Inocentes crianças!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 20/03/2023)

Donetsk? Mariupol? Belgorod? Pequim? Teerão? Caracas? Pyongyang? Havana? Não! Não! Não! Para o TPI, é crime, contra a Humanidade: retirar crianças órfãs de um local de guerra, afastando-as de milhares de minas antipessoais e ilegais armadas, pelas forças do regime banderista; dar-lhes alojamento digno, comida, cuidados de saúde e, mais importante, educação de qualidade. Já, para o mesmo TPI, apreendê-las numa fronteira, separá-las dos seus pais, enjaulá-las por tempo indeterminado, apenas com água e alimentação, para, no final, as deportar, à sua sorte, para o país de origem… é um ato humanitário e de grande solidariedade com os povos oprimidos!

Estas fotos foram tiradas na fronteira dos Estados Unidos com o México, num dos inúmeros centros de detenção para crianças “desacompanhadas”, criados, a partir de 2009, não por Trump, não por Bush, mas pelo “democrata”, “humanista” e “pacifista” Barack Obama, cujo vice-presidente se chamava Joe Biden.

De acordo com alguns relatórios americanos, como o do Council for Foreign Relations, foram mais de 150.000 as crianças detidas, em 2021, 24% com idade inferior a 15 anos (Ver aqui), sendo o facto mais relevante que: se o número de casos pendentes diminuiu sob o governo Biden; já o número de detenções aumentou a pique, sendo mais do dobro do que eram aquando da chapelada vitoriosa de Biden sobre Trump, nas sempre irregulares eleições dos EUA.

Estas crianças podem ser detidas em qualquer altura, não sendo necessária uma guerra, a não ser a que opõe ricos a pobres. A esmagadora maioria são deportadas para o país de origem sem qualquer garantia de acompanhamento (72%) e, aquando da sua “estadia” nos campos de concentração (mascarados de “detenção”) criados para o efeito, estas apenas têm direito a água, alimentação e cuidados médicos, à americana, claro. De resto, têm um chão duro para dormir, uma manta para se tapar e nada mais.

Dá vontade de perguntar onde andam, então, os defensores dos direitos humanos, aqueles “honrados” juízes do morto TPI? Bem…. Esses defensores, tempos a fio e, já sob o governo férreo de Biden – e da sua reduzida cúpula de plenipotenciários -, manifestaram-se, denunciaram e queixaram-se, até que o executivo que diz liderar as democracias contra as autocracias, emitiu uma lei a prever a possibilidade de pena de prisão, por atividade subversiva contra os interesses do Estado – e sabemos que garantísticas são tais leis. A partir de então, problema resolvido. Nem mais um jornalista pôde captar tais imagens. Diria eu, que, fosse sob o reinado de Trump e tal nunca teria acontecido…. Contraditório? Nem por isso.

O braço político da NATO que é hoje a UE, encarregou-se de fazer o que Bush (e mais tarde Trump) tinha ameaçado fazer, em 2002, quando o TPI (Tribunal Penal Internacional) revelou a intenção de prosseguir as investigações de violação de direitos humanos – e que tão bárbaras foram, a fazer corar um qualquer exército medieval -, de que eram acusadas as forças militares americanas. A UE, literalmente, bombardeou o TPI… E bombardeou-o de tal forma que, a explosão não incidiu sobre a sua estrutura física, mas antes, sobre a sua credibilidade, a qual já estava pelos dias da morte. A UE e seus vice-governadores mataram, de vez, o TPI.

Se o “American Service-Members Protection Act” de Bush, revelou em toda a sua extensão, a dualidade de critérios relativamente à actuação do TPI, cuja acção, apenas incidindo, quase maioritariamente, sobre “criminosos” de países pobres da África, ou, como sucedeu com Milosevic, com países tomados por traidores à sua pátria; a ameaça de Trump em bombardear as instalações do tribunal, a propósito da intenção de investigação de figuras de proa do apartheid israelita, retirou-lhe qualquer margem de prestígio, transformando-o num mero instrumento publicitário. Diga-se que, até a televisão francesa tinha financiado uma série televisiva sobre esta dualidade do TPI (Crossing Lines).

Ora, com a recente acusação, ao Presidente da federação russa (como se fosse, sequer, ele, o responsável directo por tais actos), coloca-se uma questão muito importante, a respeito da imparcialidade, objectividade e ponderação a que está sujeito o funcionamento deste “tribunal”. Se os EUA não reconhecem a sua jurisdição e tal argumento funcionou para que os casos fossem arquivados… Porque não foi tal lógica aplicada a respeito da recente acusação? Mas a jurisdição dos EUA tem um valor distinto da russa? Como pode um órgão que pretende ser respeitado como “tribunal”, distinguir níveis de soberania, níveis de liberdade jurisdicional e diferentes motivos de exclusão da responsabilidade criminal, consoante os casos, as encomendas ou as disposições?

Sabermos que o Juiz presidente do TPI é um cidadão polaco, de seu nome Piotr Hofmański, não deixa de ser relevante para o caso. A decisão de funcionar como lança rockets contra o seu próprio tribunal, não estará desligada da sua nacionalidade e da natureza dos critérios que presidiram à sua selecção, promoção e eleição. Mas o que mudou, então? Por que razão os EUA, que não pretendiam, sequer, a investigação do ICC no âmbito da “Operação Militar Especial”, agora permitiram precisamente isso?

Bem, para além do costumeiro e desusado complexo de superioridade, arrogância e prepotência, o que aconteceu é que, quando olhamos para o Ocidente destes dias, ficamos com dúvidas se não terá havido, aqui, alguma troca geográfica, sem que, de tal, nos apercebêssemos. O facto é que, as sanções do “inferno”, visavam:

  • Criar o pânico nos mercados financeiros, o que está a acontecer, precisamente, com a banca, toda em queda, já tendo o SVB rebentado com mais três bancos e continuando a corrida ao dinheiro; segundo relatos diversos, num só dia foram levantados mais de 8,8 mil milhões de dólares do DB – na sexta-feira, os mercados fecharam com o Deutche Bank a valer 18 vezes menos do que o JP Morgan;
  • Criar o pânico nos mercados de bens e serviços, o que, com a subida da inflação e a desvalorização da moeda, faria os preços aumentarem e começarem a escassear determinados bens de primeira necessidade, como sucede, em Inglaterra, com o racionamento dos vegetais;
  • Com as dificuldades económicas viria a turbulência social, de que é um exemplo o que se está a passar em Paris, com a repressão e a prisão de centenas de manifestantes, ou em Lisboa, com uma manifestação de largas dezenas de milhares de trabalhadores, bem como na Holanda, Alemanha, Bélgica, republica Checa, Itália ou Espanha;
  • A instabilidade levaria à repressão, bem repercutida na intenção de se prender um líder da oposição (Donald Trump), não pelos crimes cometidos pela CIA, NSA, ICE ou FBI, mas por ter estado com prostitutas, quando no caso de Biden se esconde, censura e omitem as provas – factuais e documentadas – de corrupção, especialmente no âmbito do território ocupado pelos EUA, que é, hoje, a Ucrânia;
  • Com a repressão viria o autoritarismo, como sucedeu com o reizete tirano Macron, cuja “democraticidade” o levou a sobrepor-se ao parlamento e, sabendo que perderia a votação, optou por fazer sair a lei sob a forma de decreto, não cumprindo os requisitos da consulta pública, para, desta forma, aplicar uma medida que sabe ser contrária às pretensões de quem o elegeu; não contente, o empregado dos Rothschild, ainda proibiu as manifestações, em Paris, relacionadas com o sistema de pensões – em “democracia” temos de aprender a comer e a calar;
  • No calor da conflituosidade social, viria a censura dos canais de comunicação externos – casos da RT, Sputnik e todas as TV’s do “inimigo” ou da perseguição à cadeia PRESS iraniana -, o condicionamento da opinião nas redes sociais, com a perseguição das figuras que se opõem ao regime – qualquer um que hoje vá ao Twitter, pode constatar a autêntica perseguição de opinião a que os bernardotes “liberais” sujeitam todos os que pensam de modo diferente;
  • Com a repressão e a opressão, viriam as quedas de governos, sendo já longa a lista de malditos governantes em queda por causa da “maldição” de Z, e, ainda mais longa, aqueles “governantes”, meros funcionários servidores, cujos povos, já não podem ver à frente, por incapacidade total destes em resolverem os reais problemas (ainda hoje, num tribunal, um funcionário judicial me disse, a respeito da Ministra da Justiça: é uma funcionária, com uma missão encomendada, e só lá está para isso mesmo e não para tomar decisões políticas);
  • Com o andamento da guerra, viria a crise de munições, aviões e outras armas pesadas, bem como a mortandade em catadupa, cada vez mais difícil de esconder…

Ora, toda esta factualidade, absolutamente apocalíptica, fazem-me perguntar onde, afinal, se situa o Ocidente e o Oriente, e se não terá havido aqui alguma troca nas placas tectónicas, com o sismo na Turquia e na Síria. É que, parece que, no Ocidente, é que está a ocorrer o “inferno”, o mesmo que eles queriam que ocorresse na Rússia.

Ao contrário, na economia russa, tudo corre como se fosse este país a sancionar e não o inverso. A economia cresce desde Julho passado, no segundo trimestre, deste ano, o PIB já vai crescer de forma efectiva; o comércio exterior cresceu 8% em 2022 e em 2023 ainda será maior o salto, ao passo que, por causa das sanções, os países ocidentais estão com as balanças comerciais desequilibradas; a procura interna russa está a crescer e de forma sustentável, prevendo-se que o crescimento homólogo, em Abril, será de 5%; o superavit comercial em 2022 foi de 332 biliões de dólares; a inflação, em 2023, já será de 4%, o défice de 2% e a dívida pública externa nos 17 ou 18%.

Nesta realidade invertida temos a explicação última da acusação do TPI. Uma bomba de areia para os nossos olhos. A verdade, é que é preciso retirar os olhares da crise profunda e estrutural que se desenvolve no Ocidente coletivo e, para cujas elites corruptoras e genocidas, a pilhagem da Rússia é vista como a salvação, pois detém as reservas naturais que permitiriam catapultar uma nova reindustrialização à base de matérias-primas ao preço da uva mijona. Daí que, a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Melanie Joly, continue a dizer que, a queda do “regime”, constitui a principal aposta (ver aqui). A ver pelas poles e pela recepção ao presidente russo, em Mariupol – cidade em aceleradíssima reconstrução -, bem que pode ir esperando deitada.

Parecendo que, esta gente é tão inteligente e capaz que, todas as macumbas que concatenam, simplesmente funcionam ao contrário, eis que, esta acusação do TPI, não deixará de ter, também, o mesmo destino.

Primeiro, se o que pretendiam era usar este facto para atrair atenções, retirando-as da crise que atravessamos, já perderam este assalto, pois a ridicularização deste acto, tanto por cá, como por lá, como pelo mundo todo, foi visto como uma farsa risível.

Segundo, porque, se o que pretendem é, apresentar ao mundo, o presidente russo, como um bandido, uma espécie de pilha galinhas, um intocável, deixem-me trazer-vos à realidade: hoje, para 87% da humanidade, tudo o que o Ocidente faz é ridículo, e apenas contribui para valorizar, como heróis, as figuras atingidas.

Terceiro, eu gostaria de questionar esta trupe de governadores de quinta categoria, sobre o que eles pensariam que aconteceria se, um qualquer país, tentasse deter o presidente russo. Se não sabem, fazê-lo, seria equiparado a uma declaração de guerra, pois o mandato para a Rússia não é, sequer, ilegal. É ineficaz, é inexistente, pois juridicamente, o TPI não tem autoridade nos países que não aderiram à sua jurisdição.

Quando, na África do Sul, no G20 deste ano, o presidente russo não for detido, tal constituirá a última machadada no TPI e um passo fundamental na libertação de África, do jugo ocidental.  Diremos que, na AS acontecerá o mesmo que aconteceu aqui, quando Gouveia e Melo decidiu obrigar 13 militares a usar um barco furado e sem motores, para perseguir um navio civil, de um país, com o qual NÃO ESTAMOS em guerra. Missão por cumprir, ridículo total. Neste caso, do barco, tantos milhões para incendiar um conflito, contra um país que nos ajudou, tantas vezes, com meios anti-incêndios, até antes dos europeus amigalhaços do peito, “apoiando” um outro com o qual não temos qualquer laço e, tão poucos milhões, para tratar do que é realmente nosso.

E esta situação é uma ótima metáfora para o que se passa na UE, nestes dias. A tripulação é de tal qualidade, que o barco anda totalmente à deriva, perdendo peças pelo caminho e estando cada vez menos à tona d’água. E a cada bomba que lança, é mais um bocado que perde. Na era histórica em que vivemos, pelo que nos é possível constatar, estamos em acelerada velocidade cruzeiro rumo à destruição de todas as organizações internacionais que tiveram o Ocidente coletivo como parceiro fundamental. Assistir ao enxovalho que Macronette levou do Presidente (com P grande!) do Congo, tratou-se de um espectáculo tão impagável, como demonstrativo da era absolutamente especial que estamos a viver. O mundo está em acelerada transformação e os conservadores – sim… são conservadores – tentam segurar-se a todas as tábuas que surgem neste imenso mar revoltoso.

Depois da recepção indecorosa a que Berbock foi sujeita na India, do ato de destratar público que Trudeau sofreu de Xi Ji Ping ou, da comitiva minúscula, que os sauditas tinham à espera de Biden… Todos podemos constatar como o Sul Global, em processo de libertação, olha para esta “elite” corporativa ocidental – como meros moçoilos de recados do grande capital financeiro e do complexo militar industrial dos EUA. Não lhes dirigem um qualquer sinal de deferência.

Se a ONU se transformou num campo de batalha entre blocos beligerantes, a UE está em desagregação acelerada, pois, transformada no braço político da NATO, deixa de ter qualquer fundamento para existir. A promessa de uma vida digna, que anunciava, é algo cada vez mais remoto, sendo o Euro, hoje, uma âncora para países como Portugal. Os últimos 23 anos, foram um período de atroz perda de soberania, liberdade e de distanciamento dos níveis de vida dos países mais ricos. Se a situação deste país já era periférica, agora, encontra-se efectivamente à deriva e alguém tem de conseguir explicar a esta gente que, dentro da UE, do Euro ou da NATO, este país não tem futuro. O futuro passa, precisamente, por uma nova abertura ao mundo. Ao mundo que vale, ao mundo que cresce, ao mundo que se liberta. Esqueçam lá os tempos da pilhagem a troco de contas de vidro. Hoje, nem temos vidro nem sequer poder para pilhar.

A própria NATO, após a mais do que anunciada derrota no leste europeu, ficará como uma organização ineficaz para defender os países europeus. Afinal, se os exércitos europeus estão depauperados pela esperança depositada na “Roma Imperial”, o facto é  que o estado militar da “Nova Roma” não está muito melhor. O que se passa no Ocidente são 30 anos de capitalismo selvagem desenfreado, que mostrou ao mundo a sua verdadeira face. Tudo o que diz, é contrário do que faz, deixando os seus próprios países no estado em que está a linha de comboio do Ohio, ou seja, em descarrilamento contínuo.

Do outro lado, na ofensiva, estão países autossuficientes, cada vez mais soberanos e independentes. Mas isto, só por si, valeria de pouco, se os seus povos não vivessem cada vez melhor, em países cada vez mais desenvolvidos e com a esperança de melhorar, a cada dia que passa. Há quantos anos não temos, nós, a sensação que tem um russo ou um chinês médio, de que o futuro vai ser melhor do que o passado? Não era esse o objectivo da tão propalada versão de “liberdade individual ocidental”?

Afinal, o que é a “liberdade”, a “democracia” e para que servem?  Que interesses servem e que interesses delas se servem? A democracia tem de ser um factor de desenvolvimento e não um ritual religioso desprovido de sentido, apenas usado para legitimar formalmente sempre os mesmos, em nome dos mesmos interesses.

E esta realidade, dúplice, bem evidente, leva-me à última conclusão: alguma coisa de muito bem anda esta gente a fazer, para ser tão atacado por tão incompetente e incapaz bando de energúmenos!

Se para alguma coisa serve esta acusação do TPI, é para confirmar que, hoje, os nossos países, estão efetivamente no caminho errado. No caminho da aparência, da superficialidade e da inconsequência.

Nós, o povo, incapaz, na sua maioria, de perceber o que nos aconteceu, somos a criança na jaula! Está na hora de fugir e crescer!


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Mistérios que o capital tece

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 17/03/2023)

Miguel Sousa Tavares

Suspendam a respiração enquanto nos garantem que o Silicon Valley Bank não tem nada a ver com o Lehman Brothers, que a Califórnia fica muito longe daqui e que o sistema bancário europeu de hoje não tem nada a ver com o de 2008. Suspendam a respiração porque já ouvimos isto antes e sabemos o que se passou depois, quando tudo desabou num instante como um castelo de cartas minado pelo mais simples e devastador dos males: a falta de confiança. A falta de confiança dos depositantes dos bancos e o pânico que rapidamente lhe sobrevém é justamente aquilo que, sobretudo depois de 2008, nos garantiram que não voltaria a acontecer, pois a lição fora aprendida e os reguladores nunca mais iriam afrouxar a guarda sobre essa imprevisível classe profissional dos banqueiros. Mas eis que ouvimos Biden dizer agora que ia apertar o controlo e a regulação, porque afinal ainda persistem zonas livres à disposição da imaginação e do aventureirismo dos banqueiros. As explicações técnicas e científicas para a falência do Silicon Valley Bank — certíssimas e lógicas a posteriori, como sempre — assentam na mesma raiz do mal tantas vezes vista antes: cobiça, risco desmedido, apostas num céu sempre azul, irresponsabilidade da gestão… Nada que não fosse previsível, pois essa é a natureza infalível dos banqueiros dos tempos modernos, aqueles a quem confiamos as nossas poupanças e que, na hora do desastre, temos de socorrer com os nossos impostos. Deve haver outra forma de fazer banca, mas, por alguma misteriosa razão, nem eles a cultivam nem os governos a ela os obrigam. Enfim, suspendamos a respiração a ver se desta vez os salvamos do desastre. Aliás, não há nada mais que possamos fazer.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Os tempos estão cheios de cavaleiros andantes de tristes aventuras destas. Ao mais alto nível, chamam-se Bezos, Musk, Zuckerberg e apresentam-se à Humanidade como génios dos tempos modernos, donos e detentores de um poder nunca antes detido por ninguém: a tecnologia e o capital necessário para deles fazer depender quatro quintos do planeta. Uma vez por ano reúnem-se em Davos, rodeados pela sua corte de clientes (governantes), de promotores (académicos e jornalistas) e de bobos da corte (cantores e “animadores” variados). Quando as acções das suas empresas escalam na Bolsa, permitem-se dar algumas lições de visão económica e de gestão ao mundo basbaque; quando as coisas correm mal, por falta de visão ou excesso de vaidade, despedem aos 10 mil de cada vez e a vida segue.

Abaixo do top existem, é claro, muitos outros níveis e subníveis: os salteadores da ex-União Soviética, os príncipes árabes, os milionários do comunismo chinês, os vendedores de armas e os barões da droga sul-americanos. Depois de devidamente reciclados e branqueados, tudo gente respeitável. Alguns feitos Sir, outros membros da Légion d’Honneur, cavaleiros disto e daquilo, professores honorários e até um rei emérito.

Entre nós, no fim da escala, tudo se passa a um nível lusitanamente provinciano. Num país desesperadamente à procura de heróis, os Presidentes ocupam boa parte do seu ocioso tempo a carregar o peito dos nossos “empreendedores” com comendas a que o tempo se encarrega de tirar todo o lustre: boa parte dos comendadores já levou as empresas à falência ou já acabou a prestar contas à Justiça. Temos, por exemplo, o caso do comendador Joe Berardo, o homem que, entre outras, conseguiu a proeza de ver o Estado emprestar-lhe em exclusivo o único centro cultural decente do país para ele armazenar a sua colecção de pintura. Depois da sua inesquecível prestação numa comissão de inquérito parlamentar, fiquei agora a saber que o Ministério Público desconfia que o comendador terá obtido um atestado médico falso a certificar que tem “dificuldades cognitivas” que o impedem de se defender capazmente em tribunal. Francamente, não percebo porque é que ele precisará de um atestado falso para certificar uma coisa evidente para todos. Quem precisaria de um atestado desses são aqueles que tanta confiança lhe deram.

3 Uma boa anedota é a versão que os americanos puseram a correr sobre a autoria da sabotagem dos gasodutos Nord Stream I e II. Teria sido então um grupo de seis aventureiros e patriotas ucranianos que, à revelia e com o desconhecimento das autoridades de Kiev, embarcaram num simples veleiro e mergulharam depois a 100 metros de profundidade para colocar os explosivos nos gasodutos, em quatro lugares diferentes, zarpando em seguida à vela Báltico fora. A comissão que há meses é suposto estar a investigar o caso — e da qual, obviamente, foi excluída a Rússia, co-proprietária dos gasodutos — ficou em silêncio sobre esta revelação. E o pobre chanceler Scholz, o outro co-proprietário, e que em Dezembro de 2021 ouviu da boca de Biden que o Nord Stream II nunca entraria em funcionamento, resolveu acolher esta versão: ele que antes declarara que a sabotagem só podia ter sido obra de um Estado com meios para tal. No Direito Internacional e nos meios políticos e de informação ocidentais, aquilo que aconteceu com os gasodutos chama-se terrorismo. Mas, nos tempos que correm e de acordo com as novas regras, parece que isso depende de quem o faz e a quem o faz.

4 Um relatório da OCDE agora divulgado, na parte referente à agricultura e ambiente, diz que o Sul do país perdeu 20% das suas reservas aquíferas na última década e que a agricultura superintensiva, responsável pelo problema, está ainda a contribuir para a erosão dos solos e, a prazo, para deixar o Alentejo e o Algarve sem água. Nada que algumas pessoas com juízo e um mínimo de preocupação não andem há anos a dizer à ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes. Mas a ministra, a quem nunca ouvi uma frase que fosse sobre o futuro da agricultura em Portugal, está-se borrifando para a OCDE ou para a falta de água: o problema é complicado demais para a sua cabeça e a solução demasiado arriscada para o seu futuro político. Esta semana, aliás, ela deu-me mais uma prova da sua estonteante incompetência ao falar sobre a escalada de preços nos supermercados e não só. Disse a senhora que está tão atenta ao problema que, inspirando-se no que havia sido feito em Espanha, tinha tratado, logo em Outubro, de constituir um Observatório Alimentar, para, justamente, ir observando a evolução dos preços e, supõe-se, agir depois em caso de necessidade ou estranheza. Previdente, hem? Pois, o problema é que o Observatório da senhora ministra, criado no dia 19 de Outubro de 2022… nunca saiu do papel. Ou seja, à boa maneira deste Governo, existe mas não existe. E, enquanto não existe existindo, os preços alimentares por cá subiram num ano 20%, três vezes o valor da inflação. E a ministra não sabe dizer porquê: está à espera do Observatório para saber.

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Entretanto, para sentir na carne o preço dos legumes, resolvi meter-me no carro e ir a Espanha ver como se passavam as coisas por lá. De onde eu vivo até Ayamonte são 45 quilómetros, logo compensados pelo preço do gasóleo: 20 cêntimos a menos por litro, 12 euros de poupança por 60 litros. Depois fui ao Mercadona, cujo dono disse esta semana que não era possível fixar os preços administrativamente. Pois, talvez não, mas ele não vive em Portugal, apenas vende aqui e deve estar bem satisfeito com isso. No seu supermercado de Ayamonte, por um cabaz de compras que aqui me teria custado entre 90 a 100 euros, paguei lá 62. E, passe a publicidade, a qualidade e a apresentação está muito além daquilo que estamos habituados e ver aqui nos nossos supermercados, desprovidos de qualquer brio e imaginação. No meio de toda esta controvérsia, falta-me informação (e um Observatório) para poder dizer quem é o responsável principal pela escalada de preços na alimentação entre nós, mas desconfio que os produtores não são.

Além de tudo isto, há um mistério que me intriga: temos dos vencimentos mais baixos da Europa a par dos mais altos impostos sobre o trabalho, mas pagamos mais do que quase todos os outros pela habitação, automóveis, energia, comunicações e, agora, alimentação. Portugal pode ser pobre, mas para alguns é um excelente negócio.

P.S. — Já depois de escrito e enviado este texto, caiu a bomba da crise no Credit Suisse, o equivalente a uma declaração de incêndio numa central nuclear. Trata-se de um dos 50 maiores bancos do mundo e o segundo maior do supostamente inabalável sistema bancário suíço. Quando já nem os suíços conseguem controlar os seus bancos, o mundo está definitivamente um lugar perigoso. Para agravar ainda mais os sinais de alarme, a crise é desenca­deada pelo maior accionista do banco, o Fundo Soberano da Arábia Saudita — um país outrora também garantido para a esfera americana e ocidental mas que na semana passada fechou um acordo estratégico de cooperação com a China e o Irão. Completamente cega ao que se passa e se pensa fora do seu mundo de influência e de informação controlada, a Europa, a reboque dos Estados Unidos, continua engajada naquilo que um dos seus responsáveis chamou há dias entusiasticamente uma “economia de guerra”, para manter activo e eterno o conflito na Ucrânia, desprezando quaisquer iniciativas de paz como alternativa.

A pior geração de políticos europeus dos últimos 100 anos não consegue ver o que está diante dos seus olhos e, enquanto se compraz em declarações grandiloquentes, assiste à destruição sistemática da Ucrânia e arrasta-nos a todos para o abismo. A diferença entre Putin e eles é que Putin é perigoso porque é louco e inteligente e eles são perigosos porque são todos sãos mas idiotas.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Já estamos na III Guerra Mundial

(General Agostinho Costa, in CNN Portugal, 19/03/2023, Introdução Estátua de Sal)

Apesar da CNN albergar a Soller, a Ferro Gouveia, e o Isidro Pereira, ainda assim é o canal televisivo mais pluralista pois dá voz aos generais Agostinho Costa e Carlos Branco, que analisam a factualidade envolvida na guerra da Ucrânia com base numa grelha que decorre da luta geopolítica global que se está desenrolar, e não na propaganda da cartilha fornecida pelos serviços de inteligência ocidentais.

Assim sendo, de quando em quando, assistimos a peças notáveis como esta. É a desmontagem dos objetivos que levaram o TPI a declarar Putin criminoso de guerra. É a desmontagem das razões que foram invocadas para tal – o rapto de crianças. E tudo isto no dia em que passavam 20 anos sobre a invasão do Iraque onde – segundo os números mais otimistas -, morreram cerca de meio milhão de pessoas (ver aqui), sem que tivesse sido acusado qualquer político dos EUA de ser criminoso de guerra. É clicar abaixo e assistir ao vídeo.

Estátua de Sal, 20/03/2023



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