O rolo compressor

(Por José Gabriel, in Facebook, 16/12/2025, Revisão da Estátua)


Eles e elas não se cansam de repetir: Ventura é, em debates, um “rolo compressor”. Tal diagnóstico só prova uma coisa: cresce a percentagem de idiotas e analfabetos funcionais entre os entrevistadores e os alegados jornalistas televisivos.

Na verdade, se ser um rolo compressor fosse o que Ventura faz nos debates, então poderiam, com menos compromissos e custos, substituí-lo por um Equus africanus asinus que zurrasse ou escouceasse diligentemente de modo a impedir o oponente de pensar ou falar. Ou um qualquer arruaceiro que encontrassem pela rua – talvez um daqueles que estiveram em frente à AR depois da manifestação sindical. Ou um elemento de uma claque abrutalhada. Nenhum deles seria um rolo compressor, mas fariam o mesmo que Ventura faz.

Tudo o que se passa nestes debates é o contrário de um confronto dialógico entre interlocutores informados, que trocam argumentos devidamente articulados e fundamentados, mesmo que diferentes ou contrários em matéria de opinião. Aí sim, se um deles refutasse com fundamento e competência os argumentos do adversário e fizesse vencer os seus por demonstração convincente, então podiam usar a imagem de rolo compressor. Sem ofensa para nenhum dos participantes.

Mas notem como a maioria dos comentadores se enternece com o bruto. Ai como ele é tão eficaz, ai que não perdeu nenhum dos seus eleitores, ai como ele defende as suas causas. Venceu mais um debate, vou dar-lhe uma nota alta que ele merece, o queriducho. Todos o temem, ai, ai.

Nunca lhes parece relevante analisar a validade –  material e formal – dos argumentos, nunca se passa do devaneio vão e da treta de quem ganha e perde, como se fosse uma partida de bisca lambida. Os poucos comentadores que ousam ir mais longe, depressa são, eles sim, sujeitos ao rolo compressor dos avençados, sempre em maioria.

Não, imbecis, ninguém o teme. O que os seus oponentes sentem é uma compreensível repugnância e uma normal náusea de stress. Sabem que as suas razões, por respeitáveis e justas que sejam, nunca serão respondidas pela criatura – serão objecto de insultos e caneladas verbais tasqueiras. Sabem, ainda por cima, que os dados estão viciados – se um debate correr mal ao “rolo”, logo uma estação lhe fará uma entrevista de fundo, ou melhor, uma entrevista longa, já que as coisas nunca vão fundo, fica tudo ali na babugem da inteligência do entrevistado, do entrevistador e do que eles esperam sejam os destinatários.

Rolo compressor? O único rolo que tal é o gerado pela vossa informação prostituída que, diariamente, vai amassando consciências, mentindo, rastejando ao ritmo dos vossos donos. Criando uma representação do mundo fictícia. De tal modo que os que habitam o fundo da vossa platónica caverna nem se disponham a espreitar a luz.

Europa: visitas não se queixam do jantar

(Daniel Oliveira, in Expresso, 23/05/2024)

Daniel Oliveira

Apesar de confiarem mais na Comissão Europeia do que no governo, só 44% sabem o nome da suapresidente; apesar de confiarem mais no Parlamento Europeu do que na Assembleia da República, só 47,5% identificam um eurodeputado português. A confiança baseia-se na pouca exposição ao escrutínio popular. A Europa muda quando mudam os governos, sobretudo da Alemanha e França. Ao contrário dos povos que se sentem no direito de discordar e exigir, nós somos os “bons alunos”. Visitas não se queixam do jantar.


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Logo no primeiro debate ouvimos candidatos usarem termos como “defense bounds” ou “critérios de Copenhaga”, tornando o discurso aparentemente menos eficaz, porque incompreensível para a quase totalidade de quem os ouvia num canal generalista. Digo “aparentemente” porque o objetivo, quando se discute um tema relevante para o nosso futuro mas distante das pessoas, era um: mostrar o domínio dos dossiers. Sensação que os comentadores, mesmo quando eles próprios não dominam os ditos dossiers, valorizam.

A forma como se debate a Europa resume bem o principal problema do projeto europeu: determinando a vida de todos, falta-lhe o “demos”. Não é por serem preguiçosos que os políticos escolhem temas nacionais para se confrontarem, nestascampanhas. É porque a “democracia europeia” (ponho aspas, porque o termo é francamente abusivo) não tem povo, não tem comunidade. Quando a comunicação social quer que os candidatos falem mesmo dos “temas europeus”, eles tentammostrar a quem nada sabe do tema que estão tecnicamente bem entregues se votarem neles. Se são estreantes neste tipo de eleições, os debates transformam-se num teste de “cultura europeia”, em que brilha mais quem menos se fizer entender.

Com candidatos sem grande passado nesta frente política, o debate facilmente se transforma numa espécie de entrevistasde emprego para administrador não executivo. Não vai mandar grande coisa num parlamento muito limitado no seu poder de iniciativa, mas será bem pago. Sim, é na Europa que se decide quase tudo. Mas, e talvez não seja boa ideia dizer isto aos eleitores, não é no Parlamento Europeu. A Europa muda quando mudam os governos nacionais, sobretudo os da Alemanha e de França. Até o presidente da Comissão Europeia é, de facto, escolhido assim. No nosso caso, resta-noscumprir o papel de “bom aluno”, que assumimos com um complexado prazer.

Os debates são fracos porque, quando não há um eurocético na sala, tudo se resume a medir a intensidade do europeísmo não fica grande coisa para discutir. Como vimos, o PSD tem um discurso ambiental para dentro, mas alinha com o PPE lá fora; o PS é contra o Pacto das Migrações, mas votou a favor, como os socialistas europeus. Quem se apresenta como “bom aluno” da Europa não dispensa apenas a soberania política, dispensa a convicção política. Porque, apesar do seu suposto europeísmo, se comporta como uma visita em Bruxelas.

barómetro da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre a Europa concluiu que os portugueses acham que as instituições europeias são mas confiáveis do que as nacionais: 37% confiam no Governo português e 65,5% na Comissão Europeia; 38,3% confiam na Assembleia da República, 66% no Parlamento Europeu. Estranhamente, 85% acham que o seu voto nas eleições europeias conta para o destino da UE (apesar de elegerem 3,3% dos seus deputados), mas só 31% foram votar em 2019; e apenas 49% acreditam que votar tem impacto nas eleições nacionais (elegendo 100% dos deputados com muito mais poderes legislativos), mas foram, há uns meses, 60% às urnas. Nem os portugueses parecem levar muito a sério em atos o que dizem sobre a Europa.

Esta confiança não resulta de um aprimoramento da democracia europeia, mas do oposto. Menos exposta ao escrutínio, é raro ser as instituições europeias serem responsabilizadas pelos problemas concretos das pessoas, como a inflação ou o preço das prestações das casas determinado por um aumento cego das taxas de juro que não tem em conta as especificidades de cada país (como o peso das taxas variáveis). As responsabilidades da catastrófica reação europeia à crise financeira de 2008 foram atribuídas a Sócrates, as da austeridade estupidamente imposta foram atribuídas a Passos e as da recuperação a Passos ou a Costa, conforme a simpatia política de cada um. Barroso e Draghi não estão, para o mal ou para o bem, nas contas de ninguém.

A prova de que a ignorância dos eleitores é uma bênção para os poderes europeus – e por isso Bruxelas é tão apetitosapara todos os lóbis – é o conhecimento que os mesmos que confiam nos poderes europeus têm deles: apesar de confiarem mais na Comissão Europeia, só 44% sabem o nome da sua presidente, apesar de confiarem mais no Parlamento Europeu,só 47,5% conseguem identificar um único eurodeputado português

Os portugueses também acham que Portugal beneficiou com a adesão ao euro, facto que praticamente todos os números da nossa economia nos últimos 25 anos desmentem. Mas as más notícias destas duas décadas perdidas foram nacionalizadas e atribuídas a “governos socialistas”, “falta de ambição” e outras coisas mais ou menos vagas, não a uma moeda que mudou radicalmente o nosso contexto económico e que nunca foi pensada para nós.

A confiança nas instituições europeias baseia-se na sua pouca exposição ao escrutínio popular (não falo de escrutínio interno). Se os olhos não vêem, o coração não sente. Quanto mais intensa é a democracia, maior o desgaste do poder. E não existe propriamente uma democracia europeia. Por isso, quem defendende os dogmas neoliberais olha para o projeto nascido em Maastricht com tanta simpatia. Sem povo fica tudo mais fácil.

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Voltando aos debates, mesmo temas sensíveis, como o inumano Pacto das Migrações, que aceita separar menores dos seus pais, ou o alargamento Leste e à Ucrânia (já nem falo das novas regras orçamentais, que foram aprovadas sem serem tema em Portugal) são debatidos do ponto de vista moral ou administrativo, nunca político. Entre a aceitação do alargamento, com base numa ideia de dever para com os ucranianos e não do efeito que isso terá na Europa, e o fatalismo da desgraça que o contínuo descentramento da União para Leste significa para nós (atribuirmos essa desgraça ao governo de turno), ninguém perde tempo a debater as compensações poderíamos exigir. Os franceses, com a sua agricultura, não deixarão de o fazer. Porque se sentem membros plenos desta UE, com o direito a discordar e a exigir.

Já nós, continuaremos a avaliar os “bons alunos” que mandamos para a Europa, esse lugar distante a que agradecemos pertencer sem fazer perguntas ou exigências. Para quem faça perguntas ou mostre resistência está guardado o degredo do pior dos insultos políticos: “eurocético”. Quase um sinónimo de ser inimigo da democracia, nacionalista, xenófobo. Porque não é esse o nosso lugar na Europa. Visitas não se queixam do jantar.

A sopa da pedra

(Por José Gabriel, in Facebook, 10/02/2024)


Conhecem, certamente, a sopa de pedra, a lenda do frade espertalhão e a versão que tão popular se tornou nos restaurantes e tascas de Almeirim. Como todos sabemos, a pedra não está lá a fazer nada. Na lenda, serviu só para enganar incautos e atrair a sua curiosidade para o desfecho da sua história da treta. Nos debates eleitorais que as nossas televisões têm passado, o debate é a pedra da sopa. A substância são as horas intermináveis que comentadores de ideologia variável, posto que tanto os há de direita como de extrema-direita e tudo entre estes dois polos, gastam a avaliar – como aqueles juris dos concursos de canções em que os concorrentes são, não raro, melhores e mais talentosos que os jurados – com uma obscena prosápia o desempenho dos participantes dos vários partidos.

A diferença na comparação que usei – e, espero, os meus amigos de Almeirim não levarão a mal – é que a sopa é deliciosa e os comentários aos debates são repugnantes e fedem à consciência dos comentadores e de quem lhes dá corda. De quem os patrocina.

Espero que tenham apreciado a minha contenção em não falar, nas comparações possíveis, em proxenetismo e prostituição – não são só os corpos que se vendem.


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