O Radioso Futuro de Gaza está a chegar!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 14/12/2023)

Já começou a surgir entre os compadres e as comadres que se dedicam a fazer malha e lançar cartas no comentariado escrito e televisivo a magna questão do futuro de Gaza. Parece que ninguém, a não ser o cândido Cravinho (nunca se sabe se é candura se pura venda a retalho), acredita já na falácia dos dois estados. Há que vender outro produto. Será que a Autoridade Palestiniana (que perdeu as eleições,) irá fazer de comparsa numa farsa em que Gaza surge como um quintal israelita com palestinianos selecionados e esterilizados? Será o governo de Israel a nomear um governador? Magnas questões que entreterão uns tantos biscateiros no intervalo dos comentários a penaltis e foras de jogo do futebol.

Mas a questão do futuro de Gaza e dos palestinianos está decidida e resolvida há anos. Como nas touradas, a faena está no seu tércio final, no seu fim, e estamos a assistir aos momentos que precedem a morte da vítima que esteve encerrada e foi solta para ser morta.

Estamos no tempo do rufar dos tambores. Assistimos ao número de fantasia e de genocídio que o Estado de Israel e os Estados Unidos estão a consumar para justificar a operação de destruição e limpeza de Gaza.

Qual é o objetivo do Estado de Israel e dos Estados Unidos para a ação de limpeza e massacre que está a ser levada a cabo em Gaza? Um pouco de distância para ganhar perspetiva:

Em seis de Outubro Benjamin Netanyahou era um político prestes a ser julgado por corrupção e que estava a ser acossado como golpista por parte da opinião pública. Pois, além de corrupto, pretendia dar um golpe constitucional e colacar o sistema judicial ao serviço do governo. Era um has been, um marginal, um tipo que mesmo num Estado de apartheid e com o passado de violência e desrespeito pelos mais elementares valores humanos era para atirar ao lixo. Era um lixo. No dia sete de Outubro Netanyahou passou a ter a utilidade do lixo: desde que tratado podia ser reciclado em pó químico para eliminar espécies inconvenientes. Podia servir para realizar trabalhos sujos, servir de esfregão!

A estratégia dos Estados Unidos e do grupo dirigente de Israel desde a fundação, em 1948, foi a de criar um estado etnicamente unitário, onde os palestinianos não têm lugar. Israel é desde a fundação um “forte”, uma base avançada dos EUA no Médio Oriente. Na situação de crise de liderança mundial que vivemos, com o surgimento de novos atores a disputar a hegemonia dos EUA (os BRICs, por exemplo) é decisivo que estes disponham de suportes de absoluta confiança nas zonas críticas: Israel para o Médio Oriente, a Sul; a Ucrânia para a Eurásia, no Centro e os estados bálticos (mais a Finlândia e a Suécia — daí a entrada na NATO) a Norte. É uma clássica manobra de tenaz, de ataque pelos flancos, que pode ser transformada numa manobra em cunha, com o esforço principal ao centro — a Ucrânia. Curiosamente os comentadores militares nunca referem esta típica manobra de operações ofensivas! É de chamar os comentadores de futebol que esses percebem do assunto.

Os dirigentes do Estado de Israel sabiam desde há um ano que o HAMAS iria tentar fazer uma operação de alívio do cerco a Gaza. Se essa operação foi ou não incentivada e promovida pelo Estado de Israel é uma questão que deve ser colocada (tanto quanto se sabe nenhum chefe de serviços de informações nem de serviços secretos foi demitido por não ter descoberto o que parece que todos sabiam, dos egípcios aos ingleses e, evidentemente, dos EUA). É hoje evidente que a operação do HAMAS sobre uma aldeia estratégica guarnecida por colonos serviu de pretexto para a brutal e decisiva “resposta” israelita a que estamos a assistir.

A brutalidade que algumas boas almas se dignam considerar excessiva, desde que precedida da oração de condenação do “bárbaro ataque do HAMAS”, é condição necessária para atingir os objetivos fixados. A ação do HAMAS teria de ser chocante o suficiente para justificar a violência extrema de Israel, mesmo correndo o risco da repercussão mundial negativo.

Gerir o excesso indispensável, a desumanidade da resposta, exigiu que fosse encontrada uma figura execrável e queimada, alguém que desse a cara por um genocídio. Uma criatura sem valores, e ninguém melhor que Netanyahou, um Zé do Lixo, como alguém o designou para desempenhar esse papel. Netanyahou é hoje o rosto do pide mau. Do tipo execrável. Serve à perfeição como o rosto do sanguinário.

Dentro de poucos dias, quando Gaza estiver arrasada e os palestinianos mortos e os sobreviventes reduzidos à condição de restos humanos, distribuídos por campos de refugiados, surgirá o polícia Bom, os Estados Unidos, com um Biden sorridente, (ele necessita de uma boa imagem para as eleições) e um qualquer dirigente israelita que substitua o anjo da guerra do Netanyahou com uma pomba branca na mão, ambos a estabelecer um cessar-fogo, a prometer abrir fronteiras à ajuda humanitária, o israelita a fazer de sacristão na rábula de Biden, homem de paz e com os dirigentes da U E sorridentes, com a senhora Ursula Von Der Leyen e o senhor Borrel a cantarem o hino da União.

Netanyahou e o pequeno gangue à sua volta no que designam por Conselho de Guerra serão entregues a uma empresa de Tratolixo. Serão passados por um túnel de desinfeção, de limpeza. Já negociaram entretanto os futuros, serão esquecidos, reciclados, e toda a máquina de manipulação baterá palmas. Haverá eleições — Israel voltará a ser a única “democracia do Médio Oriente”! Os comentadores garantirão que, finalmente, venceu o bom senso e prevaleceu o respeito pelos direitos típicos da civilização ocidental! Deus descerá de novo à Terra! Até haverá lugar a prémios nobel da paz, se for necessário! Todos nos felicitaremos. A farsa foi um êxito!

Gaza será um cemitério em ruínas. Virão os bulldozers, após a saída dos tanks. Sobre os escombros serão edificados bairros, escolas, universidades, sinagogas, flutuarão bandeiras israelitas. Haverá um monumento aos soldados israelitas que libertaram Gaza do Hamas. Haverá um busto (discreto) de Netanyahou, como mais um dos conquistadores de um talhão da Terra Prometida. Os seus pecados, se os tiver cometido, serão perdoados. Um dia, daqui a uns tempos, alguém se lembrará destes tempos e haverá a vingança. Estamos a assistir à sua sementeira…


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A vingança serve-se fria, a coerência prova-se quente

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 15/12/2023)

Em pouco mais de uma hora de entrevista televisiva, António Costa mostrou por que razão todos os outros parecem terceiras escolhas ao pé dele: os candidatos a substituírem-no à frente do PS já este fim-de-semana e os candidatos a substituírem-no à frente do Governo em 10 de Março. Nenhum está tão preparado como ele, nenhum está tão à-vontade em qualquer assunto, nenhum deixa transparecer idêntica segurança discursiva. Se estivesse minimamente bem aconselhado, Luís Montenegro não se deixaria arrastar para a tradicio­nal armadilha do comentário imediato à entrevista de Costa, onde apenas pode largar meia dúzia de frases feitas, sem conteúdo que o justifique e numa presença fugidia que desqualifica o estatuto de um candidato a primeiro-ministro. E, porque a vingança se serve fria, um homem “magoado” não perdoou. A Lucília Gago retirou-lhe o argumento de que não foi o seu célebre parágrafo que o levou à demissão: foi, sim, garantiu ele, e da próxima vez a sra. procuradora-geral que investigue bem primeiro antes de disparar para matar. Para Marcelo ficou reservado o recado fatal: já que o Presidente sobrepôs a sua vontade à vontade do partido maioritário, à opinião de constitucionalistas, ao aval do Conselho de Estado e, claramente, ao entendimento da generalidade dos portugueses, espera-se então que tenha para apresentar ao país, em 11 de Março, uma solução mais estável do que aquela que derrubou. Sem ironia, disse ele. Ficou claro que António Costa vai andar por aí nos próximos meses, a assombrar a campanha eleitoral do PSD, se não mesmo a humilhar a do candidato do PS.

2 Em tempos houve um presidente de um clube de futebol, o Vitória de Guimarães, que cunhou uma frase para a História: disse ele que, no futebol, o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira. Faltava quem a aplicasse à política, mas João Costa, o ainda ministro da Educação, acaba de o fazer implicitamente. Depois de dois penosos anos a resistir à reivindicação dos sindicatos dos professores no que resta da recuperação do tempo congelado para progressões durante o período da troika, embora tenha cedido em muitas outras coisas, ei-lo que veio agora dizer que, afinal, será possível atender a isso num futuro Governo PS. Justificação: uma coisa é o João Costa ministro do Governo de António Costa; coisa bem diferente é o João Costa cidadão socialista e apoian­te de Pedro Nuno Santos à frente de um futuro novo Governo PS. Como já aqui escrevi, o que mais me impressiona nesta história nem sequer é o encargo financeiro, que, tornado extensível a toda a Função Pública, representará um encargo extra permanente cujo valor ninguém conseguiu estimar ainda. O que mais me impressiona é pensar que quem foi à falência em 2008 foi o Estado, mas todos pagámos duramente essa falência. E, enquanto se reclama a justiça de restituir o que os trabalhadores do Estado perderam então, não há uma palavra, por comparação, para todos os outros que não trabalhavam para o Estado, que não tiveram responsabilidade alguma na falência deste, mas que a pagaram com o “brutal aumento de impostos”, os cortes salariais, o despedimento ou a emigração forçada.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

3 E, entretanto, os resultados do PISA vieram revelar o inevitável. Se todos os países da OCDE recuaram nas aprendizagens dos anos considerados devido à pandemia, Portugal recuou mais do que todos, e esse recuo começou antes dos anos covid. Razões: a abolição de exames e a ausência de aulas. Reagindo, incomodado, Mário Nogueira veio questionar “para que serve o PISA e o que avalia?”, para depois fornecer a resposta: “O PISA não avalia a qualidade da educação, mas o desempenho dos alunos em provas de Matemática, Leitura e Ciências.” Ou seja, avalia o essencial: o que aprenderam os alunos na escola, coisa que para Mário Nogueira é “limitar o papel da escola ao domínio do conhecimento”. Pois, como ouvimos gritar abundantemente, “os professores a lutar também estão a ensinar”. Mas não, pelos vistos, a ensinar Português, Matemática ou Ciências, disciplinas em que a escola pública entrega mais tarde às universidades verdadeiros analfabetos funcionais, oportunamente dispensados dessa coisa discriminatória que são os exames, em benefício então da tal “qualidade da educação” — onde, aí sim, parece que somos campeões.

Saiba mais aqui

 

4 Para o “grupo de trabalho” do PSD que vai estudar o que a Comissão Técnica Independente (CTI) estudou durante um ano para a localização do possível futuro aeroporto de Lisboa, Luís Montenegro escolheu para o presidir Miguel Pinto Luz, um indisfarçado adversário da solução Alcochete — assim se garantindo a “isenção” que, tarde e a más horas, o PSD descobriu que faltaria à CTI. Mas escolheu também para o integrar um advogado do partido que, se bem percebi, tem um mandato claro: “descobrir” se a solução Alcochete tem o apoio da concessionária ANA/Vinci — isto é, se ela está disposta a pagá-la. Mas se, como já se tornou bem claro, a Vinci apenas quiser gastar 700 mil euros num aeroporto no Montijo, fazendo um centro comercial a que chamará terminal na pista que já lá está, então o PSD alinhará com a Vinci e passará também a defender o Montijo, não obstante todos os contras apontados no relatório da Comissão Técnica Independente. Entre o interesse público e o interesse do concessionário, o PSD tratou já de deixar claro de que lado está. Se percebi bem, se é mesmo disto que se trata, só não percebo porque vão perder mais tempo a camuflar uma opção já feita com um suposto grupo de trabalho.

5 As sondagens dizem que a Iniciativa Liberal vai subir nas urnas, o que explica a vontade do partido em não alinhar em coligações prévias. Tenho dificuldade em entender essa subida eleitoral, à luz da prestação da IL sob a direcção de Rui Rocha. Internamente, ele tem espalhado dissidências e abandonos, acumulando fama de uma liderança fechada na figura do presidente. O mesmo sucede no Chega, mas o Chega é partido de um só homem, que topa-a-tudo, ao contrário da IL, que nasceu como um partido de quadros. E, quanto ao líder, ele é uma sombra do seu antecessor. Onde João Cotrim de Figueiredo transmitia uma imagem de desprendimento, mundo, sentido de humor e imaginação, Rui Rocha é um rosto permanentemente fechado e crispado, agressivo, de mal com todos, disparando para todos os lados, sem sentido nem oportunidade: a imagem oposta de um liberal, na vida e na política. João Cotrim tinha um discurso claro e fluido: sabíamos o que pensava, mesmo quando o que pensava era abertamente injusto ou absurdo. De Rui Rocha não conhecemos o pensamento, mas pior do que isso: fica-se com a sensação de que ele esconde o essencial.

6 A COP28 terminou com um acordo que dizem “histórico”: atingir a neutralidade carbónica até 2050. Depois de grandes discussões em busca das palavras que a todos contentassem, não ficou expressamente escrita a proibição da exploração de combustíveis fósseis até 2050, mas sim “uma transição para o seu abandono”, o que não é a mesma coisa. Um leitor do “Observador” comentou imediatamente que “aposto que vai pesar no nosso bolso”. Pois vai, tal como a cura de uma doença terminal não se faz sem custos. Na verdade, não são só os produtores de petróleo os maus da fita: quantos de nós, nas nossas vidas de todos os dias, estamos preparados para abdicar já de um modo de vida fundado numa energia que nos habituámos a ter facilmente disponível há um século? E em Portugal, onde, por exemplo, uma cegueira irresponsável apostou no desmantelamento do transporte ferroviário em benefício do rodoviário e muitos querem ainda apostar num aeroporto para o futuro vocacionado para voos de médio curso, estes 26 anos que restam, se levados a sério, vão ser brutais.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

E também porque é Natal, ajude a Estátua de Sal

(Estátua de Sal, 16/12/2023)

 

Temos as nossas raízes, o nosso lema, que está bem expresso na página inicial, O olhar da Estátua. Que nos retém o tempo que nos resta.

Se gosta do nosso posicionamento, se acha que vale a pena continuarmos, e nos quer ajudar a prosseguir, tem ao seu dispor o botão abaixo. Qualquer dádiva e valor são bem vindos, para podermos suportar as despesas que temos com a manutenção do site e com o acesso a fontes de informação.

Porque os desertos e as praias são infinitas, mas não passam da junção de muitos e finitos grãos de areia. E também porque é Natal, ajude a Estátua de Sal.


O seu donativo é o valor que quiser colocar no quadrado abaixo

Desde já os agradecimentos da Estátua de Sal

1,00 €

Ou também pode usar o IBAN: PT50 0033 0000 4540 9062 7970 5

Ou o telemóvel 919 517 673 se quiser usar o MBway