(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 30/08/2023)
Moscovo está ciente de que uma solução temporária só beneficia Kiev, permitindo-lhe recuperar forças e adiar a continuação do conflito para quando se encontrar em melhores condições.
Fomos confrontados recentemente com as declarações de Stian Jenssen, Chefe de Gabinete do Secretário-Geral da NATO, sobre uma possível solução para o conflito na Ucrânia. Numa conferência em Arendal, na Noruega, Jenssen defendeu que uma forma possível de terminar a guerra poderia ser a adesão da Ucrânia à NATO cedendo em troca os territórios presentemente ocupados pela Federação da Rússia. Perante o coro de críticas, Jenssen recuou, fez uma autocrítica e admitiu ter cometido um erro. Será difícil acreditar que não tivesse cobertura do Secretário-Geral para dizer o que disse.
Não o sendo, o futuro de Jenssen estaria comprometido. Não parece ser o caso. A reação suave do seu chefe perante um “erro” tão grosseiro sugere cumplicidade e autorização. O arrependimento discreto de Jenssen mostra que estava a trabalhar com rede. Stoltenberg limitou-se a repetir os slogans conhecidos: a NATO apoia a soberania e integridade territorial da Ucrânia enquanto for necessário. Será difícil não ver nesta história a “mão invisível” de Washington e a ligação direta de Washington a Stoltenberg, ultrapassando a consulta dos Estados-membros.
Este tipo de declarações não está previsto na descrição de funções do Chefe de Gabinete do Secretário-Geral, uma vez que não tem responsabilidades políticas. É um burocrata responsável por organizar, entre outras coisas, a agenda do Secretário-Geral e as reuniões do NAC (North Atlantic Council), que não é coisa pouca, mas que não lhe confere o direito de fazer comentários sobre como terminar o conflito na Ucrânia. Exatamente por não ter essas responsabilidades encontra-se numa excelente posição para testar as águas e apurar possíveis reações sem sofrer danos catastróficos. As do lado ucraniano foram muito iradas. Seria um erro pensar que as afirmações de Jenssen foram um “erro”.
O modo como terminará a guerra na Ucrânia não tem sido um tema incluído na agenda das reuniões do NAC e, como tal, não discutido pelos Estados-membros, não havendo, por isso, qualquer decisão da Aliança sobre essa matéria. Nem tem de haver. A NATO não será um mediador e essa questão terá de ser discutida sempre com a Rússia. De certo modo, os Estados-membros foram ultrapassados, mas tanto quanto pude apurar nenhum manifestou publicamente incómodo com o sucedido, o que não deixa de ser esclarecedor sobre a relação de forças no interior da Aliança, e a quem o Secretário-Geral efetivamente responde.
Recentemente, numa conferência organizada pelo Atlantic Council, Anders Rasmussen, o anterior Secretário-Geral da NATO, e agora assalariado do Governo ucraniano, veio sugerir uma solução muito parecida com a de Jenssen. Sobre a aplicação do artigo 5.º à Ucrânia, o criativo Rasmussen lembrou que há precedentes para resolver este tipo de problemas, dando como exemplo o caso da Alemanha, que quando aderiu à NATO, em 1955, estava dividida entre Oeste e Leste. O artigo 5.º só cobria o território da Alemanha Ocidental sob o controlo do Governo de Bona. “Podíamos usar exatamente a mesma fórmula na Ucrânia.”
Estas e outras tergiversações evidenciam três factos: 1) a admissão de que a Ucrânia não vai ganhar esta guerra, sendo necessário começar a pensar em soluções que não a militar; 2) passados mais de 18 meses do conflito, os EUA ainda não desistiram de incorporar a Ucrânia na NATO, seja com que configuração for; 3) estas propostas ignoram ou fingem ignorar a questão central desta guerra. A integração da Ucrânia na NATO, independentemente do formato e da porção de território ucraniano que viesse a controlar, não significaria para Moscovo uma solução de compromisso, mas sim a capitulação.
Estes factos não deixam de nos sobressaltar. Parecem mostrar que Washington ainda não percebeu que o leitmotiv desta guerra se prende com o alargamento da NATO na Ucrânia, que tem de ser esclarecido antes de qualquer discussão de paz, e não com o Donbass, um dano colateral de um problema ainda não resolvido. O conflito não terminará enquanto aquela questão incontornável não for decidida. Por isso, não deixa de ser confrangedor, e ao mesmo tempo preocupante, as propostas infantis de quem se espera elevada maturidade e sageza política.
Num artigo na “Foreign Affairs“, Richard Raass e Charles Kupchan interrogam-se se não será a hora de uma paragem negociada dos combates, sugerindo o congelamento do conflito. Dificilmente o Kremlin aceitará essa solução, porque sabe que as atuais limitações da base industrial e tecnológica de defesa ocidental para apoiar a Ucrânia são apenas temporárias. Não vai incorrer novamente no erro de assinar um novo Minsk e dar tempo à Ucrânia para sarar as feridas e preparar-se para uma nova confrontação. Moscovo está ciente de que uma solução temporária só beneficia Kiev, permitindo-lhe recuperar forças e adiar a continuação do conflito para quando se encontrar em melhores condições.
Washington tem de perceber, uma vez por todas, que o reconhecimento da “necessidade de criar estabilidade na periferia da Rússia” – leia-se, deixar cair a adesão da Ucrânia à NATO, em troca do consentimento russo de um maior protagonismo e influência norte-americana na Ásia Central com vista a cercar a China –, uma solução encaminhada para o Kremlin através da diplomacia informal conduzida por Haas e Kupchan, não passa de um exercício fútil muito difícil de ser aceite por Moscovo.
(Major-General Carlos Branco, in BlindSpot, 25/08/2023)
A «operação especial» levada a cabo pela Rússia na Ucrânia tem captado a atenção internacional e, em particular, a europeia. Desde a primeira hora que considero ser a solução diplomática o caminho para a paz. Contudo, uma máquina de propaganda bem oleada tem passado a ideia de que era possível uma vitória ucraniana rápida e fácil, o que não coincide com os factos. Apesar desta realidade ser cada vez mais incontornável, os mensageiros dessa propaganda, que repetiram e amplificaram a vitória ucraniana como certa dizendo tudo e o seu contrário, contribuíram para a manipulação da opinião pública que, no momento presente, é confrontada com o falhanço da estratégia de Biden e com a necessidade de uma solução política.
Como muitos analistas, também eu considerei que a Rússia não invadiria a Ucrânia, “só o farão in extremis.” A razão por detrás dessa consideração é, ainda hoje, válida. A Rússia não estava militarmente preparada para o confronto que daí adviria. Tinha-se preparado para enfrentar sanções, mas não para fazer face à resposta solidária do Ocidente, em especial nos termos e na dimensão em que ocorreu. Mas o in extremis aconteceu. As forças ucranianas concentradas no Donbass preparavam-se para atacar as duas repúblicas independentistas. Putin antecipou-se e invadiu a Ucrânia.
A necessidade da solução diplomática
A falta de preparação russa, não constituindo uma debilidade ao ponto de ser militarmente derrotada pela Ucrânia, mesmo ajudada pelo Ocidente, foi responsável pelos revezes em Kharkiv e em Kherson, interpretados por observadores menos experientes como um caminho irreversível para a claudicação. Sem perceber o que se estava a passar, viram erradamente nesses acontecimentos a antecâmara da derrota russa.
A convicção arrogante do Ocidente de que seriam “favas contadas” levou à sabotagem das iniciativas de paz quando, em março de 2022, Zelensky manifestou publicamente a intenção de renunciar a ser membro da NATO. Nessa altura, Minsk estava ainda na agenda e tudo era reversível. A continuação da guerra viria a ter consequências dramáticas em múltiplos aspetos, em particular na convivência futura de povos que tinham, até aí, coexistido sem problemas de maior no mesmo território.
Mas se a Rússia não estava preparada para este embate, o Ocidente também não! Três décadas de operações de paz deram no que deram. Foi evidente a incapacidade do Ocidente para fornecer, em tempo e em quantidade, os recursos necessários à manutenção de uma guerra prolongada.
Embora se soubesse que o confronto não envolveria apenas a Rússia e a Ucrânia, como a Newsweek deu nota, «seria pouco plausível admitir que um país com um PIB de $200 mil milhões e uma população de 44 milhões de habitantes conseguisse derrotar um país com um PIB de $1.8 triliões e uma população de 145 milhões,» ao que se acrescenta uma força aérea «não desprezível», uma indústria de defesa poderosa e capacidade nuclear. «A Ucrânia tem quase tanta possibilidade de vencer uma guerra contra a Rússia como o México tem de vencer uma guerra contra os EUA.».
Exatamente por estar convicto de que a Rússia não iria ser derrotada militarmente, defendi sempre uma solução política para o conflito. O seu prolongamento iria ser altamente prejudicial, em especial para a Ucrânia, mas também para a Europa. Passado um ano e meio, a Ucrânia tem a economia destroçada, o aparelho produtivo destruído, menos de 30 milhões de habitantes, quase 50 mil amputados e mais de 200 mil mortos, civis e militares, numa estimativa modesta. E para quê? A Ucrânia traz à memória a guerra na Bósnia. Três anos de uma guerra fratricida conduziram, em Dayton, a uma solução política pior do que aquela inicialmente encontrada em Lisboa (plano Cutileiro).
A propaganda e os seus mensageiros
Para levar a opinião pública a acreditar numa ideia, mesmo que incoerente ou até estúpida, é preciso montar uma campanha de Comunicação Estratégica, ter mensageiros devidamente socializados com os temas e mensagens articuladas pela potência hegemónica e coniventes com os seus interesses. Ou seja, os mensageiros têm de funcionar como repetidores e amplificadores das mensagens que lhe são impingidas, independentemente do seu conteúdo.
Não têm faltado especialistas instantâneos oriundos dos mais diversos setores de atividade (academia, comunicação social, etc.) para corroborar voluntariamente a mensagem, quais apresentadores de televendas. Para que as massas acreditem na verossimilhança de um plano idiota, também as elites têm de ser coaptadas para a causa. É preciso fazer com que as massas acreditem dogmaticamente ser possível o “Ocidente alargado” derrotar estrategicamente a Rússia, sem colocar “botas no terreno” e recorrendo apenas à «mão-de-obra» ucraniana. Como disse o Presidente polaco Duda, explicando porque é que os EUA deviam mobilizar-se para ajudar a Ucrânia, «Agora, o imperialismo russo pode ser parado de modo barato, porque os soldados americanos não estão a morrer. Mas, se não pusermos agora um fim à agressão russa, haverá um preço alto a pagar.».
Quem, há um ano, questionava os motivos oficiais desta guerra e não alinhava na versão simples e maniqueísta do «invadido e do invasor», dos bons contra os maus, e antevia que a Rússia não ia ser derrotada, sendo necessária uma solução diplomática, era democraticamente trucidado na praça pública, vítima de julgamentos de carácter, apelidado de putinista, traidor, e objeto de outros encómios. Independentemente da razoabilidade dos seus argumentos, a sua opinião era, por não enquadrada nos cânones permitidos, liminarmente desconsiderada. Esta campanha de comunicação estratégica veio trazer à tona o estado deplorável da democracia e do espaço mediático em que vivemos. Deixou de haver necessidade de escrutinar os argumentos. Qualquer coisa servia.
Não bastavam as infantilidades de fontes «insuspeitas» como os serviços secretos ingleses ou o Instituto dos Estudos da Guerra – os soldados russos não tinham munições, aprendiam a manejar as armas na wikipedia, estavam mal equipados, não tinham meias, Shoigu tinha sido demitido, e Putin tinha vários cancros, etc. Ouvimos, inclusivamente, a Presidente da Comissão Europeia no Parlamento Europeu dizer, sem se rir, que «o Exército russo está a retirar chips das máquinas de lavar e dos frigoríficos para consertar o seu armamento, porque já não tem semicondutores. A indústria russa está feita em cacos.». Não se ouviu a voz de nenhum mensageiro a comentar tão ridículo disparate. Remeteram-se obedientemente ao silêncio.
A propaganda e o double thinking
O nível de descerebração massiva foi ao ponto de se acreditar, em simultâneo, numa coisa e no seu contrário. Dizia-se que a Rússia estava militarmente de rastos e, no minuto seguinte, que ia invadir a Europa. Aquilo a que George Orwell chamou de double thinking.
A propaganda em que os mensageiros alinharam sem pudor visava criar nas opiniões públicas ocidentais a perceção de que a campanha militar ia ser «um passeio no parque». As sanções iam dar cabo da Rússia. As elites recusaram-se a questionar o óbvio. Esqueceram-se do histórico pantanoso do Vietname, Iraque, Líbia, Afeganistão, etc. Nada aprenderam. Tornaram-se num instrumento de credibilização da propaganda. Salvo honrosas exceções, deleitaram-se com verves belicistas sem questionar a possibilidade de a «coisa» não ser exatamente como se contava. O que seria, por exemplo, a reação da Rússia se confrontada com a eventualidade de uma derrota convencional? Ponderaria o recurso a armas nucleares? Minudências…
Se calhar até nem seria descabido procurar entender as legítimas preocupações securitárias de Moscovo e incluí-las na equação. Nem seria uma ideia original. Já muitos outros pensadores de elevada craveira o fizeram. Não significava abraçar nem defender o regime russo.
A intoxicação das mentes afetou muita gente por esse mundo fora. Como se nada tivesse acontecido em 2014, o Guardian, que antes dava as «boas-vindas à Ucrânia, a nação mais corrupta da Europa»» veio depois afirmar que a “luta pela Ucrânia é o combate pelos ideais liberais»; a Reuters, que antes apontava o «problema neonazi na Ucrânia», veio depois afirmar que «para os combatentes estrangeiros [evitando usar o termo mercenário] a Ucrânia oferece um propósito, camaradagem e uma causa»; enquanto antes a Vox dizia que «um comediante ucraniano tornado presidente está envolvido na confusão da impugnação de Trump», a CNN veio depois dizer que «os ucranianos estão a dar duas lições de democracia que os americanos esqueceram»; o Neweurope veio dizer que a «liderança do presidente ucraniano tornou-se corrupta e autoritária», enquanto o Washington Post (WP) veio mais tarde afinar a pontaria e dizer «Zelensky: o presidente que a TV tornou herói de guerra.». A guerra serviu para reabilitar, por exemplo, Oleh Tyahnybok, líder do partido de extrema-direita Svoboda. Em junho de 2013, Tyahnybok fora impedido de entrar nos EUA pelas suas posições antissemitas, o que não obstou a que, em dezembro de 2013, socializasse com John McCain em Kiev e fosse, em 2014, recebido pelo então Vice-Presidente Joe Biden na Casa Branca. Tudo normal e sem merecer reparos.
Afinal, a Ucrânia não vai vencer
Em fevereiro de 2023, o WP dava já nota da ansiedade que começava a grassar por Washington e colocava pressão sobre Kiev para obter ganhos significativos no campo de batalha, enquanto as armas e a ajuda dos Estados Unidos e dos seus aliados aumentavam. Os trunfos foram apostados na designada contraofensiva ucraniana, que tardava em chegar e que, quando chegou, rapidamente deixou perceber que iria ficar muito aquém das expetativas. Nesta linha, em fevereiro de 2023, o Die Welt avançava com cinco razões para explicar porque era cada vez menos possível a Ucrânia ganhar a guerra. Aos poucos, o Ocidente foi percebendo que a Ucrânia não ia vencer.
A Administração Biden começou discretamente a preparar-se para essa possibilidade. Enquanto, publicamente, a equipa do Presidente Joe Biden oferecia apoio inabalável à Ucrânia – armas e ajuda económica «pelo tempo que for necessário» -, nos bastidores, os funcionários do governo não escondiam o seu ceticismo relativamente à possibilidade de a Ucrânia algum dia vir a recuperar a Crimeia.
Começou a tornar-se difícil disfarçar e encobrir o óbvio: a incapacidade ucraniana para repelir a Rússia do seu território. Afinal, a ofensiva ucraniana não estava a quebrar a Rússia nem era o golpe fatal que ia acabar com a guerra. Washington percebeu e aceitou que a contraofensiva ucraniana não tinha chance. A admissão mais evidente de tal facto foi feita por Richard Haass, antigo presidente do reputado Council on Foreign Relations, «Se a Ucrânia não pode ganhar no campo de batalha, surge inevitavelmente a questão de saber se não será a hora de uma paragem negociada dos combates». Esquecendo-se do apoio prometido à Ucrânia as long as it takes,pragmaticamente Haass diz que «É caro, estamos a ficar sem munições, temos [EUA] outros desafios no mundo para os quais temos de nos preparar.». Imagino que os afegãos que leiam este texto compreendam imediatamente onde pretendo chegar.
Progressivamente, a narrativa do apoio as long as it takes foi sendo substituída pela necessidade de se encontrar uma solução política, surgindo imensas propostas. Um artigo publicado no Wall Street Journal dizia que as negociações dos EUA com a Rússia teriam lugar até ao fim do ano, e apontava a possibilidade de a China vir a ser um dos mediadores.
Ironicamente, Richard Haass e Charles Kupchan escreveram um artigo na Foreign Affairs com o título «O Ocidente precisa de uma nova estratégia para a Ucrânia» (13 de abril de 2023) onde defendiam «um plano para se ir do campo de batalha para a mesa das negociações… por reconhecerem que a Ucrânia é incapaz de expulsar totalmente as forças russas e restaurar a sua integridade territorial». E, acrescentavam que «O Ocidente precisa de uma abordagem que reconheça essas realidades sem sacrificar os seus princípios.», seja lá isso o que for.
Numa entrevista à UnHerd, Edward Luttwak veio dizer que «a guerra na Ucrânia pode terminar antes do esperado», e que «Biden e Putin estão prontos para fazer um acordo.». Luttwak argumentou que «uma mudança na situação geral resultou em líderes mais dispostos a negociar o fim da guerra na Ucrânia.».
A adaptação à nova narrativa
Conforme previ, a estratégia de Biden está a falhar. A probabilidade de não falhar é extremamente reduzida, porque foi mal concebida e assentou em premissas erradas. O Ocidente começa progressivamente a dar-se conta que Kiev não vai vencer. Sente-se que o tom da narrativa está a mudar. E tal sente-se nas manchetes dos órgãos da comunicação social ocidental, em particular da norte-americana. A busca de uma solução política para o conflito começa a prevalecer no discurso dos mensageiros.
Essa alteração de narrativa começa também a notar-se em Portugal, em especial no contorcionismo da maioria dos mensageiros. Ontem diziam que «A Ucrânia tem de ganhar», hoje dizem que «tem de haver compromissos, tem de se negociar uma solução política.». Sempre disponíveis para o que der e vier, uns para enganar e outros para ser enganados, amanhã regurgitarão o que lhes for mais conveniente, moldarão o seu discurso conforme a conveniência e alinhar-se-ão com aquilo que estiver a dar. Impulsionados pelo comboio castrador da propaganda, os mensageiros continuarão a demitir-se dos valores da verdade e enfileirarão na desinformação.
Em matéria de calculo estratégico, o Kremlin tem sido muito discreto no que toca ao anúncio das suas intenções futuras. Só faltava, para tornar tudo mais difícil, e em particular a campanha presidencial de Joe Biden, a Rússia lançar uma contraofensiva decisiva em 2024. Sendo uma hipótese a não descartar, caso tal se verifique estarei atento ao que os mensageiros dirão sobre o assunto, e confrontá-los-ei inevitavelmente com o que andaram a dizer durante dois anos. Avaliaremos então a qualidade do seu contributo para o esclarecimento do público.
Daqui a uns dias, a mais absurda “contraofensiva” da história da guerra moderna completará os 3 meses de aniversário. Dezenas de milhares de homens mortos e feridos, centenas de carros de combate destruídos, esta “contraofensiva” preparada pelos “altos” padrões da NATO, comandada pela “inteligência” da NATO e armada com as míticas armas da NATO, não logrou, sequer, chegar à designada linha Surivikin, nomeadamente à primeira de uma série de barreiras fortificadas, atrás das quais aguarda uma reserva militar russa de mais de 250.000 homens que ainda não entraram, sequer, em combate. Para além de uma meia dúzia de vilarejos despovoados, localizados na zona cinzenta, não podemos, com seriedade, contabilizar um único sucesso militar da mais propalada, propagandeada e transparente “contraofensiva” da história.
Rabotino, um vilarejo que no seu esplendor pré-conflito tinha 488 residentes, foi subitamente transformado num significativo e estratégico marco geográfico. Sem qualquer casa de pé, localizado em terra de ninguém e sendo apenas o primeiro ponto de passagem de uma “contraofensiva” que deveria ter chegado há mês e meio atrás ao mar de Azov, continua a revelar-se inultrapassável para as forças do regime de Kiev. E tantas vezes a máquina de mistificação social – que designam como “comunicação social” – anunciou a tomada deste “importantíssimo” vilarejo! Há uma semana era o orgulhoso e arrogante General da NATO, Mark Milley. O tal que dizia que, sob o seu comando e sem apoio aéreo, as forças que comanda, à distância de um clique do seu rato, chegariam a Azov nuns dias (chegou a falar-se em dias!), e que se recusa a ver a sua “contraofensiva” como falhada. Há dois dias foi a vice-ministra da defesa quem o anunciou.
O que é que esta realidade tinha de inesperado? Absolutamente nada! Talvez apenas a teimosia, frieza psicopatológica e teimosia senil, por parte do regime de Kiev, em seguir os ditames dos seus mestres ocidentais e, seguindo-os, continuar a atirar para a morte certa centenas de milhares dos seus homens e mulheres. Para Mark Milley é fácil dizer “não podemos deixar-nos impressionar com as elevadas baixas humanas”. O que já não é compreensível é esta frieza encontrar-se também nos corações da oligarquia política e económica que dirige, hoje, o horrível destino do país “404”.
Se, sem mobilização total, o povo trabalhador era literalmente arrancado à sua vida, fosse na rua, em casa ou nas compras… Como será, agora que foi lançado o próximo passo da loucura? Se, até aqui, o regime tem sobrevivido porque tem enviado para a morte as camadas mais pobres do país, sem voz pública para se fazerem ouvir; daqui para a frente, será o que resta da classe média e pequeno-burguesa a serem afectadas, a não ser que paguem, aos sempre largos bolsos da corrupção, de um regime que, também pela corrupção, aceitou destruir o seu próprio país.
Segundo um estudo apresentado por Scott Ritter (actualmente censurado no Youtube, por dizer demasiadas e inconvenientes verdades) realizado a partir de dados de satélite em que se contabilizou o aumento do número e dimensão dos cemitérios Ucranianos, desde Fevereiro de 2022 estima-se que tenham morrido cerca de 1 milhão de pessoas como resultado da guerra.
Estes são os episódios que faltam na narrativa dos países NATO. Nas fontes informativas NATO, as forças russas estavam “desmoralizadas, mal equipadas, com armas antigas e em mau estado, em motim permanente e comandadas por gente incompetente, cobarde e corrupta”. A sempre prestável Ana Gomes, quando de propaganda se trata, dá-vos um curso sobre como descredibilizar, desumanizar e ridicularizar o inimigo (sem gasóleo para tanques, lembram-se?). Milhazes, sai do curso e fará o resto, escreverá livros, artigos e monólogos inflamados, desdizendo tudo o que disse até 1991. O facto é que, parece que, gente como eles, exageraram tanto na carga de combustível que, a dada altura, os próprios comandantes NATO e os seus patrocinados, começaram a acreditar nos filmes de Hollywood em que se tornaram os telejornais, confundindo-os com a própria realidade. Foi tão caricato que surgiam comentários de comandantes ucranianos afectos ao regime de Kiev, nas redes sociais, dizendo que, quando a “contraofensiva” começasse e os russos os vissem, logo desatariam a fugir e a render-se.
Mesmo depois do fracasso do lançamento da “contraofensiva” e do constante bater com a cabeça na parede… Nos EUA começaram a surgir ecos, em especial nos órgãos de enviesamento republicano, em que, envergonhadamente e sempre na lógica de “uma no cravo, outra na ferradura”, alguns articulistas, politólogos e analistas começaram a reconhecer o fracasso da coisa e a desconexão entre a realidade observada e a realidade avaliada.
Contudo, na Europa, em especial aqui no nosso burgo, todos continuaram a acordar, de manhã, com “as forças de Kiev estão a avançar”. Com excepção dos mesmos de sempre, objectividade foi coisa que continuou a não existir, nos meios mainstream. O avanço reportado é tanto que, por esta hora, as forças do regime de Kiev já deveriam ter chegado a Vladivostok.
Na semana passada a CNN Portugal chegou mesmo ao cúmulo de dizer “as forças de Kiev chegaram à Crimeia”. Um barco, com uns quantos suicidas, para efeitos de propaganda mediática, conseguiu, pela calada da noite, chegar à costa e lá colocar uma bandeira, filmar e fotografar. Morreram todos. Esta parte a CNN Portugal não contou. Aliás, mostrou mesmo imagens de veículos militares russos nas ruas de Sebastopol, apresentando-as de forma ao espectador pensar que estaria a ver a tal “unidade” das “forças especiais” de Kiev. Na mesma peça diziam que as forças de Kiev tinham atingido a “linha mais importante de defesa das forças russas”, não dizendo que se tratou de uma incursão suicida que acabou como a da Crimeia. E, por fim, ainda diziam que Kiev tinha feito o maior ataque de drones desde sempre, não dizendo que tinham sido praticamente todos detectados e abatidos ou aterrados por meios de guerra electrónica.
O mesmo tipo de análise é feito quando, numa fase já de total desespero, o regime de Kiev recorre ao terrorismo puro e duro, atirando drones e bombas contra alvos estritamente civis, perpetrando actos de pura execução terrorista, contra determinadas pessoas, cujo único pecado é o de pensarem diferente. A estes actos os órgãos da “credibilidade” e do “fact-checking” apelidam de “ataques”, ou então, fazem como o Milhazes, que os refere como “ataques terroristas”, mas nunca diz quem os perpetrou. A outra técnica é apontar sempre para o Kremlin. O NordStream? Foi o Kremlin; a barragem? Foi o Kremlin; A central nuclear? Foi o Kremlin; Prigozhin? Foi o Kremlin… Quem o diz? “Fontes” da “inteligência britânica”, “americana” ou das “forças ucranianas”!
Ninguém esperaria que, do ponto de vista editorial, estes órgãos tomassem o partido dos “inimigos” declarados. Não podemos também esperá-lo das fontes russas, iranianas, indianas, turcas, latino-americanas não-alinhadas com o Ocidente, sauditas… Mas qualquer dos órgãos de comunicação mais representativos destes países, pela minha experiência, mesmo tomando o partido de quem os domina (há sempre quem domine), faz análises mais alargadas, diversificadas e objectivas do que os órgãos ocidentais.
A comprová-lo…. Está a própria realidade. Uma das características da comunicação capitalista na sua fase neoliberal consiste em alienar o espectador da realidade histórica e factual. Não lhe contando a história, ou apenas revisitando-a de forma parcial ou enviesada, o espectador é remetido para uma realidade desconectada entre si, perdendo a capacidade de organização da informação e passando a depender, ainda mais, do emissor informativo que causa essa dependência.
Notícias surgem, todos os dias, nos nossos jornais, sobre como o sector industrial – em especial no norte do país – se prepara para enfrentar uma enorme crise, em resultado da destruição da base industrial alemã e europeia, em geral. Mais uma vez, como no caso do fracasso da “contraofensiva”, a crise inflacionária, energética, alimentar e industrial na Europa, também nada traz de novo a todos os que, a partir de certa altura (24/02/2022 foi apenas um catalisador), optaram por passar a informar-se em órgãos de comunicação alternativos, passando a integrar a informação ocidental, num leque variado de fontes, ao invés de a utilizar como “a única fonte”.
Vejamos, uma vez mais, o caso ucraniano, para percebermos como diverge a realidade da narrativa que passa nas TV’s, jornais e livros ocidentais. Diz a narrativa oficial, marcada a letras de ouro nos instrumentos legais da UE, que a Ucrânia sempre foi muito maltratada pelos russos e, ainda pior, pelos bolcheviques. Tal é a narrativa que, até se inventou um genocídio alimentar programado só por vingança. Segundo a narrativa, nunca a Ucrânia, ligada à Rússia, poderia almejar qualquer tipo de liberdade e desenvolvimento. Diz a narrativa que, a história soviética da Ucrânia foi um desastre para o povo ucraniano.
O que nos dizem os factos, a realidade? Primeiro que o ódio ao comunismo era tal que o Presidente Kuschma, do PCU, ganhou todas as eleições até à “revolução Laranja”, fomentada pelos EUA, em 2004. E a “revolução laranja” tratou-se de uma artimanha engenhosa e inconstitucional (eleições presidenciais com uma 3ª volta) fomentada pela CIA, para fazer eleger um presidente que lhe fosse simpático, uma vez que já haviam perdido as esperanças em destronar Putin na Rússia.
Segundo, os pais da República ucraniana são os bolcheviques. Até à fundação da República Socialista Soviética da Ucrânia em 25/11/1917, a Ucrânia era uma região do império russo. Era a “ucrânia (fronteira) da Rússia”, território disputado pelos vários impérios adjacentes ao longo de séculos. Para agravar ainda mais o “ódio” bolchevique à Ucrânia, foi Lenine e não outro que, em 1918 lhe junta o Donbass. Porquê? Porque a “odiava” tanto que queria juntar regiões industrializadas russas, para que, com estas, o território ucraniano, como um todo, se pudesse desenvolver. E como se desenvolveu.
Com um “ódio” ainda mais doentio, Krushev, em 1954, para reforçar a amizade entre russos e ucranianos, fez integrar o oblast da Crimeia (região autónoma da Rússia), na república ucraniana. Afinal, a água e electricidade da Crimeia vinha da Ucrânia.
O ódio era tão grande e irracional que a evolução demográfica da RSSU diz tudo: Em 1922 tinha 26,2 milhões de habitantes; em 1940 tinha já 41 milhões (e tantos que o “Holodomor” fantasiosamente matou); 31,4 em 1946, graças a Bandera; 51,6 milhões em 1990. Em 1991 já passavam dos 52 milhões. Um ódio tão grande que a população duplicou em menos de 70 anos. Parece a Portuguesa e a da Europa ocidental, não é? Era um território tão mau para se viver que a população duplicou em 69 anos!
Depois, de acordo com a narrativa NATO, veio o amor ocidental. E o amor ocidental foi um sucesso. Mas não para o povo ucraniano. Se na URSS a Ucrânia chegou a ser a 5ª economia europeia e a 10ª do mundo, de 1991 a 2004 era um país com indústria de aviação, aeroespacial, gás, petróleo, uma potência agrícola, mineira, um país letrado, de gente inteligente, culta e com todo o potencial para, mesmo após o colapso da URSS, poder continuar como um potentado europeu. Tudo produzia a Ucrânia, naquele conceito “ultrapassado” de soberania e independência nacional, de que os comunistas tanto gostam, mas que é indispensável para sermos livres nas nossas escolhas e destino colectivo e individual. Mesmo vítima da corrupção crescente, assim mesmo, em 2001, a Ucrânia tinha ainda 48,5 milhões de pessoas.
O “amor” ocidental, o “apoio” e a “cooperação” fizeram cair a população do país para 45,2 milhões em 2014; 39,4 em 2015 (saída da Crimeia); 37,3 em 2022 e 26,5 em 2023. Este país deveria ter, continuando o seu ritmo normal de 1990, cerca de 55,6 milhões…. Tem metade! De revolução “democrática” em revolução “democrática”, tornou-se tão bom aí viver que, entre 2001 e 2023, o país perdeu mais de 22 milhões de pessoas. Um sucesso, esta “cooperação” com o Ocidente.
O país passou de ser uma potência económica, para se tornar o mais pobre da europa, estando hoje ligado à máquina de dólares, para não morrer. Literalmente. A Blackrock, Monsanto e outras corporações “amigas” têm comprado, a preço de saldo, tudo o que resta, a indústria está destruída e, em virtude das “vitoriosas” aventuras militares em que se empenharam, estão prestes a perder a ligação ao mar. Ou seja, a paixão do Ocidente pela Ucrânia é de uma toxicidade mortal. É uma espécie de “atracção pelo o abismo”. Ao contrário do que se propagandeia, o país não tem liberdade de expressão, cultural, étnica ou política. Neste país, a única garantia que existe é, ou pagar-se ou ir para à linha da frente, contra os russos, porque o tio Sam manda. Foi para isso que EUA e Inglaterra boicotaram o acordo de Istambul, em Março de 2022. Em cima disto tudo, o país deve mais de 100 biliões aos seus “credores” americanos e europeus. Mais de metade em armas que, ou já queimaram, ou ainda faltam queimar. E como ardem as “wondewaffe” ocidentais, quando levam com os ultrapassados mísseis, drones e projéteis russos.
Seja pela guerra, pela anexação do Donbass e Crimeia pela Rússia ou pela destruição da rede social, económica e cultural existente, este país só está onde está por causa da sua aproximação ao Ocidente e da engenharia social a que a CIA o submeteu, em especial, a partir de 2001. Uma vez mais, esta realidade contrasta totalmente com a narrativa ocidental. Contudo, e também uma vez mais, é corroborada por tantos e tantos países aos quais aconteceu o mesmo. Letónia, Estónia e Lituânia, têm hoje metade da população que tinham em 1991 e das mais baixas taxas de fertilidade do mundo. Qualquer um deles, a ver pelos gastos militares (os mais altos da NATO em % do PIB) e em conjunto com a Polónia, já tirou a senha para se atirar à Rússia, quando a Ucrânia estiver humanamente esgotada. O que, pelas palavras do próprio NYTimes, já acontece. Eis o sucesso do “amor” ocidental.
Assim, três meses após o início de uma contraofensiva que se anunciava falhada, vale a pena relembrar que, quando se tornar, por força das circunstâncias, impossível ao regime de Kiev continuar a acreditar que pode vencer a guerra, há quem o tenha visto, dito e escrito desde o início da “aventura”. E não são poucos… Não passam é na TV!
Quando a Europa se encontrar em pior situação do que aquela em que já se encontra, houve quem o tenha dito, visto e anunciado logo que se instalou a tentação para o abismo. Não se trata de adivinhação: trata-se de diversificação das fontes de informação, sem preconceitos e fugindo à bolha comunicacional que Google, Facebook e Youtube nos colocam à frente.
Nenhuma narrativa substitui a realidade. Apenas a pode esconder por algum tempo. E a realidade diz-nos que a Ucrânia está a morrer e quem a está a matar não são os que, supostamente, aí estão a combater. São os que a “ajudam”, “apoiam” e “suportam”!