E se o BE e PCP falassem um com o outro?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/05/2019)

Daniel Oliveira

Ainda faltam cinco meses para as eleições legislativas. Um verão com ou sem incêndios, meio ano com ou sem casos de famílias, um fim de legislatura com mais ou menos revelações sobre Tancos. Uma caminhada com ou sem greve cirúrgica inorgânica ou revolta nada cirúrgica e bastante orgânica dos professores. Ainda a procissão vai no adro e não sei se foi inteligente a facada que Costa deu aos seus aliados. Ou o ganho foi brutal (não parece), ou precipitou-se. Não devemos cuspir no prato onde ainda vamos ter de comer.

Divergências sempre as houve, algumas com um impacto orçamental bem mais profundo do que este — o resgate do Banif ou a ‘venda’ do Novo Banco, por exemplo. E houve separações em votações, com entendimentos maioritários do PS com o PSD. Não vieram da esquerda ultimatos e ameaças. Ao tentar pôr fim à geringonça sem sequer se dar ao trabalho de avisar os parceiros de maioria (aqueles que permitem que ele governe sem ter ficado em primeiro), António Costa cimentou um ambiente de desconfiança estrutural dentro da maioria que o suporta.

Suspeito que sei como Costa vai tentar resolver isto. Não vai agudizar um confronto com o PCP e com o BE que lhe retiraria a simpatia dos eleitores do PS mais à esquerda. Vai tentar explorar as más relações entre o PCP e o BE. E vai fazê-lo, antes de tudo, na Lei de Bases da Saúde. Não cedendo em nada na relação com os privados (mais altos valores se levantam), mas tendo toda a disponibilidade para regressar ao que tinha aceitado em relação às taxas moderadoras e que o grupo parlamentar do PS também fez andar para trás. Só que dando esse trunfo ao PCP. O objetivo não é premiar os comunistas. Nem sequer é, como prioridade, tramar os bloquistas, com quem disputa mais eleitores. É negociar com um e não com outro, alimentando a competição entre os dois. É dividir para reinar. Se o Bloco fosse esperto diria desde já que, com a redução das taxas moderadoras, irá viabilizar a Lei de Bases da Saúde, desarmado este jogo. Duvido que o seu orgulho ferido o permita.

Mas a questão importante é outra. É a fragilidade de dois partidos que representam quase 20% dos eleitores, concordam em 90% dos temas e não se conseguem sentar à mesma mesa. Não trocam informação entre si, não coordenam posições, não juntam esforços quando partilham objetivos. Isto permite que quem já tem o volante da governação, o controlo do aparelho de Estado e acesso a toda a informação que essa posição lhe dá seja o único que sabe tudo sobre as negociações que se vão fazendo. BE e PCP abdicam do seu poder por infantilidade. É justo dizer que está teimosia vem mais dos comunistas, que sentem um espaço seu ocupado por novatos — já lá vão 20 anos. Mas nunca vi do BE grande vontade de desafiar o PCP publicamente para mais do que isto.

Esta competição suicida é ainda mais idiota quando Bloco e PCP partilham muito poucos eleitores. Não se pede que vão juntos a eleições, até porque a diferença de culturas políticas e de organização tornariam isso impossível, porque têm divergências fundacionais inultrapassáveis e porque seria uma soma negativa: têm eleitorados muito diferentes, valem mais separados do que juntos.

Mas seria mais fácil entenderem-se sobre algumas opções programáticas do que com o PS. Ao não se falarem, facilitam os jogos de António Costa e prejudicam os seus eleitores. Ganha quem fica com todo o poder e toda a informação na geringonça. E isto vai ser muitíssimo evidente nos próximos cinco meses. Começa agora, com a Lei de Bases da Saúde.


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Um pensamento sobre “E se o BE e PCP falassem um com o outro?

  1. Desta vez parei no primeiro parágrafo. Chega a ser indigna a forma como os incêndios entraram no léxico político português. Quase como a bola na trave no futebol. Para os profissionais do comentário da politica e do futebol e de tudo e mais alguma coisa agoirar é uma forma como outra qualquer de gostar do país e de respeitar tantas vitimas e tantas famílias ainda enlutadas. Nojentos que põem o ego de adivinhos à frente de tudo.

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