O caso do século em matéria de liberdade de imprensa

((Kevin Gosztola [*], In Project Censored, 10/03/2024, Trad. José Catarino Soares)

21 de Fevereiro de 2024. Londres. Stella Morris Assange, a mulher e advogada de Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, discursa nas imediações do Alto Tribunal de Justiça do Reino Unido sobre o recurso de Assange contra a sua extradição para os EUA.

Em Março de 2023, quando o meu livro [Guilty of Journalism: The Political Case Against Julian Assange, “Culpado por fazer jornalismo: o processo político contra Julian Assange”, n.t.] sobre o processo contra Julian Assange foi publicado, o fundador da WikiLeaks, que estava detido, aguardava para saber se um tribunal de recurso em Londres lhe permitiria recorrer da extradição para os Estados Unidos. [n.t.= nota do tradutor]

Agora, Guilty of Journalism: The Political Case Against Julian Assange está disponível nas prateleiras das livrarias há um ano — e Assange ainda não sabe se tem autorização para recorrer [e continua detido, n.t.].

Este limbo tornou-se uma caraterística da acusação contra Assange. A marcha do tempo corrói Assange enquanto as autoridades de sangue-frio o mantêm em detenção arbitrária.

Assange tinha 38 anos quando a WikiLeaks foi elogiada por ter publicado as revelações de Chelsea Manning, uma lançadora de alerta do exército americano. Assange era um ardente, ágil e perspicaz defensor da verdade. Mas, aos 52 anos, Assange está cada vez mais frágil, porque os atrasos nos processos em que está envolvido agravam os problemas de saúde física e mental que tem de enfrentar na prisão de Belmarsh [uma prisão de alta-segurança nos arredores de Londres onde Assange está encarcerado há 5 anos sem culpa formada, n.t.]

O governo do Presidente Joe Biden pode preferir o limbo a um julgamento sem precedentes que irá abrir caminho a uma condenação global. Nenhum serventuário de Biden manifestou quaisquer reservas quanto à acusação feita a Assange.

Os serventuários de Biden continuam a evitar os repórteres, que perguntam porque é que o governo dos EUA não retira as acusações contra Assange. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional de Biden disse em Outubro de 2023: «Isso é algo que o Ministério da Justiça [Ingl. Justice Department, n.t.] está a tratar, e acho que é melhor interrogá-lo sobre esse assunto».

Mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano [Ingl. State Department, n.t.] nem sempre foi tão disciplinado. No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa em 2023, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros americano, Verdant Patel, endossou a acusação que foi lançada a Assange durante a presidência de Donald Trump.

«O Ministério dos Negócios Estrangeiros considera que o Sr. Assange foi acusado de conduta criminosa grave nos Estados Unidos, em conexão com seu alegado papel numa das maiores fugas de informações confidenciais na história do nosso país. As suas acções colocaram em risco a segurança nacional dos EUA em benefício dos nossos adversários», afirmou Patel.

Patel acrescentou: «Colocou fontes humanas identificadas pelo nome em grave e iminente risco de danos físicos graves e detenção arbitrária».

O que o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano disse é recorrente. Foi assim que os seus serventuários responderam quando a WikiLeaks publicou pela primeira vez os telegramas diplomáticos dos EUA em 2010.

Para ser claro, o “papel” de Assange era o de um editor que recebia documentos de Manning e se dedicava a actividades normais de recolha de notícias.

Uma análise de 2011 da Associated Press sobre as fontes que o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano afirmava estarem em maior risco devido à publicação dos telegramas, não revelou provas de que qualquer pessoa tivesse sido ameaçada. De facto, o potencial de dano era “estritamente teórico”.

Apesar do processo contra Assange marcar passo, o movimento internacional para o libertar tem vindo a ganhar força. Parlamentares dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e México enviaram cartas ao Procurador-Geral Merrick Garland exigindo o fim do processo.

Vinte sindicatos filiados na Federação Europeia de Jornalistas mostraram-se solidários, conferindo a Assange o estatuto de membro honorário em cada uma das suas organizações.

Em 4 de Março de 2024, o Chanceler alemão, Olaf Scholz, disse esperar que os tribunais britânicos bloqueassem a extradição, o que é notável dado o estatuto da Alemanha como um poderoso país da OTAN[/NATO].

Mais importante ainda, o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, apoiou uma moção aprovada pelo Parlamento australiano que apelava ao governo dos EUA ‒ um parceiro militar e de serviços secretos muito chegado da Austrália ‒ para “encerrar o caso” de modo a que Assange possa regressar ao seu país.

Assange é um dos prisioneiros políticos mais conhecidos do mundo. Se o governo dos EUA levar o fundador da WikiLeaks a julgamento, não só ameaçará a Primeira Emenda [da Constituição dos EUA, n.t.]  nos Estados Unidos como também porá em perigo o jornalismo de investigação em todo o mundo.

É pouco provável que o sistema jurídico do Reino Unido ou dos Estados Unidos nos proteja dos danos causados à liberdade de imprensa global que os seus governantes estão a infligir aos nossos direitos colectivos. Para evitar mais danos, teremos de encontrar uma forma de vexar o governo dos EUA para que abandone o caso. Caso contrário, muitos de nós poderão vir a ser processados por cometerem actos de jornalismo.

[*] Kevin Gosztola edita e publica o boletim informativo The Dissenter, que aborda regularmente assuntos como a liberdade de imprensa, os lançadores de alerta e o secretismo governamental no The Dissenter.

Fonte aqui.


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A Europa corre o perigo de adormecer em paz e acordar em guerra

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 06/03/2024)

Somos governados por uma aristocracia eleita por poderes supranacionais, que usa os estados como territórios expandidos, dos interesses centrais a quem responde.


Europeus, não se admirem se um dia acordarmos ao som de notícias como “a guerra começou”. Este prenúncio é tudo menos fantasioso e é para ser levado muito a sério. Na minha ignorância, julgo mesmo que, na história humana, após a segunda guerra mundial e considerando a experiência da guerra fria, estaremos, talvez, no momento em que o risco de confrontação militar é mais elevado. À falta de uma arquitectura mundial unificadora, de democracias sólidas e de canais de comunicação estáveis e credíveis… Tudo se torna possível.

No quadro de mais uma adaptação da já secular doutrina estratégica “da espada e do escudo”, enunciada, em 1917, pelo General Pershing, quando explicava às suas tropas que não estavam, na Europa, para defender os europeus, mas para defender os americanos, uma vez que os países europeus constituem um escudo e os EUA a espada, ao longo dos últimos 30 anos, a Casa Branca foi construindo uma elite administrativa aristocrática e aristocratizada, a qual responde, em primeiro lugar, aos interesses da “espada” americana.

Em qualquer grupo fechado, a sua coesão interna funda-se em sentimentos de pertença, os quais, neste caso, residem nos valores da exclusividade, individualidade (não é para quem quer) e inacessibilidade (é só para quem pode) ao comum dos mortais. O grande objectivo, e sucesso, da estratégia americana, reside na criação de um sentimento segundo o qual, cada um dos membros do grupo, faz parte de uma estrutura de eleição, à qual só aderem seres muito especiais. Este sentimento é trabalhado a partir de variadas estratégias de comunicação, sugestão e persuasão que visam criar uma identidade de grupo, mesmo quando os respectivos membros partem de países, realidades e áreas educacionais diversas.

Vejamos alguns casos exemplificativos, mas também paradigmáticos. Emanuel Macron, passou pelo Institute d’Etudes Politiques de Paris – IEP, o qual constitui a chancela de confiança, a premissa, segundo a qual, o sistema neoliberal passa a ver, em Macron, alguém preparado para a administrar os seus interesses. Para além do caracter selecto com que esta instituição privada, exclusiva, se apresenta, as convenções que mantém com a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e com a, sempre reputadíssima, London School of Economics, ou o curso de mestrado em inglês para jovens promessas mundiais, representam uma poderosa contribuição deste instituto para a causa monopolista neoliberal. É ali que se criam os fundamentos ideológicos e os ensinamentos propagandísticos que, mais tarde, são enraizados no discurso político.

Para quem tenha dúvidas desta descrição que faço, nomes como Alain Juppé, Lionel Jospin, Dominique de Villepin, Jacqes Chirac, François Hollande e François Miterrand, todos passaram pela escola Sciences Po. do IEP. Podemos mesmo dizer que, estudar no selectíssimo IEP é meio caminho andado para o estrelato mundial e, mais importante ainda, para os afazeres públicos de um dos motores da EU.

Contudo, esta exclusividade não é restrita aos mais elevados representantes da aristocracia ocidental. Mesmo os mais bárbaros e obscuros wannabes são obrigados a apresentar um qualquer tipo de conexão. Tal é o caso de Kaja Kallas, a primeira ministra da Estónia, que se candidata a tudo o que dê tacho e pertence a todos as direcções que a aceitem. Kallas passou pela necessária Estonian Business School, pois as escolas de Business têm aqui um papel fundamental no enquadramento ideológico do eleito, mas, entre muitas outras coisas, Kallas pertence também à organização Global Young Leaders, organização privada relacionada com Universidades como Stanford, da Ivy League, destinando-se essencialmente a formação STEM.

Profundamente ligada aos programas de formação para jovens, seleccionados através das estruturas americanas existentes dentro das universidades e escolas de todo o mundo, aos “sortudos” eleitos dos seus programas, é destinada toda uma panóplia de excepcionais insígnias como “Innovative”, “Business” ou “Leadership”. Em programas que vão desde as escolas do ensino básico à universidade, os “estudantes” aprendem a movimentar-se, desde muito novos, nos meios do poder, desenvolvendo competências ligadas à criação de ONG’s, empresas, partidos, como intervir junto de governos, da ONU e de outras estruturas.

Pense-se assim: numa escola pública que propositadamente não forma os alunos para a vida política, o que constitui um erro crasso em democracia, as mesmas elites que o negam à generalidade da população, preparam os seus rebentos para as sucederem de forma directa – qual monarquia hereditária escondida – nos afazeres dos adultos. Como se costuma dizer, em terra de cegos, quem tem olho é rei. E as elites oligárquicas sabem-no melhor do que ninguém.

Outro caso é o de Rishi Sunak, o Indiano que se sente mais americano que inglês. O que não admira. Em 2006, por exemplo, Sunak requentou um MBA da Universidade de Stanford (quase omnipresente), como bolsista da “Fullbright”. A “Fullbright” é mais um daqueles programas que desenvolve cursos para supostos jovens brilhantes. Lá está, a exploração do individualismo, do egocentrismo, do sentimento de exclusividade, como pilares da construção de um sentimento de pertença, através de reforço positivo enquanto ser excepcional. Todos se sentem excepcionais. Daí a sua arrogância, o seu distanciamento.

Não admira, portanto que a própria Ursula seja tão fervorosamente anti Russa e atlantista. Como não poderia deixar de ser, entre 1992 e 1996 viveu em Stanford (outra vez Stanford), na Califórnia, onde estudou economia. O próprio Donald Tusk, da Polónia, fez parte de uma Associação de Estudantes Independentes, criada em 1980, financiada pelos mesmos de sempre, que visava subverter, a partir da academia o regime – à data socialista – da Polónia. Mais tarde, foram os quadros desta “associação” deveras “independente” que apoiaram, no terreno, a organização da Revolução Laranja na Ucrânia. Ou seja, o que vemos na Ucrânia, hoje, é o resultado de um amplo projecto de separação e submissão da europa aos interesses neoliberais, hegemónicos e imperiais dos EUA.

Este “escudo” europeu, como podemos constatar, é construído por um grupo que funciona quase como uma sociedade secreta, dotado de profunda coesão interna, baseada no sentimento narcisista de eleição, exclusividade e de pertença a um grupo de elite, treinado para liderar, formado para administrar os interesses supranacionais do estado monopolista por excelência, os EUA.

Agora, imaginem-se numa estirpe de gente que, para além de muitos pertencerem às classes mais abastadas ou à aristocracia política, ainda lhes inculcam, através de inúmeros recursos institucionais ao dispor, a ideia de que fazem parte de um grupo restrito, colocado acima do comum dos mortais, destinado a decidir, por conta dos interesses monopolistas que os contratam. Pertencendo a uma elite deste tipo, o comum erro, que normalmente custa a careira, a honra e até a vida, para esta gente não passa de um percalço na ascensão ao topo. Imaginem-se colocados numa posição destas, como se comportariam? Com sentido de responsabilidade? Ou com total sensação de impunidade? Se soubessem que o vosso poder, estatuto e legitimidade emanavam de interesses supranacionais, a quem seria natural demonstrarem a vossa lealdade? Ao povo?

A forma como os EUA, e os interesses monopolistas que compõem o seu sistema de poder, subverteram qualquer ideia de autonomia estratégica à EU, atirando-nos a todos para a uma linha da frente que, não visa proteger os nossos interesses, mas os deles próprios, consistiu na entrega da alta política, não aos mais experientes estadistas, aos mais emergentes líderes de massas, ou aos mais capazes e competentes quadros públicos, mas, ao invés, a uma estirpe espartana socialmente isolada (apenas no modo de organização e não nos costumes), composta por carreiristas, incapazes de distinguir entre interesse público e privado, nacional ou internacional. Para tais seres, os interesses da coisa pública confundem-se com os seus, e os seus, com os dos seus patrocinadores. São uma e a mesma coisa, num ciclo vicioso em que quem ganha e quem perde está, à partida, determinado.

E, se a actuação deste grupo privilegiado, elitista, segregacionista e exclusivista, em matéria de economia europeia, tem os resultados à vista, também no que concerne à política externa, os seus actos demonstram por conta de que projecto as suas lealdades são expressas. Victoria Nuland veio à Europa exigir uma demonstração de apoio e recebeu-a sob a forma de um Macron que, convocando todos os líderes europeus para o Palácio do Eliseu, procurou discutir a possibilidade de enviar tropas europeias para a Ucrânia. Não fosse Robert Fico, que, pelos vistos, não se revê neste selecto grupo de yuppies, e não saberíamos que os líderes em quem é suposto os povos europeus confiarem, discutem, entre si, à porta fechada e nas costas da mesma democracia com que enchem a boca, algo como o rastilho que pode incendiar uma terceira guerra mundial. Ou seja, discutem, entre si, a utilização da Europa como escudo da espada americana, com total desprezo por quem dizem governar.

Coincidência ou não, é também após a visita da incendiária Nuland, que todos tomámos conhecimento de que três militares alemães de alta patente, desejavam preparar um ataque à ponte sob o estreito de Kerch, usando mísseis Taurus fornecidos pelo seu país. Entre todas as formas de manifestação de lealdade, a mais hilariante só poderia vir de Zelensky, quando este, qual Cristo ressuscitador de mortos, conseguiu transformar as centenas de milhares de soldados, que ele próprio enviou para a morte, em apenas 31 mil falecidos. Onde param então mais de 500 mil soldados?

Dizem depois os incautos que, no Ocidente, faltam “estadistas”, o que repetem vezes sem conta sem se dar conta do paradoxo. Para existirem “estadistas” teriam de existir estados. Se, nesta nova construção geográfica que é o “ocidente colectivo”, já não existe a figura do estado-nação, mas, antes, territórios de interesse estratégico, então, no quadro deste modo de organização, o que podemos esperar daqui são missionários e enviados plenipotenciários que servem sobretudo os interesses monopolistas da hegemonia americana. Uma espécie de cônsules de um poder imperial supranacional. Actualmente, qualquer leitura que façamos sobre a realidade política vigente, tem de ter em conta que a Europa, Japão, Coreia do Sul ou Austrália não apenas constituem o “escudo” de defesa dos EUA, mas também o seu “espaço vital”. Um espaço vital que, agregado ao seu próprio, capacita os EUA para uma competição feroz com o eixo Rússia, China e Irão, mais populoso, produtivo e motivado. Já não se trata, apenas, de “manter a Europa dentro” ou a “Alemanha em baixo”, como era pretendido para a missão da NATO, trata-se, sobretudo, de fazer coincidir o território NATO com o território vital dos EUA, o que levanta profundas questões sobre o papel da União Europeia, num quadro deste tipo.

Assim, se a realidade que analisamos não é composta por estados-nação, mas por um espaço comum supranacional, liderado pelos EUA, esperar por “estadistas” não é minimamente realista, pois ao “estadista” preocupa o Estado, enquanto organização colectiva que constitui a cúpula de uma determinada existência sociopolítica. Interessa-lhe a Nação, o povo, a sua economia, as suas tradições e identidade. Será que são estes valores que movem um Emanuel Macron, uma Ursula Von Der Leyen ou um Donald Tusk? Nem a sua actuação e, muito menos, o seu currículo, o indiciam.

Assim, a coberto da impunidade que só um estatuto excepcional, mas sobretudo supranacional, pode trazer, assistimos a uma discussão sobre a oficialização da presença de forças europeias na Ucrânia, nomeadamente as que estão afectas aos “estados” que andam a celebrar, nas costas dos seus povos e sem discussão soberana, acordos bilaterais de segurança, que os podem obrigar a entrar numa guerra, tal como o  Reino Unido inaugurou, como mundial, a segunda guerra, por ter assinado um tratado bilateral de segurança com a Polónia. Se este não é um assunto para ser discutido, profundamente, em democracia, por um povo, então não sei o que será mais importante! Casas de banho mistas? Casamento entre pessoas do mesmo sexo? O retrocesso nas leis do aborto? Sem desprimor por essas questões, claro!

Bem sabemos que, tal discussão, neste preciso momento, resulta de mais uma manobra contingente, que visa impedir aquilo que prometeram, desde o início, nunca ser possível: a vitória russa! Nunca se retractando e provando que a impunidade que sentem tem correspondência no poder que os legitima, a designada “comunicação social” dominante, a tal que deveria informar, escrutinar, questionar, criticar, cala-se bem caladinha e passa a dizer, hoje, o que veementemente, ontem, negava. Como que a provar que, uns e outros, emanam de uma mesma fonte de poder.

O facto é que, por este caminho, amanhã, poderemos acordar com forças da NATO oficialmente estacionadas, ao longo da fronteira norte da Ucrânia com a Rússia e Bielorússia e, a sul, na região de Odessa, procurando salvar a ligação dos resquícios do país que antes existiu, ao Mar Negro. A partir desse dia, Vladimir Putin, o ministro Shoigu ou Medvedev, já não terão de fazer de conta de que não existem tropas da NATO às portas da Rússia! Elas estarão lá, para todos verem. Nesse dia, saberemos para que ainda servem as bandeiras nacionais dos estados-membros da UE e da NATO. Servem apenas para mascarar a presença da Aliança junto do seu eleito inimigo, ou para transmitir aos povos europeus, enganando-os, de que não será a NATO que lá estará, mas sim, os seus estados. Afirmar a presença da NATO, por um lado, e escondê-la, por outro.

Quando tal suceder, confirmaremos, na prática, tudo o que disse anteriormente: somos governados por uma aristocracia eleita por poderes supranacionais, que usa os estados como territórios expandidos, dos interesses centrais a quem responde, e os conceitos de estado-nação, apenas, para legitimar as acções que visam desenvolver, sob a sua capa.

E só assim será possível adormecermos, uma certa noite, em paz, e, no dia seguinte, acordarmos em guerra!

Fonte aqui.


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Por que o Chega representa um novo fascismo?

(Raquel Varela, in Facebook, 08/03/2024)


Um jovem perguntou-me: por que, afinal, o Chega é um Partido neofascista? E o que isso significará para um jovem como eu?

Eu, como todos por aqui, estou também farta: farta de salários miseráveis, casas a meio milhão de euros e empregos da treta, pessoas que vão para o trabalho às 6 da manhã e regressam a casa às 9 da noite e não conseguem pagar as contas todas. Também estou farta de temas em pauta que não discutem nada do que é fundamental, desde logo a autodeterminação social e sexual, ou seja, sem emprego e casa não há liberdade social sexual de qualquer tipo. Hoje um jovem, de qualquer sexo ou orientação sexual, a menos que seja rico e tenha casas ou garagens e jardins dos pais para festas, não tem um lugar onde possa namorar, sair, conviver com amigos, e muito menos a perspetiva de uma casa própria, casar ou ter filhos.

Não é que não haja escolha na classificação da casa de banho, é que não há casa de banho de todo. De género algum, porque não há casa própria, de cada um, nem espaço público para todos. Todo o espaço — tirando a praia — é privado e inacessível. Qualquer convívio custa dezenas de euros, desporto custa centenas de euros. Viajar é impossível. Um jovem não pode ir a uma discoteca, restaurante, conviver. Está preso à casa dos pais.

Emigrar é uma tristeza, não uma solução — manda-nos para longe de quem amamos, da família e dos amigos, e deixa-nos a viver sem afetos. E, é claro, sem direitos cívicos plenos.

A tudo isto acho que é preciso dar uma resposta a sério, e não me revejo em nenhum dos partidos políticos do arco da governação parlamentar. O PS e o PSD vão continuar a fazer o mesmo; é preciso mudar radicalmente, sem medo de ser radical — ser radical é resolver os problemas, ir à raiz. Por isso eu devolvo a pergunta ao jovem? E o Chega, vai mudar alguma coisa? Como? Porquê?

Só há uma forma — uma única, não há duas — de mudar: é ir buscar o dinheiro onde ele existe, o dinheiro de quem trabalha das 6 às 9 alimentando os lucros dos bancos e casas para especulação. Como é que o Chega vai buscar esse dinheiro se ele é financiado por empresários e capitalistas que pagam os salários miseráveis, os empregos da treta, e guardam religiosamente o resultado desse trabalho em bancos e casas para especular, onde brincam a vender ações, ativos ou “bitcoins”?

Não fugi da questão. Por que o Chega representa um novo fascismo? O fascismo histórico surgiu há 100 anos, quando empresários começaram a financiar pessoas violentas para impedir revoltas sociais contra os empregos da treta, na Alemanha em 1920. No passado o fascismo financiava, às claras, milícias, desempregados e pessoas que saíam do exército, com raiva do mundo, desesperadas portanto, que “aceitavam” ser funcionários (ou mercenários) do partido e das milícias para combater os que vinham para as ruas fazer greves contra salários miseráveis. São os capatazes que matavam grevistas no século XIX. Não passou despercebido a ninguém que o Partido irmão do Chega, o “Ergue-te”, propôs em público a proibição das greves.

Hoje, como é ilegal organizar milícias, estas organizam-se, segundo os estudos vários publicados, e relatórios de segurança das próprias polícias, através de grupos sociais violentos, de claques de futebol e artes marciais, nas polícias e movimentos de seguranças privados, ou até associações que visam “ajudar” a sociedade, fazendo dos seus corpos armas, ou usarem diretamente armas, para amedrontar quem luta contra salários miseráveis, e empregos da treta.

Mas o Chega não é isso, dir-me-á o jovem? A partir dos 15 anos de idade temos que perceber o que é a verdade e a mentira, usando a nossa própria cabeça. Ninguém pode fazer isso por nós.

Há várias reportagens de jornalistas publicadas em Portugal e relatórios de segurança que indiciam que sim, as ligações da nova extrema-direita aos grupos sociais violentos, envolvendo apoiantes do Chega. Na Grécia ficou provado e o Partido de extrema-direita foi proibido em democracia. Em Portugal, só alguns jornalistas tornaram isso público, nunca o Ministério Público investigou (por que será?).

Mas não precisamos de uma prova da ligação do Chega a milícias: o que o Chega tem sido até hoje se não pura violência verbal? Como é que o Ventura debate? Com interrupção do debate, ruído intencional, falar mais alto que o adversário, dizer mentiras ou verdades, mas elevando a voz e repetindo três vezes, gozando, rindo, ofendendo, insultando a esmo, fez até algo que só os fascistas fazem — falar da vida privada dos outros candidatos.

Não sou do Livre, Rui Tavares apoiou a invasão da Líbia, não tem qualquer programa distinto do PS, mas a sua vida privada é sagrada. Para os fascistas não — não existe diferença entre vida pública e privada. Hitler colocou filhos a denunciar na escola conversas dos pais em casa — não havia fronteira entre a vida de cada um e a vida pública, é isso um tipo de totalitarismo.

Olhando as câmaras com muita convicção e dizendo frases batidas, murros em forma de palavra, toda a sua visão totalitária do mundo está ali — “Calem-se!” é o nome verdadeiro do Chega.

Toda a comunicação do Chega é fascista, como nos anos 1920, porque não visa diálogo algum, contraditório, visa calar, silenciar, matar a voz do outro, é isso historicamente o fascismo.

Por isso Ricardo Araújo Pereira merece a nossa admiração, não só porque nos faz rir e pensar, mas porque foi ele, mais ninguém com microfone e poder de decisão, que colocou um verdadeiro cordão sanitário (que os jornalistas na sua maioria não colocaram, e muito menos o Tribunal Constitucional) e disse — com fascistas não se discute, não há democracia quando somos silenciados –, foi o único a aprender com as lições da História.

Na verdade uma democracia a sério deve dar toda a liberdade a todos; e não dar rigorosamente liberdade nenhuma a quem quer silenciar, calar, amedrontar, ameaçar, usar da violência contra os outros. No limite matar, porque é isso que faz a extrema-direita ao longo da História — usa os fascistas para matar quem luta por salários e empregos decentes. A responsabilidade é toda destes partidos e do Estado, que o permite e, às vezes, incentiva.

Este fascismo, justamente porque o Estado é conivente, não se combate com votos, claro, combate-se com organização social e política, greves, muitas manifestações, com democracia real e participativa de facto. Domingo se o Chega tiver 40 deputados vai ter rios de dinheiro para assessores, dinheiro nosso para a violência verbal com que nos tem tratado — e daí, segue-se o quê? Não vão mudar em nada as condições dos jovens, nem os salários, nem a emigração, isso só se faz lutando pela liberdade e pela igualdade, contra as empresas que financiam o Chega. E isso só se faz com fraternidade entre nós, mesmo com diferenças. Fraternidade e não gritos e medo, é a palavra-chave.

Outra coisa que se aprende a partir dos 15 anos de idade: só nós mudamos a nossa vida, ninguém faz isso por nós, os jovens têm que voltar a fazer parte das lutas políticas e sociais, sair à rua, lutar pelo que têm direito: ficar cá, ter casa, conquistar emprego, desfrutar lazer, ser felizes, ser, verdadeiramente, e a sério, livres.

Os tambores do militarismo, aliás, ameaçam a vida destes jovens não só com este lixo da História, o fascismo, mas com os mais respeitáveis senhores do comércio, da indústria e das finanças a impor decisões de guerra e economia de guerra, decisão que tem as cores dos dirigentes da União Europeia. Os partidos verdadeiramente democráticos devem por isso não só dizer não ao novo fascismo, mas exigir nem mais um euro para a guerra na Ucrânia e parar a máquina de guerra em Israel. Senão, ainda por cima, os jovens vão ser, outra vez, carne de canhão dos lucros.

Votar com os pés contra o militarismo e a violência como política, aqui, na Europa e no mundo inteiro, sempre! Contra o Chega a Fraternidade; contra a ameaça e o medo a liberdade; contra a pobreza trabalho digno para todos.

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