Migrações, naufrágios e milhões

(André Campos, in comentários na Estátua de Sal, 23/09/2023)

Eis um assunto que gostava de comentar. Conheço alguns que arriscaram a travessia! Para ser mais correto foram homens, mulheres e crianças, bem….10996 homens, 2 mulheres e 2 crianças!

Os migrantes vão para onde a relva é mais verde… O que é preciso saber é que alguns meios de comunicação social explicam que existe ajuda social nos nossos países para os acolher, em Portugal também. Quando tal representa pelo menos 10 vezes o salário mensal no seu próprio país, é fácil perceber porque é que arriscam a travessia. O que não lhes dizemos é que o custo de vida é 30 vezes mais alto.

São os dirigentes ocidentais que estão a organizar a deportação destes pobres africanos, estas pessoas não estão ali por acaso e não é possível reunir tanta gente sem marcação, não é possível trazer estas pessoas em barcos normais, é impossível. Foi um barco que trouxe estas pessoas e continuo convencido de que estas pessoas estão a ser pagas para vir para a Europa.

Não se fala em usar a força contra os migrantes porque eles são o lucro para muita gente: contrabandistas, comerciantes do sono, hoteleiros, advogados, cuidados de saúde, multinacionais, etc. Além disso, um migrante é apenas mais um consumidor a quem vamos dar dinheiro público, o nosso dinheiro, e que vai aumentar o PIB e o crescimento na Europa. Quando esse dinheiro provém da dívida ou da criação de moeda, não é surpreendente que tenhamos inflação.

Factfulness, de Hans Rosling, (páginas 212, 213 e 214 na versão inglesa, Flatiron Books 2020): o autor explica que os migrantes pagam 1000 euros para atravessar a Europa em canoas, enquanto um bilhete de avião custa cerca de 50 euros. Porquê pagar 1000 euros e arriscar a vida quando se pode voar em segurança por 20 vezes menos? Uma diretiva do Conselho da Europa, de 2001, obriga as companhias aéreas a lutar contra a imigração clandestina (que é difícil de controlar ao balcão). Por isso, os imigrantes são obrigados a embarcar em botes e arriscam-se a morrer afogados. Que hipocrisia! Por um lado, a UE fica comovida quando os imigrantes se afogam e, por outro, impede-os de apanhar o avião.

Quem beneficia com a criminalidade? A imigração fornece mão-de-obra imediata (não temos de suportar 18 a 25 anos de infância “inativa” para que, tal como os nossos filhos, eles entrem no mercado de trabalho) e faz baixar os salários, criando fontes de insegurança que justificam medidas coercivas que vão muito além dos riscos que pretendem combater.

A imigração em massa é, portanto, PERFEITA na constituição do neofascismo de Davos: a família deixa de ser promovida, as políticas de natalidade são postas de lado, as formas estéreis de sexualidade são culturalmente encorajadas e a imigração é empurrada para compensar a carnificina.

Há quem diga que a intenção das autoridades europeias é claramente a de destruir a soberania das nações, organizando o caos a partir do interior, através do afluxo de migrantes para apoiar o pacto de migração decidido pela União Europeia. Um eletrochoque, como um presente para o governo globalista.

A nova ordem mundial precisa deste pacto para reinar sem a ajuda das nações. O mesmo se passa com a Ucrânia usada para consolidar a ação da NATO e apoiar um mundo unipolar e, finalmente, como a pandemia de COVID organizada para dar à OMS plenos poderes sobre a saúde global. Resta-nos entender isto e não sermos enganados …!

O discurso de Von der Leyen (na quarta-feira passada, se não estou em erro) onde, de facto, de forma bastante incongruente, ela mencionou o problema dos passadores de pessoas…foi chocante, porque, na sua miscelânea de auto congratulação e negação (“somos ótimos, a Europa é ótima, sempre tivemos razão, o céu ao lado é o inferno, etc.”), vir com este assunto do nada, e sem mais nem menos, tem um sabor desagradável a encenação.

Sim, a cronologia dos acontecimentos é bizarra, e vai ser um sucesso para os caçadores de conspirações que vão dizer que é normal porque os bons são bons e os maus são maus… mas, por outro lado, é óbvio que o objetivo desta Europa é servir de potencial pequeno David contra o grande Golias que está a crescer (olá BRICS).

Há certamente a ideia de reduzir as nações a sociedades anónimas (trocadilho não intencional), mas também a ideia de continuar a praticar o dumping social sob a capa de grandes refrões humanistas (Von der Leyen insistiu em acelerar o advento da Europa dos 30), para continuar a poder participar na corrida da competitividade, mesmo que esta já esteja condenada. A política do curto prazo está mais ansiosa do que nunca de ver o fim dos tempos, fazendo da urgência a ordem do dia e recorrendo a uma estratégia de pensos rápidos cada vez mais frenética. Como sempre, saquear, esmagar e destruir enquanto se pode e, no mínimo, fazer negócios sobre as ruínas, é edificante, ao mesmo tempo brutal e alucinante, como Kubrick, sem a encenação, mas com o mesmo cinismo brilhantemente incutido.

De acordo com Phillipe Fabry, que tem um contacto no local, alguns migrantes disseram que não tiveram de pagar aos passadores, o que aponta para algo planeado, mas por quem? A Tunísia, sem a qual nada pode ser feito, na prática? Terá sido financiada pela EU… e porque não pelos EUA? Por outro lado, é difícil dizer que se trata de um acordo entre a Tunísia e a UE, tendo em conta as recentes discussões, a não ser que se trate apenas de teatro, o que é bem possível.

Todos os países da União estão subordinados ao maná financeiro europeu, e foi isso que tornou esta estrutura demasiado poderosa. Além disso, o endividamento endémico dos estados-membros torna-os maleáveis. Este desequilíbrio económico, deliberadamente provocado internamente pela desagregação do tecido industrial, a instrumentalização da miséria, os debates estéreis sobre temas inúteis, as mentiras e a cegueira de uma população amorfa, só serviram para reforçar a tomada de poder pelas hienas europeístas.

As migrações, um flagelo humano obsceno pelo qual as políticas desestabilizadoras das grandes potências são em grande parte responsáveis, querem fazer-nos sentir culpados através de imagens e de um discurso paternalista de privilegiados que certamente não têm nada a ver com a miséria quotidiana.

Esta empatia seletiva significa que apoiam a privação de direitos fundamentais de alguns dos seus concidadãos que se recusaram a aceitar um envenenamento geral imposto por gurus maliciosos, incluindo a Presidente da UE, mas a pobreza extrema já existe no nosso país, nas zonas rurais, no mundo estudantil e em toda uma franja de pessoas comuns que foram marginalizadas pela precariedade do emprego e pela inflação excessiva.

Em vez de se pretender mostrar o fim da história, através da chegada em massa de imigrantes a Itália, porque não aprofundar o prólogo, ou seja, as raízes profundas destes movimentos e realizando um investimento político coletivo para travar estas partidas em massa? Mas é mais fácil acusar-nos de intolerância do que pedir contas aos poderosos, a quem lambemos as costas para conseguir um lugar ao sol.

Enquanto os europeus não compreenderem que a imigração é um negócio organizado que rende mais de 10 mil milhões de euros por ano, não compreenderão porque é que 8000 pessoas se levantam como uma só e são contadas. É tudo uma hipocrisia à custa desta pobre gente que merece um pouco mais de respeito.

Por um lado, os europeus dizem que a Rússia tem a sua quota-parte de responsabilidade e que deve mesmo contribuir para os fluxos migratórios, nomeadamente no caso dos nigerianos.

Por outro lado, há os soberanistas, que consideram que é a Europa que tem a sua quota-parte de responsabilidade e que está a levar a melhor…

Quando se é imparcial e não sectário: em quem acreditar?

A verdade está no meio,..  Algures.

Dá que pensar…


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Lampedusa, o destino da Europa e do mundo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso,22/09/2023)

Miguel Sousa Tavares

Lampedusa é uma pequena ilha de Itália, entre África, a Sicília e o continente italiano. Tem 7 mil habitantes e em apenas três dias da semana passada recebeu 10 mil imigrantes vindos de África e com origem maioritária em portos da Tunísia. Aparentemente, o acordo que o Governo de coligação de extrema-direita, chefiado pela primeira-ministra Giorgia Meloni, estabeleceu com o Governo tunisino — dinheiro contra retenção de imigrantes — não está a funcionar como ela esperava. Nos dois anos em que o seu parceiro de coligação e de Governo e líder da Liga, Matteo Salvini, foi ministro do Interior num anterior Governo, ele chegou a mobilizar a Marinha de Guerra contra as frágeis embarcações dos imigrantes: milhares morreram afogados na travessia do Mediterrâneo e apenas 7 mil num ano e 8 mil noutro conseguiram atingir a costa italiana. Mas desta vez, e contra todas as expectativas, Meloni recusou voltar a dar a Salvini a pasta do Interior e adoptou uma política muito mais branda e humana para com os imigrantes. Resultado: só este ano e até agora entraram em Itália 127 mil desesperados do Norte de África e do Sahel, vítimas de guerras ou de ditaduras alguns, mas vítimas sobretudo da fome e das alterações climáticas a maioria, todos em busca de uma réstia de esperança numa vida decente. Lampedusa recebeu os seus resgatados com um insuperável humanismo e generosidade, como outras partes de Itália e da Sicília o fizeram, e também a Grécia, mas de forma bem menos pacífica e generosa. Tudo perante o silêncio e a indiferença da Europa. Mas há sempre um limite suportável, e a população de Lampedusa chegou agora ao seu, perante o anúncio de que as autoridades se preparam para estabelecer novo acampamento permanente na ilha para acolher mais imigrantes. Como escreveu Helena Matos no “Observador”, o que diria a população de Porto Santo se tivesse de acolher mais imigrantes do que os próprios residentes?

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

No domingo passado, Meloni levou Ursula von der Leyen a Lampedusa para que ela visse com os próprios olhos aquilo que a Europa não quer ver. E, enquanto elas se reuniam em Lampedusa, mais a norte, em Itália, Salvini recebia Marine Le Pen e, juntos, os dois expoentes máximos da extrema-direita xenófoba e anti-imigração europeia combinavam uma possível lista comum às europeias do ano que vem e uma estratégia comum do tipo “regresso às canhoneiras” em que Salvini se distinguiu no passado. Em Lampedusa, Von der Leyen apresentou um vago “projecto europeu” em 10 pontos, compreendendo patrulhas navais euro­peias, um corredor para imigração legal (qual?) e repatriamento da ilegal (para onde?), além da solene declaração de que será a Europa, e não os traficantes de seres humanos, a decidir a sua política de imigração. Uma bela frase que esbarra, contudo, na realidade dos factos. E a realidade é aquilo que, dias depois, Meloni disse na Assembleia-Geral da ONU: “A Itália não pode e não quer continuar a ser o depósito de imigrantes da Europa”, apenas porque é o país cujas costas ficam mais próximas das de África. Longe desta malfadada geo­grafia, Portugal, pela voz da ministra Ana Catarina Mendes, aparecia nas páginas do “La Repubblica” de sábado passado como um exemplo a seguir. “Devido à nossa baixa natalidade”, explicava a ministra, “estamos abertos a receber imigrantes para preencher as nossas necessidades de trabalho.” Eles são úteis e bem-vindos, acrescentou, e temos leis para os acolher decentemente (veja-se Odemira e não só…). Todavia, quando perguntada o que faríamos quando as necessidades de imigrantes estivessem preenchidas, a ministra preferiu divagar e esquecer a pergunta. Outros — a Polónia, a Hungria, a Eslováquia — são frontais e sem subterfúgios: não querem receber imigrantes nenhuns e não têm nada a ver com o assunto. A Polónia, um país vagamente democrático e sem qualquer espírito europeu, lançou-se mesmo na construção de um muro de fronteira contra a imigração, como fez Trump na fronteira com o México. Bruxelas chegou a ameaçar a Polónia com o corte de dinheiros europeus — uma represália lógica e justa —, mas recuou entretanto, uma vez que a Polónia se tornou um dos maiores apoiantes da Ucrânia, e essa é a única solidariedade europeia que hoje conta.

Na recente cimeira do G20 falou-se muito da Ucrânia, e Zelensky lá teve direito ao seu tempo reservado para, como sempre, pedir mais armas para aquilo a que o secretário-geral da NATO, julgo que entusiasmado, avisou que irá ser ainda “uma guerra prolongada”.

No G20 falou-se muito da necessidade de continuar a guerra, mas não se falou nada da necessidade de estabelecer um diálogo para a paz. Falou-se muito do aumento das despesas militares e de continuar a armar a Ucrânia, mas não se falou nada de dinheiro para combater as secas e a fome no Terceiro Mundo. Falou-se da história mal contada da “chantagem alimentar russa”, mas ninguém disse, como Guterres, que “o mundo precisa dos cereais ucranianos e precisa dos alimentos e fertilizantes russos” — e que os fornecimentos de uns estão ligados aos outros.

Não se falou das alterações climáticas nem das tragédias ou dos fluxos migratórios provocados por elas. E ninguém lembrou, como Guterres, que à volta daquela mesa estavam reunidos países responsáveis por 80% dos gases com efeitos de estufa e que era de estranhar que nenhum dos líderes mundiais ali presentes “sentisse o calor”. No G20, como nos discursos dos grandes do mundo na ONU, o que agora verdadeiramente os preocupa é o poder crescente dos BRICS e o seu futuro alargamento a países do Médio Oriente: o petróleo, a eterna luta pelo petróleo, e a irritação de verem países tradicionalmente abertos à boa e velha “ordem liberal”, como o Brasil e a Índia, “a fazerem agora o jogo de Putin” — isto é, a defenderem que se comece a procurar a paz em lugar de continuar a guerra sem fim à vista. Definitivamente, o mundo já não é o que era, e ao Ocidente já não resta mais do que entrincheirar-se atrás de muros e bombardear os bárbaros do Leste e do Sul, que nos assaltam sem razão. Stoltenberg e a sua NATO defenderão o Leste, Salvini e Le Pen o Sul, a VII Esquadra americana o Extremo Orien­te, e alguns intelectuais escreverão que, afinal, a história continua. Como se não o soubéssemos. Lampedusa é apenas uma minúscula ilha no mar da indiferença em que naufragamos.

Saiba mais aqui

 

2 Mesmo neste tempo da internet e das notícias constantes online, gosto de manter um velho hábito de, quando ausente da terrinha, deixar comprados, para depois ler, os jornais da minha ausência. Fiquei assim a saber que, se as novidades não foram muitas, foram, pelo menos, divertidas. Marcelo andou a comentar decotes no Canadá, enquanto alguns intelectuais da Mui Nobre, Leal e Sempre Invicta se escandalizaram ao retardador com a escultura de uma jovem nua abraçada a um velho Camilo. (Larga a peça, Eça!, ou ainda te cortam a cabeça em Lisboa.) Cavaco lançou a sua muito publicitada “Arte de Governar”, rodeado de “ajudantes”, numa coisa dantes chamada Grémio Literário e hoje mais conhecida por Clube Literário do PSD (já gastei os meus 17,75 euros para matar as saudades, não a curiosidade). E, segundo as melhores opiniões, as europeias do ano que vem serão absolutamente determinantes em Portugal para decidir: a) se Montenegro continua à frente do PSD; b) se Costa resiste ou avança Pedro Nuno; c) se Marcelo pode finalmente dissolver tudo à cacetada; d) se o Chega cresce ou o CDS renasce. O que tem isto a ver com a Europa — com a crise migratória, com as alterações climáticas, com a continuação da guerra, com o alargamento a Leste e com o fim dos nossos queridos dinheirinhos europeus? Pois, nada. Mas quem disse que as europeias servem para discutir a Europa?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

O dom da ubiquidade

(Hugo Dionísio, in Facebook, 22/09/2023)

De repente fez-se luz! Percebemos porque é que diziam ser possível estar na Crimeia após a primeira semana de ofensiva. Simplesmente não existe nenhum poder no mundo, capaz de competir com quem tenha o dom da ubiquidade!

Iniciada a inversão da maré mediática – foi o próprio NY Times quem escreveu que o míssil contra o mercado de Konstantinovka -, com rumo a uma provável e crescente culpabilização dos próprios, outro que não o próprio Zelensky, debateu-se com uma sala vazia, aquando do seu discurso na Assembleia Geral da ONU.

Não foi apenas Duda, presidente da Polónia, quem se baldou à reunião bilateral que tinha marcada com a figura; não foi, apenas, o próprio Duda quem anunciou o fim das armas para o territorialmente cobiçado vizinho de leste; não foi apenas o anuncio do embargo, por vários países europeus, aos cereais da Ucrânia; não foi, tão só, o pacote minimalista, com o qual o comediante teve de se contentar, apesar de ser de 5 a 10 vezes menor do que o habitual, em montante e em quantidade…

Tudo jogou contra ele. Até Byron Donalds, uma das figuras proeminentes do partido republicano e dos novos “conservadores”, veio dizer que “se tivéssemos um presidente que em vez de dormir nas assembleias, estivesse acordado, talvez o mundo não estivesse como está”, referindo-se a Sleepy Joe (Joe adormecido). Ainda acrescentou que “já chega de dinheiro para a Ucrânia, precisamos dele aqui”.

Tal como Duda, parece que o movimento desta gente é o de isolar o partido democrata, isolar Biden e os seus capos (prevenindo e prevendo uma vitória republicana possível e a inversão da tendência), sejam eles, liberais ou conservadores, fugindo da associação a uma Ucrânia que o presidente polaco designou de “homem a afogar-se, num estado em que afoga quem o quiser salvar”!

Na repetição histórica do banderismo e nazismo dos anos 30 a 40 do século XX, desta feita como farsa, a propaganda enganosa ocupa um lugar ainda mais proeminente. Contudo, nesta segunda iteração, tal como sucede com as farsas, não tarda muito que se descubram as falácias próprias da sua construção.

Foi assim que, Zelensky, em face de um – cada vez mais evidente – isolamento do Ocidente NATO (seja NATO Atlântico ou Pacífico), foi confrontado com uma sala vazia, aquando do seu discurso na AG da ONU. Como é óbvio, um poder de plástico; com pilares de areia e paredes feitas com o papel dos títulos de tesouro dos EUA e do BCE; sustentado pela força das armas e pela maior campanha de persuasão e coacção opinativa, de que há memória, no Ocidente, desde o fascismo do século passado; não poderia, este regime superficial, apresentar o seu porta-voz a falar para uma sala cheia de lugares vazios. Viver da imagem é isto mesmo!

Não poderia, principalmente, quando todos os “órgãos” de comunicação pagos com o dinheiro negro da CIA, dos contribuintes americanos e extorquido aos países do Sul Global, ainda hoje falam de “um mundo totalmente a favor”, de “um apoio global” e do “isolamento internacional de”.

Se, com Lavrov, a sala estava composta, mas não cheia, faltando aí os meninos birrentos do costume; com Zelensky, só estavam mesmo os meninos birrentos e irresponsáveis do costume. Mas com Lula da Silva, isso sim… Com Lula, a sala estava a abarrotar. Mesmo depois de este, no seu dúplice jogo de cintura, assinar um acordo com os EUA, no quadro da AFL-CIO (AFL-CIO, The American Center for International Labor Solidarity), para “reforçar os direitos dos trabalhadores”. É caricato, não é? Um país quase sem convenções da OIT ratificadas, que não reconhece o direito a férias (entre muitos outros), onde os patrões podem despedir de um dia para o outro, pagando apenas uma semana de trabalho, onde as mães não têm licença parental e os sindicatos são controlados pelo Estado…. Vir fazer parcerias com a América Latina (Peru, Colômbia e Brasil), para esta matéria… O que faz a falta de mão-de-obra!

Se, com Lula, a sala estava cheia, havia que aproveitar. Então o que fizeram os “fake” Goebbels do protetorado ucraniano dos EUA? Pegaram no vídeo, editaram, colocaram Zelensky a falar para essa mesma sala… A sala de Lula! Fizeram-no tão bem que, aos 14 segundos do vídeo passado no principal canal do país – um dos que não foi fechado à força -, é o próprio interveniente que surge na plateia! Ubiquidade? Não! Apenas a farsa do costume.

Por cá, como sempre, as nossas TV’s estão proibidas – ainda – de se referirem ao regime EUA na Ucrânia, nestes termos. Mas há-de vir o tempo. Revisite-se a história de Saddam Hussein, no tempo da guerra Irão-Iraque, em que o Iraque foi usado, dessa vez com sucesso, contra o arqui-inimigo e sempre resistente Irão, para se perceber o que lhe irá acontecer. Primeiro o salvador da democracia; depois o corrupto; por fim o ditador… E depois… Já sabemos… TPI ou forca, ou os dois!

E o desfasamento em relação ao movimento real é tao grande, pelo menos na generalidade dos órgãos, que o Expresso vem apresentar uma entrevista, com um general ucraniano na reserva, cujo nazismo é tão grande ou pequeno, que diz que dentro de um ano a Ucrânia terá recuperado as suas fronteiras de 1991 e que a Rússia se balcanizará em dezenas de estados mais pequenos.

Eu percebo que, nalguns casos, e após a recente reunião do Congresso da “Associação dos povos alógenos da Rússia”, criada pelo Império Austro-Húngaro no século XIX, para dividir o seu rival, o império russo, a ilusão seja confundida com a realidade. Percebo também que o desejo, quando doentio, possa levar à ilusão. O que eu já não entendo é como é que uma pilha de papel chamada “Expresso” foi colocada ao serviço destas coisas. Muita há-de ser a crise, para se vender desta forma.

Mas enquanto eles se divertem, de há séculos a esta parte, a projectar a destruição de um país multinacional, unido pela língua e cultura, em que dezenas de etnias vivem em paz, seria importante relembrar as palavras de Confúcio, tão bem aplicadas aos EUA, cuja elite gerontocrática se deveria olhar primeiro ao espelho:

“Para pôr o Mundo em ordem, temos primeiro de pôr a Nação em ordem; para pôr a Nação em ordem, temos primeiro de pôr a Família em ordem; para pôr a Família em ordem, temos primeiro de cultivar a nossa vida pessoal, endireitando o nosso coração”.

Num país cujas cidades estão povoadas por sem abrigos, tendas, carros e barracas; dependentes de drogas legais e ilegais; em que a taxa de suicídio entre os jovens dos 18 aos 35 anos é uma das principais causas de morte; palco de uma cultura tão individualista e consumista, em que as pessoas até prescindem de ter filhos e consideram as crianças um “fardo”; realidade em que se multiplicam as famílias desestruturadas, onde devido à desregulação das leis laborais os trabalhadores não têm tempo para os filhos e família; no qual os valores familiares e humanos são secundarizados em função de lógicas empresariais que desenraízam e alienam os trabalhadores em relação à sua terra, ás suas raízes sociais e étnicas, em relação á sua cultura; em que a cultura é produto e privilégio de uma elite; em que a educação é instrumentalizada em função dos interesses económicos, mercantilizando-a (exemplo do Bolonha), dirigindo-a para a formação de servos (vejam o teste “americano” em que a resposta já está dada, não obrigando o estudante a pensar e a construi-la) e não de pessoas livres e críticas; um país com infra-estruturas corroídas pelo desinvestimento continuado em função das lógicas liberais e neoliberais que apostam no “estado minimalista”; um país crescentemente endividado e com um aparelho produtivo subdimensionado; um país que vive da pilhagem do alheio e do seu próprio povo…

Este país desordenado, onde os fãs da cultura “woke” e transumanista migram para os estados democratas e os que são anti “woke” e defensores dos valores tradicionais (conservadores ou não), migram para os estados republicanos. Um país cheio de armas, cuja venda quase duplicou desde o Covid. Um país, no qual um avião F-35 desaparece, desviado por um grupo de extrema-direita e ninguém sabe onde está. Um país, no qual, quase metade da população acredita, já estar, ou encontrar-se a caminho de uma guerra civil.

Não admira, portanto, que Zelensky tenha encontrado uma sala vazia e tenha tentado possuir o dom da ubiquidade. O dom da ubiquidade que Zelensky cobiçou, encontra paralelo na elite oligárquica e gerontocrática dos EUA, que o apoia. É seu produto exclusivo. Quem não se governa a si próprio, não pode liderar o mundo! É da natureza das coisas.

Tal como os EUA, também o comediante sem graça quer mais do que o que pode e lhe é fisicamente possível. Um ser sem história e base política que não seja a de um programa de comédia que usou para se promover; presidente a brincar, em que ministros assumem pastas sem falarem a língua, sem nunca terem colocado um pé nessa terra (3 ministros do governo de Poroshenko), de um país de brincar, cuja (o?) porta voz das Unidades de Defesa Territorial era uma transexual (nada contra!) de extrema-direita nascida e criada… nos Estados Unidos! De seu nome Sarah Ashton-Cirillo, recentemente demitida por defender, numa entrevista, que os opositores e críticos do regime Ucraniano devem ser silenciados e caçados.

Também os EUA, em desconstrução interna acelerada, mas armados e cheios de polícia, agências de segurança e armas até aos dentes, possuem mais de 800 bases militares à volta da China, Rússia e Irão, uma panóplia de porta-aviões e centenas de milhares de espiões e agentes diplomáticos ou indiferenciados espalhados pelo mundo.

Logo, também os EUA querem estar em todo o lado, ao mesmo tempo e a sala vazia de Zelensky é um retrato dessa impossibilidade! EUA e Zelensky cometeram um pecado mortal… O de querem ser deuses!

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.