(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 15/12/2023)

Em pouco mais de uma hora de entrevista televisiva, António Costa mostrou por que razão todos os outros parecem terceiras escolhas ao pé dele: os candidatos a substituírem-no à frente do PS já este fim-de-semana e os candidatos a substituírem-no à frente do Governo em 10 de Março. Nenhum está tão preparado como ele, nenhum está tão à-vontade em qualquer assunto, nenhum deixa transparecer idêntica segurança discursiva. Se estivesse minimamente bem aconselhado, Luís Montenegro não se deixaria arrastar para a tradicional armadilha do comentário imediato à entrevista de Costa, onde apenas pode largar meia dúzia de frases feitas, sem conteúdo que o justifique e numa presença fugidia que desqualifica o estatuto de um candidato a primeiro-ministro. E, porque a vingança se serve fria, um homem “magoado” não perdoou. A Lucília Gago retirou-lhe o argumento de que não foi o seu célebre parágrafo que o levou à demissão: foi, sim, garantiu ele, e da próxima vez a sra. procuradora-geral que investigue bem primeiro antes de disparar para matar. Para Marcelo ficou reservado o recado fatal: já que o Presidente sobrepôs a sua vontade à vontade do partido maioritário, à opinião de constitucionalistas, ao aval do Conselho de Estado e, claramente, ao entendimento da generalidade dos portugueses, espera-se então que tenha para apresentar ao país, em 11 de Março, uma solução mais estável do que aquela que derrubou. Sem ironia, disse ele. Ficou claro que António Costa vai andar por aí nos próximos meses, a assombrar a campanha eleitoral do PSD, se não mesmo a humilhar a do candidato do PS.
2 Em tempos houve um presidente de um clube de futebol, o Vitória de Guimarães, que cunhou uma frase para a História: disse ele que, no futebol, o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira. Faltava quem a aplicasse à política, mas João Costa, o ainda ministro da Educação, acaba de o fazer implicitamente. Depois de dois penosos anos a resistir à reivindicação dos sindicatos dos professores no que resta da recuperação do tempo congelado para progressões durante o período da troika, embora tenha cedido em muitas outras coisas, ei-lo que veio agora dizer que, afinal, será possível atender a isso num futuro Governo PS. Justificação: uma coisa é o João Costa ministro do Governo de António Costa; coisa bem diferente é o João Costa cidadão socialista e apoiante de Pedro Nuno Santos à frente de um futuro novo Governo PS. Como já aqui escrevi, o que mais me impressiona nesta história nem sequer é o encargo financeiro, que, tornado extensível a toda a Função Pública, representará um encargo extra permanente cujo valor ninguém conseguiu estimar ainda. O que mais me impressiona é pensar que quem foi à falência em 2008 foi o Estado, mas todos pagámos duramente essa falência. E, enquanto se reclama a justiça de restituir o que os trabalhadores do Estado perderam então, não há uma palavra, por comparação, para todos os outros que não trabalhavam para o Estado, que não tiveram responsabilidade alguma na falência deste, mas que a pagaram com o “brutal aumento de impostos”, os cortes salariais, o despedimento ou a emigração forçada.

3 E, entretanto, os resultados do PISA vieram revelar o inevitável. Se todos os países da OCDE recuaram nas aprendizagens dos anos considerados devido à pandemia, Portugal recuou mais do que todos, e esse recuo começou antes dos anos covid. Razões: a abolição de exames e a ausência de aulas. Reagindo, incomodado, Mário Nogueira veio questionar “para que serve o PISA e o que avalia?”, para depois fornecer a resposta: “O PISA não avalia a qualidade da educação, mas o desempenho dos alunos em provas de Matemática, Leitura e Ciências.” Ou seja, avalia o essencial: o que aprenderam os alunos na escola, coisa que para Mário Nogueira é “limitar o papel da escola ao domínio do conhecimento”. Pois, como ouvimos gritar abundantemente, “os professores a lutar também estão a ensinar”. Mas não, pelos vistos, a ensinar Português, Matemática ou Ciências, disciplinas em que a escola pública entrega mais tarde às universidades verdadeiros analfabetos funcionais, oportunamente dispensados dessa coisa discriminatória que são os exames, em benefício então da tal “qualidade da educação” — onde, aí sim, parece que somos campeões.
4 Para o “grupo de trabalho” do PSD que vai estudar o que a Comissão Técnica Independente (CTI) estudou durante um ano para a localização do possível futuro aeroporto de Lisboa, Luís Montenegro escolheu para o presidir Miguel Pinto Luz, um indisfarçado adversário da solução Alcochete — assim se garantindo a “isenção” que, tarde e a más horas, o PSD descobriu que faltaria à CTI. Mas escolheu também para o integrar um advogado do partido que, se bem percebi, tem um mandato claro: “descobrir” se a solução Alcochete tem o apoio da concessionária ANA/Vinci — isto é, se ela está disposta a pagá-la. Mas se, como já se tornou bem claro, a Vinci apenas quiser gastar 700 mil euros num aeroporto no Montijo, fazendo um centro comercial a que chamará terminal na pista que já lá está, então o PSD alinhará com a Vinci e passará também a defender o Montijo, não obstante todos os contras apontados no relatório da Comissão Técnica Independente. Entre o interesse público e o interesse do concessionário, o PSD tratou já de deixar claro de que lado está. Se percebi bem, se é mesmo disto que se trata, só não percebo porque vão perder mais tempo a camuflar uma opção já feita com um suposto grupo de trabalho.
5 As sondagens dizem que a Iniciativa Liberal vai subir nas urnas, o que explica a vontade do partido em não alinhar em coligações prévias. Tenho dificuldade em entender essa subida eleitoral, à luz da prestação da IL sob a direcção de Rui Rocha. Internamente, ele tem espalhado dissidências e abandonos, acumulando fama de uma liderança fechada na figura do presidente. O mesmo sucede no Chega, mas o Chega é partido de um só homem, que topa-a-tudo, ao contrário da IL, que nasceu como um partido de quadros. E, quanto ao líder, ele é uma sombra do seu antecessor. Onde João Cotrim de Figueiredo transmitia uma imagem de desprendimento, mundo, sentido de humor e imaginação, Rui Rocha é um rosto permanentemente fechado e crispado, agressivo, de mal com todos, disparando para todos os lados, sem sentido nem oportunidade: a imagem oposta de um liberal, na vida e na política. João Cotrim tinha um discurso claro e fluido: sabíamos o que pensava, mesmo quando o que pensava era abertamente injusto ou absurdo. De Rui Rocha não conhecemos o pensamento, mas pior do que isso: fica-se com a sensação de que ele esconde o essencial.
6 A COP28 terminou com um acordo que dizem “histórico”: atingir a neutralidade carbónica até 2050. Depois de grandes discussões em busca das palavras que a todos contentassem, não ficou expressamente escrita a proibição da exploração de combustíveis fósseis até 2050, mas sim “uma transição para o seu abandono”, o que não é a mesma coisa. Um leitor do “Observador” comentou imediatamente que “aposto que vai pesar no nosso bolso”. Pois vai, tal como a cura de uma doença terminal não se faz sem custos. Na verdade, não são só os produtores de petróleo os maus da fita: quantos de nós, nas nossas vidas de todos os dias, estamos preparados para abdicar já de um modo de vida fundado numa energia que nos habituámos a ter facilmente disponível há um século? E em Portugal, onde, por exemplo, uma cegueira irresponsável apostou no desmantelamento do transporte ferroviário em benefício do rodoviário e muitos querem ainda apostar num aeroporto para o futuro vocacionado para voos de médio curso, estes 26 anos que restam, se levados a sério, vão ser brutais.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
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Alegadamente ter contagiado um vacinado que morreu. O corretor prega nos umas boas partidas.
A democracia morreu quando gente foi impedida de trabalhar e mandada para casa sem ganhar um tostão por não querer meter no corpo uma porcaria experimental e perigosa.
A democracia morreu quando começamos a poder ser colocados em prisão domiciliária por uma gravação. Quando gente com doença cardíaca congénita diagnosticada foi condenada a estar sete dias isolada com uma pessoa doente, por não ter ido dar uma dose de reforço. Gente colocada deliberadamente em risco acrescido de contrair a doença pela DGS tudo porque não foi dar uma dose de reforço. E não a foi dar porque as primeiras doses, com veneno Pfizer correram mal. Gente que apanhou a doença, felizmente foi leve e viveu para contar. E para nunca mais na vida acreditar na bondade das autoridades de saúde. Ou quaisquer outras.
A mim também me tocou a fava de condenação a prisão domiciliária con pessoa doente por não ter ido dar dose de reforço nenhuma. E só iria se tivesse batido com os cornos numa azinheira. A coisa ia me fazendo deitar fogo à casa numa noite de Inverno em que, dava mesmo jeito virar sem abrigo mercê de uns sonos assassinos a biden que faziam um esquecer se da vida e do pensar em enfiar se na cama.
Sem pensar em esquecer se de tudo e já andar a pensar em tudo, de um cancro de cérebro a Alzheimer precoce. Mas fosse a gente a um médico a dizer que era da vacina que com um pouco de sorte era encaminhado para um psiquiatra.
A democracia morreu quando juízes celerados condenaram um pai de crianças pequenas, no Sul da Alemanha, a 15 anos de cadeia por alegadamente ter condenado a um vacinado que morreu.
Em países onde a coisa não foi tão violenta, a democracia morreu quando gente foi impedida de entrar em cafés, restaurantes, bares, viajar e o raio que o parta por não ter a maldita vacina.
A pressao foi tão infame que gente se infectou de proposito para deixar de sofrer restrições e pressões para, se ir vacinar. Num caso em Itália em que um participante numa dessas corona parties morreu a publicidade foi mais que muita, foi notícia em todo o lado. Se nos deixassem decidir por nós ninguém faria corona parties.
Eu não fiz de propósito para apanhar o bicho que acabei por apanhar quando uma gravação da DGS me condenou a prisão domiciliária por não ter ido dar o reforço. Mas que senti um alívio dos diabos por o teste ter dado positivo, senti. Aliviado por ter uma doença. Porque já não tinha pachorra para o verdadeiro bombardeamento de SMS, um dos quais quase a meia noite. Para nos meter essa merda no bucho já havia meios.
Depois tivemos a censura como se tivéssemos de ter autoridades para nos dizer o que é verdade e o que é mentira.
Mas a democracia já tinha sido morta pelas vacinas covid. Morta e enterrada bem fundo. A partir daí, foi so continuar.
Parece que caminhamos para o fim da “chamada democracia”…
A “chamada democracia” está em perigo porque o modelo económico não inclui a população e alguns actores têm interesses divergentes. Basicamente, as empresas, etc., as grandes empresas, têm os seus próprios interesses, pelo que não estão interessadas na democracia: querem salários baixos e preços altos, sem garantias. Os cidadãos querem obviamente o contrário. Enquanto conjunto de vontades, a democracia tem problemas quando uma parte vence a outra e, de facto, não estamos em democracia (formalmente). É evidente, desde o início, que o interesse privado não é apenas a causa da guerra (Marx), mas também de uma futura guerra civil.
O grande problema da nossa “chamada democracia”, é a desinformação dos seus cidadãos.
Sob o pretexto de tolerar o pensamento patológico (wokismo, religião, feminismo, etc.), a verdade e o conhecimento são relegados para segundo plano, o que deixa os cidadãos em impasses ideológicos fundamentais e que, na hora de votar, leva não à expressão popular da dialética racional do pensamento, mas sim a expressões, preconceitos, fantasias incoerentes e até disparates.
Os políticos reflectem um povo desinformado e, quando estão informados, são incapazes de compreender os meandros das suas escolhas eleitorais.
Em suma, para além dos problemas formais são os problemas de fundo que prevalecem.
Em Portugal , o enfraquecimento da democracia está documentado desde há muito tempo. Pessoalmente, tenho visto diminuir ao longo dos anos.
O ser humano só gosta de regimes políticos que garantam a sua segurança, respeitando a sua dignidade, a sua liberdade e a igualdade dos indivíduos”.
Nesse caso, se isso é uma definição do que é uma democracia, Portugal claramente não é uma.
Os manifestantes que exprimem as suas opiniões são ostracizados pelas forças do Estado; a destruição dos serviços públicos é organizada de modo a que as classes mais baixas deixem de ter acesso a certas coisas essenciais (como a educação ou a saúde); e a diferença entre ricos e pobres nunca foi tão gritante no país.
Mesmo para além desta frase, o próprio princípio da democracia atual parece-me defeituoso. Como é que a escolha entre pessoas nomeadas por uma elite fechada e pelos grandes patrões, sem que se possa exprimir a rejeição de todos esses “políticos”, faz destas democracias poderes que emanam do povo?
A NATO e a UE são os exemplos mais flagrantes destes retrocessos democráticos. De facto, até ao dia a seguir à Segunda Guerra Mundial, a decisão política desceu progressivamente cada vez mais.
A democracia está a ser atacada em todo o mundo por sistemas que, obviamente, se sentem ameaçados porque eles próprios se baseiam num princípio de autoridade absoluta, repressão, controlo, etc..
E, de facto, questionar os tratados da UE ou o domínio da NATO sobre a diplomacia (e a política de guerra) é praticamente impossível.
A “democracia” não é apenas um sistema eleitoral, mas também um sistema ideológico e uma arma para ganhar poder, que é o que estava em causa durante a Guerra Fria contra o comunismo. Não se trata de dar poder ao povo ou de lhe conferir direitos, mas de conseguir que regimes ou nações adiram a uma ideologia/economia comum.
Uma das razões pelas quais a democracia está em crise é que o seu modelo ideológico está ultrapassado e é considerado responsável pelas crises actuais. Caso contrário, Trump, considerado anti-democrático, não seria apoiado por quase metade dos americanos, um povo onde o liberalismo em todas as suas formas está enraizado. A “democracia” em todo o mundo e, em geral, na Europa e nos EUA, tem falhas básicas que geraram problemas e a solução parece ser o autoritarismo aos olhos do povo:
Votar com base em promessas → especulação política!
Os eleitos fazem políticas de curto prazo para serem reeleitos, o que prejudica o país a longo prazo
Como em qualquer forma de governo, a classe dirigente tem um conluio com o sector privado, mas nos países “democráticos” isto é ignorado ou considerado inexistente, o que não é verdade.
Assim, para salvar a democracia e, em particular, as liberdades individuais, temos de compreender as falhas e os erros e readaptar o nosso modelo. O que é realmente importante é que as pessoas estejam “bem”, não o tipo de governo ou de governação. Muitas pessoas, se pudessem escolher hoje, prefeririam ir viver para a ditadura comunista ultra-desenvolvida de Singapura do que para um país ” chamado democrático” em crise como Portugal.
Além disso, pensar que a democracia é mais eficaz como modo de governação porque os países democráticos são os mais prósperos é falacioso e um enorme preconceito. Antes da democracia, os países mais poderosos estavam sob impérios ou reis. Agora, 300 anos depois, esses mesmos países, os mais poderosos, adoptaram a democracia e continuam a ser poderosos. Não poderá ser devido ao ponto de partida? Uma diferença cultural? Tecnológica? Científica? Ou qualquer outra coisa, mais do que uma escolha de regime político que não mudou muito?
O nosso modelo democrático tal como ele se apresenta actualmente, tingido de financeirização e que acaba sempre por se perder num compromisso que tende para a corrupção velada, ao contrário dos modelos autoritários em que a corrupção é parte integrante do autoritarismo. Por outro lado, todos os modelos democráticos se desmoronam a partir do momento em que o “democracia” sofre uma cisão e se transforma numa “autocracia” que se tornou um rebanho plebeu e numa elite que se tornou monárquica, acima dele. É o que estamos a viver agora. A concentração do poder através do dinheiro só pode conduzir ao colapso.
A instrumentalização da democracia contribuiu muito para o enfraquecimento da “chamada democracia”.
A “chamada democracia” matou a democracia.
1) Porquê é que algum deles devia ouvi-lo, há consequências para um discurso que ninguém se lembra daqui a duas semanas? Não deve ter sido a tempo da crónica, mas Rio também esteve bem, como está sempre *neste* assunto.
2) Quer uma palavra? Tenho várias. Escolhem consistentemente que querem ficar com pior educação, saúde, e o resto, em nome de poupar para quando não funcionarem, pois que que vivam com o que ficar depois de quem “vive acima das suas possibilidades” se reformar ou puser a andar sem substituto. Há que cumprir a profecia, que diabos.
3) O PISA, como o resto, avalia o quanto se decora para exames, e não piorou mais que a média. São factos. E ainda apanham os efeitos do iluminado Crato.
4) Só faltou dizer que PNS é que tinha razão, mas não consegue.
5) É tão simples que um tudólogo chegava lá: cada vez menos se acredita que o voto interessa, restando maioritariamente quem vota por questão de princípio, os crentes em vibes, e quem não se importa de rebentar com tudo achando que fica por cima.
6) PNS conta com o seu voto. Mas se a jardinagem com uns pozinhos de carris não chega, pode ir mais à esquerda. Só é pena a destruição da possibilidade de sociedade não ser nada perante admitir o racismo estrutural, a luta de classes, ou que os géneros são uma construção puramente social. Pois que morramos.