Novo Ano

(Agustina Bessa-Luís, in ‘Caderno de Significados’, Guimarães Editora, 2013)

2017

Eu desejaria que o Novo Ano trouxesse no ventre morte, peste e guerra. Morte à senilidade idealista e à retórica embalsamada; peste para um certo código cultural que age sobre os grupos e os transforma em colectividades emocionais; guerra à recuperação da personalidade duma cultura extinta que nada tem a ver com a cultura em si mesma.

Eu desejaria que o Novo Ano trouxesse nos braços a vida, a energia e a paz. Vida o suficientemente despersonalizada no caudal urbano para que os desvios individuais não sejam convite ao eterno controlo e expressão das pessoas; energia para desmascarar o sectarismo da sociedade secularizada em que o estado afectivo é mais forte do que a acção; paz para os homens de boa e de má vontade.


Para todos os que me lêem e seguem aqui ficam também os meus votos de Bom Ano novo. Se não for pedir muito às divindades, melhor um pouco do que 2016. Pelo menos, tenhamos essa luz e essa esperança.

(Estátua de Sal, 30/12/2016)

Entrevista com Deus – balanço de 2016

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 30/12/2016)

quadros

Jornal de Negócios: Para fazer o habitual balanço do ano, que agora termina, temos connosco Deus. Olá, Deus. Como criador do universo, o que tem a dizer sobre o ano de 2016?
Deus: Se calhar, ainda é cedo para fazer balanços. Ainda faltam mais de 24 horas para acabar 2016, e ainda há tempo para levar mais uns quantos e causar mais uns estragos.
JN: Isso não é bom…

Deus: Pois não. 2016 é das minhas piores criações de sempre. Até me custa assinar esta obra. Correu tão mal que, por mim, desisto de fazer o próximo ano. Vou largar isto, de ser responsável pelo destino dos homens, e vou abrir uma loja no Chiado. Vai ser um pequeno paraíso no inferno que é a baixa de Lisboa.

JN: Mas… se Deus abandona o seu posto, quem é que fica responsável pelo universo?
Deus: Estava a pensar no Doutor António Costa.
JN: No nosso PM?!
Deus: Exactamente. A única coisa que correu bem este ano foi aquilo a que chamaram a Geringonça. Juntar PCP, BE e PS numa coligação é o equivalente ao big bang, e o homem deu conta daquilo. Além do mais, ele tem uma característica essencial para este trabalho: evitar que o Diabo apareça.
JN: Não fazia ideia que Deus estivesse tão atento ao que se passa no nosso país.
Deus: Isso é de uma ingratidão. Já se esqueceram que venceram o Euro 2016. Acha que aquilo aconteceu por acaso?
JN: Realmente, foi um milagre.
Deus: Pois. E não foi nada fácil. Deu mais trabalho fazer o Éder acertar aquele remate na baliza do que fazer a Luz.
JN: Hum…, desculpe a pergunta, mas se Deus pode fazer com que Portugal vença o Euro, porque não usou esse poder para evitar, por exemplo, a vitória de Trump?
Deus: Isso é uma pergunta complicada. Posso usar a ajuda do público?
JN: Não.
Deus: E ligar para um amigo?
JN: Também não.
Deus: Sabe que Deus escreve direito por linhas tortas. Mas tem de ser daqueles cadernos pautados, senão perco-me. Vou ser sincero. Nunca me passou pela cabeça que ele ganhasse. Eu guio-me muito pelas sondagens.
JN: Eu pensava que Deus era menos de sondagens e mais de “fia-te na Virgem”.
Deus: Também é preciso ter em conta que, quando eu criei o Trump, foi só porque queria experimentar o que se obtinha se misturasse um ser humano com uma delícia do mar. Quem diria que aquilo ia chegar a presidente dos EUA?! Eu já devia ter aprendido quando fiz a Margaret Thatcher e misturei uma costela de Adão com a parte de trás de um esquentador.
JN: Isso é tudo muito interessante, mas como justifica, por exemplo, a morte de David Bowie, Prince, Leonard Cohen e George Michael? Qual é a desculpa para uma brutalidade destas num ano?
Deus: Eu explico. Isso tem a ver com a tal ideia de abrir uma loja no Chiado. É uma loja de discos vinil. Estão de novo na moda e eu tenho todas as edições originais destes grandes artistas. E estou a guardar o falecimento do Mick Jagger para o dia da inauguração. Vai ser só facturar.


TOP 5

Fim de ano

1. Augusto Santos Silva, compara concertação social a feira de gado Filhos do embaixador do Iraque comparam Augusto Santos Silva a touro manso.

2. Presidência da República emite voto de pesar pela morte de George Michael Cavaco Silva já veio lamentar a morte de John Lennon.

3. Fernando Santos foi eleito o melhor seleccionador do mundo de 2016 pela IFFHS e festejou com o melhor bolo de chocolate do mundo e o melhor pastel de nata do mundo.

4. Críticos de Passos recolhem assinaturas para convocar congresso extraordinário. Já assinaram: Gaspar, Belchior e Baltazar.

5. Ministro dos Negócios estrangeiros pede desculpa por comparar concertação social a feira de gado: quem se mete com a CS (Concertação Social), leva.

O melhor e o pior da política portuguesa em 2016

(In Blog O Jumento, 29/12/2016)

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Deputados

+  Há uma nova geração de deputados no parlamento de que pouco se fala, mas que já preenchem uma boa parte da actividade parlamentar. São deputados competentes, tecnicamente bem preparados, que estudam bem os dossiers. O destaque vai para o deputado João Galamba, do PS, aquele que atingiu um patamar mais levado dentro do seu partido e um dos deputados do parlamento que melhor se prepara para as suas intervenções quase diárias.
–  Do passado herda-se a imagem do deputado que fala muito, que é agressivo e que muitas vezes berra. Um exemplo desta abordagem queirosiana do debate parlamentar é proporcionada pelo truculento deputado Carlos Abreu Amorim, um homem que tem vindo a evidenciar uma grande vocação de navegador pois desde que apareceu na política que faz a circum-navegação da direita, começou no PND e foi uma personagem de destaque deste PSD quase de extrema-direita, liderado por Passos Coelho. Digamos que é um dos deputados mais viajados do parlamento.

Presidência
+  Marcelo parece o coelhinho da Duracell e chega ao fim de 2017 com as pilhas carregadas e com  paciência para ir almoçar com  um Passos Coelho destroçado.
–  Alguém se lembra de um tal Cavaco Silva?

Ministros
+  Centeno provou que era possível ser um ministro das Finanças competente sem que a competência decorresse das suas aptidões para a canalhice. O meu patrício Mário Centeno acabou com a imagem salazarista dos ministros das Finanças que para reduzirem os défices eram modelos de sacanice em matéria de distribuição de rendimentos.
–  Augusto Santos Silva poderia ter sido um dos melhores ministros escolheu os últimos dias de Dezembro para borrar a opa. Como é possível que um político com a experiência do ministro dos Negócios Estrangeiros e número dois do governo, não saiba como se deve comportar em público, pondo em causa a imagem de todo o governo e o sucesso de uma negociação na concertação social? Santos Silva não se deve recordar dos corninhos exibidos pelo seu colega Manuel Pinho, quando este era ministro da Economia. Depois de ter conseguido o melhor, ajudando Guterres a chegar a secretário-geral da ONU, faz esquecer o seu sucesso com uma conversa disparatada.

Primeiro-ministro / Líder da oposição
+  António costa destruiu os mitos da austeridade de Passos Coelho, é possível reduzir o défice sem penalizar grupos sociais ou profissionais, chegando ao fim do ano sem surpresas ou orçamentos rectificativos. Pelo caminho tapou muitos buracos e alçapões deixados pela dupla formada por Passos e Maria Luís. Aos poucos o país regressou à normalidade, com o povo a viver sem a chantagem permanente de um primeiro-ministro extremista, que tinha um especial prazer sádico em impor sacrifícios aos portugueses, em especial aos mais pobres ou aos que odiava, como os funcionários e os reformados.
–  Passos Coelho pensava que nas contas das maiorias parlamentares o CDS contava, mas os deputados do BE e do PCP só contavam para derrubar governos do PS. Enganou-se, teve de sair do governo empurrado e ainda hoje não sabe o que lhe sucedeu. Não soube sair da liderança do PSD e agora ninguém sabe como o tirar, ainda que todos saibam que está a mais.

Fonte: O JUMENTO: O melhor e o pior da política portuguesa em 2016