(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 27/06/2023)

Contrariamente aos comentários da imprensa ocidental, Evgueni Prigojin não tentou nenhum Golpe de Estado contra Vladimir Putin. Ele ensaiou chantagem a fim de conservar os privilégios exorbitantes que acumulou desde a criação da sua sociedade militar privada. Depois voltou à razão e reintegrou-se no seu posto.
Pode a tentativa de « Golpe de Estado » de Evgueni Prigojine mudar a sorte das armas na Ucrânia ? Era o desejo da OTAN que esperava este levantamento e despertou os seus agentes “adormecidos” na Rússia. O Reino Unido e os Estados Unidos imaginavam concretizar por fim a partição do país que não tinham conseguido levar a cabo em 1991 [1].
A criação de sociedades militares privadas (SMPs), entre as quais o Grupo Wagner, foi uma ideia validada pelo Presidente Vladimir Putin para testar novas formas de comando antes de as escolher e de impor as melhores no seu Exército. Em poucos anos, estas empresas testaram efectivamente muitos métodos e bastantes vezes provaram a sua eficácia. Chegara, pois, o momento de terminar a reestruturação do Exército russo dissolvendo-as e integrando as suas forças no Exército regular [2]. Uma data limite havia sido fixada pelo Presidente Putin : o 1º de Julho. No mês passado, o Ministério da Defesa enviou, portanto, projectos de contrato às diferentes sociedades militares privadas para planear a sua incorporação.
Mas o Grupo Wagner recusou responder-lhe e Evgueny Prigojin intensificou os seus insultos contra o Ministro da Defesa e o Chefe de Estado-Maior.
É preciso perceber bem aquilo que se passa : a criação de sociedades militares privadas pela Rússia é o equivalente àquilo que os Estados Unidos fizeram, sob o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld, quando aumentaram o recurso às SPMs à margem do Pentágono. No início a coisa funcionou, mas estas sociedades trabalharam também para a CIA e a mistura de géneros levou a catástrofes em série. Quando trabalhavam apenas para o Pentágono, os seus dirigentes exprimiam-se em público, como Erik Prince da “Blackwater”. Mas eles jamais tomaram posição contra o Secretário da Defesa ou o contra o Chefe do Estado-Maior Conjunto.
Diga-se de passagem, nem os soldados norte-americanos da Blackwater, nem os russos da Wagner são mercenários. Eles batem-se pelo seu país e são pagos para assumir riscos desmesurados que não se podem pedir aos soldados regulares. Pelo contrário, os mercenários batem-se por dinheiro sob o comando de uma potência estrangeira.
O facto de um dirigente de uma sociedade militar privada publicar durante dois meses vídeos incendiários contra os chefes das Forças Armadas, e que além disso está em plena operação militar, não seria tolerado em nenhum Estado. No entanto, com Evgueni Prigojin na Rússia foi. Os correspondentes que interrogamos durante estes dois meses consideraram todos que o Kremlin o deixava berrar para captar a atenção dos Ocidentais e lhes esconder a reorganização das Forças Armadas. Alguns começaram a levantar os olhos para o céu quando, em Março, se evocou a possibilidade de uma candidatura de Prigojin à presidência da Ucrânia : tinha o golpista perdido o senso das proporções ?
Os Serviços Secretos ocidentais concentraram-se em Evgueny Prigojin desde o início das operações militares na Ucrânia. Em 18 de Março, revelaram um milhar de documentos sobre suas actividades [3]. Tratava-se para eles de expor a rede de empresas que ele montara, a fim de dar credibilidade à acusação segundo a qual a Rússia não seria uma potência anticolonial uma vez que a Wagner pilha a África. Mas, em última análise, estes documentos mostram que Prigojin é um mariola, e não que rouba os países com os quais trabalha.
Ele participou na caça à corrupção no seio das Forças Armadas russas o que não o impedia de fomentar a corrupção fora do Exército. É possível que, graças a estas investigações, os Ocidentais tenham encontrado um meio de o manipular. Sendo o homem simultaneamente um patriota, mas também um vigarista comprovado, condenado na União Soviética. Nada sabemos e não poderemos saber até que este caso esteja encerrado.
Ainda assim, Evgueni Prigojin lançou-se numa aventura digna dos oligarcas do período Ieltsin. Ele garante que o Ministro da Defesa, o tuvano Serguei Shoigu, foi a Rostov-do-Don para supervisionar o bombardeamento das tropas Wagner. Ele acusa-o de ter assim assassinado milhares dos seus homens. Por fim, abandonou a Frente para vir também ele a Rostov-do-Don tomar posse do quartel-general das Forças Armadas. Anunciou marchar sobre Moscovo (Moscou-br) com os seus 25. 000 homens para ajustar contas com o Ministro da Defesa e o Chefe de Estado-Maior.
No seu último vídeo, declara : « Estávamos prontos a fazer concessões ao Ministério da Defesa, a entregar as nossas armas, a encontrar uma solução sobre o modo como continuaríamos a defender o país (…). Hoje, eles lançaram ataques com foguetes contra os nossos acampamentos. Muitos soldados morreram. Nós decidiremos a maneira como iremos reagir a esta atrocidade. A próxima iniciativa é nossa. Essa criatura [o ministro da Defesa] será presa ».
A Wagner dispõe à vontade de 25. 000 homens, e não apenas na Frente ucraniana. Muitos estão em missão na Ásia e na África. Além disso, muito embora disponha de aviões, a sua força aérea é insuficiente face à das Forças regulares, a sua coluna teria sido bombardeada sem que ele a pudesse proteger.
Em menos de um dia, todas as autoridades da Federação da Rússia renovaram a sua fidelidade ao Kremlin. O Presidente Vladimir Putin pronunciou-se na televisão. Ele lembrou o precedente de 1917, no decorrer do qual Lenine retirou a Rússia czarista da Primeira Guerra Mundial quando ela estava próxima da vitória. Ele apelou a que cada um assumisse as suas responsabilidades e em servir a pátria, mais do que embarcar em aventuras pessoais.
Durante este discurso, Vladimir Putin fez o elogio do valor dos soldados da Wagner, dos quais muitos morreram pela pátria. Ele, portanto, não os tomou como responsáveis pela situação, mas pediu-lhes para não seguirem o seu chefe contra o Estado e, portanto, contra o Povo.
Terminando a sua curta alocução à Nação, o Presidente Vladimir Putin concluiu : « Nós salvaremos aquilo que é caro e sagrado para nós. Nós ultrapassaremos todas as dificuldades, nós nos tornaremos ainda mais fortes ».
Esta intervenção foi difundida repetidamente nos canais de televisão russos, dramatizando a situação.
O Procurador-Geral da Federação da Rússia abriu um processo contra Prigojin por « organização de uma rebelião armada ».
As autoridades ucranianas lançaram nas redes sociais um apelo à oposição bielorrussa para que aproveitasse a confusão russa, se levantasse e eliminasse o Presidente Alexandre Lukashenko [“Quem quer derrubar o Presidente Lukashenko ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 1 de Setembro de 2020.]].
Os Serviços Secretos russos, que observavam todos os protagonistas e se mantinham na sombra desde o início, prenderam em flagrante delito os traidores que se desmascararam na Rússia e na Bielorrússia.
Durante o dia, o Presidente bielorrusso, Alexandre Lukashenko, ao qual o seu homólogo russo havia telefonado, falou com Evgueni Prigojin e convenceu-o a abandonar os seus projectos e a levar suas tropas de volta para a Frente. Vladimir Putin deu a sua palavra de respeitar o acordo que o rebelde assinou. Este anunciou renunciar derrubar Shoigu e Guerasimov.
Fim da história.
Primeira constatação : jamais houve tentativa de Golpe de Estado. A Wagner não tinha a capacidade de tomar Moscovo e Prigojin nunca atacou verbalmente o Presidente Putin. Este, aliás, nunca denunciou nada disso, mas sim « uma facada nas costas » dada às Forças russas fazendo face à Ucrânia.
Segunda constatação : também não se trata de um motim. A Wagner não depende do Ministro da Defesa, mas directamente da Presidência. Prigojin rebelou-se face a ela e apenas ela. A sua única reivindicação era de permanecer independente das Forças Armadas. Se estava pronto a renunciar às suas actividades militares, ele agarra-se aos negócios conexos que desenvolveu em todos os teatros de operação onde está presente. O homem, já o dissemos, é em simultâneo um patriota e um vigarista.
Terceira constatação: segundo as palavras do Presidente Putin, tratou-se de uma «rebelião armada» e de um « abandono de posto ». A Wagner deixou a Frente, mas os Ucranianos não ousaram, ou não puderam, atacar a parte da Frente que ela havia abandonado. Ora, não há nada mais desprezível para os Russos que defensores que abandonam o seu posto. Foi por isso que na véspera Prigojin difundira um vídeo garantindo que Kiev não havia bombardeado o Donbass durante os oito anos precedentes, contradizendo, sem vergonha, as observações da OSCE e do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Infelizmente para ele, os Russos não suportam que se ponha em causa a sua boa fé.
Neste ponto, uma outra constatação se impõe : enquanto se revoltava contra o Presidente Putin, Prigojin não matou ninguém. As suas tropas entraram em Rostov-do-Don sem encontrar resistência. As Forças regulares russas não atacaram a sede da Wagner em São Petersburgo. Os homens de Prigojin não marcharam sobre Moscovo. O Ministério da Defesa, parece, não ter disparado nenhum míssil contra os soldados da Wagner. O Procurador-Geral fechou o assunto da rebelião. Os milicianos da Wagner que não participaram na rebelião foram imediatamente integrados no Exército regular. Três unidades voltaram à Frente. A sorte dos milicianos que participaram na rebelião será tratada caso a caso.
Em última análise, o Estado não foi enfraquecido. Os dois vencedores são a Federação da Rússia e a Bielorrússia. Ainda assim, na mente dos russos, todo este assunto foi em grande parte uma encenação: assistiu-se a uma rebelião ameaçadora que imediatamente se dissipou. A única coisa que ficará será a critica à qualidade do comando militar ; uma ideia perturbadora apesar da fé da população no espírito de sacrifício dos seus soldados.
Na sequência deste estranho episódio, o Presidente Putin falou de novo na televisão. Ele voltou a elogiar os combatentes da Wagner e convocou-os a integrar o Exército regular, ou os Serviços Secretos, ou ainda outras Forças de segurança. Também lhes deu a escolha de voltar para casa ou de se juntarem a Prigojin na Bielorrússia.
Nas redes sociais russas circulam todo o tipo de hipóteses. A mais surpreendente salienta que a Wagner não podia rebelar-se e marchar sobre a capital sem a ajuda do Ministério da Defesa que a abastecia de combustível.
Nas próximas semanas, deverá assistir-se à última fase da transformação do Exército russo. Não é de todo certo que os que se enfrentaram ontem sejam realmente adversários.
1] “A estratégia ocidental para desmantelar a Federação da Rússia”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Agosto de 2022.
[2] “A reorganização das Forças Armadas Russas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Junho de 2023.
[3] Eles podem ser vistos aqui.
«a partição do país que não tinham conseguido levar a cabo em 1991»
Se bem me lembro, é essa partição que o policiote arvorado a czar quer reverter.
Oh! Camarada «Menos», que se passa contigo, que nos deixas preocupados, para já não teres certezas das tuas lembranças? Alguém te deu com mais força com um martelinho na cabeça na noite de S. João? 🥸
Bem, brincadeiras à parte, o contexto é explosivo e percebe-se que a lógica dos debates é invadida por preconceitos políticos e económicos!
Cada um tem direito às suas opiniões e é um facto que este Blog disponibilizou este espaço para
quem tem uma mente aberta .
Dito isto, vamos tentar, tanto quanto possível, ficar dentro da área de especialização que pensamos dominar com o conhecimento específico do assunto no que diz respeito à estratégia de guerra e às tácticas utilizadas no conflito entre os EUA e a Federação Russa. É muito simples: Os Estados Unidos querem roubar as riquezas minerais da Rússia, como fizeram e fazem em todo o mundo, mas os russos não querem ser roubados. Não se pode ganhar uma guerra contra uma potência nuclear do calibre da Rússia ou da China. Não se esqueçam que os russos jogam xadrez, os chineses jogam Go, e a europa joga damas e os ingleses jogam póquer.
Gostámos muito deste debate, que mostrou que há aqueles que observam o planeta Terra com uma lupa e o nariz colado ao guiador, e outros com um telescópio e um bloco de notas. Parece que a teoria da deriva continental estava certa, mas não podemos dizer à Ucrânia que vai perder o seu acesso ao mar devido ao movimento de uma grande placa e que as Rotas da Seda ou a abertura das rotas marítimas do Ártico vão virar a geoestratégia mundial de pernas para o ar. O Mediterrâneo vai parecer-se cada vez mais com o lago de Genebra e será difícil colocar a Suíça nesse mapa.
Parecer fraco quando se é forte: é a arte da guerra. A oposição a Putin vem de pessoas que pensam que ele está a ser demasiado comedido no caso da Ucrânia.
A verdadeira questão é: Até onde irá a NATO neste conflito? Até ao último europeu? A questão mantém-se. Em todo o caso, pergunto-me a mim próprio.
“Os nossos amigos americanos, o terrível Putin e o simpático Zelensky”. Como referem a maioria dos “jornalixeiros”, seria interessante ter o mesmo tipo de análise sobre Zelensky.
Foi dito que a Rússia não está isolada, o que é verdade:
É apoiada pela Hungria, pela Sérvia e por África …… .
O que, do ponto de vista económico, não é muito!
A China e o Brasil são os únicos países com verdadeira importância económica para a Rússia.
Tudo o resto só é importante para apoiar a Rússia quando esta vota na ONU.
Isto tem sido uma constante desde os tempos da URSS.
No entanto, a sustentabilidade da produção de xisto nos EUA está longe de ser certa, se olharmos para os números publicados em ………
Números e gráficos que desapareceram da informação disponível ao público em geral.
Sem querer ser demasiado conspiratório, será que o esgotamento dos recursos de xisto dos EUA é tão rápido que temos de o esconder dos pedintes?
Até há pouco tempo, o sector do xisto era deficitário e gerava uma montanha de dívidas …….
Qual é o balanço atual depois de comprar a baixo custo os activos dos que foram à falência?
Um pouco mais, um pouco menos de dívida não vai mudar o ritmo da dança no vulcão antes de o palco desabar……..
Nenhum partido político, nem mesmo a oposição, nenhum chefe militar aprovou o comportamento de Prigojin , e muito menos a grande maioria da população. Todos se mantiveram unidos em torno do Comandante-em-Chefe, tanto na frente como no interior do país. Como é que se pode concluir que ele enfraqueceu politicamente?
Não se considera que se trate de um golpe de Estado, nem sequer que tenha sido dirigido a Putin, mas sim de uma reivindicação de Prigojin contra os dois principais generais do exército, que considerava que a sua companhia não era suficientemente reconhecida e recompensada, algo que se assemelharia um pouco a uma reivindicação sindical armada. O regimento Wagner era utilizado para combater em cidades que tinham de ser tomadas casa a casa, o que era a sua especialidade, mas que a utilização de mercenários ao lado de um exército regular colocava sempre problemas técnicos, nomeadamente de coordenação e confidencialidade.
“Nenhum partido político, nem mesmo a oposição, nenhum chefe militar aprovou o comportamento de Prigojin , e muito menos a grande maioria da população. Todos se mantiveram unidos em torno do Comandante-em-Chefe, tanto na frente como no interior do país. Como é que se pode concluir que ele enfraqueceu politicamente?”
Chama-se “wishful thinking”, amigo André.
Leitura que se sugere: https://www.odiario.info/b2-img/noperderprivdolar.pdf
O jornal norte-americano “The New York Times” tentou responder à questão de saber por que razão a ofensiva ucraniana é tão lenta e mal sucedida.
A primeira razão prende-se com os extensos campos de minas criados pelo exército russo. Um porta-voz do Pentágono, comentando o que está a acontecer, salientou que o problema não reside apenas no número de minas colocadas, mas também no facto de que: “As tropas russas demonstraram uma capacidade de reconstruir campos minados que já tinham sido limpos com equipamento de engenharia ocidental.
A segunda razão para o fracasso das forças ucranianas, segundo o jornal, é a paisagem de estepe plana da região de Zaporiyia. As tropas atacantes não podem esconder-se nas dobras do terreno ou em áreas arborizadas, o que as torna alvos fáceis para aviões e artilharia guiada por drones.
A terceira razão foi o trabalho eficaz dos helicópteros de ataque russos Ka-52 contra colunas de veículos blindados do exército ucraniano. Os autores queixam-se de que a defesa aérea do exército ucraniano não cobria as tropas.
Salientam também um facto interessante: das três direcções dos ataques da UAF, os piores resultados foram obtidos precisamente onde as brigadas atacantes estavam totalmente equipadas com material da NATO. Os repórteres do New York Times admitem que não sabem responder à questão de saber porque é que isto aconteceu.
Tentando terminar o artigo com uma nota positiva, os autores citam a declaração de um certo tenente do exército ucraniano, que disse: “Penso que tudo está a correr de acordo com o plano. Mesmo que as coisas não corram de acordo com o planeado, esse também é o nosso plano … 🔮
O Yevgeny Prigozhin não matou ninguém durante a sua aventura?
Então e os 6 helicópteros e 1 avião da Força Aérea russa abatidos pelo Wagner, com a morte de 13 tripulantes?
*EFE, Reuters, AFP, DW* (a meRdia corporativa do natostão)