Dicas para ir para a lama com um porco e sair de lá limpo

(Tiago Franco, in Facebook, 09/02/2024)

Não chegam os comentadores de serviço a levar o Chega, e a direita em geral, ao colo.

Não chega o tempo de antena dado a André Ventura há quase 5 anos.

Não basta que, repetidamente, os moderadores permitam a André Ventura que interrompa de forma contínua o opositor e até substitua o jornalista, fazendo ele próprio as perguntas.

Para além disso tudo, ainda conseguem terminar o debate com uma diferença de tempo de quase dois minutos a favor do pastor, não dando qualquer hipótese a Paulo Raimundo de rebater a mais pura demagogia usada no fim pelo Ventura.

Se quem é democrata, mesmo anti PCP primário, não percebe o problema nesta rampa de lançamento que a CS montou para o Chega, então, espero que aproveitem bem o que aí vem. E se tiverem tempo e paciência, vão ouvir as declarações do Pacheco nos Açores hoje. Um partido “antissistema” que ameaça mandar tudo ao chão se não for para o poder. É isto o Chega, não é outra coisa.

Dito isto, uma crítica para dentro. André Ventura meteu-se várias vezes a jeito e Raimundo não soube aproveitar. No PREC, nos impostos, na história da clandestinidade (que Paulo Raimundo lhe devia ter esfregado no focinho), na emigração, no favorecimento à banca, nos financiadores do Chega, na antiga profissão do Ventura, no SNS, nas sucessivas mudanças de posição do Chega, na destruição do estado social. Raimundo pareceu, em momentos diferentes, quase a perder o controlo emocional e, claramente, com pouca experiência para este tipo de debates. A linha é exatamente a mesma de Jerónimo com a agravante da gaguez mediática.

Por favor, não se encolham quando dizem que o PCP não defende a NATO ou advoga a saída do Euro. Expliquem porquê, apenas. Esta merda desta pergunta, que aparece há 15 anos, tem que estar mais do que na ponta da língua. Ser contra a NATO não e defeito, é medalha.

Quando Ventura acusa, novamente, o PCP de apoiar a Rússia, Paulo Raimundo tem que lhe cair em cima e explicar, em 5 segundos, que a Rússia é governada há 20 anos pela família política do Ventura, do Orbán, da Meloni, da Le Pen. Quem apoia a Rússia é o Ventura e o Centrão que lá foi vender vistos Gold, não é o PCP. Há 2 anos que se repete essa mentira. Não pode haver tremores na altura de a rebater.

Quando Ventura fala de 74, Raimundo tem que lhe gritar, sem pestanejar, que foi a morte de comunistas que permitiu que fascistas como o Ventura gozassem hoje da liberdade para dizer disparates. Quando Ventura fala em mortes, Raimundo tem que lhe dizer que quem escreveu o programa do Chega foi um antigo bombista.

Quando o jornalista pergunta se os imigrantes o incomodam e Ventura responde “claro que não”, Raimundo tem que lhe perguntar que, se não incomodam, porque coloca nas suas redes sociais, vídeos a criticar muçulmanos em oração no Martim Moniz? Não há problema nenhum de se repetir, em frente ao próprio, que André Ventura é racista e xenófobo. Ventura acha ótimo encher o Instaram de fotos dele a rezar em Fátima mas já fica escandalizado se vir um muçulmano virado para Meca numa rua de Lisboa.

Quando se fala em saúde ou educação, e Ventura ensaia o número do defensor dos pobres, é preciso perguntar-lhe o que mudou desde os tempos do primeiro programa, que falava em privatizar tudo. Ou até do segundo programa, aquelas inesquecíveis 9 páginas. É preciso explicar que Ventura mente, sempre. É preciso demonstrar que Ventura não tem ideologia, diz o que for preciso para ganhar votos mas que, no poder, seguirá apenas a agenda típica da extrema-direita.

Quando fala nas pensões de 200 euros que queria aumentar, deve-lhe ser perguntado como? Com os 15% flat no IRS que sugeria nas 9 páginas e que não passava de uma fuga aos impostos dos mais ricos? Ou com o dinheiro da corrupção que já todos lhe explicaram que não pode ser contabilizado como receita extraordinária? Ou com o dinheiro que ajudava os clientes a esconder nos paraísos fiscais?

Quando o tema é habitação lembrem-se que Ventura fazia parte dos defensores dos vistos Gold.

Sempre que Ventura disser num debate “e não nos acompanharam nessa proposta” digam, “nem nós nem ninguém uma vez que o grupo parlamentar do Chega teve 0 propostas aprovadas”.

Quando o tema são cortes, impostos e finanças em geral, lembrem-se que Ventura anunciou números (400 milhões) retirados à ideologia de género (no congresso do Chega) e mal saiu do palanque já tinha jornalistas a dizer que não existia tal tema e muto menos números. Ventura anuncia medidas ao calhas sem qualquer aplicação prática (como o iva da primeira habitação). Sempre que ele falar em ajudar os pobres, digam-lhe que em 2020 o programa do Chega para os Açores era cortar 50% do RSI. Expliquem que os imigrantes que ele tanto detesta, contribuem para Portugal 7x mais do que consomem. Digam-lhe, sem pestanejar, que ele repete, sem se rir, números e medidas sem sequer as confirmar, apenas para iludir os eleitores.

Quando Ventura fala em meter a banca a pagar as taxas de juro (algo que sempre votou contra, pelo que todos percebemos que é populismo básico), perguntem-lhe onde andava ele, quando Luís Filipe Vieira foi apertado na comissão do BES pelos calotes que todos pagámos e o Chega assobiou para o lado? Estaria ainda a lembrar os seus tempos de comentador na CMTV, em que seguia o guião ordenado por Vieira?

Quando Ventura fala nos apoios ao país A ou regime B, perguntem-lhe, já que apoia Milei, se concorda com a criminalização do direito à manifestação. E quando ele ficar entalado, insistam: como é que apoia as políticas de Milei e, em simultâneo, as manifestações dos polícias?

Ventura é isto. Não faz um debate sem mentir, sem dizer números ao calhas, sem contradizer as suas próprias posições. E fá-lo tantas vezes que, ao fim de 5 anos, não há desculpa para caírem sempre na mesma esparrela. Interrupções, demagogia e mentiras. Basta respirar fundo e, em cada um dos temas fazer as perguntas que escrevi acima. Depois é esperar que ele se enrole sozinho e não largar o osso, ou deixar mudar de tema, até ele responder.

É preferível até, ficar calado e apenas falar 2 minutos de debate, se for apenas isso que o jornalista permitir sem interrupções, mas usar esses dois minutos para mostrar os buracos onde Ventura se mete.

Quando Ventura falar em poder e responsabilidade, digam-lhe que num dia votou a mesma proposta de lei de 3 formas diferentes. Que armadilhou o governo dos Açores. Que andou 5 anos a dizer que era contra o sistema e as cunhas mas que, agora ameaça a constante instabilidade se não tiver pastas ministeriais. Fala em tachos mas assim que aumentou o grupo parlamentar meteu logo familiares de deputados como assessores e anda, nas sobras do PSD, a recrutar deputados que se recusam a largar a mama.

É repetir em cada debate o alinhamento que aí está e, num ápice, acaba-se o mito de ter que lutar na lama com um porco. Ele abre sempre, mas sempre, a carreira de tiro nos mesmos temas. A vida daquele homem está nas redes sociais. As contradições, os disparates e os absurdos estão, em grande parte, registados um pouco por toda a internet. Quão difícil pode ser desacreditá-lo entre aquilo que vende e aquilo que realmente é? Não fará mossa no seu eleitorado, pobre, que não tem dúvidas e acha mesmo que o caminho é votar em quem lhes vai tirar a escola e o SNS, mas fará a diferença no nosso eleitorado. O tal que percebe o que está em causa, que percebe as lutas passadas, que entende a importância do PCP na AR mas que espera, desde os tempos perdidos do João Amaral, que o PCP entre no século XXI.

Paulo Raimundo está a iniciar-se nestas lides, parece ser honesto e boa pessoa. Mas o PCP já tinha quadros experientes e com presença mediática, melhor preparados para estes tempos exigentes em que o partido procura recuperar votos. João Ferreira e João Oliveira, por exemplo.

Às vezes parece que temos todos um Schmidt em cada esquina e complicamos o que, à partida, seria simples e óbvio. Ainda assim, a minha vénia para ele por aceitar ir para a frente da batalha.


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Os agricultores pararam a Europa contra a guerra na Ucrânia. E nem sabem disso.

(Raquel Varela, in Facebook, 02/02/2024)

Além da melhor coleção de boinas do mundo, ontem os agricultores da Europa deram uma lição. Sem a história não se compreende nada, nem porque há tantos vegetarianos estropiados na Ucrânia, nem a transição verde europeia que destrói o Brasil. A história é muito melhor que o GPS.

A transição do feudalismo para o capitalismo só é possível com a expropriação dos camponeses, que passam a assalariados agrícolas de grandes propriedades. Estas dores de parto geram revoltas épicas, com efeitos de arrastamento em toda a sociedade. Não há mi-mi-mi e negociações delicadas, é com foices no século XIX e tratores no XX. Lutam a sério. Lutam com as armas de trabalho.

A PAC (Política Agrícola Comum) é o instrumento europeu mais bem-sucedido para garantir expropriação sem expropriação, ou seja, a agricultura torna-se capitalista, produzindo com recurso a técnicas intensivas culturas escolhidas (leite e cereais), mas os agricultores recebem subsídios para manter uma quantidade razoável de pequenos e médios agricultores no campo, lado a lado com as grandes explorações, evitando assim as suas revoltas, . A tese mais importante sobre isto é de um historiador social-democrata, europeísta convicto e sério, Kiran Patel, com quem trabalhei em Munique. Foi ele que me chamou a atenção para este facto essencial – a PAC foi a contenção dos camponeses e só ela tornou possível a UE porque evitou as revoltas (pode ser lido no seu livro Project Europe).

Assim, a mais capitalista das explorações, propriedade de bancos, convive na Europa, com o pequeno e médio agricultor.

A queda da taxa de lucro das empresas na Europa, depois de 2008, levou-as em busca de uma nova fase de expropriações. Agora só há lugar para as grandes corporações que querem arrasar com o que resta dos pequenos agricultores, abrindo o mercado ucraniano às corporações norte-americanas e europeias (para quem tinha dúvidas fica claro o objetivo “democrático” no apoio à guerra na Ucrânia: é que as terras da Ucrânia ocidental foram vendidas em 2019 por Zellensky) e ao Mercosul, onde países como o Brasil têm 40% da população a passar fome mas são chamados a virar toda a produção para o mercado europeu, com soja, por exemplo, que alimenta a carne na Europa.

Enquanto não convencem todos os europeus a serem vegetarianos – como se o consumo de proteína animal não fosse essencial ao cérebro – e martelam que comer animais faz mal à saúde e à alma, fazem dos europeus a carnificina dos lucros. A UE/corporações económicas, aqui pilotadas pela líder de direita alemã e ultraliberal Úrsula, decretam que os produtos da Ucrânia entram sem taxas, diminuem as do Mercosul (Brasil e Argentina), e fazem entrar produtos do Norte de África sem garantias e controlo sanitário assegurado, enquanto aqui exigem aos agricultores controles burocráticos insustentáveis e kafkianos. Ah! Claro, tudo isto em nome da “transição verde”, “ecologia” e “sustentabilidade”, as palavras que Úrsula usa mais, enquanto desembolsa 50 mil milhões de euros dos nossos impostos para armamento à Ucrânia – destruída -, mais guerra, mas sempre chamando-lhe sustentabilidade e democracia.

A tentativa de expropriar os camponeses teve uma reação em cadeira gigante, chama-se luta de classes – é preciso deixar de ter medo das palavras, senão não se explica nem compreende a sociedade. Ontem houve luta de classes, e os de cima ficaram ansiosos, recuaram nas leis, despejaram milhões em poucas horas para parar os tratores de avançar sobre as capitais, onde os acionistas de bancos comem carne do lombo com trufa negra e champanhe.

Úrsula quer lucros para capitalizar a terra, são os bancos e os seus acionistas que querem ser donos das terras. Os agricultores pararam a Europa em resposta, em apenas um dia, toda a Europa parou. Nenhuma lei contra o corte de estadas foi acionada porque, como dizia o mestre Howard Zinn, historiador: “se queres quebrar a lei fá-lo com, pelo menos, 2 mil pessoas”. Não querem tornar-se assalariados agrícolas, mais uns milhares de homens e mulheres a trabalhar como nepaleses, escravos apinhados em contentores. É contra isto que lutam, contra a sua proletarização.

Os partidos do centro liberal e da extrema-direita gritam contra os imigrantes mas apoiam as leis de expropriação, as armas para a Ucrânia e toda a panóplia de leis que vão fazendo de agricultores, meros proletários. Ontem a RTP, aliás na voz de Rodrigues dos Santos, abriu o telejornal comparando, no mesmo universo, os assalariados agrícolas com os agricultores!, não compreendendo o elementar: são duas realidades completamente distintas, um pequeno agricultor que recebe subsídios e um proletário que apanha fruta.

Tudo está em disputa. A Rússia, juntamente com os EUA, Argentina e Brasil são os maiores produtores. A Rússia está com as terras mais férteis, inclusive as da Ucrânia oriental, pois a invasão completou o acesso da Rússia à maior fatia das “terras negras”, as mais produtivas. A NATO crescia para leste, justamente para ter acesso a elas, a estas terras.

Por isso os acordos de Minsk nunca foram cumpridos – o choque já criou milhões de refugiados ucranianos, mais mão-de-obra barata na Europa. É que nada se perde em capitalismo: nem mesmo os estropiados e os cadáveres dos mortos de guerra deixam de gerar lucros na conta do funeral. É o dinheiro. O vil dinheiro, o mercado a funcionar. Ontem, a UE e os EUA, com o voto de vencido de Orban (que queijo limiano terá ganho este parceiro do Chega?!) largou mais 50 mil milhões, para a guerra. A guerra deles, onde morre quem trabalha.

É o estado da UE, ou como diziam os agricultores belgas, quando deixaram estrume na capital Bruxelas: “esta não é a minha UE”. Que vivam os agricultores!


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Gaza e a responsabilidade de proteger

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 08/02/2024)

Não deixa de surpreender quem no passado defendeu as intervenções humanitárias no Kosovo e na Líbia, não comparáveis ao que se está a passar na Palestina, esteja agora silencioso e, nalguns casos, até contemporizador com o comportamento de Telavive.


Não deixa de surpreender quem no passado defendeu as intervenções humanitárias no Kosovo e na Líbia, não comparáveis ao que se está a passar na Palestina, esteja agora silencioso e, nalguns casos, até contemporizador com o comportamento de Telavive.

Muito se tem escrito na Academia sobre Intervenção Humanitária, Responsabilidade de Proteger (R2P), Operações de Resposta a Atrocidades em Massa (MARO), conceitos diferentes, mas muito próximos no que respeita à possibilidade do emprego da força contra um Estado, quando se trate de prevenir ou pôr termo a violações graves e generalizadas dos direitos humanos dos seus cidadãos, por este perpetradas.

Enquanto a intervenção humanitária não prevê a legitimação do uso da força através de autorização do Conselho de Segurança da ONU, ao abrigo do Capítulo VII da Carta, a R2P considera necessária essa autorização quando o emprego da força vise prevenir ou travar o risco de genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica ou crimes contra a humanidade.

A fonte inspiradora de todas estas teorias foi o genocídio no Ruanda e o conflito no Kosovo, este último o exemplo proeminente de uma intervenção humanitária unilateral e não autorizada, levada a cabo por uma organização regional.

Não se pretende debater neste texto a justificação ética, legal ou política destes conceitos, mas tão somente confirmar empiricamente aquilo que já se sabe, e que se procura escamotear e rever: o facto de não se equacionar a possibilidade de penalizar o comportamento de Telavive, através ou de uma intervenção humanitária ou de uma ação no âmbito da R2P, demonstra à saciedade o estatuto de inimputabilidade de que Israel goza. Como dizia um meu conhecido, “para os amigos tudo, para os outros a lei.”

O ataque do Hamas em 7 de outubro e o argumento da autodefesa (a que Israel tem indiscutivelmente direito) não justificam a punição coletiva do povo palestiniano, tanto na Faixa de Gaza como na Cisjordânia, nem a retaliação selvática e desproporcional de Israel. O propósito da barbaridade é outro. Se havia dúvidas no início do conflito sobre as intenções genocidas das autoridades de Israel, elas desfizeram-se passados quase quatro meses de hostilidades.

A desmesurada intensidade do uso da força por parte do Estado de Israel provocou a destruição de 75% dos edifícios da Faixa de Gaza e a morte de cerca de 28 mil palestinianos, dos quais 60% eram mulheres e crianças, e ao deslocamento de mais de 80% dos seus habitantes.

A fome, a morte, as doenças, o corte da água, eletricidade e impedimento do acesso a ajuda médica e humanitária permitem perceber o que realmente pretendem as autoridades israelitas com a sua ação. Na lista dos alvos incluem-se escolas, universidades, hospitais e cemitérios. Na Cisjordânia, respaldados por militares, os colonos cimentam poços para os palestinianos não terem acesso à água, roubam-lhes o gado e as colheitas, e assassinam palestinianos apenas por serem palestinianos. É difícil escamotear a intenção destas ações.

A devastação total e o sofrimento causado deliberadamente às populações têm um objetivo que os dirigentes israelitas não escondem, apesar de não o assumirem formalmente, isto é, tornar Gaza inabitável e enviar os palestinianos para outras paragens. A isto junta-se a eliminação deliberada de importantes segmentos da elite palestiniana, “como sejam cientistas, médicos e académicos de topo em Gaza, cuja perda terá um impacto incalculável na sociedade.”

Relativamente a intenções, os dirigentes israelitas não têm sido parcos em palavras. Por exemplo, no dia 29 de janeiro, vários milhares de israelitas, entre os quais 12 ministros, reuniram-se em Jerusalém para proclamar o regresso dos colonatos a Gaza. “Chegou o momento de regressar a Gush Katif e encorajar a emigração voluntária”, declarou Itamar Ben-Gvir, o ministro da Segurança Nacional, ao evocar um grupo de colónias israelitas antes instaladas em Gaza.

Por seu lado, o primeiro-ministro Netanyahu não deixou os seus créditos em mãos alheias ao relembrar os Amalek, antigos inimigos bíblicos do povo judeu, para incitar ao genocídio dos palestinianos.

Uma intervenção humanitária em Israel?

Foi com base nestes e noutros acontecimentos, alguns ainda mais graves, que o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) deliberou que Israel tomasse medidas provisórias para evitar atos de genocídio: prevenir e punir a incitação direta e pública ao genocídio; permitir a prestação de serviços básicos e assistência humanitária urgente; prevenir a destruição e garantir a preservação de provas relacionadas com alegações de atos no âmbito do Art.º II e do Art.º III, da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de genocídio contra membros do grupo palestiniano na Faixa de Gaza; prevenir os crimes que equivalem a genocídio, como “matar, causar danos corporais e mentais graves; e impedir que se infligissem ao grupo condições de vida que pudessem provocar a sua destruição física total ou parcial.

O TIJ deliberou ainda que Israel terá de apresentar dentro de um mês, a partir do momento da decisão, um relatório em que explicará que medidas provisórias tomou para evitar atos de genocídio. O Tribunal recordou ainda a todas as partes as suas obrigações ao abrigo do Direito Humanitário e apelou à libertação dos reféns. Contudo, as decisões do Tribunal parecem não terem inibido Israel de continuar e nalguns casos até agravar o seu comportamento, tornando quase impossível o seu cumprimento.

Antecipando a não observância das medidas provisórias decretadas pelo TIJ e a continuação das mesmas práticas por parte de Israel, não será difícil prever o comportamento dos EUA tanto no Conselho de Segurança (CS) como na Assembleia-Geral (AG), se for colocada a possibilidade de uma operação de R2P em Gaza.

Em situações muito menos gravosas, leia-se Kosovo e Líbia, com o argumento de crimes cometidos contra a população, para impedir a continuação da sua perpetração, num caso, os EUA sob a capa da NATO, e noutro, os EUA conjuntamente com o Reino Unido e França, avançaram unilateralmente com intervenções humanitárias.

Se, relativamente a Gaza, a Administração Biden não recorrer aos mesmos critérios que suscitaram as intervenções anteriores, no sentido de impedir a continuação da flagrante e reiterada violação dos direitos humanos, colocar-se-á numa situação de extrema precariedade em matéria de credibilidade. Será acusada de utilizar dois pesos e duas medidas. Cairá por terra a sua narrativa de defesa de uma Ordem Internacional baseada em regras, tão repetida aquando da invasão russa da Ucrânia.

Tal, leva-nos a concordar com John Lander, ex-embaixador da Austrália no Irão e vice-embaixador na China, quando afirmou que a “Ordem baseada em regras” do Ocidente é “um conjunto de regras sempre variáveis e constantemente vacilantes, concebido pelos Estados Unidos para o benefício dos Estados Unidos e dos seus aliados ocidentais”. Na prática, é um conceito para ser arvorado quando interessa, e descartado quando se torna inconveniente.

A traição dos intelectuais

Embora estejamos perfeitamente cientes da conveniente volatilidade e falácia do conceito de Ordem baseada em regras, nunca é de mais recordá-lo em tempo de revisionismo despudorado promovido por alguns intelectuais da nossa praça e, não são poucos, que fingem não saber existirem uns Estados mais iguais do que outros, tentando convencer os incautos de que a lei é igual para todos, e que todos os Estados são iguais perante a lei.

Não restam dúvidas de que o presente conflito entre Israel e o Hamas mais do que justificaria uma intervenção humanitária na Faixa de Gaza, ao abrigo do Pilar III da R2P, para impedir a continuação das inegáveis atrocidades cometidas pelas Forças de Defesa de Israel contra a população palestina, em contravenção com as decisões do TIJ. Mas sabemos que isso não irá acontecer, e ao não acontecer deixa a descoberto a hipocrisia dos imaculados fariseus vendedores de ética e moral.

Não deixa de surpreender quem no passado defendeu as intervenções humanitárias no Kosovo e na Líbia, não comparáveis ao que se está a passar na Palestina, esteja agora silencioso e, nalguns casos, até contemporizador com o comportamento de Telavive; mudos perante a absoluta perversão em curso de valores humanos apregoados de universais, legitimando com o seu silêncio a carnificina. Os defensores da legitimidade do uso da força no Kosovo e na Líbia, tão duros e implacáveis no passado, esvaem-se agora na insustentabilidade do seu medo e contradições.

Na lista incluo os académicos, jornalistas, comentadores e outros, que se inibem de denunciar os crimes e os horrores que ocorrem na Palestina, optando por se aninharem na comodidade do pensamento dominante e nos benefícios que ele proporciona, independentemente dos factos e da razão.

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