E depois do atentado terrorista em Moscovo?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 04/04/2024)

O facto da Ucrânia albergar terroristas que cometeram atos terroristas em território russo contra cidadãos russos confere a Moscovo o direito de ir atrás desses terroristas.


As opiniões dividem-se sobre quem terão sido os mandantes do ataque ao centro de concertos Crocus, em Moscovo, no dia 22 de março, que causou a morte de 133 civis. Quando se esperava que desse as condolências e se disponibilizasse para cooperar com as autoridades russas, a embaixada norte-americana em Moscovo centrou a sua ação em ilibar Kiev de qualquer envolvimento, atribuindo de imediato a responsabilidade ao Estado Islâmico – Korasan (EI-K), não tinha decorrido ainda uma hora desde o início do ataque,

Noutro sentido foi a posição russa. Passados quatro dias, na sequência da reunião do Comité de Investigação criado para averiguar a ocorrência, Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança da Rússia, e Alexander Bortnikov, diretor da agência de informação interna russa (FSB), vieram apontar o dedo a Kiev introduzindo um dado novo e incontornável no debate.

Segundo este último, “a ação foi preparada pelos próprios radicais islâmicos e, claro, facilitada pelos serviços especiais ocidentais [leia-se norte-americanos e ingleses], e os próprios serviços especiais ucranianos têm uma ligação direta a esta situação”.

Os analistas e a comunicação social dividem-se em dois grupos, consoante o campo em que se situam.

Um grupo associa-se à posição norte-americana e afirma que: a Ucrânia não tem a ver com o ataque, atribuindo exclusivamente a responsabilidade ao IS-K; os russos foram informados pelos norte-americanos do ataque, mas foram negligentes; Putin precisava de um pretexto para escalar a crise na Ucrânia.

O outro grupo aproxima-se dos argumentos russos considerando que: os serviços de inteligência ucranianos e de países estrangeiros estão envolvidos, referindo-se aos norte-americanos e ingleses; e a embaixada norte-americana não teria partilhado informação suficiente sobre a ameaça pendente.

O facto de não nos encontrarmos em condições para apontar o dedo seja a quem for, não nos permite descartar qualquer possibilidade, não por uma questão de dúvida sistemática, mas porque há factos que não podem ser desconsiderados e devem, por isso, ser introduzidos na análise.

Alguns analistas referem que o ataque terrorista estava para ocorrer no dia 8 de março, no Dia Internacional da Mulher, um feriado muito importante na Rússia. A ter sido nesse dia, uma semana antes das eleições presidenciais russas, o efeito político teria sido demolidor. A forte presença policial terá desincentivado o ataque.

Outras fontes referem que o principal impedimento para a realização do ataque nessa data terá sido a demissão de Victoria Nuland, uns dias antes (5 de março). Alguém de peso no Departamento de Estado terá ficado muito preocupado com a gravidade das suas declarações, ao anunciar publicamente uma atribuição de verbas adicional para que Putin viesse a ter “nasty surprises”. Apesar dessa contrariedade, e à revelia de Washington, os ucranianos terão decidido avançar, mesmo tendo a operação deixado de fazer sentido.

Muita coisa não bate certo neste ataque. Os terroristas tiveram um comportamento nada consistente com as práticas dos seus correligionários suicidas do IS-K. Afinal, não eram motivados pelo martírio: mostravam mais interesse nos dólares do que no descanso eterno junto das 72 virgens; não transportavam consigo cintos com explosivos para se fazerem explodir; e deixaram-se prender.

Nesta síntese argumentativa, não podemos deixar de referir a ligação conhecida e pública da Ucrânia a vários grupos jihadistas. Alguns deles combatem em unidades constituídas, inseridas nas forças armadas ucranianas, na linha da frente contra as forças russas. Como se isso não bastasse, Kiev tem dado guarida a conhecidos comandantes terroristas.

Como diz o ditado popular, “não basta a mulher de César ser séria. Tem também de o parecer”. O general Budanov, chefe dos serviços de inteligência militar, anunciou publicamente, em fevereiro de 2024, numa entrevista, ser objetivo da Ucrânia atacar a Rússia na sua profundidade.

Este ataque em Moscovo segue-se à destruição de uma infraestrutura russa – o Nordstream – da mais elevada importância. Tudo se complicará caso se venha a provar ser verdadeira a pista ucraniana. A Rússia terá de apresentar publicamente provas inquestionáveis. Falamos nesta altura da ultrapassagem de duas linhas vermelhas, uma situação intolerável para o Kremlin.

Se, no primeiro caso, Moscovo não fez nenhuma acusação direta, agora foi muito explícito acusando a Ucrânia de mandante, apoiada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. Isto significa uma alteração qualitativa do discurso que não pode ser desvalorizada. Afinal, o Crocus poderá vir a ser considerado como mais um ataque de uma série de ataques terroristas à Rússia.

Entretanto, fomos surpreendidos por uma inusitada entrevista à ICTV, um canal ucraniano de televisão privado, no dia 27 de março, dada pelo General Vasyl Malyuk, chefe do serviço de segurança ucraniano (SBU), em que falou abertamente sobre todas as operações contra a Rússia levadas a cabo pelos seus serviços, reivindicando sem necessidade alguma a autoria dos vários assassinatos perpetrados no interior da Rússia, contra personalidades russas pró-Kremlin, como Darya Dugina, Vladlen Tatarsky, Zakhar Prilepin, etc. Malyuk implicou diretamente a Ucrânia em ações de terrorismo.

Na sequência destas declarações, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia fez um ultimato à Ucrânia exigindo a extradição para a Rússia do general Malyuk e de outros suspeitos, que Kiev rejeitou. Sublinhe-se que esta reação de Moscovo tem lugar depois do atentado terrorista do dia 22 de março, e que não está diretamente relacionada com ele, mas sim com as declarações de Malyuk.

Isto coloca outro tipo de questões. Existem precedentes de países que invadiram outros pelo facto de albergarem terroristas, que cometeram atos terroristas nos seus territórios contra os seus cidadãos. A invasão norte-americana do Afeganistão prende-se com a não extradição de Bin Laden, o que foi considerado um ato de guerra.

Não é o caso da Ucrânia, porque as forças russas já se encontram em território ucraniano, mas tudo indica que caminhamos para um aumento significativo da escalada. O facto da Ucrânia albergar terroristas que cometeram atos terroristas em território russo contra cidadãos russos confere a Moscovo o direito de ir atrás desses terroristas.

A Ucrânia foi sujeita durante cerca de uma semana a ataques aéreos intensos e sistemáticos que se estenderam por todo o território, dirigidos fundamentalmente a infraestruturas energéticas. Ao contrário dos ataques do ano passado, dirigidos à rede de distribuição elétrica, agora foram às próprias centrais elétricas. Os efeitos estão a ser devastadores e a recuperação vai ser tremendamente morosa. Várias cidades estão às escuras.

Apesar de alguns destes ataques terem tido lugar após o ataque terrorista em Moscovo, a sua conceção estava subordinada a um planeamento estratégico com vista à preparação de operações futuras. Não foram uma resposta ao ataque terrorista em Moscovo. A resposta a este último foi bastante modesta e limitou-se à destruição dos quartéis-generais das organizações da inteligência ucraniana em Kiev, assinalando Moscovo estar ciente de quem foram, para ela, os mandantes do ataque terrorista.

Encontramo-nos, pois, num momento de elevada expetativa estratégica. Depois de altos dignitários russos acusarem publicamente a Ucrânia, os EUA e o Reino Unido, o Kremlin tem obrigatoriamente de fazer qualquer coisa. Esse imperativo agrava-se após a entrevista de Malyuk, o ultimato para a sua extradição e a resposta negativa de Kiev. Se não fizer nada, o Kremlin desacredita-se internamente onde muitas vozes pedem que se arrasem os edifícios do poder ucraniano, e, externamente, dando razão àqueles que forçam a ultrapassagem das linhas vermelhas, porque os russos têm medo e vão conter-se.

Está por saber se os russos não falaram de mais. Veremos qual será a resposta de Moscovo. Haverá uma resposta massiva e demolidora ao alegado atrevimento de Kiev? Talvez por isso, começámos a ver o Presidente Zelensky a discursar a partir do bunker. Falta-nos saber o que o Kremlin e a Casa Branca andam a falar por detrás das cortinas e que nós não ouvimos.


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O vício das vacas magras

(Daniel Oliveira, in Expresso, 04/04/2024)

Daniel Oliveira

Depois de assentar o programa eleitoral em estimativas fantasiosas, o PSD está preocupado com o foguetório dos cofres cheios. Para além das vítimas diretas, só o PS se pode queixar. O seu castigo eleitoral será o estado de graça da AD. Só que o “país de tanga” é essencial para a direita desnatar os serviços públicos, desqualificar os seus funcionários e abrir caminho à privatização ou contratualização com privados em áreas como a saúde ou a educação. Não é defeito, é feitio.


Entretido com as eleições, o mundo só mudou radicalmente a 11 de março. Parece ter sido nesse dia que começou a guerra na Ucrânia, a instabilidade tomou conta do Médio Oriente, a economia alemã começou a fraquejar, a possível eleição de Trump passou a ameaçar a Europa e a União Europeia desenhou regras orçamentais mais restritivas. A narrativa para nos preparar para o “choque com a realidade” está a funcionar a todo o vapor e Montenegro agarrou-se a ela logo na tomada de posse.

Pouco importa que a economia alemã tenha passado os dois últimos anos à beira da recessão ou que as tais novas regras orçamentais que supostamente irão tornar “mais difícil” o próximo orçamento tenham um ano. Até há quem já fale do risco de Portugal iniciar um “processo por défice excessivo” no ano em que teve um excedente de 1,2%.

O documento do Parlamento Europeu onde era claro que o crescimento da despesa líquida portuguesa seria limitado a 1,8% já era conhecido em junho de 2023. Luís Montenegro sabia de todas estas condicionantes e da incerteza internacional. Nada disso o impediu de assentar todo o seu programa eleitoral numa estimativa de crescimento de 4% no final do mandato. O programa macroeconómico do PSD, do qual Ricardo Reis já se descartou, foi construído não com base em estimativas credíveis, mas para ter um número que pudesse suportar todas as promessas que Montenegro sabia não poder cumprir. Escrevi-o na altura e até previ este discurso depois das eleições, caso a AD vencesse. O problema é que, ganhas as eleições, as fantasias não pagam contas.

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Nada de novo. Nem a estratégia de prometer tudo a todos, nem a “surpresa” do PSD descobrir um mar de dificuldades mal abre a porta de São Bento. Não preciso de falar de Passos Coelho e do que ele conhecia do programa da troika, mas fingiu desconhecer durante a campanha. Durão Barroso fez precisamente o mesmo em 2002. Prometeu um “choque fiscal” na campanha, garantindo que a redução radical dos impostos nos traria níveis de crescimento tão irrealistas como os agora prometidos por Montenegro. E acabou a dizer que encontrara “o país de tanga” para poder aumentar os impostos. Um ano depois o país entrava em recessão, ao mesmo tempo que o nosso maior parceiro comercial, a Espanha, crescia quase 3%.

Também não é preciso ir buscar Marques Mendes, que descobriu as dificuldades do “motor da economia europeia” que tem estado engripado desde 2022, para perceber que estamos a viver o remake do espírito dos governos passados do PSD. Na única intervenção que entre as eleições e a tomada de posse, em Bruxelas, Montenegro criticou o que considerava a “panorâmica demasiado otimista sobre alguns dossiers” que estava a ser dada no país. Criticava os mesmos que, na campanha, acusou de “falta de ambição” nas suas previsões. Mas estava a falar sobretudo do PRR, onde Portugal é um dos dois países que já cumpriu as metas para receber o quarto cheque europeu.

O PSD está preocupado com o “foguetório” que o governo que agora cessa funções tem feito com os “cofres cheios”, começando a lançar suspeitas sobre retenção de pagamentos da dívida ou dividendos antecipados das empresas públicas. É a “dúvida” da semana anterior à tomada de posse, depois de ter ficado claro que a reforma da administração pública inscrita como condição para o quinto cheque do PRR não resultaria no despedimento de funcionários, como andaram a espalhar, mas da concentração dos ministérios na sede da Caixa Geral de Depósitos.

O brilharete bem-comportado de Fernando Medina, passando de bom aluno para obsessivo marrão e deixando aquém do necessário a revalorização salarial em carreiras específicas que garantem serviços públicos essenciais, ajudou a criar a insatisfação que penalizou o PS. O que Medina fez em Lisboa, deixando a Moedas material para a permanente festa de propaganda, fez no país. Nada a apontar a um governo que deixa as contas em ordem para quem vem a seguir, o problema foi o custo social e político.

A direita queixou-se, durante anos, que o PS só lhe deixava contas complicadas para depois assumir o governo nas vacas magras. Mas, na verdade, só sabem governar em períodos de contenção. É o clima que necessitam para justificar o emagrecimento do sector público, a desregulação laboral e a contenção salarial tão apreciadas por um setor empresarial viciado nessa suposta vantagem competitiva.

É por isso que vários economistas próximos da direita já vieram alertar para os supostos riscos do excedente, ao “aumentar a pressão para maiores aumentos salariais na Função Pública”. Conversa que Luís Montenegro repetiu na tomada de posse. O discurso do país de tanga é essencial para desnatar os serviços públicos, desqualificar os seus funcionários e abrir caminho à privatização ou contratualização com privados em áreas como a saúde ou a educação. Não é defeito, como disseram durante a troika, é feitio. É por isso que estão a desgraduar as condições económicas do país. Só assim podem invocar a incerteza para congelar as promessas sociais e aplicar as que verdadeiramente lhe interessam, da redução do IRC ao financiamento dos grupos privados da Saúde.

Ver o PSD revoltar-se com o excedente orçamental mostra como mesmo ricos são mal-agradecidos. Se, para além das suas vitimas diretas, alguém se pode queixar é o PS. Numas eleições decididas por 50 mil votos, (e por mil no distrito do Porto), o garrote orçamental teve tudo para ser decisivo para a eleição de Montenegro. O castigo ao PS será o estado de graça da AD. Só que as clientelas e políticas do novo governo são outras.


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NATO, 75 anos de guerra contra a humanidade – Parte II

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 05/05/2024)


A NATO nasceu sem horror político ao fascismo, como ficou provado pela presença do Portugal de Salazar entre os fundadores. Nasceu também sem horror militar ao nazismo, afirmação que pode ser chocante, mas a realidade confirma.

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