Há já algum tempo que venho refletindo

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 28/06/2023)

Há já algum tempo que venho refletindo com muita estranheza sobre as posições e críticas de alguns dos meus amigos, sobretudo com incidência nas minhas análises sobre o conflito.

Desde sempre e especialmente enquanto ao serviço, que pautei os meus contributos pela verdade e procurando preservar a minha honestidade intelectual. É óbvio que, por vezes, tive de engolir alguns “elefantes”, mas tentei sempre dar a minha opinião.

É-me especialmente penoso vir a saber por terceiros que pessoas que admiro e que até tomei como referências de especial prestígio, me possam agora desconsiderar, por força das minhas análises.

O primeiro aspeto que devo assinalar é que nada do que escrevo tem por base opções políticas, como os mais básicos – intelectualmente e sem estrutura mental capaz de argumentar -, deduzem da forma habitual: “ele diz isso porque é um comuna!” Se calhar, em alguns temas sociais sou até mais conservador do que eles… e, sobretudo, estudei mais…!

Fico profundamente desapontado e mesmo triste, quando vejo amigos que admiro e respeito a mesclarem o seu anticomunismo com a agora vigente russofobia, não percebendo a enormidade do seu erro de avaliação. Nunca marginei ninguém por ter opções diferentes das minhas e sobretudo nunca deixei que as minhas opções condicionassem a minha conduta profissional e, portanto, custa-me admitir que a cegueira e o azedume que alguma inveja impulsiona, motive alguns dos meus críticos.

É espantoso verificar que alguns dos meus amigos mais afetos às “direitas”, mas que até são inteligentes e moralmente superiores, se vejam (condicionados que estão por uma propaganda poderosíssima mas mentirosa e pela sua natural fidelidade a anteriores aliados) obrigados a aceitar como companheiros de carteira os ex-maoístas (p. ex. Barroso, Ana Gomes e Telo), os LGBTQs e pedófilos (muitos do PS, IL e PSD), as meninas do “bloco”, os “animalistas”, “satanistas”, etc., não percebendo que o seu anticomunismo os leva a oporem-se a um homem que, de comunista, nada tem e que, precisamente combate esses extremismos e liberalismos perniciosos que minam a sociedade ocidental e vão fazer com que esta se desmorone.

É o meu dever, como patriota que penso ser e em prol dos meus filhos, netos e bisneta, continuar a alertar para as verdades e factos que vou conhecendo, analisar as diferentes vertentes e possibilidades e dar o meu parecer.

E exorto todos a que procurem ter uma visão isenta e bem fundamentada do que ocorre, antes de darem o vosso apoio ao regime de um bufão drogado, demente e nazi e obviamente que não me refiro ao povo ucraniano que deve continuar a ser ajudado (no qual englobo os habitantes do Donbass).

Passar bem…!


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A rebelião de Evgueni Prigojin

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 27/06/2023)


Contrariamente aos comentários da imprensa ocidental, Evgueni Prigojin não tentou nenhum Golpe de Estado contra Vladimir Putin. Ele ensaiou chantagem a fim de conservar os privilégios exorbitantes que acumulou desde a criação da sua sociedade militar privada. Depois voltou à razão e reintegrou-se no seu posto.


Pode a tentativa de « Golpe de Estado » de Evgueni Prigojine mudar a sorte das armas na Ucrânia ? Era o desejo da OTAN que esperava este levantamento e despertou os seus agentes “adormecidos” na Rússia. O Reino Unido e os Estados Unidos imaginavam concretizar por fim a partição do país que não tinham conseguido levar a cabo em 1991 [1].

A criação de sociedades militares privadas (SMPs), entre as quais o Grupo Wagner, foi uma ideia validada pelo Presidente Vladimir Putin para testar novas formas de comando antes de as escolher e de impor as melhores no seu Exército. Em poucos anos, estas empresas testaram efectivamente muitos métodos e bastantes vezes provaram a sua eficácia. Chegara, pois, o momento de terminar a reestruturação do Exército russo dissolvendo-as e integrando as suas forças no Exército regular [2]. Uma data limite havia sido fixada pelo Presidente Putin : o 1º de Julho. No mês passado, o Ministério da Defesa enviou, portanto, projectos de contrato às diferentes sociedades militares privadas para planear a sua incorporação.

Mas o Grupo Wagner recusou responder-lhe e Evgueny Prigojin intensificou os seus insultos contra o Ministro da Defesa e o Chefe de Estado-Maior.

É preciso perceber bem aquilo que se passa : a criação de sociedades militares privadas pela Rússia é o equivalente àquilo que os Estados Unidos fizeram, sob o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld, quando aumentaram o recurso às SPMs à margem do Pentágono. No início a coisa funcionou, mas estas sociedades trabalharam também para a CIA e a mistura de géneros levou a catástrofes em série. Quando trabalhavam apenas para o Pentágono, os seus dirigentes exprimiam-se em público, como Erik Prince da “Blackwater”. Mas eles jamais tomaram posição contra o Secretário da Defesa ou o contra o Chefe do Estado-Maior Conjunto.

Diga-se de passagem, nem os soldados norte-americanos da Blackwater, nem os russos da Wagner são mercenários. Eles batem-se pelo seu país e são pagos para assumir riscos desmesurados que não se podem pedir aos soldados regulares. Pelo contrário, os mercenários batem-se por dinheiro sob o comando de uma potência estrangeira.

O facto de um dirigente de uma sociedade militar privada publicar durante dois meses vídeos incendiários contra os chefes das Forças Armadas, e que além disso está em plena operação militar, não seria tolerado em nenhum Estado. No entanto, com Evgueni Prigojin na Rússia foi. Os correspondentes que interrogamos durante estes dois meses consideraram todos que o Kremlin o deixava berrar para captar a atenção dos Ocidentais e lhes esconder a reorganização das Forças Armadas. Alguns começaram a levantar os olhos para o céu quando, em Março, se evocou a possibilidade de uma candidatura de Prigojin à presidência da Ucrânia : tinha o golpista perdido o senso das proporções ?

Os Serviços Secretos ocidentais concentraram-se em Evgueny Prigojin desde o início das operações militares na Ucrânia. Em 18 de Março, revelaram um milhar de documentos sobre suas actividades [3]. Tratava-se para eles de expor a rede de empresas que ele montara, a fim de dar credibilidade à acusação segundo a qual a Rússia não seria uma potência anticolonial uma vez que a Wagner pilha a África. Mas, em última análise, estes documentos mostram que Prigojin é um mariola, e não que rouba os países com os quais trabalha.

Ele participou na caça à corrupção no seio das Forças Armadas russas o que não o impedia de fomentar a corrupção fora do Exército. É possível que, graças a estas investigações, os Ocidentais tenham encontrado um meio de o manipular. Sendo o homem simultaneamente um patriota, mas também um vigarista comprovado, condenado na União Soviética. Nada sabemos e não poderemos saber até que este caso esteja encerrado.

Ainda assim, Evgueni Prigojin lançou-se numa aventura digna dos oligarcas do período Ieltsin. Ele garante que o Ministro da Defesa, o tuvano Serguei Shoigu, foi a Rostov-do-Don para supervisionar o bombardeamento das tropas Wagner. Ele acusa-o de ter assim assassinado milhares dos seus homens. Por fim, abandonou a Frente para vir também ele a Rostov-do-Don tomar posse do quartel-general das Forças Armadas. Anunciou marchar sobre Moscovo (Moscou-br) com os seus 25. 000 homens para ajustar contas com o Ministro da Defesa e o Chefe de Estado-Maior.

No seu último vídeo, declara : « Estávamos prontos a fazer concessões ao Ministério da Defesa, a entregar as nossas armas, a encontrar uma solução sobre o modo como continuaríamos a defender o país (…). Hoje, eles lançaram ataques com foguetes contra os nossos acampamentos. Muitos soldados morreram. Nós decidiremos a maneira como iremos reagir a esta atrocidade. A próxima iniciativa é nossa. Essa criatura [o ministro da Defesa] será presa ».

A Wagner dispõe à vontade de 25. 000 homens, e não apenas na Frente ucraniana. Muitos estão em missão na Ásia e na África. Além disso, muito embora disponha de aviões, a sua força aérea é insuficiente face à das Forças regulares, a sua coluna teria sido bombardeada sem que ele a pudesse proteger.

Em menos de um dia, todas as autoridades da Federação da Rússia renovaram a sua fidelidade ao Kremlin. O Presidente Vladimir Putin pronunciou-se na televisão. Ele lembrou o precedente de 1917, no decorrer do qual Lenine retirou a Rússia czarista da Primeira Guerra Mundial quando ela estava próxima da vitória. Ele apelou a que cada um assumisse as suas responsabilidades e em servir a pátria, mais do que embarcar em aventuras pessoais.

Durante este discurso, Vladimir Putin fez o elogio do valor dos soldados da Wagner, dos quais muitos morreram pela pátria. Ele, portanto, não os tomou como responsáveis pela situação, mas pediu-lhes para não seguirem o seu chefe contra o Estado e, portanto, contra o Povo.

Terminando a sua curta alocução à Nação, o Presidente Vladimir Putin concluiu : « Nós salvaremos aquilo que é caro e sagrado para nós. Nós ultrapassaremos todas as dificuldades, nós nos tornaremos ainda mais fortes ».

Esta intervenção foi difundida repetidamente nos canais de televisão russos, dramatizando a situação.

O Procurador-Geral da Federação da Rússia abriu um processo contra Prigojin por « organização de uma rebelião armada ».

As autoridades ucranianas lançaram nas redes sociais um apelo à oposição bielorrussa para que aproveitasse a confusão russa, se levantasse e eliminasse o Presidente Alexandre Lukashenko [“Quem quer derrubar o Presidente Lukashenko ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 1 de Setembro de 2020.]].

Os Serviços Secretos russos, que observavam todos os protagonistas e se mantinham na sombra desde o início, prenderam em flagrante delito os traidores que se desmascararam na Rússia e na Bielorrússia.

Durante o dia, o Presidente bielorrusso, Alexandre Lukashenko, ao qual o seu homólogo russo havia telefonado, falou com Evgueni Prigojin e convenceu-o a abandonar os seus projectos e a levar suas tropas de volta para a Frente. Vladimir Putin deu a sua palavra de respeitar o acordo que o rebelde assinou. Este anunciou renunciar derrubar Shoigu e Guerasimov.

Fim da história.

Primeira constatação : jamais houve tentativa de Golpe de Estado. A Wagner não tinha a capacidade de tomar Moscovo e Prigojin nunca atacou verbalmente o Presidente Putin. Este, aliás, nunca denunciou nada disso, mas sim « uma facada nas costas » dada às Forças russas fazendo face à Ucrânia.

Segunda constatação : também não se trata de um motim. A Wagner não depende do Ministro da Defesa, mas directamente da Presidência. Prigojin rebelou-se face a ela e apenas ela. A sua única reivindicação era de permanecer independente das Forças Armadas. Se estava pronto a renunciar às suas actividades militares, ele agarra-se aos negócios conexos que desenvolveu em todos os teatros de operação onde está presente. O homem, já o dissemos, é em simultâneo um patriota e um vigarista.

Terceira constatação: segundo as palavras do Presidente Putin, tratou-se de uma «rebelião armada» e de um « abandono de posto ». A Wagner deixou a Frente, mas os Ucranianos não ousaram, ou não puderam, atacar a parte da Frente que ela havia abandonado. Ora, não há nada mais desprezível para os Russos que defensores que abandonam o seu posto. Foi por isso que na véspera Prigojin difundira um vídeo garantindo que Kiev não havia bombardeado o Donbass durante os oito anos precedentes, contradizendo, sem vergonha, as observações da OSCE e do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Infelizmente para ele, os Russos não suportam que se ponha em causa a sua boa fé.

Neste ponto, uma outra constatação se impõe : enquanto se revoltava contra o Presidente Putin, Prigojin não matou ninguém. As suas tropas entraram em Rostov-do-Don sem encontrar resistência. As Forças regulares russas não atacaram a sede da Wagner em São Petersburgo. Os homens de Prigojin não marcharam sobre Moscovo. O Ministério da Defesa, parece, não ter disparado nenhum míssil contra os soldados da Wagner. O Procurador-Geral fechou o assunto da rebelião. Os milicianos da Wagner que não participaram na rebelião foram imediatamente integrados no Exército regular. Três unidades voltaram à Frente. A sorte dos milicianos que participaram na rebelião será tratada caso a caso.

Em última análise, o Estado não foi enfraquecido. Os dois vencedores são a Federação da Rússia e a Bielorrússia. Ainda assim, na mente dos russos, todo este assunto foi em grande parte uma encenação: assistiu-se a uma rebelião ameaçadora que imediatamente se dissipou. A única coisa que ficará será a critica à qualidade do comando militar ; uma ideia perturbadora apesar da fé da população no espírito de sacrifício dos seus soldados.

Na sequência deste estranho episódio, o Presidente Putin falou de novo na televisão. Ele voltou a elogiar os combatentes da Wagner e convocou-os a integrar o Exército regular, ou os Serviços Secretos, ou ainda outras Forças de segurança. Também lhes deu a escolha de voltar para casa ou de se juntarem a Prigojin na Bielorrússia.

Nas redes sociais russas circulam todo o tipo de hipóteses. A mais surpreendente salienta que a Wagner não podia rebelar-se e marchar sobre a capital sem a ajuda do Ministério da Defesa que a abastecia de combustível.

Nas próximas semanas, deverá assistir-se à última fase da transformação do Exército russo. Não é de todo certo que os que se enfrentaram ontem sejam realmente adversários.


1] “A estratégia ocidental para desmantelar a Federação da Rússia”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Agosto de 2022.

[2] “A reorganização das Forças Armadas Russas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Junho de 2023.

[3] Eles podem ser vistos aqui.


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Uma alternativa transversal abala a paralisia da Alemanha

(Por Eduardo J. Vior, in Geopol.pt, 27/06/2023)

Expulsa recentemente do partido A Esquerda, Sahra Wagenknecht prepara-se para fundar uma nova formação diferente do sistema atlantista e do populismo de direita.


Ao expulsar a líder histórica da corrente marxista da Esquerda (Die Linke), a direção do partido fez-lhe mais um favor do que um dano. O grande mal, pelo contrário, foi infligido a si própria e, paradoxalmente, ao seu equivalente no outro extremo do sistema político alemão, a Alternativa pela Alemanha (AfD). Rompendo todos os diques do esclerótico sistema político alemão, o discurso pacifista, socialista e popular de Sahra Wagenknecht granjeou-lhe a simpatia tanto dos eleitores de esquerda como dos conservadores. Se agora construir uma força transversal, desencadeará uma torrente que poderá destruir o Estado liberal e ameaçar o domínio dos EUA na Alemanha.

O Partido de Esquerda (Die Linke) apelou no sábado, dia 10, à sua antiga líder, Sahra Wagenknecht, para que renuncie ao seu mandato no Bundestag (câmara baixa do parlamento alemão). Wagenknecht e outros esquerdistas não citados nominalmente devem devolver os seus mandatos, afirma um comunicado da presidência federal do partido. De acordo com a Lei Fundamental, Sahra Wagenknecht não é obrigada a devolver o seu mandato, mas está desvinculada do partido.

Sahra Wagenknecht, de 54 anos, filha de um iraniano (daí o nome “Sahra”) e de uma alemã, foi membro da Juventude Socialista da Alemanha de Leste e, após a reunificação, aderiu ao Partido da Democracia Socialista (PDS), sucessor do antigo Partido da Unidade Socialista (SED) da extinta República Democrática Alemã (RDA). Na nova estrutura, presidiu à Plataforma Comunista, uma corrente interna ortodoxamente marxista, durante vinte anos. Em diferentes alturas, foi também membro da Presidência do Partido Federal e é deputada no Bundestag desde 2009. Durante a sua carreira, teve muitos confrontos com a maioria da direção do partido, que considerava “demasiado adaptada” à democracia liberal.

No entanto, foi depois das eleições legislativas de 2021, em que a esquerda perdeu metade dos seus votos, que a coexistência se tornou quase impossível. Enquanto a corrente dominante, seguindo a deriva identitária da esquerda europeia, prossegue uma agenda centrada nas políticas de género, no ambientalismo, no europeísmo, na abertura das fronteiras e no antirracismo, a minoria de esquerda acentuou a sua luta pelos direitos sociais, o pacifismo, a boa vizinhança com a Rússia e a integração dos imigrantes. Após a eclosão da guerra na Ucrânia, as diferenças acentuaram-se, porque a maioria adoptou o rumo anti-russo de grande parte do sistema político e a esquerda manifesta-se pela procura imediata de negociações com a Rússia, ao mesmo tempo que denuncia os EUA como o instigador da conflagração na Europa de Leste.

Apesar de Wagenknecht sempre ter entrado em conflito com a linha do partido, a maioria conteve-se até há pouco tempo, porque a líder é muito popular, mas a sua confluência de facto com algumas das posições defendidas pela AfD, de direita, já transbordou. Em março passado, juntamente com a feminista histórica Alice Schwarzer, lançou um “Manifesto pela Paz” que recolheu numerosas assinaturas (incluindo de dirigentes da AfD) e apelou a uma grande manifestação pela paz em Berlim. Desde então, a eurodeputada e os líderes do AfD fizeram uma série de declarações em que apelaram a negociações com a Rússia e condenaram as políticas económicas e sociais da coligação governamental.

Já em março passado, uma sondagem da revista Der Spiegel mostrou que os eleitores conservadores, especialmente os apoiantes da AfD, apoiariam um possível partido a fundar por Sahra Wagenknecht. No total, 25 por cento da população imagina-se a votar num partido liderado pela dirigente. Se entrar em campo com uma força própria, Sahra Wagenknecht pode tornar-se uma concorrência perigosa para a AfD, porque goza de grande popularidade entre os eleitores de direita e, com a sua combinação de críticas à migração descontrolada e à sua consciência social, atinge-os.

Visto em perspetiva, este é o único desenvolvimento que poderia travar o crescimento da direita nacionalista. Uma sondagem do YouGov, publicada na sexta-feira, dia 16, indica que 20% dos eleitores alemães dariam o seu voto à AfD, o que a torna o segundo partido mais forte, atrás da CDU, de centro-direita (28%) e à frente do SPD do chanceler Olaf Scholz (19%). Não há dúvida de que se trata de um terramoto político.

Após apenas um ano e meio no poder, a atual coligação “semáforo” entre o SPD, os Verdes (com 15%) e os liberais do FDP (7%) já não tem mandato para governar. Nas eleições gerais de 2021, o SPD tinha obtido 25,7%, o FDP 11,5% e o Partido Verde 14,8% dos votos. A sua incapacidade para resolver a crise económica e fazer baixar a inflação, a sua insistência numa transição ecológica impopular, a sua imperfeição na gestão do fluxo de requerentes de asilo que entram no país e o seu apoio à guerra dos EUA contra a Rússia retiraram-lhe toda a legitimidade. Esta queda abrupta da coligação deixa um vazio que a AfD, de direita, deveria ser capaz de preencher.

Vinte por cento é já um limiar significativo num sistema político fragmentado como o da Alemanha e alguns observadores políticos colocam o potencial externo da AfD em cerca de 30%. Até agora, uma coligação com a AfD era tabu para os dois maiores partidos, a CDU e o SPD. No entanto, na situação atual, a CDU enfrenta uma escolha: voltar à “grande coligação” paralisante com o SPD da era Merkel ou formar um governo com a AfD de direita.

A questão é que a AfD está a crescer e, quando ultrapassar a marca dos 20%, será mais difícil excluí-la de um governo de coligação. A recessão na Alemanha deverá ser longa e favorecerá as alternativas anti-establishment. O aumento descontrolado da imigração também está a contribuir para o crescimento da AfD. De acordo com dados oficiais, o número de pedidos de asilo na Alemanha aumentou 80% entre janeiro e março de 2023, em comparação com o mesmo período do ano passado. Num contexto de crise e de guerra, este aumento deve-se, sem dúvida, à situação central do país, mas também à força da sua estrutura de acolhimento. No entanto, como salientou Wagenknecht numa entrevista, o problema não é tanto o número de refugiados que o país aceita, mas a falta de políticas de integração para facilitar a convivência entre residentes e recém-chegados.

Igualmente, o SPD, os Verdes e os Liberais gastaram uma fortuna para apoiar a Ucrânia. A AfD, eurocética e defensora de melhores relações com a Rússia, aproveita-se assim do facto de cerca de um terço dos alemães não concordar com a guerra contra a Rússia. Por exemplo, apenas 28% dos inquiridos na última sondagem apoiam a entrega de caças alemães à Ucrânia e 55% dizem que a procura de negociações para acabar com a guerra deve ser intensificada. Apenas a AfD e a esquerda socialista de Wagenknecht levantam estas questões.

Do mesmo modo, a rejeição à União Europeia (UE) está a aumentar. Dezoito por cento dos inquiridos discordam fortemente da noção de identidade europeia. Ao mesmo tempo, o número de eurófobos e de eurocépticos está a aumentar igualmente, respetivamente 41% e 56%. A maioria da população (também noutros países europeus) resiste à delegação de mais poderes soberanos na UE.

Além disso, no ano passado, os Verdes acabaram com a energia nuclear e impulsionaram a transição para as energias renováveis a uma velocidade vertiginosa, gerando uma reação negativa entre os eleitores. Os custos da transição energética são insustentáveis para a classe média baixa e para as famílias mais pobres. A direita e a esquerda também estão a capitalizar este descontentamento.

A curto prazo, o impasse político está a aproximar-se devido à incapacidade dos quatro maiores partidos (CDU/CSU, SPD, FDP e Verdes) para encontrar soluções para a crise e à sua subserviência à política dos EUA. Ao mesmo tempo, após a expulsão da esquerda socialista, o partido da Esquerda poderá ficar abaixo dos 5% dos votos e perder o estatuto parlamentar. As hipóteses de os partidos estabelecidos formarem coligações governamentais com maiorias suficientes entre si foram significativamente reduzidas. A AfD aspira, portanto, a tornar-se indispensável na formação de um governo federal, mas tem de recear a concorrência da esquerda.

Washington utilizou o pretexto da guerra na Ucrânia para cortar os laços de Berlim com Moscovo e Pequim, através de sanções contra a Rússia. A ascensão do partido de direita sugere agora a possibilidade de a RFA recuperar a sua autonomia. No entanto, as suas componentes xenófobas e racistas suscitam a reação das classes médias liberais e põem em alerta todos os seus vizinhos, tanto mais que a ascensão da direita na Alemanha encorajaria a candidatura de Donald Trump nos Estados Unidos. Uma alternativa de esquerda reduziria essas apreensões, mas provocaria a reação americana.

A Alemanha parece não ter alternativa. Só o reatamento das negociações com a Rússia e a China poderia dar-lhe algum fôlego, razão pela qual a chanceler e os dirigentes das maiores empresas industriais do país se reuniram na terça-feira, em Berlim, com o primeiro-ministro chinês Li Qiang. Ali, reafirmaram a necessidade de reavivar os laços bidireccionais entre as duas potências, mas talvez seja demasiado tarde. A degradação das condições de vida e o pânico crescente entre uma população que se sente insegura farão o seu trabalho. Não é previsível que, no atual mapa político estagnado, uma nova força socialista venha a convergir com o nacionalismo democrático (que também integra a AfD), mas um novo partido de esquerda popular e radicalmente democrático poderia mover o tabuleiro de xadrez.

O desmoronamento crescente do sistema político alemão obrigará a que sejam tomadas decisões antes do final do ano. Ou o governo se mexe ou a sociedade mexer-se-á. Entretanto, novos actores entram em cena.

Traduzido par GeoPol do espanhol desde Télam


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