir para reinar. Se o Bloco fosse esperto diria desde já que, com a redução das taxas moderadoras, irá viabilizar a Lei de Bases da Saúde, desarmado este jogo. Duvido que o seu orgulho ferido o permita.

Mas a questão importante é outra. É a fragilidade de dois partidos que representam quase 20% dos eleitores, concordam em 90% dos temas e não se conseguem sentar à mesma mesa. Não trocam informação entre si, não coordenam posições, não juntam esforços quando partilham objetivos. Isto permite que quem já tem o volante da governação, o controlo do aparelho de Estado e acesso a toda a informação que essa posição lhe dá seja o único que sabe tudo sobre as negociações que se vão fazendo. BE e PCP abdicam do seu poder por infantilidade. É justo dizer que está teimosia vem mais dos comunistas, que sentem um espaço seu ocupado por novatos — já lá vão 20 anos. Mas nunca vi do BE grande vontade de desafiar o PCP publicamente para mais do que isto.

Esta competição suicida é ainda mais idiota quando Bloco e PCP partilham muito poucos eleitores. Não se pede que vão juntos a eleições, até porque a diferença de culturas políticas e de organização tornariam isso impossível, porque têm divergências fundacionais inultrapassáveis e porque seria uma soma negativa: têm eleitorados muito diferentes, valem mais separados do que juntos.

Mas seria mais fácil entenderem-se sobre algumas opções programáticas do que com o PS. Ao não se falarem, facilitam os jogos de António Costa e prejudicam os seus eleitores. Ganha quem fica com todo o poder e toda a informação na geringonça. E isto vai ser muitíssimo evidente nos próximos cinco meses. Começa agora, com a Lei de Bases da Saúde.


César e Catarina, e se não fizessem um favor à direita?

(Por Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/03/2019)

Estiveram os dois mal

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Quando, numa eleição, se sabe à partida quem será o vencedor e o perdedor os combates eleitorais tendem a não se fazer entre os principais partidos mas nas suas franjas. À direita, já se percebeu que guerrilha interna do PSD continuará e os seus promotores terão como principal objetivo desviar votos para o CDS e novos movimentos. À esquerda, a guerra será entre o PS e o Bloco de Esquerda. Não por qualquer razão ideológica ou por o PS ter mais dificuldades em trabalhar com o BE do que com o PCP, mas porque aquela é a sua fronteira eleitoral mais porosa. O PS e o Bloco partilham muito eleitorado e os socialistas sabem que é ali que podem perder ou ganhar mais votos. Com o Bloco acontece o mesmo.

Tudo isto me parece saudável. Este é o momento para sublinhar as diferenças entre os partidos da “geringonça”. E é neste pressuposto que ouvi Carlos César dizer que foi “penoso” negociar com os partidos à sua esquerda. O subtexto é evidente: estivesse o PS sozinho e tudo o que foi conseguido teria sido mais simples e rápido. Não é fácil vender este peixe quando se conseguem aprovar quatro orçamentos com um superavit primário histórico e quando assistimos ao descontentamento dos funcionários do Estado. Mas BE e PCP tentarão dizer o oposto: sem eles este governo teria sido igual a todos os que o PS teve antes. Até aqui, parece-me uma guerra normal. Preferia que se concentrassem um pouco mais nas suas verdadeiras divergências políticas, mas na hora de conquistar votos não podemos esperar grande sofisticação.

O erro que nenhum dos três partidos deve cometer é assumir a retórica da direita. Isso seria mortal para todos eles. Nem aquela que diz que o PS, no fundo, é igual ao PSD, tendo sido este entendimento contranatura, nem a que aponta o BE e o PCP como irresponsáveis em que nenhum partido sério pode confiar. Isso é matar os últimos quatro anos de maioria de esquerda, que são o melhor património que os três têm. Ou preferem que as pessoas se lembrem de Sócrates ou do chumbo do PEC?

Mas pior do que assumir esta retórica é fugir para o beco em que a direita quer acantonar as duas próximas campanhas: afastar a política dos holofotes e resumir tudo a um combate ético. É natural que o PSD e o CDS tentem ir por aí. A economia está por agora melhor, as contas públicas também, as pessoas estão satisfeitas e as medidas sociais deste governo têm largo apoio. Resta cavalgar uma espécie de excecionalidade imoral dos socialistas, que tem e continuará a ter Sócrates como pano de fundo. Agora são as famílias dos ministros, depois será outra coisa qualquer. É absurdo que a esquerda siga este guião nos seus confrontos. É sair do terreno onde toda ela ganha para ir lutar noutro, onde tudo o que se conseguiu nestes anos será esquecido.

Ao descentrar a campanha das grandes escolhas políticas, levando-a para a conversa sobre os familiares do PS, Catarina Martins faz um grande favor à direita. Não por fragilizar o PS, a quem tenta disputar votos, mas porque desconcentra dos resultados sociais e económicos destes quatro anos. São esses ganhos que ela deve disputar ao PS. Os que se conseguiram e os que não se conseguiram e se podiam ter conseguido. Dos passes sociais e salário mínimo aos défices mais baixos do que alguma vez foi exigido por Bruxelas. Duas coisas que deixam a direita sem nada para dizer, na realidade.

Como seria de esperar, a resposta veio rápida e em versão piorada, com Carlos César a dizer que o seu parceiro, por ter irmãs no mesmo grupo parlamentar, não pode dar lições a ninguém. A direita, que tem uma longa história de linhagens familiares nos seus partidos, ri-se por ficar de fora do alvo e conseguir que não se fale do que realmente vale votos para o PS, BE e PCP. E ainda se ri mais por o PS ter escolhido Carlos César para falar de nepotismo.

Olhem para a relação entre o PSD e o CDS ao longo destes anos. Não ficam a dizer o mesmo mas evitam os ataques mais rasteiros. Seria bom aprenderem com eles. Confrontem-se na política. As divergências são mais do que suficientes para fazerem duas campanhas e ainda ficar muito por dizer. É um confronto que vale votos e ajuda a clarificar muitas coisas para o futuro. Deixem o resto para a direita, que quer falar de tudo menos do que melhorou na vida das pessoas.