Um país dito excecional obcecado pelo domínio global

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 22/01/2024)

Os EUA tiveram de facto condições excecionais para se desenvolverem e expandirem. A excecionalidade de sair incólume tanto da 1ª como da 2ª Guerra Mundial, permitiu aos EUA constituírem-se como um império…

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DAVOS. O preocupante discurso de Von Der Leyen pela liberdade de pensamento e expressão

(Charles Sannat, in La Cause du Peuple, 21/01/2024, trad. Estátua de Sal)

Eis Ursula Von Der Leyen , apelidada por algumas más línguas, incluindo eu mesma, “Cruella” Von der, a hiena, a líder da matilha de uma tropa terrível que come e devora todas as ovelhas simpáticas que acreditavam que podiam vaguear livremente pelos prados, cantando, dançando, conversando e lendo como quisessem.


Não. Para a presidente do grande comité (de Bruxelas), o principal perigo que enfrentamos não é o feio Putin (apelidado de Palputine) ou a guerra na Ucrânia.

Não. Para a Cruella de Bruxelas, o principal perigo não são as alterações climáticas (não estou a dizer-vos que deveis ter medo, digo-vos, no entanto, que todos os dias apresentamos o aquecimento global como a causa do nosso terrível sofrimento. futuro).

Não. O principal perigo para Cruella é… a liberdade de pensamento e expressão.

Ela não diz exatamente assim, mas é exatamente isso que ela explica de qualquer maneira: “A nossa principal preocupação para os próximos anos não é o conflito ou o clima, é a desinformação e a má informação seguida de perto pela polarização nas nossas sociedades. Estes riscos são graves porque limitam a nossa capacidade de enfrentar os principais desafios globais que enfrentamos, como o clima, mudanças geopolíticas, demográficas ou tecnológicas. 

O que diz a Cruella da Comissão é muito lógico de compreender. Ela não comete erros.

Se se pretende impor grandes mudanças no nosso modo de vida, ligadas a uma grande mudança nas políticas climáticas, geopolíticas, demográficas ou tecnológicas que serão levadas a cabo contra o povo, é necessário, para que o povo as aceite, controlar muito precisamente o que pode ser dito e, portanto, pensado.

O problema com o conceito abrangente de “desinformação e desinformação” é que podemos lá incluir qualquer coisa que não vá na direção da casta de Davos, estas 5.000 pessoas que governam o mundo porque dirigem as 5.000 maiores empresas, as 5.000 maiores multinacionais.

A casta de homens de Davos (e mulheres, há total paridade na maldade), precisa controlar o que pensamos e, portanto, o que podemos dizer.

Este é todo o sentido da luta da grande comissão de Bruxelas contra a rede Twitter de Elon Musk.

Nunca se esqueça. Não somos um pouco livres da mesma forma que não estamos um pouco grávidos. Somos livres ou não somos.A liberdade é o regime geral. A proibição é sempre a exceção.

Para a liberdade de expressão, esta citação atribuída a Voltaire (provavelmente erradamente) permanece cruelmente relevante: “Não concordo com o que você diz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de dizê-lo. »

Pode ver o discurso de Von der Lyen em Davos, aqui.


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A pregação de Santo André

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/01/2024)

Cinquenta anos depois, os portugueses continuam a dividir-se em duas espécies: os que fazem questão de pensar pela sua cabeça e os que gostam de ser pensados por outrem.


Não adianta insistir em chamar fascista a André Ventura: ele não é fascista. Eu sei o que é um fascista e não é o caso de Ventura. Quanto mais não seja, porque lhe falta substrato intelectual para isso, senão também convicções. Fascistas — ou, pelo menos, saudosistas do Estado Novo — são, sim, muitos dos seus seguidores, aquele povo imenso de que já aqui falei, que em 24 de Abril de 1974 vivia perfeitamente instalado e obediente com a situação e uma semana depois estava nas ruas a jurar que o povo unido nunca mais seria vencido e todos eles eram, afinal, uma vasta maioria silenciosa de socialistas e comunistas de várias espécies. Nunca, de facto, desapareceram, apenas não encontraram representação à altura desde então — e devemos isso à direita democrática, nomeadamente ao CDS. Mas se querem saber onde é que eles estão, o que pensam e o que desejam para o país, se têm saudades do cheiro abjecto de um fascista português, basta ler os comentários dos leitores do “Observador”: está lá tudo, estão lá todos, em todo o seu inconfundível esplendor. Mas a esquerda, igualmente instalada nos seus dogmas, acha que para travar o Chega basta chamar-lhe fascista e logo acrescentar os dois outros inevitáveis adjectivos do mantra: racista e xenófobo. E depois sentam-se, à espera de que as palavras bastem. É como o combate à seca no Algarve: só quando a água está na iminência de faltar nas torneiras é que percebem que o problema não se resolve só com discursos, relatórios e estudos sucessivos.

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O crescimento contínuo do Chega é, obviamente, obra de um homem só, pois à roda dele não existe nada nem ninguém, apenas uma plateia de rostos sem expressão ou alguns com a inconfundível marca da inveja dos medíocres estampada na cara, quando não mesmo indisfarçáveis sinais de perturbações mentais por tratar. Se algum dia aquela gente chegar ao poder, o espectáculo será assustador e o resultado uma espécie de solução final. Mas isso — que é a fraqueza de uma coisa a que dificilmente se pode chamar um partido — tem de ser levado a crédito de André Ventura, um verdadeiro case study da ciência política. Sozinho, ele inventou o Chega, conseguiu tornar-se notícia explorando sabiamente a volúpia cega da comunicação social por tudo o que cheira a dissidência, aguentou depois dois anos como deputado único, fazendo barulho por quatro ou cinco, daí crescendo para um grupo parlamentar, mas continuando na prática como deputado e voz única do partido, indo a todas e todos os dias e transformando o átrio da Assembleia da República (onde estão as televisões) na sede do partido. Primeiro que tudo, isto: trabalho, um trabalho infatigável — no plenário, nas comissões, junto das câmaras e microfones do átrio ou em baixo das escadarias, ao pé dos manifestantes da PSP ou outros cujas causas apadrinha.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Depois, as causas. Por falta de convicção ou por simples instinto político, André Ventura sabia que não podia recuar ao credo do Estado Novo “Deus, Pátria, Família”. Por muito que quisesse atrair os saudosistas desse “viver habitualmente”, os tempos mudaram. Deus não é hoje questão política entre nós, e Ventura até nem gosta do Papa Francisco e do espírito do Vaticano II; a pátria não está em causa, a menos que se queira discutir a UE e pôr em causa os preciosos milhões que nos envia, o que não seria aconselhável, e a família é hoje uma noção jurídica e factual muito difusa. Havia que encontrar novas estratégias de abordagem ao reaccionarismo profundo de uma larga franja de portugueses e Ventura começou por encontrá-la na questão dos ciganos. Apostou, e bem, que iria escavar apoio popular e a hostilidade histriónica do pensamento politicamente correcto. A questão dos ciganos é uma questão complicada e difícil de resolver: entre eles, há muito boa gente e gente trabalhadora, mas muitos não se integram por si, não se deixam integrar e poucos querem integrá-los. À luz do Estado de direito, temos obrigação de o fazer, mas também temos obrigação de o fazer segundo as regras do Estado de direito, e não segundo as deles. Isto não se resolve com simples enunciados anti-racistas, mas com um trabalho persistente e delicado junto das comunidades, no terreno. Sabendo como a solução é difícil e complexa e como do outro lado só lhe opunham a facilidade dogmática, Ventura seguiu também o caminho da facilidade inversa, encontrando terreno fértil: não por acaso, o Chega obteve os seus primeiros grandes resultados eleitorais, roubando votos ao PCP e à esquerda, nos círculos do Alentejo e do Algarve, onde existem grandes comunidades ciganas. Isso deveria ter servido de lição e de alerta para a tal esquerda sapiente, mas ela achou-se num patamar acima da necessidade de ter de aprender qualquer coisa com Ventura. Nada disso ajudou a resolver o problema, como é óbvio, mas o Chega ganhou um trampolim para penetrar no lúmpen popular onde se alimentam todas as demagogias. Daí até Ventura extravasar o seu discurso para todos os imigrantes estrangeiros de pé-descalço foi um pequeno passo, alimentado num estendal de mentiras despudoradas e de desprezo absoluto pelos números reais. Mas, quando lá chegou, já tinha feito caminho sufi­ciente para que os seus seguidores se preocupassem apenas com o discurso e não com os factos.

André Ventura é perigoso porque reúne em si o pior que uma democracia pode produzir e consentir, de acordo com as suas próprias regras: é um brilhante tribuno e um demagogo desprovido de quaisquer escrúpulos. Como qualquer demagogo, dirige-se à crença dos ignorantes com a facilidade de uma D. Branca a vender esquemas Ponzi a velhinhas incautas.

O método, o mesmo de todos os vendedores de feira, é infalível: apresentar soluções simples para problemas complexos. Pôr a pensão mínima de reforma igual ao salário mínimo e financiar isso com dinheiros europeus ou lucros do “combate à corrupção”; dar a todas as forças de segurança um subsídio de risco equivalente aos operacionais da PJ e pagá-lo com a poupança feita no combate à “ideo­logia de género”; terminar com a subsidiodependência, mas, ao mesmo tempo, pagar promoções retroactivas a toda a Função Pública que o reclamar. Fica alguém de fora, alguém se opõe? Então, vamos ganhar as eleições e “limpar Portugal”.

Hoje, as maiores ameaças às democracias — salvo em casos extremos, como Trump, nos Estados Unidos — não são os fascistas nem os movimentos de extrema-direita: são os demagogos, os populistas à solta. Aos fascistas podemos sempre recordar-lhes o seu passado histórico de ignomínia, podemos recuperar as fotografias dos seus rostos e das suas vítimas, os seus discursos de ódio, as suas prisões, as perseguições, a censura dos adversários. Mas os demagogos não têm propriamente um historial registado, não há fotografias dos seus danos ou crimes, os seus rostos são simpáticos e os seus discursos atraentes, o seu poder resulta de voto do povo, e não de golpe, e a sua doutrina não se pode combater no campo da informação, porque está condenada a ser derrotada no da ignorância. Estar informado dá trabalho: é preciso ler jornais, ler livros, consultar estudos e estatísticas, ver museus, ouvir música, viajar, olhar, falar com outros, pensar. Sim, é um trabalho elitista. Ou um luxo, para quem acha que isso é um luxo. Mas, inversamente, também há quem pense que um luxo é não ter que se preocupar com isso. Salazar disse que os portugueses gozavam do luxo de apenas terem de se preocupar com o seu trabalho e a sua família, porque da política ocupava-se o Governo. Lembrei-me disso quando contemplava a assembleia de fiéis de Ventura no Congresso do Chega (a que um congressista, confundindo com o público, chamou “o púlpito”). Cinquenta anos depois, os portugueses continuam a dividir-se em duas espécies: os que fazem questão de pensar pela sua cabeça e os que gostam de ser pensados por outrem. Por vezes até parece que se dividem entre uma alcateia de lobos, que não quer ser governada por ninguém e extermina qualquer um que se atreva a tal, e um rebanho dócil de carneiros, que só pede um pastor que os leve diariamente do curral à pastagem e vice-versa. Mas one man, one vote: para decidir o nosso futuro comum, o voto destes vai valer tanto como o dos outros.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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