A derrota do Deus do Ocidente

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/12/2023)

A ação do Estado Judaico na Palestina, o genocídio em Gaza e a destruição da Cisjordânia constitui um ato que os seus autores pretendem que seja o ato final do direito de origem divina de Povo Eleito à Terra Prometida, a provocar um Armagedeão em termos do Antigo Testamento bíblico. Os dirigentes judaicos justificaram e justificam com o Antigo Testamento da Bíblia e com o seu deus Javé a ocupação manu militari de mais este território da Terra Prometida a Abraão há quatro mil anos. Sem a dimensão religiosa não é possível entender a política do Estado de Israel, o discurso e o comportamento dos seus dirigentes e a atitude de arrogância que revelam perante aa comunidade internacional (gentios) e até contra os seus protetores americanos.

No entanto, no Ocidente cristão esta guerra santa, equivalente a uma cruzada ou uma jhiad, está a ser quase exclusivamente analisada sob o ponto de vista técnico, como um historicamente vulgar conflito tendo por base os interesses de grupos políticos, económicos e sociais, interesses estratégicos de poder global envolvendo superpotências e potências regionais. Como mais uma “guerra” das muitas em que o Ocidente se tem envolvido desde que se reconstituiu após a queda do império romano, tendo o cristianismo como base ideológica e civilizacional.

No entanto esta é uma guerra de rutura civilizacional, que coloca em causa as raízes mais profundas da nossa civilização, que promove a substituição dos valores do cristianismo e do Novo Testamento pelo judaísmo e pelo Velho Testamento, o retrocesso de uma civilização de abertura, que o cristianismo foi e daí a sua universalidade, por uma civilização fechada, racista e suprematista como é o judaísmo.

O que nos tem sido apresentado pelos grandes meios de manipulação são episódios da violência inerente a qualquer confronto armado, com a particularidade da utilização de meios desproporcionados, da impiedade e da ausência de limites, ou de misericórdia. Os autores do guião da ação do Estado de Israel em Gaza e na Cisjordânia e os especialistas contratados para a analisar pretendem inculcar a ideia de que a atual ação militar contra as populações palestinianas faz parte do “direito de defesa de Israel”, pelo que o mundo estaria perante um facto recorrente, apenas um pouco mais sangrento, mas sem que nada de essencial tenha sido alterado. O discurso dominante, mesmo quando especializado, encontra-se delimitado pela análise da arte da guerra: aniquilação do inimigo através do genocídio, ou por uma conjugação de massacre e sujeição dos vencidos aos princípios e leis dos vencedores.

Podemos chocar-nos com o genocídio dos palestinianos executado a frio e com justificações de aberrante hipocrisia em nome dos interesses do Ocidente americano, mas do ponto de vista estratégico e operacional, como referem os comentadores militares, a operação está a decorrer muito bem e conforme o planeado. Nada de novo: Delenda Carthago! — Cartago tem de ser destruída! — assim terminava Catão os discursos fosse qual fosse o assunto. O mesmo afirmam Netanyahou e os seus camisas negras em todas as ocasiões: Delenda o Hamas! — Delenda Gaza, a Cisjordânia! Até surge nas notícias o picante de que os alvos são selecionados pela Inteligência Artificial, o que, numa segunda leitura, reduz os pilotos dos aviões, os artilheiros, os manipuladores de drones a imbecis que se limitam a seguir a inteligência das máquinas. Mas como é em nome da promessa da posse da Terra Prometida, tudo se desculpa e nenhum desses seres invocou problemas de consciência.

Há, contudo, uma outra análise que deve (devia) ser feita e que remete para a profundidade das raízes desta ação de Israel — da vingança histórica e milenar que ela materializa contra o Ocidente. O Ocidente está a dar a oportunidade de ouro para a realização do mais extraordinário ato de vingança contra si próprio desde a instauração do cristianismo como religião do império romano decretado no século IV por Constantino, dentro do princípio cujus regio, ejus regio — a religião do príncipe é a religião do país.

Independentemente das convicções religiosas de cada um é inegável a importância das religiões na organização das sociedades e na vida dos seres humanos. Para criar instituições políticas, o primeiro obstáculo é o de superar a desconfiança geral do grupo. Não se pode organizar um sistema político estável se a população, ou pelo menos uma parte dela, não aceita a autoridade de um chefe. A resposta mais eficaz a este desafio foi concentrar a autoridade religiosa e a do chefe político e militar. Estabelecer a religião como fonte da autoridade política. O primeiro registo desta ideia parece ser o do faraó Akenaton (1350 a.C), que se declarou emissário de um único Deus, Aten, a única ponte entre o humano e divino. A associação do poder de base militar e religiosa teve consequências para a religião, que se tornou parte da organização política.

A criação dos deuses e das religiões constituem as mais importantes descobertas do ser humano, mais importantes que a descoberta da roda, do fogo ou da escrita. O ser humano não quer apenas viver, tem necessidade de dar sentido à vida. A religião é um dos espaços para dar sentido à vida e os deuses são criações do homem, têm real existência. Quando um piloto judeu larga uma bomba do seu avião sobre Gaza em nome do seu deus, esse deus existe, mata e venceu o deus que não salvou os seus fiéis palestinianos. O deus dos cruzados europeus que atacaram o Templo de Jerusalém e mataram os que lá se encontravam a ponto de o sangue dar pelos jarretes dos cavalos existia e venceu o deus que lá estava. Os deuses existem, têm criador e, infelizmente, os criadores de deuses são por norma os mais ambiciosos e sem escrúpulos dos homens, que os utilizam para lhes servirem de instrumento de domínio.

A dimensão religiosa desta ação do Estado judaico devia e deve estar no centro das análises, porque é ela que, em última instância, determina o futuro de todos os envolvidos e, desde logo, do Ocidente que fornece as armas e o apoio político e ideológico a quem se bate por um deus que é o seu e que há dois mil anos foi derrotado pelo deus do Ocidente.

O Estado de Israel tem o judaísmo por infraestrutura ideológica. Pelo seu lado, o Ocidente, a partir do édito de Milão e da “conversão” de Constantino, validou o cristianismo como religião oficial, colocando o judaísmo na situação de seita responsável pela morte e sacrifício do novo Deus de Roma. Durante séculos, até ao nazismo, os judeus foram tidos no imaginário ocidental como um povo-vítima, pacífico, perseguido, estigmatizado, que se deixava sacrificar sem luta. O judaísmo era uma religião de mansos que viviam em guetos e aí celebravam os seus rituais. O Ocidente ignorou a violência genética do judaísmo e do seu deus, Javé. Não pareceu surpreendido com o terrorismo que os judeus praticaram logo que tiveram a oportunidade de reunirem uma massa critica adequada primeiro no protetorado britânico da Palestina, que evoluiria para Estado de Israel sob os auspícios das Nações Unidas, atribuindo as práticas dos seus grupos terroristas à necessidade de defesa e ao seu direito de existência. Não era: o judaísmo é geneticamente violento, por ser exclusivista, racista e negacionista do outro, por se assumir como a prova de que é a ideologia de um povo eleito, superior.

O grande sofisma utilizado pela elite judaica no coração do Ocidente para se confundir com ele e o tomar por dentro tem sido o de que o cristianismo é uma “continuação” do judaísmo (uma justificação que também serviria para o islamismo…) e o instrumento culminante dessa manobra de continuidade do cristianismo a partir do judaísmo foi o Estado de Israel, promovido pelo movimento sionista, aproveitando as condições do pós-Segunda Guerra.

Na realidade, o cristianismo é uma nova religião que nasceu e se desenvolveu em confronto direto e irredimível com o judaísmo. Durante dois mil anos o convívio entre as duas religiões teve episódios de grande conflitualidade — a Inquisição, os pogrom e o nazismo — alternando com outros de coexistência mais ou menos tolerada segundo os interesses do momento, em especial nos momentos de aperto financeiro dos soberanos cristãos.

O facto de duas famílias judaicas dominarem desde o século XVIII o sistema financeiro mundial, o coração do sistema capitalista, as duas praças mundiais, os Rothschild em Londres (e também Frankfurt) e os Rockfeller em Nova Iorque fez com que o judaísmo, enquanto formatador civilizacional, aparelho ideológico e legitimador de comportamentos fosse parasitando e metastesiando o corpo principal da civilização ocidental, tendo o cristianismo como base dos seus princípios.

Segundo o Antigo Testamento da Bíblia, pelo qual se regem os judeus, o pacto entre eles e Javé, o seu deus, teria começado com Abraão, há cerca de 4 mil anos. Este foi chamado por Deus para deixar a cidade de Ur, na Mesopotâmia e ir fundar uma nova nação numa terra desconhecida, a Terra Prometida, que seria chamada de Canaã. O deus que apareceu a Abraão rompia com a tradição politeísta dos gregos, e colocava-se na posição omnipotente de exigir o que quisesse. No caso de Abraão, ordenou-lhe que sacrificasse o seu filho Isaac como prova de fé, isto é, de sujeição.

O Javé do Antigo Testamento (o Pentateuco, para os judeus) não tem semelhanças com o pai protetor que mais tarde o cristianismo iria propagar como sendo o seu Deus. Javé é um deus brutal, parcial e assassino, um deus de guerra, que seria conhecido como Javé Sabaoth, Deus dos Exércitos. Manda pragas aos egípcios, mostra-se até arrependido da sua criação, como quando ordenou a morte por afogamento de toda a humanidade através do dilúvio, do qual só escapou a família de Noé e os animais que colocou na arca.

Javé, o deus dos judeus, está mais preocupado em ameaçar a raça humana para que ela não se desvie das instruções que entregou a Moisés do que em criar condições de paz e de harmonia, de felicidade e de justiça. Javé é passionalmente partidário do seu povo eleito, os judeus, e tem pouca misericórdia pelos não favoritos. É uma divindade tribal.

A narrativa de continuidade entre o judaísmo e o cristianismo foi destruída por Paulo de Tarso, ao estabelecer que o cristão se justificava pela fé e não pela obediência à lei judaica, nem à sua ascendência judaica, que os gentios, os não judeus, se podiam converter, abrindo o cristianismo a novos espaços. Paulo tirou Jesus Cristo da pequena gaiola de um messias para o povo hebreu, ou de mais um profeta, transformando-o num salvador de todos os povos. Javé, esse continuou ligado apenas ao povo hebreu, enquanto Cristo ganhava um caráter universal. Javé continuou a ser o deus carrancudo dos judeus e o cristianismo transmitiu a imagem de um deus bem mais amistoso que Javé.

Na tradição judaica estava muito claro que o homem devia temer a Deus acima de tudo. Com o cristianismo, a mensagem passa a ser amar a Deus acima de tudo. A diferença entre o judaísmo e o cristianismo é a mesma entre temer e amar. É esta escolha que está em causa com a ação de Israel na Palestina e em que os dirigentes ocidentais estão a tomar o partido do Deus do medo, defensor de um pequeno povo de eleitos contra a humanidade. O “direito de Israel a defender-se” tem o sentido de direito divino a destruir ou subjugar todos os que não são os eleitos, incluindo nós, os que lhe fornecemos as armas e a complacência.

O que o Estado de Israel está a realizar perante o mundo e em nome do Ocidente é a morte do Deus dos cristãos, do Deus que, apesar das violências cometidas em seu nome, permitiu que surgisse um humanismo cristão, que produziu um Santo Agostinho, um São Francisco, que permitiu a recuperação do conceito de um deus moral, em oposição ao deus brutal.

A vitória nas guerras foi sempre a vitória dos deuses dos vencedores. A vitória de Israel na Palestina é a vitória do deus dos judeus sobre o deus dos muçulmanos, mas também sobre o deus dos cristãos. O deus moral representado por Cristo podia oferecer uma via para que as sociedades cooperassem, evitando ofender um poder superior atento ao seu comportamento em relação aos demais. Javé, o deus dos judeus exclui o compromisso. E essa exclusão é evidente no discurso dos dirigentes judaicos.

Mesmo para quem, como eu, entende a religião apenas como uma dimensão simbólica do comportamento humano e a religiosidade como um sistema produtor de normas e culturas inerentes a qualquer sociedade, quer a religião, quer a religiosidade são fatores constitutivos e estruturantes da vida humana. Não me é, pois, indiferente, muito pelo contrário, ser regido pelas normas de Javé ou de Cristo, de ser regido pelo Velho Testamento, pelo Alcorão ou pelo Novo Testamento. Não é a mesma coisa ser não crente numa divindade numa civilização que tenha por deus Javé ou Alá, entre judeus e muçulmanos, ou sê-lo numa civilização que tenha Cristo por referência.

Impressiona-me a ausência de pensamento no interior do cristianismo sobre o conflito judaico-cristão, que coloca em causa a nossa civilização. Preocupa-me que estejamos a ir atrás do canto das sereias do conflito com os muçulmanos, encadeados que estamos pelo domínio dos poços de petróleo do Médio Oriente e dos eixos de ataque à Rússia, a primeira barreira a ser ultrapassada para os Estados Unidos enfrentarem a China. Entendo ser uma cegueira perigosa e criminosa o Ocidente abdicar do seu Deus e dos seus valores, trocando-o por Javé, o velho carrancudo, vingador e sem piedade.

Além dos palestinianos, é também o cristianismo que está debaixo de fogo neste Natal na Palestina. Quem invoca um deus para justificar o genocídio na Palestina não me merece respeito. Repugna-me a corrupção dos que traficam o seu deus com eles. Dos católicos, dos anglicanos, dos luteranos, das igrejas evangélicas, dos cardeais de Roma, dos televangelistas americanos, dos vendedores de dízimo brasileiros nem uma palavra!

Para ser claro: à vingança dos judeus por dois mil anos de humilhação pela derrota de Javé, os cristãos respondem agora com a traição ao seu Deus. Falta-nos um Shakespeare!


A gente da guerra

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/12/2023)

(Porque publico amiúde os textos do Miguel Sousa Tavares, ainda que discorde de muitas das suas posições? Pela coragem e a frontalidade com que defende essas mesmas posições. Este texto, sobre a guerra na Ucrânia e sobre o genocídio em curso em Gaza, é disso exemplo. Nenhum comentador, nenhum escriba frequente na comunicação social portuguesa – que eu tenha lido e leio quase tudo -, subscreveu, até à data, um libelo tão contundente contra a gestão que o Ocidente está a fazer dos conflitos naqueles dois palcos, ainda mais publicado no Expresso, esse bem pensante “jornal de referência”.

A esta hora, já haverá uivos dos belicistas a apelidarem-no de “propagandista russo”, como me acabam de apelidar a mim em dois comentários no blog e, em jeito de ameaça, dizendo que a polícia já me anda a investigar! (Ver aqui e aqui). Sim, a censura começa a ameaçar as vozes livres. Eu não quero acreditar que a liberdade de expressão já esteja em causa, ao ponto de ser já “caso de polícia” mas, se calhar, estou a ser ingénuo. A polícia que venha e me diga qual a lei que estou a desrespeitar, quando publico as opiniões de quem desalinha do coro das ovelhinhas.

Estátua de Sal, 22/12/2023)


Dizem-nos que, se Putin vencer, entrará Europa adentro; se perder, usará a arma nuclear. Admitindo que ambas as fábulas são verdadeiras, o que devemos nós preferir: a vitória ou a derrota da Rússia? Talvez a paz, não?


Se o resultado final não fosse trágico e medido em milhares de vidas destruídas, seria risível ler na nossa imprensa o discurso a favor da guerra dos advogados oficiosos da NATO — e agora também de Is­rael — para a continuação das guerras “justas” e “indispensáveis”. É facto que, no essencial, reproduzem as teses dos seus intelectuais de estimação — os Timothy Garton Ash, Francis Fukuyama ou o intelectual pop Bernard-Henri Lévy, entre outras distintas vulgaridades — que regularmente trazem a Lisboa, pagos a peso de ouro, para dizerem monotonamente o mesmo. Mas os nossos, talvez porque sejam mais mal pagos ou menos vistosos, fazem voluntariamente o papel de tradutores simultâneos da única versão da História aceite nas chancelarias e nos areópagos internacionais do Ocidente, onde os nossos destinos se decidem — sem direito a contraditório nem sequer a dúvidas.

Porque a versão deles é simples, como convém ao convencimento de incautos. A luta da Ucrânia e a de Israel é a mesma, é a do Ocidente e dos seus valores contra a barbárie. Mesmo quando a luta de Israel contra a barbárie é, em si mesma, uma demonstração de barbaridade como nunca vista neste século XXI — “terrorismo”, disse-o com todas as letras o Papa Francisco. Ou mesmo quando Inglaterra, farol dos valores ocidentais e pátria da Magna Carta, se prepara para renunciar à Declaração Universal dos Direitos do Homem e sair da jurisdição do Tribunal Internacional dos Direitos Humanos para poder deportar para o Ruanda, sem distinguir, emigrantes económicos e requerentes de asilo político, de onde poderão ser reexportados para o seu país de origem e para a morte. A Hungria, esse “papagaio de Moscovo”, dizem eles, opôs-se à entrada da Ucrânia na UE não porque a Ucrânia esteja em guerra, não porque seja um dos países mais corruptos do Ocidente, não porque (tal como na Hungria) lá não exista Estado de Direito ou porque a sua entrada vai sugar todos os fundos de solidariedade europeus — tudo factos incontestáveis e incómodos —, mas porque, dizem, Putin não quer ver a Ucrânia na UE, quando a verdade é que isso é o lado para que ele deve dormir mais confortado.

Na guerra da Ucrânia, o momento, para os advogados da NATO, é de declarado desconforto, quase desespero. As coisas não correm bem no campo de batalha, onde houve, desde o início, dois erros de análise sucessivos: primeiro, foi Putin que imaginou uma caminhada fácil, desconhecendo que há muito que a NATO estava a prever a invasão e a treinar e a preparar as Forças Armadas da Ucrânia para ela; depois, foi a própria NATO que convenceu Zelensky de que podia ganhar a guerra com o armamento que lhe iria fornecer na quantidade e “durante todo o tempo que fosse necessário”, menosprezando as lições da História sobre a capacidade de resistência russa. Agora, após o “impasse” da ofensiva ucraniana e quando a Rússia joga a sua superioridade humana, os entusiastas da continuação da guerra até à “derrota total da Rússia” estão subitamente dependentes de mais um apoio à Ucrânia de 50 mil milhões de euros da Europa e de 61 mil milhões de dólares dos Estados Unidos. “Mas para quê?” é a pergunta que fazem os republicanos no Congresso americano e crescentemente as opiniões públicas no Ocidente. E com que resultado e por quanto tempo mais e a que custo? A estas perguntas, os entusiastas da guerra não sabem responder ou respondem contraditoriamente. Por um lado, dizem que, se a Ucrânia não ganhar a guerra, a Rússia não se contentará com Kiev e avançará Europa adentro: uma tese ad terrorem sem qualquer sustentação factual ou lógica. Por outro lado, dizem que, se a Rússia for derrotada na Ucrânia, Putin já ameaçou recorrer à arma nuclear — coisa que nunca fez e de que não encontrarão qualquer declaração que a sustente. Mas, admitindo que ambas as fábulas são verdadeiras, o que devemos nós preferir: a vitória ou a derrota da Rússia? Talvez a paz, não?

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

As condições de Putin para nego­ciações de paz, tanto quanto segui, não foram alteradas desde antes da guerra: o reconhecimento da anexação da Crimeia, a autonomia dos territórios russófonos do Donbas e a não extensão da NATO à Ucrânia e à Geórgia — o que consta dos Acordos de Minsk II, negociados entre Rússia, Ucrânia, França e Alemanha. A guerra podia ter sido evitada com base na reafirmação dessa base de trabalho, podia ter sido contida a partir dela logo no início e pode ser acabada agora. Anteontem, pela terceira vez num mês, Putin declarou-se pronto para negociar, mas, mais uma vez, agora Zelensky fingiu não ter ouvido e declarou que “Putin continua a não querer negociar”. E assim, quase dois anos depois de tanta morte e destruição, as imagens do povo ucraniano nas aldeias e cidades devastadas pela guerra — que nenhum notável ocidental, nem o próprio Zelensky, vai ver de perto —, prestes a enfrentar mais um Inverno de guerra e sofrimento, não são suficientes para que a paz surja como alternativa a uma guerra sem fim à vista. Pelo contrário, o Estado-Maior ucrania­no reclama a entrada na guerra de mais meio milhão de recrutas. Carne para canhão, enquanto os intelectuais do Ocidente, sentados no conforto das suas secretárias, continuam a sua apologia da guerra até à derrota total da Rússia, tema das suas pregações e fonte de rendimentos. E todos eles esperam — em vão, mas com razão — que, milagrosamente, a Rússia seja varrida da Ucrânia antes de um ano, para que na Casa Branca não esteja reinstalado um ainda mais louco e vingativo admirador de Putin, chamado Donald Trump. Justamente, seria a altura de negociar.

Sim, a Rússia teria de se retirar de todos os territórios que conquistou entretanto, teria de pagar pela destruição causada e teria de garantir a inviolabilidade da soberania e segurança da Ucrânia. E, do outro lado, a NATO teria de renunciar ao projecto de fechar o cerco à Rússia pelos Balcãs. E talvez seja isso que torna tudo mais complicado, porque esta é, sempre foi, uma guerra entre a NATO e a Rússia por interposta Ucrânia. Chego a pensar se os mesmos espíritos maquiavélicos que apostaram que a guerra na Ucrânia seria uma oportunidade única para enfraquecer a Rússia até à impotência — como preconizou o secretário da Defesa americano, Lloyd Austin — e de expandir as fronteiras da NATO até ao inimaginável não estarão agora a pensar que a alternativa — uma vitória russa —, apesar de tudo, pode acolher um benefício: a reedição da célebre “teoria da vacina”, defendida por Sonnenfeldt, o subsecretário de Kissinger, para ser ensaiada em Portugal nos idos de 75, quando Cunhal e outros nos queriam colocar sob a órbita do “Sol da Terra”. Agora, perdida a Ucrânia para Moscovo, o medo seria facilmente disseminado e a NATO aproveitaria para se expandir… Ásia adentro.

E temos Israel, cuja barbaridade em Gaza e na Cisjordânia causa um embaraço inultrapassável aos defensores da superioridade moral infalível do Ocidente e dos seus métodos de warfare. Num mês daquilo a que chamam guerra contra um bando de terroristas escondidos debaixo de terra, Israel, um dos mais bem armados e equipados exércitos do mundo, já causou o dobro de vítimas civis do que quase dois anos de guerra na Ucrânia, travada entre dois inimigos igualmente armados com o mais mortífero arsenal de artilharia e meios aéreos. Se a Rússia causou um escândalo planetário quando um míssil seu atingiu parte de um hospital ucrania­no, Israel, com o seu “armamento de precisão”, fez bem melhor: destruiu 29 dos 30 hospitais de Gaza, sem, contudo, ter encontrado, sob os seus escombros, um só túnel do Hamas, que jurava todos abrigarem. Em vez disso, invadiram hospitais e blocos operatórios, mataram lá dentro, deixaram crianças a morrer nas incubadoras e depois exibiram cá fora, nus e ajoelhados, os que proclamaram ser terroristas do Hamas — mas de que metade foi identificada como civis, médicos dos hospitais, um jornalista e vários funcionários das agências humanitárias da ONU, fora da lista dos mais de 100 que já assassinaram. Em Gaza, o outrora lendário Exército de Israel destruiu prédios inteiros à bomba, quarteirões, aldeias, acampamentos de refugiados, mesquitas e igrejas, num cenário de barbaridade como não víamos desde o século passado. O povo do Holocausto! Fica assim demonstrado que a bestialidade humana não depende das ideias, da raça, da genética ou da nacionalidade: depende da oportunidade. E Gaza ficará na História de Israel e do povo judeu como o momento mais negro.

Como se não bastasse, tudo em vão: nenhum dos três objectivos do massacre planeado pelo Governo de terroristas de Netanyahu está a ser ou será cumprido. Quanto ao primeiro, ninguém sabe quantos militantes do Hamas é que eles já terão liquidado na sua operação triunfal: o que sabemos é que já liquidaram perto de 20 mil pessoas, entre as quais 8000 crianças — glória às forças de defesa de Israel! Quanto ao terceiro objectivo — garantir que o Hamas nunca mais voltará a ser uma ameaça —, só um Governo de fanáticos é que pode imaginar que por cada criança morta, por cada uma que viu morrer os pais ou os irmãos à sua frente, não nascerão outras tantas para pegar em armas. E, quanto ao segundo objectivo — a libertação dos reféns —, que nunca, verdadeiramente, foi prioritário, a poderosa ofensiva da IDF não conseguiu libertar um só e foi a diplomacia que o fez, quando o Governo de Telavive, penosamente, aceitou suspender por cinco dias a “legítima defesa”. Pior ainda: não libertaram nenhum dos seus reféns, mas conseguiram matar três deles, e as circunstâncias em que o fizeram revelaram a natureza criminosa de toda a operação. Os três tinham-se evadido de um túnel do Hamas, avisaram por mensagem quem eram e ao que iam, tiveram o cuidado de se apresentar em tronco nu e com uma bandeira branca improvisada, mas, mesmo assim, foram logo liquidados por soldados israelitas aos gritos de “terroristas!”. Porque seguramente foi isso que lhes ensinaram: “Disparem a matar sobre todos os que virem, porque ali são todos terroristas.” Agora, o Governo israelita já quer negociar nova trégua em troca da entrega de todos os reféns. Após o que se propõe continuar o massacre até ao último palestiniano vivo, que não tenha morrido de fome, de sede, de doença ou debaixo das bombas, ou que não tenha fugido para o deserto do Sinai. A solução final.

Mas resta-nos uma fraca consolação moral. Anteontem, no Conselho de Segurança, o embaixador americano finalmente reconheceu que, “antes do 7 de Outubro”, o ano de 2023 estava a ser o pior de sempre na repressão aos palestinianos — não só em Gaza mas ainda na Cisjordânia, onde os roubos de terras e os assassínios cometidos pelos colonos judeus, sob protecção do Exército, tornavam inviável a hipótese de um Estado Palestiniano independente, a única fórmula viável para uma paz duradoura. Então, afinal, e ao contrário do que alguns seus conterrâneos aqui disseram ou escreveram sem vergonha, António Guterres teve razão: o 7 de Outubro não aconteceu no vazio. Até já os americanos o reconhecem.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

As atrocidades em Gaza são “valores ocidentais”

(Caitlin Johnstone, in Resistir, 21/12/2023)

Quando o presidente israelense Isaac Herzog descreveu o ataque a Gaza como uma guerra “para salvar a civilização ocidental, para salvar os valores da civilização ocidental”, não estava a mentir. Estava a dizer a verdade – mas talvez não exatamente do modo como queria dizer.

A demolição de Gaza está, de facto, a ser levada a cabo em defesa dos valores ocidentais e é, ela própria, uma perfeita personificação dos valores ocidentais. Não os valores ocidentais que nos ensinam na escola, mas os valores ocultos que não querem que vejamos. Não a embalagem atractiva com os slogans publicitários no rótulo, mas o produto que está realmente dentro da caixa.

Durante séculos, a civilização ocidental dependeu fortemente da guerra, do genocídio, do roubo, do colonialismo e do imperialismo, que justificou através de narrativas baseadas na religião, no racismo e na supremacia étnica – tudo isto a que estamos a assistir hoje na incineração de Gaza.

O que estamos a ver em Gaza é uma representação muito melhor daquilo que é realmente a civilização ocidental do que todas as tretas sobre liberdade e democracia que aprendemos na escola.

Uma representação muito melhor da civilização ocidental do que toda a arte e literatura pelas quais nos temos orgulhosamente felicitado ao longo dos séculos.

Uma representação muito melhor da civilização ocidental do que o amor e a compaixão que gostamos de fingir que são os nossos valores judaico-cristãos.

Tem sido surreal ver a direita ocidental a balbuciar sobre o quão selvagem e bárbara é a cultura muçulmana no meio da ressurreição zombie de 2023 da islamofobia da era Bush, mesmo quando a dita civilização ocidental acumula uma montanha de 10 mil cadáveres de crianças.

Essa montanha de cadáveres de crianças é uma representação muito melhor da cultura ocidental do que qualquer coisa que Mozart, da Vinci ou Shakespeare tenham produzido.

Esta é a civilização ocidental. É assim que ela se parece.

A civilização ocidental, onde Julian Assange aguarda o seu último recurso, em fevereiro, contra a extradição para os EUA pelo jornalismo que expôs crimes de guerra dos EUA.

Onde somos alimentados por um dilúvio ininterrupto de propaganda dos media para fabricar o nosso consentimento para guerras e agressões que mataram milhões e deslocaram dezenas de milhões só no século XXI.

Onde somos distraídos por entretenimento insípido e guerras culturais artificiais para não pensarmos demasiado no que é esta civilização e em quem está a matar e mutilar, a passar fome e a explorar.

Onde os ciclos de notícias são dominados mais pelos mexericos das celebridades e pelos últimos peidos da boca de Donald Trump do que pelas atrocidades em massa que estão a ser ativamente facilitadas pelos governos ocidentais.

Onde os liberais se felicitam por terem pontos de vista progressistas sobre raça e género, enquanto os funcionários que elegem ajudam a despedaçar os corpos de crianças com explosivos militares.

Onde os judeus sionistas se centram em si próprios e nas suas emoções porque a oposição a um genocídio ativo os faz sentir que estão a ser perseguidos, e onde os apoiantes de Israel que não são judeus continuam a sentir que também estão a ser perseguidos.

Onde um império gigantesco que se estende por todo o globo, alimentado pelo militarismo, imperialismo, capitalismo e autoritarismo, devora a carne humana com um apetite insaciável, enquanto nos felicitamos por sermos muito melhores do que nações como o Irão ou a China.

Estes são os valores ocidentais. Esta é a civilização ocidental.

Peça a alguém que lhe diga quais são os seus valores e essa pessoa dir-lhe-á um monte de palavras agradáveis sobre família, amor, carinho ou o que quer que seja. Observe as suas acções para ver quais são os seus valores reais e obterá frequentemente uma história muito diferente.

Isso somos nós. Essa é a civilização ocidental. Dizemos que valorizamos a liberdade, a justiça, a verdade, a paz e a liberdade de expressão, mas as nossas acções pintam um quadro muito diferente. Os verdadeiros valores ocidentais, o produto real dentro da caixa por baixo do rótulo atrativo, são os que se vêem hoje em Gaza.

[*] Jornalista. O trabalho de Caitlin Johnstone é inteiramente apoiado pelos leitores, por isso, se gostou deste artigo, considere partilhá-lo, ou deite algum dinheiro na sua jarra de gorjetas no Patreon ou Paypal. Se quiser ler mais, pode comprar os livros dela. A melhor forma de ter a certeza de que vê o que ela publica é subscrever a lista de correio no seu sítio Web, que lhe dará uma notificação por correio eletrónico de tudo o que ela publica. Para mais informações sobre quem ela é, qual a sua posição e o que está a tentar fazer com a sua plataforma, clique aqui. Todos os trabalhos são escritos em coautoria com o seu marido americano Tim Foley.

O original encontra-se em consortiumnews.com/2023/12/21/caitlin-johnstone-gaza-atrocities-are-western-values/

Fonte aqui.