Uma história de aflição

(José Sócrates, in Expresso Diário, 17/01/2023)

O antigo primeiro-ministro e arguido na Operação Marquês critica o ex-camarada António Costa por, tal como André Ventura, “presumir a culpa” do presidente demissionário da Câmara de Espinho, preso preventivamente por suspeitas de corrupção. E diz que o PS está a atacar “com mais violência” do que a oposição os governantes que se viram obrigados a demitir-se na sequência de vários escândalos. Para Sócrates, estamos a caminho de uma “República Penal”


Diz o líder da extrema-direita que a prisão do Presidente da Câmara de Espinho é uma vergonha. Em resposta, o primeiro-ministro apressa-se a concordar – quando um político é preso, diz ele, todos os outros se sentem envergonhados. Como só temos vergonha da culpa, não da inocência, o que os dois estão a dizer é que presumimos a culpa de quem é preso.

E pronto, assim dito, com a solenidade do que é dito no Parlamento, a República muda de natureza – deixamos de presumir a inocência, agora presumimos a culpa. Nem direito a defesa, nem direito a julgamento, nem sentença transitada em julgado. O Estado português, segundo o primeiro-ministro e o líder da extrema-direita, já não precisa de acusar, já não precisa de provar, já não precisa de julgar – basta prender e presumir a culpa. A República a caminho de uma República penal.

O Presidente da Câmara é companheiro político do primeiro-ministro, o que torna tudo ainda mais difícil para o primeiro. Para este último, o primeiro-ministro, se não há escrúpulos com a Constituição, também não haverá com a decência pessoal. O respeito pela dignidade do outro, seja ele quem for, que impõe ouvir primeiro o que o visado tem a dizer em sua defesa, já não vem ao caso. Naquele partido fazem-se agora condenações sumárias.

Quando no governo, o partido socialista parece já não reconhecer as garantias constitucionais nem os limites ao poder estatal. Nem o valor supremo da liberdade individual na ordem penal. O princípio geral do direito democrático de aguardar o julgamento em liberdade é lentamente substituído pela exceção da prisão preventiva, justificada, na maior parte dos casos, por motivos absolutamente fúteis, falsos e enganosos.


O discurso que se ouviu no parlamento não só não respeita os direitos fundamentais como não respeita também os mais básicos deveres de cidadania que todos temos uns para com os outros. E muito menos os deveres de camaradagem, palavra que já significou alguma coisa naquela organização política. Naquele momento do debate a única coisa que parece interessar é o cálculo, a carreira e o instinto de poder. E a covardia política, já agora. Esta última convenientemente disfarçada de “superior interesse do partido”. E, no entanto, seria tão fácil usar a correção e a seriedade. Bastaria lembrar a presunção de inocência, bastaria lembrar que é preciso esperar para ouvir o que o visado tem a dizer, bastaria lembrar que tendo sido alguém preso, compete agora ao Estado, aos órgãos penais do Estado, a responsabilidade de apresentar as provas da conduta criminosa.

Vem, aliás, a propósito lembrar que na operação “teia”, três anos depois das prisões de presidentes da Câmara (as prisões são de Maio de 2019) o Estado ainda não apresentou nem as provas nem as acusações contra os arguidos. Não apresentou nada, a bem dizer, a não ser a habitual campanha televisiva de difamação dos principais visados. O flagrante abuso do poder judicial seria escandaloso em qualquer outro país democrático, mas o jornalismo português insiste em normalizá-lo, lembrando todos os dias que tem a última palavra quando se trata de considerar o que é e o que não é escandaloso. Mas regressemos ao episódio parlamentar para concluir que, bem vistas as coisas, o evento apenas ilustra a mudança de cultura política.

Já houve alturas em que naquele partido nenhum fim social era considerado legítimo se não respeitasse os direitos e garantias constitucionais. Nenhum interesse coletivo seria aceitável se implicasse o sacrifício do princípio de presunção de inocência, base do direito moderno. Parece que não mais. No mesmo momento em que aplaudem o seu líder os deputados socialistas enterram também a sua Declaração de Princípios: “O Partido Socialista considera primaciais a defesa dos direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos”. As palmas dos deputados homenageiam um outro sucesso – o da extrema-direita. Bravo.

No dia a seguir, mais informações. As suspeitas de que o pior foi pensado são absolutamente e completamente confirmadas – a indagação prévia de futuros membros do governo foi proposta ao Ministério Público, quem mais? Vitória total da corporação – o direito de veto político, finalmente. Não a responsabilidade de governar, mas o poder de dizer quem pode e quem não pode entrar no jogo político. Não mais ser o garante da legalidade democrática, mas, em última análise, transformar-se no “grande avaliador” da política e da qualidade dos membros do governo – tudo isto, claro está, em substituição do Parlamento e em violação do princípio da separação de poderes. Mas nada disso parece vir ao caso, o que interessa é que se alguém se portar mal, se aplicar políticas das quais discordemos, tirar-lhe-emos o alvará e pronto.

No fundo, no fundo, regressaríamos ao antigo regime e aos atestados de bom comportamento moral e cívico passados pelas autoridades. Lembram- se da declaração feita à polícia política por um antigo Presidente? Lá chegaremos, mais tarde ou mais cedo. Ou mais cedo do que tarde. Para já, ficámos a saber que a intenção do primeiro-ministro era sujeitar futuros governantes a responder a inquéritos policiais antes de exercerem funções.

Sim, inquéritos policiais, visto que a autonomia de investigação das policias foi há muito eliminada pelo Ministério Público que agora escolhe os chamados órgãos de polícia criminal de acordo com critérios de obediência e de servilismo. Segundo os jornais, que são quem manda, quem investiga são os procuradores – eles investigam, eles acusam e, no futuro, eles julgarão, dispensando os tribunais e os juízes independentes, que só atrapalham. A República a caminho de uma República penal.


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Montenegro vai ferido de asa

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/01/2023)

Miguel Sousa Tavares

Na caça, quando um caçador atira a uma perdiz brava em voo, acontece por vezes que não lhe acerta em cheio, mas apenas na asa, e a perdiz, apesar de ferida, continua a voar. O caçador sabe que ela está condenada, ela não. E por isso o caçador tenta imediatamente acertar-lhe novo tiro, o de misericórdia, mas também o que fará com que ela vá cair a uma distância capaz de ser “cobrada” por ele ou pelo seu cão.

De outro modo, a perdiz continuará a voar, impelida pelo balanço que leva e tirando partido do vento, até finalmente pousar fora de alcance. Então julgar-se-á a salvo, mas não está: se consegue manter o voo só com uma asa e sobreviver no chão, uma perdiz não consegue, porém, levantar voo só com uma asa, e o voo é a sua defesa. Ferida de asa, no solo, a perdiz, como dizem os caçadores, “fica para a raposa”. Para a raposa, para o saca-rabos, para o javali, para o lince, para a águia, para qualquer predador.

Não será exactamente assim na política, mas eu lembrei-me exactamente disto quando vi Luís Montenegro em claro desassossego para conseguir explicar a Bernardo Ferrão, na SIC, os seus negócios de advogado com as Câmaras de Espinho e Vagos. Quanto mais ele se abespinhava e exaltava, declarando não admitir a ninguém dúvidas sobre a sua conduta, mais eu via ali um voo de perdiz atingida por um tiro na asa. Porque aqui não há qualquer dúvida quanto aos factos, incontestados pelo próprio: durante os anos em que esteve afastado da política, o escritório de advogados de que o agora presidente do PSD detinha 50% de quota celebrou vários contratos de prestação de serviços jurídicos com as câmaras, à frente das quais estavam amigos, conterrâneos e correligionários de partido seus. O escritório facturou com isto mais de 400 mil euros e, uma vez regressado Montenegro à política como presidente do partido, fez do presidente da Câmara de Vagos membro da direcção do partido e do da Câmara de Espinho, que entretanto perdera a reeleição, vice-presidente da sua bancada parlamentar e presidente da comissão parlamentar de revisão constitucional. Tudo isto é absolutamente legal e juridicamente inatacável. Porém…

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Porém, como Luís Montenegro facilmente percebe e sabe que nós percebemos, a questão está em saber se ele e o seu escritório de advogados foram contratados por aquelas duas câmaras municipais por à frente de ambas estarem dois amigos e colegas de partido. Para quem, como eu, vê como um dos maiores perigos nas constantes tentativas de regionalizar o país o compadrio entre amigos e correligionários políticos que fatalmente se instalaria na distribuição de cargos, subsídios e dinheiros públicos, esta questão é tudo menos menor. Ora, para melhor se defender, Montenegro realçou que apenas tinha celebrado contrato com aquelas duas câmaras. Justamente: eis o que agrava a suspeita, em vez de a afastar. Fosse ele ou o seu escritório tidos como especialistas em acompanhamento jurídico de matérias do âmbito municipal, e o normal seria que outras câmaras e de outras filiações políticas recorressem aos seus serviços, e não apenas aquelas duas onde reinavam amigos e colegas de partido dele. E, vendo a questão pelo outro lado, uma consulta ao portal da Ordem dos Advogados revela-nos que há inscritos em Espinho 57 advogados e 67 em Ovar, e, mesmo não contando com as centenas que estão no Porto, ali mesmo ao lado, há uma profusão deles nas comarcas vizinhas de Espinho e Ovar: 177 em Aveiro, 74 em Oliveira de Azeméis, 60 em Paços de Ferreira, 78 em S. João da Madeira, 208 em Santa Maria da Feira. Como é que todos os contratos de Espinho durante vários anos foram sempre parar às mãos dos mesmos? E resta ainda uma outra questão, que também está longe de ser menor: como é sabido, a gestão do anterior presidente da Câmara de Espinho, Joaquim Pinto Moreira, que contratou durante anos os serviços do escritório de Luís Montenegro, está sob investigação criminal. Até agora ele não foi ainda declarado suspeito de nada nem constituído arguido, apenas alvo de buscas e apreensão do computador e telemóvel: o suficiente para ter de renunciar aos cargos que exercia na bancada parlamentar do PSD. Mas antes mesmo de as coisas avançarem mais um passo que seja, Luís Montenegro, na qualidade de ex-advogado da Câmara Municipal de Espinho nesse período, já deveria ter esclarecido que não teve conhecimento de nenhum acto ilícito da vereação e, menos ainda, deu aconselhamento ou cobertura jurídica ao mesmo.

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Devo dizer que sempre tive Luís Montenegro em grande consideração. Julgo que foi um bom líder parlamentar do PSD e não me esqueci nunca quando Ferro Rodrigues, acabado de ser eleito presidente da Assembleia da República pela maioria de esquerda e contra a tradição de sempre de o cargo pertencer ao partido mais votado, fez um lastimável discurso de posse, revanchista e ressabiado. Montenegro pediu a palavra e tranquilamente explicou-lhe como é que ele tinha acabado de perder uma primeira e única oportunidade de se estrear com grandeza. Depois disso, também o vi afastar-se tranquilamente quando o PSD entendeu não ser a sua hora e ele foi à sua vida. Mas os factos são o que são: não sabia que a sua vida tinha passado por aquilo. E aquilo foi um tiro na asa.

2 A entrevista que a presidente da Comissão Técnica Independente para o Novo Aeroporto de Lisboa (NAEL), Rosário Partidário, deu esta semana ao “Público” é de deixar um português batido nestas coisas de cabelos em pé. A comissão, saída de uma resolução do Conselho de Ministros de 14 de Outubro passado, “já está a trabalhar” para apresentar até 31 de Dezembro um relatório final que indique ao Governo a localização do futuro aeroporto. Nesta fase, “temos cerca de 20 entidades com quem nos estamos a reunir agora para saber as perspectivas, as preocupações”. E depois, acrescenta ela, vão haver “vários momentos de interacção”, como “sessões com plataformas cívicas, associações de moradores… vários grupos desses”, pois que, confessa a presidente, a parte de que mais gosta do cronograma de trabalho elaborado é “diálogos, participação e envolvimento”. Ou, traduzido para português laboral, reunite aguda, intensa e inútil. Mas porque a discussão se quer o mais abrangente possível e “porque não se quer deixar ninguém de fora” nem nenhum devaneio por contemplar, a comissão não vai limitar a escolha final às cinco alternativas indicadas pelo Conselho de Ministros, mas sim alargá-la às sugestões de qualquer um, qualquer português que algum dia se descobriu capaz de decidir onde deveria ser o futuro aeroporto de Lisboa. “Vamos ter” — anunciou ela — “um mapa interactivo onde as pessoas vão poder pôr lá o aviãozinho no local que consideram ser adequado para o aeroporto e vamos acolher todas as propostas que recebermos. Não quero que ninguém fique insatisfeito”.

Eis um original método de adjudicação de obras públicas. O futuro aeroporto de Lisboa poderá ser em qualquer lugar de Portugal e ser decidido em assembleia-geral de todos os portugueses que se inscrevam para tal. Não admira que com tantas boas intenções e frutuosas reuniões no horizonte a senhora confesse que, quanto a prazos, “espera não ser controlada ao minuto, até porque ainda não consegui pôr equipas a trabalhar”. Mas, pelo sim pelo não, vai já pedir ao Governo uma prorrogação preventiva do prazo final de 31 de Dezembro, fixado apenas em Outubro passado. Presumindo que o que ela chama de “equipas” sejam os peritos que percebem do assunto e em quem temos de confiar para uma boa solução final, é estarrecedor pensar que há mais pressa em activar os curiosos que irão pôr aviõezinhos no mapa do que os que supostamente irão pôr o aeroporto no chão. Mas isto é Portugal no seu habitual.

3 Quando o ministro da Educação resolve perguntar à Procuradoria-Geral da República se esta engenhosa greve dos professores é legal — o que, além de um direito que lhe assiste, é um dever para quem governa num Estado de direito —, o líder do S.T.O.P. ameaça que, se o ministro for avante com a sua “chantagem”, convocará outros sectores para greves iguais. Mas, com a honrosa excepção do director do “Público”, Manuel Carvalho, que lhe chamou uma “greve cobarde”, tenho visto como toda a gente, todo o espectro político e a sociedade civil, se curva no temor reverencial de criticar os métodos jamais vistos desta forma de “luta”. Para uns, são 120 mil votos, para outros, são os filhos e os netos na escola.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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A guerra que a Rússia perdeu em … março de 2022

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 20/01/2023)

1 – A guerra psicológica

Em março de 2022, os “comentadores” de serviço explicavam que a Rússia havia perdido a guerra – iniciada um mês antes, além disso tinha ficado sem munições, os soldados sem vontade de lutar, até de falta de alimentos os militares russos padeciam. Estas afirmações foram repetidas mês após mês.

Na revista Visão, de 20/junho o sr. Luís Delgado (eminente administrador e dono da sociedade Trust in News, 12 revistas compradas por 10,2 milhões de euros em 2018) assegurava que com as novas armas americanas – “a vitória da Ucrânia é inquestionável, unidades russas correm o risco real de ficarem isoladas, cercadas e rendidas”. Tratava-se então dos HIMAR que mudariam o curso da guerra. Afinal a Rússia ainda não tinha sido derrotada… Deviam ter tomado atenção às palavras dos responsáveis russos: a resposta seria proporcional às iniciativas da NATO e os ataques ganhariam profundidade.

Porém havia outras “visões”: o Der Spiegel de 17/agosto, explicava porque uma grande ofensiva de Kiev no sul da Ucrânia dificilmente era possível. Uma guerra subversiva e ataques terroristas da Ucrânia são prováveis. Às Forças Armadas da Ucrânia “faltam experiência ofensiva e preparação para manobras maiores”. A Ucrânia carece de unidades bem treinadas e de armas.

As contradições da cobertura jornalística da guerra da NATO contra a Rússia na Ucrânia, assemelham-se – tal como a estratégia militar no terreno – às práticas nazis na fase em que a derrota se evidenciava, mas mostram também o baixo nível que a NATO atingiu, celebrando triunfante o assassinato de uma jornalista, Daria Dugina, de 29 anos – sujeita a sanções – cujo delito foi ter opiniões favoráveis ao seu país.

As centrais de desinformação alimentam os noticiários com narrativas, cujo objetivo é condicionar a capacidade de discernimento e interpretação dos factos, criando uma ambiente virtual, em que os desejos são tomados como realidades. Em “Lutando contra a Psyopcracy” é afirmado:   “O constante reforço dessas mentiras entrincheira-se na mente pública e, com o tempo, passa a ser aceite como verdade inquestionável”. “É difícil de combater porque não é um inimigo físico, mas sim mensagens que se alojam na mente das pessoas”. “Propositadamente não são informadas de que a guerra realmente começou em 2014, depois do golpe apoiado pelos EUA, que levou os falantes de russo no Donbass a declararem independência, após o que o governo golpista os atacou militarmente. Outros fatos são removidos da história, como os tratados propostos pela Rússia aos EUA e à NATO em dezembro de 2021, que teriam impedido a intervenção da Rússia na guerra civil ucraniana”.

As reportagens sobre a Ucrânia têm sido uma mistura de ilusões e propaganda, organizada por agências de notícias e serviços secretos ocidentais, omitindo a verdade, a lógica e a realidade. Reportagens essencialmente destinadas a manter os povos ocidentais sob controlo nas dificuldades que enfrentam em resultado das decisões suicidas das suas elites políticas controladas pelos EUA.

No entanto, não é difícil distinguir entre a propaganda e a realidade. Basta comparar o que foi sendo dito ao longo do tempo, as contradições, as inconsistências. Claro que é necessário ter memória, sem memória não há associação de ideias nem, portanto, raciocínio consistente.

2 – Da propaganda à realidade

Como é que o que está a acontecer na Ucrânia se compatibiliza com o que os media andaram a dizer antes? Um dos aspetos é que as perdas ucranianas nunca são mencionadas. Só recentemente se foi por vezes apresentando “pesadas perdas de ambos os lados”, contra toda a lógica dos combates, em que o exército da Ucrânia/NATO era antes dos avanços russos massacrado com intensas ações de artilharia e mísseis.

A retirada da Rússia de algumas zonas foi festejada como uma eminente derrota e a garantia que Kiev tomaria conta do território como existia antes de 2014, numa intensa campanha psicológica. Na verdade a NATO, que é quem na realidade comanda as operações, fornece homens e armas, caía numa armadilha. As unidades ucranianas e mercenários da NATO, ocupantes daquelas zonas – conquistadas com pesadas perdas – foram sujeitas a constantes bombardeamentos com perdas de vidas e material.

O comandante do batalhão neonazi Svoboda, cuja unidade tenta manter Bakhmut, disse aos media ocidentais no início de dezembro que os campos e florestas ao redor estão repletos de cadáveres de soldados ucranianos”. Segundo fontes ocidentais as perdas diárias ucranianas perto de Bakhmut/Artyomovsk chegam a um batalhão (500-800 pessoas), os hospitais estão superlotados e escolas estão sendo convertidas em hospitais.

Um surpreendente relato colhido no terreno por um jornal ucraniano, o Kiev Independent, é ignorado pelos media. “Para os soldados ucranianos com a tarefa de suportar as primeiras linhas há pouca esperança de uma trincheira ou abrigo não ser atingido diretamente. Algumas unidades estão simplesmente a ficar sem pessoal. Nestas condições a crença acerca da pobre eficácia das forças de combate russas pode ser rapidamente posta de parte. Fala-se das enormes perdas sofridas pelas russos, mas pelo que pude ver em Bakhmut as coisas estão mais ou menos bem para eles. Em termos de coordenação geral no terreno entre as suas brigadas e artilharia, pode dizer-se que o fazem muito bem e como é difícil lutar contra eles”.

O fundador e chefe da PMC Mozart, o coronel aposentado dos Fuzileiros Navais dos EUA Andrew Milburn, em entrevista à American Newsweek, afirmava que as Forças Armadas da Ucrânia estão sofrendo “perdas incrivelmente altas” em Bakhmut/Artemovsk, recrutas não treinados são enviados como reforço. Os números de mortes e desaparecidos em combate estão na casa das centenas de milhares.

Afinal os tais mísseis que já não existiam continuam a cair sobre a Ucrânia. Depósitos de equipamentos, munições, combustíveis, lubrificantes são destruídos. Centros ferroviários essenciais para a movimentação de tropas e material, deixam de existir. Por exemplo, em resultado de um ataque em Drumzhkovka, à plataforma para descarregar comboios militares, 120 militares ucranianos morreram sendo destruídos lançadores HIMARS, veículos de combate, rockets, veículos, etc. São também atacadas concentrações de tropas da Ucrânia na retaguarda operacional de Bakmut/Artyomovsk.

As infraestruturas energéticas estão destruídas em 70%, o resto funciona precariamente com ligações provisórias e geradores móveis fornecidos pela UE/NATO. Vastas regiões estão sem a energia necessária e de modo fiável. Há também interrupções no fornecimento de água, Internet móvel e comunicações por telemóvel. Afirma Vitali Klitschko, autarca de Kiev: “Está muito frio na Ucrânia agora, viver sem eletricidade e aquecimento é quase impossível. A situação é crítica. Estamos a lutar para sobreviver”.

Escrevia Die WeIt, segundo um diplomata: “Estamos muito preocupados que, devido a ataques à infraestrutura energética, muitas pessoas sejam forçadas a deixar a Ucrânia em condições de frio congelante” ( t.me/s/intelslava 04/12). De facto, ao mesmo tempo que os bem instalados elogiam a capacidade de sofrimento da população ucraniana, incentivam-nos a viver e morrer em condições terríveis.

Os ataques à Rússia, propalados como importantes vitórias, saldam-se por represálias muito dolorosas. Em resposta ao ataque a uma concentração temporária de militares russos em Makeyevka, em que morreram 120 soldados, em 24 horas, foram atacados pontos de concentração de militares ucranianos em Kramatorsk, tendo morrido mais de 600 soldados.

Na realidade, no campo militar a guerra na Ucrânia foi vencida pela Rússia que decide o ritmo das operações. Os soldados ucranianos mais qualificados e experientes foram mortos ou capturados, os recrutas idosos e jovens não farão a diferença, tal como mais armas da NATO, cujo destino será o das anteriores. É triste que um país seja forçado por potências estrangeiras a lutar até o último homem sem esperança no futuro, apenas com a perspetiva de maior destruição. É o que é dado perceber da realidade.

Stoltenberg, que antes proclamava que a Rússia tinha de ser derrotada, diz agora: “a Rússia não pode ganhar a guerra”. É uma significativa nuance. Mas há duas questões que os jornalistas nunca colocaram aos prolixos “comentadores”: Em que condições a UE vai existir na base de sanções à Rússia – e a outros países? Como vai a “Ucrânia” (leia-se NATO) vencer a Rússia nesta guerra que os EUA iniciaram em 2014? Também gostaríamos de saber.

3 – A NATO na guerra da Ucrânia

A posição da NATO nesta guerra tem qualquer coisa de hipócrita e cobarde. Por um lado, é uma guerra que existe porque os dois acordos de Minsk foram um logro para dar tempo à NATO armar e treinar a Ucrânia para atacar as regiões russófonas que recusavam o golpe anticonstitucional de 2014 que iria permitir que a NATO se instalasse em Sebastopol (Crimeia). Por outro, chorando as vítimas civis (de facto mínimas comparadas com as das guerras dos EUA/NATO) fomentam o prosseguimento da guerra que só continua com o fornecimento de dinheiro, material e homens vindos dos países da NATO. Além disto. as negociações entre a Ucrânia e a Rússia foram interrompidas pelos EUA em abril, dizendo contudo que as negociações serão como e quando a Ucrânia desejar. Tudo isto é triste…

Há algo de cobarde da parte da NATO, ao acusar a Rússia de crimes de guerra e apoiar o terrorismo, mas não ter a coragem de frontalmente fazer-lhe um ultimato e/ou chamá-la para a mesa de negociações. Continuam insistindo em sanções, que só prejudicam outras nações europeias e se tornaram ridículas aos olhos da grande maioria dos países que não as seguem.

Stoltenberg, normalmente sem noção real do que diz, acabou por desmascarar este jogo de interesses imperialistas: “a derrota da Ucrânia significa uma derrota para a NATO”. Na verdade a Ucrânia foi derrotada há muito tempo, o que se trata aqui é a derrota da NATO na Ucrânia.

Uma importante derrota da NATO deu-se ao perder o controle de todo o território de Soledar e com isso também, a maior produção de sal da Europa que agora pertence à Rússia. Soledar mostrou que nenhuma participação da NATO pode ajudar onde a velocidade e a pressão são a principal regra da batalha. Foram lançadas as melhores forças na defesa de Soledar, forças especiais de vários tipos, mercenários, nazistas selecionados, um monte de equipamentos, artilharia e aviação. No final, a batalha foi perdida. Soledar, (como Mariupol) teve defesas tornadas ainda mais fortes por oito anos de preparativos. Além de mais de 200 km de túneis e minas, Soledar tem uma zona industrial muito grande que tornou os avanços muito difíceis e perigosos.

Algumas fontes afirmam que foram perdidos 14 batalhões numa tentativa desesperada de evitar a derrota. Lavrov afirmou que o “ocidente” perdeu na Batalha de Soledar 25 mil soldados entre ucranianos e mercenários ocidentais. Agora Bakhmut/Artemovsk está prestes a cair com todas as suas fortificações.

Bakhmut/Artemovsk é considerado o ponto central da Frente Oriental e um centro logístico sério, com capacidades únicas de defesa, que incluem a divisão da cidade por barreiras de água e um complexo de povoações num sistema de defesa unificado. Além disto existe um sistema de túneis, na verdade uma rede de cidades subterrâneas, onde não apenas pessoas, mas também tanques e veículos de combate de infantaria se movem. “(Intel Slava Z – Telegram 07/01)

As tropas da NATO contratadas por empresas privadas (PMC) são consideráveis, são principalmente polacos, britânicos e também dos EUA. Contudo, a sua situação é extremamente difícil devido aos incessantes ataques da artilharia. A Rússia nesta fase procura destruir o exército da Ucrânia/NATO, sendo destruídas posições de defesa antiaérea e antitanque. A Rússia tem assim preparado um cenário de batalha favorável, para garantir sucesso com mínimo de perdas, enfraquecendo oponentes e infraestruturas.

Os contra ataques da Ucrânia são lançados apenas por razões de propaganda política, saldando-se por pesadas perdas. A NATO tentou atacar em Kherson, mas falhou sucessivamente, reduzindo-se agora a principalmente voos de reconhecimento de UAV e artilharia. Idem para Kharkov onde os ataques dos ucranianos foram praticamente interrompidos. A Rússia tem também avançado noutros locais e destruindo posições ucranianas e equipamentos com artilharia de alta precisão.

A guerra na Ucrânia mostrou a falta de preparação do ocidente para conduzir hostilidades de longo prazo, afirmou o jornal espanhol El País. Os países ocidentais enfrentam problemas devido ao esgotamento dos arsenais e à má preparação da indústria militar para resolver sérios problemas militares.

É bastante claro que (além de alguns enraivecidos) poucos europeus têm estômago para uma guerra continental em grande escala na Europa que deixaria os seus países em ruínas. No entanto, eles obedecem aos neocons dos EUA, sendo arrastados para o precipício.

4 – Ucrânia, Estado fantasma

A NATO mostra ser o contrário do rei Midas que transformava em ouro tudo em que tocava, a “aliança defensiva” transforma em caos e miséria tudo em que interfere. A Ucrânia é mais um exemplo, transformada em Estado fantasma. São de uma insensibilidade criminosa as bazófias de apoio vindos de dirigentes da UE/NATO.

O que define um Estado? Território, população, economia, grau de independência política. O território é definido pelas suas fronteiras e nada mais equivoco que as fronteiras da Ucrânia. A oeste a Polónia tem em vista ocupar uma parte das terras ricas, alegando direitos históricos. A Leste, para a Rússia são umas, para o Ocidente são outras.

Como Republica Soviética a Ucrânia tinha cerca de 50 milhões de habitantes. Em 2000, 48 milhões, em 2020, 41,7 milhões (sem Crimeia). A guerra causou a fuga de mais de 14 milhões de pessoas – 6,5 milhões de deslocados internos e mais de 7,8 milhões para países europeus. O número de refugiados na Rússia ultrapassa 5 milhões de pessoas, a população no Donbass conta 6 milhões. Assim, a Ucrânia teoricamente controlada por Kiev contará no máximo 25 milhões de pessoas. Tenha-se ainda em conta que a taxa de natalidade cai catastroficamente.

Cerca de 17,7 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento. A UE/NATO tem de alimentar, vestir, alojar todas estas pessoas e financiar o Estado. A maioria dos refugiados não irá nem poderá retornar à Ucrânia.

Em termos económicos o pais afunda-se. O desemprego é estimado em 30% da população ativa, em algumas regiões pode atingir 80%. Os salários são baixíssimos: a maioria da população empregada recebe cerca de 381 dólares por mês. No entanto, o preço dos bens aumentou de 40 a 80%, de modo que as pessoas existem à beira da sobrevivência.

Segundo o BM o PIB caiu 35% em 2022, porém se os ataques continuarem, o PIB afundará 50%. No quarto trimestre a produção industrial caiu entre 50 a 90%, dependendo da região. De facto, um país sem energia elétrica em condições normais, não pode ter uma economia funcional. Apenas pequenas empresas e lojas que trabalham com geradores podem ir funcionando; as instituições bancárias e municipais operam de forma limitada. Não há na atual situação soluções para esta crise energética.

A dívida governamental é de mais de 100 mil milhões de dólares. Para o Wall Street Journal a Ucrânia está à beira do colapso financeiro. Kiev luta para encontrar fundos, pondo em risco a estabilidade do sistema financeiro. Os impostos cobrem apenas cerca de 40% do orçamento, mais de 60% do qual são gastos militares. O Express dos EUA revela que o défice mensal da Ucrânia é de 5 mil milhões de dólares. O governo de Kiev apenas sobrevive com as ajudas de Washington e Bruxelas.

A Ucrânia, o país mais corrupto da Europa, é um buraco negro para o dinheiro e equipamentos militares ocidentais. Para a manutenção da guerra com a Rússia e a sobrevivência do regime nazifascista da Ucrânia os EUA já comprometeram mais de 10 mil milhões por mês desde fevereiro, a que acrescem as verbas da UE, que chegam a milhares de milhões por mês. Há ainda que sustentar 14 milhões de refugiados internos e na UE e a administração pública. Para o ano fiscal de 2023 os EUA consignaram 44,9 mil milhões de dólares para a Ucrânia.

Sem tais subsídios, Zelenski não teria durado mais de dois meses na guerra. A questão é quanto tempo vai durar esse fluxo? A congressista Marjorie Taylor Green exigiu uma auditoria à utilização dos fundos que os EUA entregam à Ucrânia, A proposta foi chumbada na comissão respetiva: 22 parlamentares votaram a favor do documento, 26 contra.

A propaganda e os políticos da NATO/UE repetem que “a Ucrânia defende o mundo livre”, que “defende o Ocidente”, que “defende os Estados Unidos”. É um absurdo. Como pode um país fraco, dos mais pobres da Europa, defender os EUA, dito o país mais poderoso do mundo? Os ucranianos têm que sofrer e derramar seu sangue na “defesa” de um país que dista mais de 10 mil km?

À medida que a guerra progride, o fluxo de dólares cresce, e numa Ucrânia devastada por bombardeamentos russos e ucranianos, sem vida económica real, que vive do dinheiro da UE/NATO para funcionários públicos, importações de alimentos, equipamentos, soldados, mercenários, é toda uma população submetida à guerra e que vai morrendo ou fugindo.

É neste panorama que Zelensky exige que todo o território da Ucrânia pré-2014, incluindo a Crimeia, deve ser colocado sob o poder instalado em Kiev. Bem, se o clã de Kiev quisesse assim tanto aos seus cidadãos, não teria assassinado 14 mil deles nos últimos oito anos e retomado os bombardeamentos no início de fevereiro de 2022, antes da invasão russa.

A Ucrânia está a perder tudo o que foi criado no seu território nas décadas passadas. É impossível imaginar quanto custará repor centrais, redes elétricas e ferroviárias, zonas habitacionais, infraestruturas. Como diz Alyona Zadorozhnaya, Zelenski alcançou resultados únicos e trágicos na destruição da Ucrânia. Ele conseguiu reduzir a população da Ucrânia ao nível de um século atrás, colocar o país em escravidão ao ocidente e privar os concidadãos dos benefícios mais elementares da civilização.

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