As ucranetes emocionam-me

(In RiseUp Portugal, in Facebook, 21/08/2026, Revisão da Estátua)


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Chamemos-lhes, por comodidade, «ucranetes»: aquela curiosa espécie de adepto incondicional da Ucrânia e de Zelensky para quem qualquer crítica a Kiev é automaticamente uma defesa da Rússia, qualquer pergunta sobre corrupção é propaganda de Putin e qualquer tentativa de discutir factos exige primeiro uma declaração pública de fidelidade à causa.  Antes de mencionar um caso de corrupção em Kiev convém esclarecer que Putin é mau, que a invasão é condenável e, se houver tempo, dizer qualquer coisa sobre a Crimeia. Só depois desta pequena cerimónia de purificação se pode, talvez, perguntar onde foi parar o dinheiro. E mesmo assim há riscos.

Publica-se uma investigação sobre corrupção envolvendo ministros, antigos ministros, responsáveis do gabinete presidencial, amigos e antigos parceiros de Zelensky e aparece inevitavelmente alguém com a objecção que julga definitiva: «E na Rússia?» Sim, na Rússia também há corrupção. Bastante. Há, aliás, corrupção em muitos países. O que continua por explicar é de que maneira a corrupção russa torna irrelevante a corrupção ucraniana. Se estivermos a falar de um assalto em Lisboa, ninguém especialmente lúcido interrompe a conversa para exigir uma posição sobre os carteiristas de Barcelona. Mas a geopolítica parece conceder certas liberdades ao raciocínio que a vida comum não permite.

Mais divertido é quando aparece o comunismo. Critica-se Zelensky e alguém descobre imediatamente uma inclinação comunista no autor da crítica. É uma associação que exige uma relação muito livre com a realidade. Putin é sustentado politicamente pela Rússia Unida, um partido nacionalista, conservador, autoritário, defensor dos chamados valores tradicionais e situado à direita. O Partido Comunista da Federação Russa existe, por acaso, e é outro partido.

Mas isto já obriga a distinguir a Rússia de hoje da União Soviética, coisa que para algumas pessoas parece constituir uma exigência historiográfica excessiva. Rússia é Rússia, portanto comunismo. Putin nasceu na URSS, logo provavelmente passa as noites a estudar Marx entre um jantar com oligarcas multimilionários e um discurso sobre Deus, família, pátria e valores tradicionais.

A ignorância, apesar de tudo, não é o problema mais grave. A ignorância pode corrigir-se. O problema começa quando a ignorância ganha convicção e passa a exigir respeito. É aí que a Ucrânia se torna particularmente interessante. Se a corrupção é russa, demonstra a natureza do regime. Se é ucraniana, deve ser imediatamente acompanhada por uma explicação sobre Putin. Se aparece um homem próximo de Zelensky numa investigação, é um caso isolado. Se aparecem ministros, antigos ministros, altos responsáveis da Presidência, um antigo chefe de gabinete, amigos e um velho parceiro empresarial, continuamos perante vários casos isolados que tiveram apenas o azar de se conhecerem todos. Uma pessoa menos emocionalmente investida talvez começasse a achar curiosa a frequência das coincidências. O adepto prefere aumentar o número de coincidências.

Depois há o dinheiro. Centenas de milhares de milhões em apoio militar, financeiro e humanitário foram mobilizados para a Ucrânia e seria razoável imaginar que perguntar como esse dinheiro é fiscalizado constituísse uma preocupação banal num continente que passa metade do tempo a falar de transparência, controlo da despesa pública e responsabilidade democrática. Mas não. Perguntar pelas contas pode transformar uma pessoa, num instante, em simpatizante de Putin. E quando aparece um caso de corrupção ucraniano, a primeira preocupação das ucranetes é invariavelmente lembrar que na Rússia também há corrupção.O que seria um argumento formidável se os contribuintes europeus estivessem a financiar o Estado russo. Não estão.

E é aqui que a coisa ganha uma beleza especial. Há europeus muito mais indignados com a corrupção praticada com dinheiro que não é deles do que com a possibilidade de corrupção num Estado para o qual seguem centenas de milhares de milhões em dinheiro, armas e recursos pagos, directa ou indirectamente, pelos seus próprios impostos. Ou seja, perante dois corruptos, interessa-lhes sobretudo fiscalizar aquele a quem não deram dinheiro. É uma forma tão extraordinária de zelo pelo erário público que quase merece estudo. Se um vizinho lhes roubar a carteira, talvez chamem a polícia para investigar as contas do homem que vive três ruas abaixo. É preciso ser-se muito especial.

Chegámos assim a uma situação curiosa: as próprias autoridades ucranianas podem investigar corrupção na Ucrânia, fazer buscas, prender suspeitos e acusar altos responsáveis ucranianos, mas um português que mencione essas mesmas investigações arrisca-se a ser acusado de propaganda russa. A NABU investiga em Kiev. A imprensa internacional noticia. Alguém em Portugal reproduz a informação. E há sempre um cérebro particularmente treinado que, depois de percorrer toda esta cadeia, consegue encontrar Putin escondido na publicação portuguesa.

A Rússia pode ser autoritária, corrupta, responsável por uma invasão ilegal e governada por um homem que ninguém é obrigado a admirar. Nada disso altera uma factura falsificada, uma comissão ilegal ou um suborno cometido na Ucrânia. Uma coisa não apaga a outra. Não é uma conclusão particularmente sofisticada. Exige apenas a capacidade de conservar duas ideias na cabeça ao mesmo tempo.

Talvez seja precisamente aí que esteja o problema.

O fanático não começa por perguntar se um facto é verdadeiro. Começa por perguntar a quem esse facto aproveita. Se prejudica o adversário, é informação. Se prejudica o seu lado, é propaganda. Depois procura um russo, um comunista ou qualquer outro culpado suficientemente distante para não ter de discutir aquilo que estava diante dele.

No fundo, o fanatismo político começa exactamente onde acaba a curiosidade: quando saber se é verdade passa a ser menos importante do que saber de que lado está. E há poucas formas de ignorância mais resistentes do que aquela que se julga esclarecida.

Portugal sabia que ia envelhecer, porque não se preparou?

(Nuno Marques, in Público, 22/08/2026)

Woman walking with a cane along a coastal promenade at sunset
Imagem gerada por IA

Envelhecer não é, em si mesmo, uma tragédia. O problema começa quando um país envelhece sem adaptar as suas políticas públicas à transformação demográfica que conhece de antemão.


Há problemas que surpreendem um país. E há outros que se anunciam durante décadas, crescem diante dos nossos olhos e, ainda assim, são tratados como se tivessem chegado ontem. O envelhecimento da população portuguesa pertence claramente à segunda categoria.

Foi, por isso, importante ouvir o Presidente da República, António José Seguro, chamar a atenção para uma realidade que há demasiado tempo deveria ocupar o centro do debate político: a falta de respostas para milhares de idosos e famílias que procuram condições dignas para envelhecer. Não estamos perante uma emergência imprevisível. Estamos perante o resultado de décadas sem visão e sem planeamento. Seguro alertou mesmo para uma “bomba-relógio” demográfica, sublinhando que a solidariedade da sociedade civil não pode substituir a responsabilidade primeira do Estado.

Envelhecer não é, em si mesmo, uma tragédia. Pelo contrário: viver mais é uma conquista social. O problema começa quando um país envelhece sem adaptar as suas políticas públicas à transformação demográfica que conhece de antemão.

Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da União Europeia (UE). Em 2025, 23,2% da população tinha 65 ou mais anos e a idade mediana atingia 47,3 anos, a segunda mais elevada da União, a par da Bulgária e apenas atrás de Itália. Em 20 anos, Portugal foi ainda o segundo país da UE onde a idade mediana mais aumentou. Nada disto aconteceu de repente.

Apesar disso, chegámos a 2026 com 70% das residências sénior analisadas num estudo recente sem vagas disponíveis. Em 2025, um quarto individual custava, em média, 1921 euros por mês, e quase 70% das instituições analisadas tinham listas de espera. Para demasiados pensionistas e famílias, a dignidade na velhice passou a depender da capacidade financeira dos filhos, das poupanças acumuladas ou, simplesmente, da sorte de encontrar uma vaga.

Acompanho a política portuguesa desde muito novo e não me recordo de ver o envelhecimento transformado, de forma persistente, numa verdadeira prioridade nacional. Temos energia política para reformas laborais, leis da nacionalidade, digitalização das provas escolares e sucessivas polémicas do dia. Mas onde está o grande debate nacional sobre como queremos envelhecer? Onde estão os compromissos para daqui a dez, 20 ou 30 anos?

A responsabilidade não é apenas de quem governa. Também é de quem é governado. A política responde, inevitavelmente, às prioridades que uma sociedade lhe exige. Talvez devêssemos perguntar por que razão conseguimos discutir durante dias futebol, treinadores, a continuidade de Ronaldo na selecção ou as férias de um primeiro-ministro, mas raramente exigimos aos partidos que expliquem como pretendem cuidar de milhões de portugueses que envelhecem.

Vivo na Noruega há mais de duas décadas e sou vice-presidente de um município de média dimensão desde 2019. Nem Portugal é tão mau como muitas vezes o descrevemos nem os países nórdicos são perfeitos. A Noruega também enfrenta falta de profissionais, pressão financeira e enormes desafios nos cuidados de saúde. Mas há uma diferença essencial: planeia-se.

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Na Noruega, sabe-se que já em 2030 haverá mais idosos do que crianças. A resposta começou muito antes de 2030 chegar. Há anos que Estado e municípios adaptam habitação, urbanismo, serviços domiciliários, prevenção, tecnologia, residências assistidas e instituições para quem necessita de cuidados permanentes. A prioridade é permitir que as pessoas permaneçam em casa, com apoio, durante o maior tempo possível, reservando os cuidados residenciais para quem deles realmente necessita. E, no internamento de longa duração, a contribuição do utente é calculada em função do rendimento.

Claro que a Noruega dispõe de recursos que Portugal não tem. Mas essa explicação é demasiado confortável. Política não é apenas saber quanto dinheiro existe. É decidir antecipadamente onde o aplicar, o que priorizar e que sociedade se quer construir.

Seguro recordou que aqueles de quem hoje temos de cuidar criaram filhos, construíram o país e cuidaram das gerações que se seguiram. Tem razão.

Os nossos pais e avós merecem mais do que listas de espera, respostas improvisadas e uma fatura que muitas famílias não conseguem pagar. Merecem visão, planeamento e escolha política. Merecem envelhecer com dignidade.

E convém não esquecer uma coisa: se tivermos sorte, os idosos de amanhã seremos nós.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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Ucrânia: 4 anos de guerra para voltar à mesa de negociações de 2022

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 20/08/2026, Revisão da Estátua)


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Assim, foram necessários quatro anos, montanhas de cadáveres, milhões de refugiados, um país mutilado e centenas de milhares de milhões de dólares transformados em fumo para que Washington descobrisse esta tecnologia diplomática revolucionária: uma mesa e duas cadeiras.

The American Conservative atreve-se agora a colocar a questão obscena: e se as negociações de 2022 tivessem sido uma oportunidade que deveria ter sido explorada até ao fim?

Porque, em Istambul, estava-se a conversar. Neutralidade ucraniana, garantias de segurança, estatuto territorial: nada foi resolvido, mas estavam em cima da mesa elementos suficientes para que vários participantes descrevessem desde então uma séria possibilidade de compromisso.

Depois chegaram os patrocinadores ocidentais com a sua brilhante estratégia: acima de tudo, continuar. A Ucrânia forneceria os homens. O Ocidente forneceria as armas. E os ecrãs de TV dariam a vitória.

Boris Johnson aterra em Kiev, Washington promete o seu apoio, as chancelarias europeias descobrem Churchill no seu espelho e um exército de consultores geopolíticos anuncia que Moscovo vai entrar em colapso em breve.

Quatro anos depois, Moscovo ainda não colapsou. A Ucrânia, por outro lado…

É aí que o artigo se torna particularmente cruel: Kiev terá provavelmente de negociar de qualquer forma, mas numa situação potencialmente muito pior do que em 2022. Magnífico desempenho estratégico.

Recuse um compromisso quando ainda tem cartas para jogar, para trocar por outro quando tiver perdido algumas delas: provavelmente foram necessárias algumas centenas de think tanks ocidentais para chegar a algo tão brilhante.

Mas a melhor parte está apenas a começar. O discurso americano está a mudar silenciosamente de “a Ucrânia tem de ganhar” para “precisamos de encontrar uma saída”. Tradução diplomática: quando a vitória se torna demasiado cara, rebatizamos o recuo como “realismo”.

É obviamente muito cedo para falar numa reviravolta geral na direita americana. Mas os ratos intelectuais estão claramente a começar a testar os barcos salva-vidas. Em breve aparecerão aqueles que explicarão que sempre foram a favor das negociações. Os mesmos que ontem rotularam qualquer defensor do compromisso de capitulador, de idiota útil ou de agente russo, descobrirão subitamente as virtudes do pragmatismo.

E, naturalmente, ninguém será responsável. Washington dirá que defendeu a liberdade. Londres dirá que defendeu a Ucrânia. Bruxelas dirá que defendeu os seus valores. Os especialistas explicarão que ninguém poderia ter previsto isto.

Todos terão razão. Exceto os ucranianos que estão enterrados. Terão simplesmente tido o privilégio histórico de morrer enquanto os seus aliados aprenderam a geopolítica através da tentativa e do erro.

Em 2022, negociar era traição. Em 2026, a negociação torna-se realismo. Entre os dois momentos, existe simplesmente um país que pagou as propinas.