Banqueiros assaltam a regulação bancária

(Pilar Camacho In Resistir. info, 28/02/2019)


Quando os regulados tomam conta do regulador

O chefe dos assuntos regulamentares de um dos bancos sistémicos europeus vai passar a chefiar a Autoridade Bancária Europeia (EBA), a entidade junto da qual fazia lobby e que actua como reguladora do mundo bancária da União Europeia. É como oferecer as chaves de casa ao assaltante.

Até agora, a chefia da EBA era um dos postos chave do controlo da regulação bancária que escapava ao domínio dos banqueiros. O Banco Central Europeu resolveu abolir essa situação que perturbava o domínio do sistema bancário pelos “grandes bancos que não podem falir” ao nomear o espanhol José Manuel Campa para o cargo. 

José Manuel Campa era, desde 2014, chefe dos assuntos regulamentares do Banco Santander à escala mundial. Isto é, dedicava-se a fazer lobby junto das entidades reguladoras do universo bancário, designadamente a EBA. 

Campa “era pago para fazer lobbying junto de reguladores como a EBA de modo a mudar as regras para favorecer os grandes bancos como o Santander ou, pelo menos, para tentar que as regras não os incomodem demasiado; e a partir de agora está encarregado de supervisionar a aplicação dessas regras”, comentou a organização Finance Watch a propósito do novo chefe da EBA. 

Antes disso, entre 2009 e 2011, Campa fora secretário de Estado da Economia do governo espanhol, numa altura em que os governos dos Estados Unidos e da União Europeia geriam a crise financeira através da transferência de tudo quanto era possível retirar aos cidadãos para enxertar nos bancos “em crise” – uma situação provocada pelas suas actividades gananciosas e delituosas. 

Os mesmos meios, os mesmos interesses… 

A figura de José Manuel Campa é mais um exemplo do vaivém contínuo de chefes da grande banca, e de outras áreas, entre os sectores público e privado, atropelando todas as normas que deveriam evitar conflitos de interesses, numa promiscuidade da qual as principais vítimas são os cidadãos. 

A Autoridade Bancária Europeia actua no quadro do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia. Em termos gerais, dedica-se formalmente a uma regulação que envolve normas para melhor enquadrar as actividades bancárias e assegurar a estabilidade de todo o sistema bancário. A EBA trata, por exemplo, de questões como a separação das actividades bancárias, a taxação de produtos financeiros, as regras para calcular capitais próprios, medidas que envolvem interesses avaliados em milhares de milhões de euros. 

Como se não tivesse havido crise… 

A designação para a EBA de uma figura escolhidas nos meandros dos lobbies do sistema bancário enquadra-se numa tendência acentuada pela entrada em funções da administração Trump nos Estados Unidos, que é a de destruir metodicamente todas as medidas de regulamentação postas em vigor na sequência da falência do Lehman Brothers, em 2007. 

A banca europeia tem procurado seguir o mesmo caminho, através da colocação de peças estratégicas à frente das entidades susceptíveis de contribuir para esse objectivo. A EBA era uma das organizações que, até agora, escapara a essa tomada de controlo. 

Nos bastidores da Comissão reconhece-se a existência destes jogos de interesses, que se manifestam, designadamente, por impedir que haja obstáculos à circulação de banqueiros e seus representantes entre as actividades pública e privada. 

O objectivo “é conseguir voltar a uma situação na qual nada tenha mudado desde 2008”, comenta um assessor da Comissão. Para isso, acrescenta, é essencial “recorrer às mesmas pessoas, que frequentem os mesmos meios, partilhem os mesmos pontos de vista e os mesmos interesses que regulam a marcha do mundo da finança”. 


Fonte https://www.resistir.info/financas/regulacao_banca_27fev19.html

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O BCE, a inflação e o diabo nos detalhes

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 12/07/2018)

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(Excelente análise do papel do BCE na gestão macroeconómica da zona Euro, e dos seus limites, impostos pelos Tratados.

Com o prejuízo que tais limites causam aos países mais frágeis, como Portugal, fica a pergunta se os nossos dirigentes políticos que os assinaram o fizeram por ignorância total de conhecimentos básicos de macroeconomia ou porque Portugal, à época, já não era um país soberano e, qual analfabeto, só lhe restava assinar de cruz por não saber ler.

Comentário da Estátua, 12/11/2018)


O mandato do Banco Central Europeu, estabelecido no Artigo 127 do Tratado de Lisboa, consiste prioritariamente na manutenção da estabilidade de preços e, apenas secundariamente, na prossecução de um conjunto de outros objectivos em que se inclui o pleno emprego. Isto é em si mesmo ilustrativo do viés restritivo e conservador do Tratado de Lisboa, que atribui primazia à preservação do valor do dinheiro relativamente à promoção do emprego. Contrasta, aliás, com o chamado mandato ‘dual’ da Reserva Federal norte-americana, que atribui igual importância aos objectivos de promoção do emprego e controlo da inflação.

Este mandato do BCE tem como consequência que a adopção de medidas de estímulo macroeconómico por via monetária, incluindo através da compra de activos não-convencionais, o chamado Quantitative Easing, tem como limite o aparecimento de uma dinâmica inflacionária. A partir do momento em que esta surge, o BCE vê-se obrigado a carregar no travão, ou pelo menos a deixar de acelerar – independentemente dos níveis de desemprego e de crescimento económico ou, no caso do QE, da dependência da sustentabilidade da dívida soberana dos diferentes países relativamente à sua aquisição pelo banco central.

Tudo isto faz com que a definição de estabilidade de preços assuma grande importância. No caso do BCE, esta foi definida em 1998 pelo Conselho de Governadores como ‘um aumento homólogo do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) para a zona euro abaixo de 2%’. Ou seja, o BCE guia-se pela chamada inflação global (‘headline inflation’) que, em Junho de 2018, atingiu precisamente o valor de 1,97% após um longo período bastante abaixo de 2%.

Sucede, porém, que, na zona euro, a chamada inflação ‘de base’ (ou ‘core inflation’, que retira à inflação global o efeito da variação dos preços da energia e dos alimentos, mais voláteis e sujeitos a choques independentes da dinâmica da economia) mantém-se em 0,96%, uma vez que a maior parte do aumento do IHPC no último ano é explicado pelo aumento homólogo de 8% do preço dos produtos energéticos, nomeadamente o aumento do preço do petróleo. Desde Janeiro deste ano, a inflação global subiu de 1,36% para 1,97%, mas a inflação de base até desceu, de 1,00% para 0,96%.

O BCE está assim prestes a embater no limite por si próprio imposto para a adopção de uma política monetária expansiva, o que não deixará de afectar a recompra dos activos abrangidos pelo QE à medida que estes forem vencendo. Seguramente, o argumento do IHPC nos 2% não deixará de ser mobilizado pelos ‘falcões’ dentro do BCE e na Alemanha para exigir uma orientação de política monetária mais restritiva e deflacionária.

Só que esta inflação de 2% não se deve à política monetária ter chegado a um ponto em que é completamente ineficaz e apenas gera aumento de preços; pelo contrário, o aumento de preços é fundamentalmente de origem externa e devido à evolução dos preços da energia.

Devido às minudências do mandato do BCE, o aumento do preço do petróleo acaba assim por desferir um duplo golpe: afecta directamente o poder de compra dos consumidores e a estrutura de custos das empresas, e indirectamente a actividade económica por via das restrições que impõe à política monetária. No caso de estados altamente endividados como o português, o golpe é triplo, pois por esta mesma via da inflação induzida e do mandato do BCE constrange ainda a aquisição por este último dos títulos de dívida pública no mercado secundário, pressionando em alta os juros no mercado primário.

Como dizem os ingleses, o diabo está nos detalhes.

Com amigos assim, bem o merecemos 

 

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 20/02/2018)

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O ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos, é o novo vice-Presidente do Banco Central Europeu. Uma escolha que tem três coerências que merecem desvelo. 

Luis de Guindos foi apresentado esta segunda-feira como o sucessor de Vítor Costâncio na vice-presidência do Banco Central Europeu (BCE). Decisão unânime do eurogrupo, dizem os despachos, mas também não havia mais nenhum, esclarece carinhosamente Mário Centeno. O Parlamento Europeu não gostou da sua prestação, o Partido Popular Europeu teme o deslize, os colegas não se entusiasmam, os que fazem contas percebem que um vice do Sul aumenta a possibilidade de um presidente alemão, mas isto de ser o candidato único tem mesmo muita força. Assim, será Guindos a partir de 1 de junho.

Pois, sem me arriscar a concordar com os comentadores, que são sabedores, oraculares e portanto europeístas do coração, atrevo que me parece uma escolha coerente. Não direi adequada, nisso não me apanham, caros leitores, mas coerente, assim mesmo. Guindos tem três coerências que merecem desvelo.

Em primeiro lugar, o homem era o chefe do Lehman Brothers para Portugal e Espanha em 2008. O banco faliu em setembro desse ano, e foi esse o momento de viragem a partir do colapso do subprime: o mercado desbancou, o efeito dominó varreu o mundo e mergulhámos na recessão.

Seria demasiada empáfia presumir que Guindos foi personagem assinalável nesse evento, era simplesmente um piloto dos mares financeiros a fazer-se à vida. Merece então ser alcandorado ao BCE não pelo que não descobriu nem pelo que cobriu no Lehman, mas certamente por que sabe fazer-se notar e fazer-se esquecer.

Em segundo lugar, já ministro de Rajoy, foi um dos operadores dos resgates bancários que custaram 122 mil milhões de euros em Espanha, 60 dos quais injetados no capital de diversos bancos, com sucesso variado: o CAM foi engolido pelo Sabadell, o Banco de Valencia pelo CaixaBank, o Catalunya Banc pelo BBVA, e o Bankia foi consolidado, como se dizia antigamente. Quando Draghi olhar para o seu vice, lembrar-se-á de ter dito que o Bankia foi resolvido da “pior forma possível”. E depois veio o Banco Popular, vendido do dia para a noite ao Santander pela quantia mágica de um euro, na base de uma avaliação da Deloitte que ainda hoje é secreta. A vida sorri quando se joga com milhares de milhões de euros de dinheiro público e quando se consegue uma concentração bancária que nem a ditadura nem a democracia tinham alcançado. Guindos merece o BCE por saber conduzir as coisas.

Merece ainda a vicegovernatura por uma outra razão. Guindos é um operacional, e se alguma alma caridosa que lê esta coluna de encómio ao ministro ainda não está convencida, pois então fará o favor de notar que ele entoa todos os poderes. Amigo e temente do Opus Dei, sabe que obedece quem deve e manda quem pode. Ei-lo, cinco dias depois do referendo da Catalunha, a decretar como as empresas podem mudar a sede social e a anunciar uma fuga de capitais, para defender mais o rei e a grei do que a economia. Guindos merece o BCE porque é disto que Frankfurt precisa, um expedito decisor, um excelso banqueiro e um político arrematado. Com amigos assim, que ninguém nos pergunte se a Europa tem futuro, ou sequer algum tino.