Mentiras Gerais

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 11/05/2016)

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Baptista Bastos

Foi penosa a entrevista do Durão Barroso ao Ricardo Costa. Para quê ouvir alguém que nada tem para dizer, a não ser dislates e banalidades? Aquilo cheirava a frete e converteu-se num embuste. Jorge Sampaio manifestou-se “perplexo” com as declarações do entrevistado sobre a Cimeira dos Açores, aclarando que a terminologia então utilizada pelo Barroso não correspondia à verdade do que estava em jogo. Afinal, era uma reunião para a guerra e não para a paz, como lhe fora garantido. A “perplexidade” de Sampaio traduz-se na circunstância de ter sido enganado, e o Barroso diz, agora, que o mentiroso é o Bush.

Estamos em pleno delírio interpretativo. A omissão, a mentira, como instrumentos. Surge, no proscénio, o Passos Coelho. O homem demonstra um acabrunhamento, uma soturnidade dolorosos. Ainda se não habituou à evidência de que foi escorraçado do poder. Perpassa, nos seus olhos e nas suas frases, uma fadiga inumerável.

Contrasta com a vivacidade dos seus discursos anteriores. Diz que Marcelo está radiante de felicidade, e denota o rancor mascarado que alimenta pelo Presidente. Ódio antigo não cansa. Mais tarde, a uma plateia de jovens, assevera que Portugal está a andar para trás, induzindo que o consulado dele foi uma maravilha.

Em consciência e em consonância com a verdade, pode este homem afirmar tal coisa?, ele que empobreceu o País, que provocou o aumento do desemprego; cortou nas pensões e aumentou os impostos; esteve na origem da falência de centenas de empresas; atirou para o estrangeiro quatrocentos mil jovens; desesperou milhares de famílias; não prestou contas a ninguém – pode este homem dizer tais trapalhices sem que, como na Bíblia, a boca se lhe encha de areia?

Passos e Barroso são farinhas semelhantes, provenientes, o primeiro da Juventude Comunista, o segundo do maoismo mais assanhado. Ambos abjuraram. Eis.

Um certo Abril*

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 27/04/2016)

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Baptista Bastos

 

O que foi não voltará a ser. Mas temos de estar sempre preparados para a felicidade, acaso para a descobrir ou inventar. As imagens ditosas desses dias antigos estão delidas. Fomos envelhecendo quase sem dar por isso e aquele ali já não sou eu, nem ela é ela: somos outros com a absurda ilusão de que somos os mesmos.

Passámos pelo tempo. O tempo não magoa: pune; não damos por ele, mas ele dá por nós. Numa igreja dos Altos Pirenéus está inscrita esta sentença, em forma de velado aviso: “Todas as horas nos ferem; a última mata-nos.”

Vivemos rodeados de perigos; porém, o prestígio da palavra revolução exultava-nos e convidava-nos a ir em frente. As revoluções são produto de jovens: são os beijos que nos eram proibidos, os beijos frescos e felizes que prendiam o tempo, e parecia que os não queríamos largar. Vivemos de memórias inesquecíveis e estas constroem a saudade, é o que é. E as memórias são inesquecíveis porque as seleccionamos, e somos sempre novos antes que a realidade nos surpreenda com a desconfiança e o sofrimento.

Claro que os velhos, com a consciência de o ser, propendem para a melancolia, pois talvez entendam que já não são precisos. Os velhos. Preenchem o que lhes sobra com a ideia de que alguma vez foram felizes. Isso basta aos velhos. Não sabem quanto das suas lembranças enfada os novos; não sabem ou não querem saber, o que vem a dar no mesmo.

Todavia, viveram, arrebatados, os vertiginosos dias de Abril, porque eram muito novos, e a esperança era o sonho cuja substância se tornara palpável. Não queriam “mandar aqui”: os desejos eram mais modestos: apenas desejavam que a felicidade se prolongasse. Ainda não tinham sido castigados com a evidência de que até o amor morre. As revoluções, não: transformam-se, mas a raiz inicial é sempre a mesma, singela e única: o homem precisa de liberdade e de ser feliz.

*Ao Francisco e ao Manuel, os tempos novos

Apoquentações

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 20/04/2016)

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Baptista Bastos

O deputado Montenegro, ao que parece figura de relevo no PSD, manifestou acentuada apoquentação com o facto de António Costa ter ido à Grécia visitar um campo de refugiados e, de caminho, conversar com Alexis Tsipras. O encontro durou menos de uma hora; tanto bastou para que o desassossegado Montenegro ficasse agitadíssimo de inquietação. Tsipras e Costa sabem que a União está a dissolver-se com a pressão exercida pelo triunvirato (Comissão Europeia, FMI e Banco Central) que domina países, reduz povos à submissão e impõe princípios imperiais às nações.

O mal-estar é generalizado. Os movimentos anti-austeridade multiplicam-se. A tenaz de uma política de “alternância” sem alternativa atingiu um ponto insuportável. O Partido Popular Europeu, onde se alberga toda a Direita, até às franjas do neonazismo, e ao qual pertence, com alvoroços de entusiasmo, o PSD português, actua alimentado pela arrogância de quem não tem de prestar contas a ninguém. Pedro Passos Coelho geriu o nosso país do mesmo modo discricionário. São todos farinha da mesma moagem. Presumo que o deputado Montenegro, ao criticar a curta viagem de António Costa, entendeu parte da questão; uma parte pequena, módica, e não o todo da questão.

O governo português não agrada à direcção desta Europa. As afrontosas declarações de Draghi, quando cá esteve, são significativas. E Costa tem, por igual, o que se chama “má imprensa”, porque esta abandonou o propósito fundamental de informar, esclarecer, para ser o papagaio dos poderes conservadores.

Costa pretende estimular uma contra-corrente que liberte a Europa desta evidente tirania, e recrie os princípios morais e humanos com que foi fundada a União. As coisas parecem melhorar para esta orientação. Em Espanha, em Itália e, até, na França do pobre Hollande, as inquietações populares e políticas não deixam lugar a dúvidas.

Ça ira.