(Hugo Dionísio, 24/10/2023)
O nível de encenação a que assistimos, na cobertura que os órgãos de comunicação dominantes fazem dos factos da guerra, só é comparável com a brutalidade do aparato de censura, cancelamento e doutrinação, colocados em vigor, num muito pequeno espaço de tempo.
Se, no primeiro caso, as “técnicas” desenvolvidas na cobertura mediática do conflito na Ucrânia representaram um exemplo deplorável, tão condenável quanto seguido, da construção de uma narrativa, cujo carácter sensacional convive com a distância em relação à realidade; no segundo caso da guerra de Israel, a eficácia e vastidão do sistema de censura colocado em prática, representam todo um novo nível de intervenção das classes dominantes, conseguindo, em dias, o que, no conflito ucraniano, demorou meses a atingir O que nos dizem estas diferenças?
A primeira coisa que me vem à cabeça é “descuido”; a outra é “desespero”. Imagens como aquelas a que temos assistido, com o monstro adormecido, Biden, a fazer referência a imagens que nunca viu, sabendo que se trata de notícias falsas (como no caso das criancinhas ou do hospital); imagens e áudios fabricados para fazer parecer que aconteceu o que não teve lugar; jornalistas a atirarem-se para o chão, fingindo estarem a proteger-se de bombas enquanto transeuntes circulam ao seu lado com toda a calma; jornalistas assassinados, vítimas enquanto “danos colaterais” por estarem a fazer o seu trabalho… Tudo aponta para o descontrolo, o desespero e a tomada de medidas contingentes que visam conter a enchente.
Neste momento é muito claro, até pela proposta que o monstro adormecido,Biden, faz ao Congresso, que os EUA se encontram envolvidos por uma profusão de fogos, por si ateados, não sabendo para que lado soprar com mais força. O pacote de mais de 100 mil milhões de dólares, incorpora dinheiro para a Ucrânia, a maior fatia, para Israel, para Taiwan e para combater a influência chinesa no domínio da comunicação, ou seja, mais e mais fake-news, uigures e trabalhos forçados sobre a China. O problema é que, qual saco de gatos, cada republicano que abre a boca, seja Lindsey Graham, seja Mitch Mcconnel, todos têm conceções diferentes sobre onde e como atacar o Eixo do Mal. Aliás, esta terminologia, criada por G. W. Bush em 2002, continua em voga, cristalizando-se no tal país que, segundo a propaganda liberal, não tem medo da mudança! Ah! Pois não!
A verdade é que, todas estas reacções, umas brutalmente desastradas, outras violentamente desesperadas, denunciam uma realidade factual que não escapa a um sem número, cada vez maior, de pessoas. É que a fractura social provocada pela situação no Médio Oriente, nas sociedades ocidentais, é de uma profundidade proporcional à desigualdade de forças dos interesses em confronto, tanto cá, como lá.
Se no caso da guerra, a que opõe a NATO à Rússia, passada na Ucrânia, cujo povo é usado como exército, as fracturas sociais, causadas pelos interesses em confronto, se demoraram a sentir e apenas se fizeram notar quando o cinto começou a não ter buracos para tanto emagrecimento, quando o carro começou a ficar na garagem e quando ligar o aquecimento se tornou um luxo; já no caso do conflito em curso no Médio Oriente, as ondas de choque e o antagonismo social, não passam ao lado de ninguém, envolvendo toda uma massa humana consolidada pela história de 75 anos de ocupação, opressão e apartheid (se contarmos apenas a partir de 1948 ao invés de o fazermos a partir da declaração de Balfour e do mandato britânico).
Diga-se, em abono da verdade, que, no caso português, nem numa situação, nem noutra, as fracturas estão suficientemente expostas para que coloquem em causa a coesão social; o que já não é o caso de países como a França, a Inglaterra ou a Alemanha. Nesses casos, em especial dos continentais, os seus governantes, em face de uma contestação social que já não é de hoje, consideraram, simplesmente, que o sistema não comporta o nível de protesto que se fez antever. A solução, muito típica de sistemas que dizem uma coisa e fazem o seu oposto, foi a mesma de sempre, proibir, proibir, proibir. E assim, perante o desespero causado pela sensação de descontrolo, rapidamente se volta à sociedade proibitiva que se dizia ultrapassada.
Mas, mesmo no nosso “brando” Portugal, nunca a causa palestiniana levou tanta gente a uma manifestação como a última realizada no Martim Moniz, na qual a representação jovem era muito considerável. Ao contrário, já a concentração pró-israelita apenas logrou levar à rua umas meras dezenas de manifestantes. Já se sabe que a direita, nestas coisas da rua, tem de lhe doer mesmo muito no bolso para que deixem o conforto das suas coberturas e moradias, limitando-se, normalmente, à utilização do imenso e socialmente desproporcionado poder que tem na comunicação social – cuja propriedade detém – e nas redes sociais, cujos bolsos profundos e recheados fazem maravilhas na compra de publicidade que aumenta, tão artificial como exponencialmente, as visualizações, sugestões, likes e demais variáveis algorítmicas.
O seu imenso poder económico também faz milagres quando se trata de cancelar e promover a censura, perseguição e estigmatização de quem promove os interesses contrários. Quando de cancelamento se trata – novo termo para a velhinha censura -, nem as maiores estruturas propagandísticas sobrevivem. A prová-lo está o sucedido com Paddy Cosgrove, co-fundador do enorme sucesso de marketing sociopolítico, a WebSummit. Um evento que propagandeava o novo e pós-industrial “Admirável Novo Mundo Digital”, não parece ser capaz de resistir às ondas de choque que se fazem sentir na decorrência do sucedido no dia 07/10/2023. Digo, apenas 07/10/2023, porque, para os interesses dominantes, todos os olhares se resumem a esse fatídico, mas muito previsível, momento. O momento que suscitou a corrida descuidada e desesperada a que assistimos agora. O momento análogo ao famoso “a guerra começou em 24/02/2022”.
O CEO da WeSummit terá mesmo acreditado que, por lhe terem concedido a tolerância para convidar um Noam Chomsky, em 2022, ou um Snowden em 2019, que o mundo digital das plataformas de Silicon Valley seria realmente livre? Será que ele não tinha percebido, entre muita fanfarra e glamour que, aqui e ali, os pesos pesados do capital tecnológico apenas permitiam umas figuras da “esquerda” liberal identitária, porque era preciso dourar a pílula e criar a ideia que, no Admirável Novo Mundo Digital, haveria espaço para todos? Paddy Cosgrave terá programado muitos algoritmos, ou talvez seja também propaganda, mas deveria ter lido o “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Teria entendido que a maior capacidade tecnológica nas mãos erradas, produz um mundo errado. Um mundo errado, comandado por uma elite desesperada e descuidada é capaz de produzir efeitos realmente imprevisíveis.
O que não foi nada imprevista foi a reação de Silicon Valley às declarações de Paddy Cosgrave. É verdade que o único crime que Paddy Cosgrave cometeu foi o de pensar e opinar sobre o que considerava justo. Mas, no “Admirável Mundo Novo Digital”, todos tomam “soma” para não sentirem as contradições que o mundo contém. Nesse contexto, a droga que Huxley inventou para que as suas personagens não tivessem emoções, é substituída, por doses intermináveis de cancelamento, fake-news e muita, mas mesmo muita estupidez, em doses directamente proporcionais ao poder mediático que as grandes oligarquias financeiras têm sobre os meios de comunicação. Quando alguém a não toma, vê o que não deve, e, tal como no livro de Huxley, o poder não lho perdoa!
E foi assim que Paddy Cosgrave percebeu – e todos nós também – que, a ligação entre o poder hegemónico dos EUA e a existência do estado de Israel com as características arbitrárias, autoritárias e intolerantes, que se lhe conhecem, não é fonte de acaso, sendo, antes, uma relação umbilical, simbiótica, vital. Com este poder, tudo fia mais fino. O espaço para qualquer questionamento, no âmbito mediático, principalmente em eventos de grande abrangência, é próximo do zero. A forma urgente como se comportaram a META (Facebook, Instagram e Whatsapp), Alphabet (Youtube, Google), Amazon, Intel (microchips), Siemens, e outros pilares do Admirável Novo Mundo Digital, demonstra que, os termos “desespero” e “descuido” cabem muito bem na caracterização. Tomar a acção que tomaram, relativamente à organização em causa, não pode deixar de alimentar as ondas de choque que estas visariam, precisamente, evitar.
O que eu daria para saber agora o que vai na cabeça de um Carlos Moedas, uma figura paradigmática de um moçoilo bem-comportado do mundo digital (até o confundo com o Medina, tal a similaridade do perfil). “Livremente” obediente aos poderes de facto que nos governam, não pode vir defender a WebSummit; mas precisaria de a defender para defender a sua imagem e a imagem da Lisboa que diz querer mudar (e como a tem mudado… para pior, o que era difícil). Como sairá Moedas deste imbróglio sem ofender os seus patrocinadores?
O facto é que, se as semelhanças existem, mais ao nível do modus operandi, as diferenças para o caso ucraniano são absolutamente decisivas, por mais que Mariana Mortágua comparasse Israel à Ucrânia, ou o HAMAS à Rússia. Se, no caso ucraniano, ainda houve espaço para algum dissenso, aqui e ali, na comunicação social e, principalmente, nas redes sociais – isto apesar da censura dos canais de massas do “inimigo” -, no caso do reino dos sábios do Sião, não há possibilidade de dissenso possível. É o “estão comigo, ou contra mim”, mas em esteróides.
A diferença entre a situação ucraniana e a israelita é tão abissal que, quando se trata de defender os interesses do sionismo em Israel, a Ucrânia, com que há dois anos levamos 24/7, 365 dias por ano e 60 segundos por minuto, é apagada do mapa! Portanto, não foi apenas na WebSummit que se fizeram sentir as diferenças fundamentais, sistémicas, entre o “apoio” a Kiev e o apoio ao estado de Israel, mesmo na sua versão sionista mais radical. Essa diferença nota-se no unanimismo do congresso americano, no silêncio da União Europeia e no comportamento regrado de todos os burocratas políticos do arco do poder, de todos os países da UE. Aliás, deixem-me que pergunte: ainda existe a União Europeia? Onde anda Úrsula Von Der Liar?
A reacção dos poderes de facto, a qualquer enunciado que coloque em causa estes interesses, é tão violenta, tão brutal e decisiva, que visa afastar, desde logo, qualquer veleidade em emitir o mínimo vociferar que destoe do normal ruminar. A agressividade demonstrada pelos monopólios do digital, dos embaixadores dos EUA (seguramente) e (reconhecidamente) dos diplomatas de Israel, relativamente ao CEO (isto de se ser CEO tem as suas implicações em matéria de mordaça) do WebSummit, é mesmo para deixar qualquer um petrificado e em sentido. Não há melhor mordaça para esta gente do que o medo da perda do acesso às migalhas, a que muitos também chamam “sucesso” e outros “meritocracia”.
Se, mesmo na Ucrânia dominada por Kiev, os jornalistas ocidentais só começaram a ver o seu acesso ao terreno em causa, a partir do momento em que se percebeu que a teoria da vitória era, isso mesmo, uma teoria; em Israel, os jornalistas são simplesmente impedidos de entrar nos locais do conflito, e muito menos em Gaza.
Daí que, nos telejornais do fact-checking e do polígrafo, se multipliquem as peças sobre os reféns, sobre o dia 07/10 e sobre os reféns, e sobre o dia 07/10, e mais uma vez sobre os reféns e sobre o dia 07/10.
Mas na Ucrânia, o poder hegemónico dos EUA sentia-se ainda, no controlo. É claro que já sentia a pressão da urgência, mas, mesmo assim, ainda podemos detectar um vislumbre de estratégia, embora tudo fosse muito marcado pelos tacticismos, alguns deles muito amadores. Mas hoje, no tempo que corre, não há nenhum indício que nos dê a certeza definitiva de que o poder hegemónico se sente no controlo. E não sou eu apenas quem o diz, são os diversos poderes que o pressentem. Que mensagem passa Mahmoud Abbas quando rejeitou a reunião com Biden? E que mensagem passa o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão quando não recebe as chamadas de Blinken? E que mensagem passam as autoridades dos EUA quando, ao invés de ameaçarem, como era costume, se resumem ao silêncio? Penso que dois porta-aviões e 2000 marines são resposta suficiente para o que esta gente deve estar a sentir, em face de tão enorme impotência!
Em Gaza, no que à imprensa diz respeito, só lá estão os jornalistas que lá estavam e que ainda não foram assassinados pelo… É melhor não escrever, pois não quero que cancelem o que escrevo. Mas vocês sabem bem a que poder me refiro. E é nesta fase que eu me lembro do que escreveu o filósofo José Gil no jornal o Público. Diz José Gil que, o que faz com que Israel conte com a simpatia da maior parte das pessoas é o facto de o Hamas tratar de forma tirânica, o povo palestino de Gaza, e, ao invés, Israel ser governado por um poder democrático.
Coisas da construção da opinião colectiva à parte, mas que não deveriam escapar a um filósofo; dizer que um estado que impõe um apartheid sobre um povo, sobre os árabes que habitam o seu território; um estado que prende e julga crianças, o qual detém anos a fio, sem acusação e sem processo crime; que há mais de um século ocupa e despeja de suas casa os árabes que vivem na Palestina… É um poder democrático… É razão para dizer, se a democracia não garante um tratamento mais humanista do que as piores ditaduras, estamos perdidos.
E novamente voltamos ao descuido e ao desespero. José Gil, como um equilibrista na corda bamba, também diz que outra razão pela qual as pessoas tomam o partido de Israel está no facto de o Hamas ser conotado com o mal. Ora, eu cá para mim não sei, mas pelo que vejo, quase metade da população judaica de Israel não está nada de acordo com José Gil. A quantas manifestações temos de assistir com gente a chamar ao Bibi corrupto, ditador e terrorista? Também não gostam do HAMAS? Claro que não! E quantos palestinos gostam de Bibi? Não valerão o mesmo, ontologicamente, as opiniões de uns e outros?
E não saberá José Gil que, se o Hamas é mau, que tal “maldade”, para além de se tratar de uma categoria eminentemente moral, a mesma não resultará, ao invés, da exploração de um atroz sofrimento causado pela frustração, pela desesperança e pela perpétua humilhação a que aquele povo é submetido? Não estudou ele, José Gil, como a miséria, a desesperança e o medo moldaram e cimentaram o fascismo que se alimenta desse horror? Como pode uma pessoa que se diz “filósofo” passar ao lado dos efeitos que tal sofrimento tem na consciência individual e colectiva de um povo? E por fim, como pode José Gil passar ao lado da influência que os poderes de facto têm, através do controlo dos meios de comunicação, na construção das opiniões? Será que José Gil vive num vácuo?
O que me parece é que, como filósofo, José Gil sabe melhor do que ninguém quais os poderes que estão em causa, e, como tal, tendo que viver “dentro”, porque “fora” não dá, pressentindo o desespero com que os mesmos tratam qualquer vislumbre de dissensão, o que faz o filósofo é recorrer à racionalização. Fosse pela ciência e José Gil saberia que a liberdade não existe no vácuo e não prospera em sociedades marcadas pela violência, pela opressão e pelo medo. Daí que as piores ditaduras fomentem o medo, para depois fazerem prosperar a alienação. Daí que 1984 de Orwell assente na ideia de guerra eterna e os EUA de hoje tenham medo da sua própria sombra, dividindo o receio entre Big Foot, Aliens e Ovnis, Chineses, Russos, Cartéis mexicanos, latinos, gangues de negros e outras obras “satânicas”.
Por outro lado, dizer que a opressão em Gaza é resultado do Hamas, como faz José Gil, é esquecer que Gaza está cercada por muros, várias centenas de postos de controlo e o seu povo não é livre de entrar, sair, comprar, vender, emitir e transmitir as suas escolhas. Já para não dizer que, a posição de José Gil esquece as causas da própria origem do Hamas. Acusar o Hamas de negar a liberdade ao povo que governa é o mesmo que acusar os leitores de José Gil, como eu, de serem os responsáveis pela falta de liberdade que certamente sentiu ao escrever a sua análise. Lamentável.
O que José Gil pressentiu foi que a fractura social é tão profunda, a linha divisória é tão marcada, que se tornou um tormento escrever qualquer coisa que não a tivesse em conta. E tentando, acabou por ela marcado, dividido e, como tudo o que é dividido, é incongruente.
O que José Gil sabe, como todos nós, é que o desespero leva às mais imprevisíveis e inesperadas consequências. Com medo delas, optam todos por fazer o que fazem tão bem quaisquer figuras de “sucesso” quando se trata opinarem sobre assuntos sérios e fracturantes como a desproporcionalidade abissal entre a força israelita e a fraqueza palestina: dizer disparates, generalidades, ou não dizer mesmo nada!
Numa altura em o funcionário dos Rothchild, Emmanuel Macron, optou pelo disparate, e veio propor uma solução “à Síria”, para ocupar o norte de Gaza e aceder ao gás natural que aí abunda, tal como usaram o esquema “combate ao ISIS” para ocupar um terço do território sírio, devemos questionar-nos sobre quão grande é o desespero que os leva a tentar uma solução que pode fazer despoletar um conflito de larga escala. Uma segunda iteração síria em território palestino, já não apanhando ninguém de surpresa, soa a uma coisa absolutamente desesperada.
Sendo aterrador, este desespero também resulta do crescimento: do crescimento das alternativas de desenvolvimento; do surgimento de novas alternativas de luta; da construção de um novo mundo que rejeita a entrega de toda a hegemonia a um qualquer povo que se considere privilegiado ou eleito.
Nesse sentido, e com todos os perigos que caracterizam a situação, o desespero denunciado não mais resulta que das dores de crescimento de uma resistência que vai ganhando forma, tracção e momento. Sem o dizerem, todos os sabem!
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