Alemanha – a raiz do disparate

(João Gomes, in Facebook, 15/11/2025)


Alemanha – esse gigante educado que, no silêncio das conferências orçamentais e das reuniões noturnas, resolveu praticar um gesto de generosidade tão monumental como um suíço a distribuir relógios: prometer verbas colossais para uma guerra que já se arrasta há anos. Dizem-nos que o parlamento – depois de horas de negociações que terminam quando a cidade já cheira a pão velho – engordou a conta para Kiev até aos €11,5 mil milhões, com mais €3 mil milhões empurrados para o dossier “defesa”. Não é pequeno; é um número que brilha no papel como um troféu fiscal.

É comovente: uma potência com sinais evidentes de cansaço económico, que conversa com os ratings e conta recessões como quem conta moscas no verão, decide que a cura para todos os males é atirar dinheiro – muito dinheiro – para o teatro militar. “Vamos gastar milhões para salvar a paz”, proclama-se, como se as frases se pudessem trocar por diplomacia. E enquanto se escreve cheques, bombas continuam a cair noutros sítios – noites de drones e mísseis que fazem os noticiários parecerem guias de turismo para o inferno.

Há uma ironia que cheira a couro novo: um país que rasgou regras orçamentais, suspendeu freios e prometeu «ser o pilar da Europa», esquece-se de perguntar o que preferem os cidadãos: mais tanques ou mais hospitais? Mais Patriot’s que ninguém vê, ou mais escolas com ciência decente e transportes que funcionem sem drama? Não é que as despesas de defesa sejam por si más – mas quando a conta é servida com ares de liturgia, enquanto se declaram “prioridades estratégicas”, parece antes um jogo de cena para embalar vontades políticas.

E o resultado prático? Uma União Europeia cada vez mais empenhada em provar que não cederá – o que é, politicamente, uma espécie de heroísmo por decreto – enquanto a economia real coça os olhos e pergunta: «Alguém já consultou o tal do mercado, o trabalhador, o pequeno empresário?». A retórica europeia transforma-se em eco: quanto mais se invoca a defesa dos valores, mais se renovam os instrumentos de guerra e menos se investe nas vias diplomáticas que poderiam, talvez, arrancar o conflito desse círculo vicioso.

Pior: cada euro desembolsado assim dá também munição às falácias. Há quem proclame que a continuidade do financiamento é prova de coragem; há quem veja nisso a confissão íntima de que a diplomacia falhou – ou foi sequer tentada a sério? O gesto colossal de financiar o prolongamento do combate serve tão bem para confortar aliados quanto para adiar as perguntas incómodas: quando se acaba a guerra? Quem paga a factura social que fica depois das sirenes? Quem reconstrói aquilo que as bombas desmantelaram?

No fim, a imagem é quase lírica: a Alemanha, de rastos económicos, vende ao mundo uma imagem de robustez militar – um colosso que caminha com muletas de euro; uma Europa que brandindo cheques convive com a promessa de que, assim que se gastar o suficiente, tudo se resolve. É uma fé cara, vendida em prestações. E se a raiz do disparate fosse só folclore político, poderíamos rir. Mas não: o disparate tem recibos, e alguém, um dia, terá de os reconhecer.

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A farsa da solidariedade europeia: o fim anunciado da PAC e da coesão

(Por Miguel Viegas, in AbrilAbril, 16/07/2025)


O que está em preparação não é apenas uma mudança de modelo. É um abandono das promessas feitas aos agricultores, às regiões desfavorecidas e aos países mais pobres da União. É o regresso a uma Europa a duas (ou mais) velocidades.


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A máscara está prestes a cair. A União Europeia, tantas vezes apresentada como um projeto de solidariedade e coesão entre Estados, prepara-se para desferir uma machadada histórica na Política Agrícola Comum (PAC) e na Política de Coesão.

A proposta da Comissão Europeia para o próximo quadro financeiro plurianual 2028-2025, adornada como é habitual com promessas de flexibilidade e maior eficiência na aplicação dos recursos, não passa de uma operação de cosmética orçamental destinada a esconder uma verdade política cada vez mais crua: por um lado, os países mais ricos já não querem financiar a coesão; por outro, as prioridades da União estão cada vez mais alinhadas com as políticas belicistas da NATO e dos Estados Unidos.

O alerta vem de dentro. Jean-Luc Demarty, antigo diretor-geral da Agricultura e do Comércio na Comissão Europeia, não tem dúvidas: estamos perante uma tentativa de desmantelar a PAC tal como a conhecemos. A proposta de fundir num único instrumento jurídico os fundos agrícolas e os fundos de coesão é uma porta aberta à sua destruição. Cada Estado passaria a aplicar as suas próprias medidas, minando o princípio da política comum e abrindo a caixa de Pandora das distorções de concorrência entre agricultores europeus. O que começou nos anos 1960 como um pilar da integração está agora prestes a ser atomizado em nome de uma falsa eficiência.

Este movimento inscreve-se num contexto mais vasto. Em primeiro lugar, importa sublinhar que o orçamento da UE tem vindo a diminuir devido à pressão dos chamados «contribuintes líquidos», que têm conseguido impor a redução das suas contribuições ao longo das últimas décadas. Em segundo lugar, o próximo Quadro Financeiro Plurianual 2028-2035, que será apresentado este mês pela Comissão Europeia, está sob forte pressão orçamental, em parte devido ao famoso plano Next Generation EU. Este foi vendido como um apoio a fundo perdido, mas resulta, na realidade, de um empréstimo feito em nome da União, cujo reembolso recairá sobre os próximos orçamentos. Assim se agrava ainda mais a escassez de fundos para as políticas estruturais.

Vale a pena recordar que este instrumento de relançamento económico após a crise da covid-19, foi apresentado com a promessa de que este não representaria um custo adicional para os contribuintes, sendo financiado por novas receitas próprias — promessa que nunca se concretizou. Por fim, temos as novas prioridades. A União Europeia pretende transformar-se rapidamente num bloco geopolítico militarizado, canalizando recursos para a indústria da defesa e alimentando uma lógica de confronto externo. A agricultura, a coesão territorial e o desenvolvimento rural tornam-se, assim, objetivos secundários.

O que está em preparação não é apenas uma mudança de modelo. É um abandono das promessas feitas aos agricultores (cujo rendimento continua abaixo da média da população), às regiões desfavorecidas e aos países mais pobres da União. É o regresso a uma Europa a duas (ou mais) velocidades, onde a solidariedade é um slogan vazio e a política comum, uma miragem.

O que aí vem é grave. Há muito que o PCP denuncia esta União Europeia neoliberal, federalista e militarista. É tempo de lançar as bases para um novo projeto de integração, fundado na valorização do trabalho, na solidariedade entre os povos, no respeito pela soberania nacional e centrado na defesa da paz e do desarmamento.

A renazificação europeia em curso

(Carlos Esperança, in Facebook, 17/07/2025)


Não é preciso conhecimento profundo da década de trinta do século passado para ver as semelhanças com os nacionalismos que irrompem na Europa. Repetem-se os sinais que precederam a ascensão do nazi-fascismo e a eclosão da 2.ª Grande Guerra.

O racismo, a xenofobia, o anticomunismo e a alegada identidade nacional, alimentados a partir de mitos identitários e potenciados por estagnação económica, foram o álibi para perseguições às vítimas mais à mão, os estrangeiros, os ciganos e os judeus. Hoje são os magrebinos, os indostânicos, os pretos e os islâmicos de qualquer etnia.

Ontem, ao ver imagens da caça a imigrantes por bandos de extrema-direita nas ruas de Torre Pacheco, uma cidade na região de Múrcia, aqui ao lado, em Espanha, lembrei-me da Noite de Cristal, 9 e10 de novembro de 1938, em que o regime nazi coordenou a onda de violência antissemita que percorreu a Alemanha. Foi um primeiro ensaio.

Hoje não se consegue perceber esta histeria da corrida ao armamento sem regressar ao século passado. A Alemanha e a Itália, à semelhança do Japão, armaram-se, não para se defenderem de qualquer invasão, mas para invadirem e ocuparem os países vizinhos até à capitulação. Não devemos estigmatizar países, mas não podemos esquecer a História.

A obsessão pela indústria da defesa do oligarca Friedrich Merz, novo chanceler alemão, não tranquiliza. As dificuldades da indústria automóvel alemã exigem a reconversão e é tentador juntar a Volkswagen, a Mercedes-Benz e a BMW à Rheinmetall e à Airbus para a rentável produção de armas. É a renovação da tradição do império Krupp no ramo.

Macron, podia lembrar-se dos soldados alemães a desfilar sob o Arco do Triunfo, mas decide, por intermédio do seu Primeiro-ministro, juntar-se à febre armamentista, tentando congelar as pensões e os salários da função pública sem os atualizar à inflação, uma receita copiada de Passos Coelho. Até na eliminação de dois feriados a França não é original. Foi feita por Passos, com a bênção de Cavaco, e apoiada na Assembleia da República pelo então líder parlamentar Montenegro.

Certamente os franceses não permitirão o despautério. Mas não tenho a mesma esperança nos portugueses e em Portugal, onde o desvario do Presidente da República, em sucessivas dissoluções da Assembleia da República, transferiu o poder para o PSD e acrescentou 50 deputados ao Chega, que tão ingrato ora se mostra.

Entretanto, a Turquia, onde se prendem os oposicionistas, nomeadamente os autarcas da oposição, é o nosso aliado preferencial. A ocupação de parte norte do Chipre está esquecida e finge-se ignorar que o Irmão Muçulmano Erdogan caminha para uma ditadura islâmica.

E fala-se na defesa das democracias obedecendo a Trump e ao seu capataz Mark Rutte, sem lhe ser censurada a interferência nos tribunais do Brasil e de Israel ou a cumplicidade nas atrocidades de Netanyahu sobre Gaza e invasões da Cisjordânia, Irão e Síria!

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