Camelot Harris para presidente

(Dmitry Orlov, in SakerLatam, 14/07/2024)


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Desde o debate presidencial de 27 de junho de 2024, no qual ficou bastante claro que Joe Biden é non compos mentis, e provavelmente tem sido assim há algum tempo (se não durante todo o seu mandato), também ficou bastante claro que havia apenas uma maneira de ele ganhar um segundo mandato: matar Trump. E ontem, no sábado, 13 de julho, em um comício de campanha na Pensilvânia, uma bala atingiu de raspão a orelha de Trump, enquanto outras balas mataram um participante do comício e feriram outro. O suposto assassino foi baleado e morto no local pelo Serviço Secreto; caso contrário, um Jack Ruby teria que acabar com ele mais tarde.

Atirar em presidentes dessa maneira é altamente tradicional nos Estados Unidos e, como o clã Biden é incapaz de inventar algo novo, era assim que tinha de ser. O clã Biden (que, é claro, negaria toda a responsabilidade) agora merece ser chamado de The Gang that Couldn’t Shoot Straight (A gangue que não sabe atirar direito). Alguns comentaristas imediatamente se manifestaram com uma piada óbvia: o atirador apontou para Trump, mas acertou em Biden. Trump agora não é apenas favorito à vitória; ele também é um mártir e, como se isso não bastasse, um lutador, agitando desafiadoramente o punho no ar enquanto o Serviço Secreto lutava tardiamente para derrubá-lo no chão.

Parece que o caminho para o segundo mandato está agora aberto para Trump, com Biden sendo implorando para sair por todos os seres que respiram oxigênio por aí. Não tão rápido!

Há sua vice-presidente, Kamala, que pode entrar na brecha e concorrer contra Trump. Para isso, ela deve se rebatizar como “Camelot Harris” e se posicionar como a Rainha Filósofa, pronta para se apresentar como uma figura de proa nacional pelos próximos oito anos. Alguns dos aforismos filosóficos que ela já produziu são verdadeiras joias. “O amanhã de hoje se tornará ontem depois de amanhã.”

Esse é exatamente o tipo de conversa tranquilizadora e curativa necessária para fingir administrar um país completamente falido, irremediavelmente corrupto e moralmente degenerado que não tem futuro. No que diz respeito ao debate com Trump, Kamala pode vencer se enfatizar apenas um ponto: Trump é cheio de bazófia e não tem um plano. “O senhor vem dizendo há muito tempo que fará com que os Estados Unidos sejam grandes novamente. Até quando você fará isso? Qual é a data final para essa entrega? Há algum marco intermediário?” E no que diz respeito ao plano da própria Kamala, os Estados Unidos já são grandes, sempre foram, sempre serão, do mar ao mar brilhante, céus espaçosos, mar brilhante… (enquanto ela olha melancolicamente para a distância). Além disso, ela poderia se sair bem reciclando velhos e cansados tropos políticos. “Você tem um sonho?”, ela poderia gritar repetidamente em comícios, e depois deixar por isso mesmo. “Não pergunte o que eu posso fazer por você!”, ela poderia entoar, reunindo toda a seriedade possível. As possibilidades são infinitas.

Alguns podem dizer que não haveria pessoas suficientes para votar em Camelot Harris, mas esse é um problema puramente técnico e facilmente resolvido. Tudo o que é necessário são muitos ônibus para levar imigrantes ilegais de seção eleitoral em seção eleitoral nos estados indecisos, onde em cada uma delas eles se passariam por antigos residentes que permanecem nas listas de registro de eleitores. E se isso não for suficiente, os democratas podem trazer seus mortos, enviando pelo correio cédulas preenchidas em seus nomes. Há democratas mortos suficientes para eleger um cachorro amarelo, se necessário. Como os eleitores dos estados que não são democratas são treinados para puxar a alavanca certa na cabine de votação como se fossem ratos de laboratório, seus votos não terão importância, nem os de ninguém. Os Estados Unidos não são uma democracia… onde já ouvi isso antes?

E não importa quem seja o presidente, então a Presidenta Camelot Harris, a Rainha Filósofa, deve se encaixar muito bem. Você pode discordar, mas sua opinião sobre essa questão não importa, a menos que você seja americano, e duplamente, se for.

Fonte aqui

Assim vai o SNS: Onze horas na Urgência – um testemunho

(Júlio Marques Mota, 19/07/2024, Revisão Estátua de Sal)

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Ontem estive doente – nada de especial, mas assustei-me. Tanto poderia ser um AVC como outra coisa equivalente ou apenas uma pequena vertigem, é o diagnóstico com que parto de casa. Havia apenas um problema de equilíbrio, sem dores de cabeça ou qualquer outra anomalia. Apenas uma questão de equilíbrio ao caminhar. Levado de ambulância para o Hospital da Universidade de Coimbra, aí estive cerca de 11 horas, grande parte delas numa cadeira de rodas que são brutalmente desconfortáveis. Dir-se-á que as cadeiras de rodas dos hospitais não foram feitas para serem confortáveis mas, que se sente nelas durante 5 horas seguidas um defensor da política de austeridade no SNS, e verá como se levanta depois.

Afinal, o diagnóstico definido, de entre um leque possível, era do ponto de vista de gravidade, o menos mau de todos, já que todos os outros eram assustadores. Para despistagem de problemas tira-se uma TAC, um pouco antes da meia-noite, e a conclusão a que se chegou depois foi: tratava-se apenas de uma minúscula pedra no ouvido, dito cristal de carbonato de cálcio! Para susto chegou.

Mas passou-se uma noite espantosa, a assistir a muita situação de dor, de violência, de esforço, de abnegação, tanto pela parte do pessoal de serviço como pela parte dos doentes que precisavam dos seus serviços. Sempre foram 11 horas no serviço de urgência, embora grande parte delas numa situação recatada. Sem querer fazer nenhuma crónica disto, aqui deixo alguns pormenores relevantes, a saber:

  1. O estado degradado em que se encontravam muitas das cadeiras de rodas. Num caso, estava a ser transportada uma senhora de peso e volume considerável. A cadeira encravou-se. Nem imaginam o trabalho que deu mudá-la de cadeira de rodas. Aqui lembrei-me da troika, de Passos Coelho, o homem que queria ir mais longe do que a própria troika. Uma consequência da sua violência política, do seu desprezo por aqueles que sofrem, estava ali, no raio daquela cadeira de rodas que se recusava a rolar com aquele peso em cima.
  2. O ritmo intenso em que se trabalhava naquela casa, Descanso, era coisa que ali não se via, qualquer que fosse o nível operacional: médicos, enfermeiros, auxiliares, ninguém sabia ali o que era descanso. A azáfama era uma constante.
  3. O mais incómodo de toda esta noite foi um telefonema ouvido a partir de alguém que estava a dois metros de mim, no mesmo corredor. Falava com a ex-mulher, não falava baixo, mas também não gritava. Queria saber onde ela estava, ela recusava dizer-lhe. Ouço a ameaça de que iria procurá-la: ouço o choro convulsivo da mulher a dizer que ele tinha dado cabo da vida dela e da dos filhos. Não o queria ver mais. Irei procurar-te, está descansada, que te encontrarei, insistia ele. E  a pergunta, onde é que estás e a mesma resposta foram ouvidas repetidas vezes. O telemóvel era de muito boa qualidade, dada nitidez do som que se ouvia à distância e falo não só da altura do som mas da nitidez do mesmo. O que ali estava era o drama de mais uma mulher vítima da violência doméstica, não uma só uma pessoa, mas ela e os filhos que acabarão por perceber que não tem um pai, mas sim um monstro. Num contexto físico, diferente daquele em que me encontrava, iria questionar o monstro que estaria ao meu lado e que eu não via, dado haver pessoas pelo meio. Mas, assim, calei-me e silenciosamente senti as palavras ouvidas como balas contra a minha capacidade de sentir.
  4. Um pouco antes da meia-noite sou levado à zona da imagiologia para ser feita uma TAC. Converso com a funcionária que me transporta numa cadeira de rodas. Pergunto-lhe: quantas horas têm em cima do corpo. A resposta foi imediata: 12 horas. Saía à meia-noite. Fico a saber que há muitas funcionárias nesse regime. Quantos dias? Três dias por semana; mas nunca trabalho apenas três dias por semana. Na maior parte das vezes trabalho cinco a seis dias, diz-me. Questiono-me: que política de emprego é esta, uma política que não pode argumentar com falta de pessoal disponível no mercado de trabalho. Pode haver várias explicações para esta situação, não a questionei sobre isso, mas adicionando a esta carga de trabalho os efeitos colaterais de se trabalhar por turnos, trata-se, pois, de uma situação inaceitável nem que seja pelos efeitos sobre a saúde dos profissionais que, a prazo, tudo isto acarreta.
  5. Por volta de meia hora depois da meia-noite, uma enfermeira chega ao corredor das consultas, cheio de gente à espera de consulta, onde eu estava, e diz mais ou menos isto: os pacientes de pulseira verde podem-se ir embora. Não dispomos de médicos. Os doentes à espera de consulta com pulseira amarela podem ir embora ou esperar se quiserem, mas neste caso não garantimos consulta.

Uma das pessoas de pulseira verde era a pessoa que foi mudada de cadeira de rodas. Decidiu ficar à espera, à espera de no fim da noite ter uma borla, uma consulta, por obra e graças a Deus, mas com Este materializado no corpo de um médico ou de uma médica.

Quanto a mim fiquei indeciso. Ficar ou sair? Sair, não podia, pois, tinha um cateter no braço. Ficar, não sabia se tinha consulta. Não passava ninguém, que me informasse e eu tinha medo de andar e de me deslocar  a qualquer lado para saber. Ao meu lado, uma senhora amavelmente pôs-me à disposição um pacote de bolachas. Insistiu, insistiu, recusei sempre. Estava ali, ela sabia-o, estava ali há dez horas, sem comer nem beber. E quem me diz que se começasse a comer não as desejaria comer todas?

Entretanto, sou chamado para o diagnóstico definitivo. O relatório da TAC já tinha chegado. Questiono o médico sobre a situação da falta de médicos e, neste caso, porque é que eu tinha consulta e os outros não. Teria havido uma imprecisão da enfermeira, e diz-me o seguinte: os doentes de pulseira amarela, que aguardam os resultados de exames já realizados, terão consulta. É o seu caso, o de outros não. Falo-lhe do cateter que tenho no braço. Não se preocupe, chamarei um enfermeiro para o retirar. À saída diz-me, amavelmente: não hesite em recorrer a nós quando precisar. Vai entrar na nossa base de dados e será acompanhado pelos nossos serviços de consulta externa.

6. Aqui relembro a incapacidade do sistema de saúde em ter médicos e relembro Passos Coelho e a sua zona de conforto. Mas, uma certa direita, quer agora recuperá-lo: os efeitos da sua política estavam ali bem chapados, em todos aqueles que após horas de espera saíram sem consulta na urgência do maior hospital da região, por falta de médicos. Mas os efeitos não eram só os da política de Passos Coelho eram também os efeitos da política morna do PS e dos seus compromissos com a grande burguesia, com a medicina privada, com os hospitais e clínicas privadas que, por exemplo, no Algarve cresceram como cogumelos. Interesses, mas de quem, não sei.

Do ponto de vista da saúde, uma coisa é certa: quer a administração de Passos Coelho quer a de António Costa não responderam às necessidades do país em termos de saúde e isso era bem visível nesta noite de relativo pesadelo.

No caso de António Costa e das suas contas certas quis dar-se bem com tantos e todos. E quando assim é, sabe-se da vida real, que quando alguém se quer dar bem com todos não se dá bem com ninguém. Se calhar, tal só não é sabido no mundo dos políticos porque o seu mundo é um mundo à parte. E a chantagem, ou nós ou o Diabo levou-o à queda e à vinda do Diabo, materializado na incompetência que se vê nas gentes da AD em que, tudo o que pode representar progresso social, deve ter as suas direções de serviços corridas. O que me fez lembrar um jovem turco de uma Faculdade deste país e desta cidade que achava que deveriam ser eliminadas as disciplinas que ele considerava radicais.

Essa conivência com tudo e com nada que caracterizou a politica de António Costa terá, pois, acabado e creio que Pedro Nuno Santos já percebeu que alguma louça de má qualidade terá que ser partida caso contrário será grande parte da louça boa que a AD se encarregará de escavacar. E creio-o com muita coragem para isso, sendo certo que a coragem é coisa cada vez mais rara nos nossos políticos.  

7. Para sair do Hospital, peço então ao enfermeiro que me retire o cateter. Pergunta.-me: quem é que o vem buscar? A minha neta. O senhor está à nossa responsabilidade. Quando ela chegar, tiro-lhe o cateter e dou-lhe a carta para o seu médico de família. Minutos depois, ela chega, o enfermeiro tira-me o cateter que estava fixo com adesivo de qualidade e pergunto-lhe, se me coloca um adesivo de qualidade. Coloco-lhe o que tenho, não é bom nem é mau. É assim-assim. E colocou-me um adesivo de péssima qualidade.

Quando cheguei a casa substitui o adesivo que já se estava a descolar e lembrei-me outra vez da troika, da política de austeridade imposta e muito defendida por Passos Coelho. Lembrei-me das contas financeiramente certas, mas económica e socialmente erradas de Mário Centeno e de Fernando Medina, lembrei-me de um amigo meu que, no tempo da troika esteve internado nos HUC. Puseram-lhe um cateter, através do qual passava um líquido de um frasco por via endovenosa. Deixou-se dormir, naturalmente, era perto da meia-noite. Nessa noite, um dos seus filhos era intervencionado cirurgicamente. Este meu amigo, engenheiro de formação, acordou então, por volta das duas horas da madrugada, com um pesadelo em torno da operação do filho, e dá por si alagado no seu próprio sangue. Toca à campainha e vêm os enfermeiros socorrê-lo: o cateter tinha-se soltado e o sangue escorria-lhe pela veia; o lençol estava alagado em sangue e tudo porque o adesivo que fixava o cateter era de má qualidade, como de má qualidade era também o que me foi colocado à saída do Hospital.

Um efeito de arrasto da passagem da troika e do seu capanga maior, Passos Coelho, era o que representava aquele simples adesivo de má qualidade.

E fico-me por aqui, ainda recuperar do pesadelo real que vivi.

A NATO quer a guerra

(Jeffrey D. Sachs, In Outras Palavras, 15-07-2024)

Em Washington, aliança militar liderada pelos EUA assumiu o giro contra a China, a ampliação do conflito na Ucrânia e o sonho hegemonista dos neocons. O que era arrogância, em 1992, converte-se num delírio muito perigoso. Por quê?


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Em 1992, o excepcionalismo da política externa dos EUA tornou-se ainda mais intenso. Os EUA sempre se consideraram uma nação extraordinária, destinada à liderança, e o fim da União Soviética em dezembro de 1991 convenceu um grupo de ideólogos politicamente comprometidos – que vieram a ser conhecidos como neoconservadores ou neocons – de que o país deveria agora governar o mundo como a única superpotência incontestável. Apesar dos inúmeros desastres da política externa conduzida pelos neoconservadores, a Declaração da OTAN de 2024 continua a promover a agenda desse pequeno grupo, o que leva o mundo para mais perto de uma guerra nuclear.

Os neoconservadores foram originalmente liderados por Richard (“Dick”) Cheney, que era secretário de Defesa em 1992. Todos os presidentes desde então – Clinton, Bush, Obama, Trump e Biden – seguiram a agenda neocon da hegemonia dos EUA, levando Washington a guerras eletivas perpétuas, entre elas as da Sérvia, Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia, bem como a expansão implacável da OTAN para o leste, apesar de uma promessa clara feita pelos EUA e pela Alemanha ao presidente soviético Mikhail Gorbachev, em 1990, de que a OTAN não se moveria um centímetro nesse rumo.

A ideia central dos neoconservadores é que os EUA devem ter domínio militar, financeiro, econômico e político sobre qualquer rival em potencial, em qualquer parte do mundo. Ela é direcionada especialmente a potências rivais como a China e a Rússia e, portanto, coloca os EUA em confronto direto com elas. A arrogância norte-americana é impressionante: a maior parte do mundo não quer ser liderada pelos EUA, muito menos por um Estado norte-americano claramente movido pelo militarismo, elitismo e ganância.

O plano neocon para o domínio militar dos EUA foi explicitado no Projeto para um Novo Século Americano. Inclui a expansão incessante da OTAN para o leste e sua transformação: de uma aliança defensiva contra a extinta União Soviética em uma aliança ofensiva voltada a promover a hegemonia dos EUA. A indústria armamentista dos EUA é o principal financiador e apoiador político dos neoconservadores. Ela liderou o lobby para a ampliação da OTAN para o leste a partir da década de 1990. Joe Biden tem sido um neocon convicto desde o início – primeiro como senador, depois como vice-presidente e agora como presidente.

Para alcançar a hegemonia, os planos neocon baseiam-se em operações de mudança de regime da CIA; guerras eletivas lideradas pelos EUA; bases militares dos EUA no exterior (atualmente são cerca de 750, em pelo menos 80 países); militarização de tecnologias avançadas (guerra biológica, inteligência artificial, computação quântica etc.); e uso incansável da guerra de informações.

A busca pela hegemonia dos EUA levou a uma guerra aberta na Ucrânia entre as duas maiores potências nucleares do mundo, a Rússia e os Estados Unidos. A guerra na Ucrânia foi provocada pela determinação incontida dos EUA de expandir a OTAN para a Ucrânia, apesar da fervorosa oposição da Rússia, bem como pela participação dos EUA no violento golpe de Maidan (fevereiro de 2014), que derrubou um governo neutro, e pelo enfraquecimento, pelos EUA, do acordo de Minsk II, que garantia autonomia para as regiões etnicamente russas do leste da Ucrânia.

A Declaração de 2024 considera a OTAN uma aliança defensiva, mas os fatos dizem o contrário. A OTAN envolve-se repetidamente em operações ofensivas, inclusive de mudança de regime. A OTAN liderou o bombardeio da Sérvia para dividir essa nação em duas partes, tendo estabelecido uma importante base militar na região separatista de Kosovo. A OTAN tem desempenhado um papel importante em muitas guerras eletivas dos EUA. Os bombardeios da OTAN na Líbia foram usados para derrubar o governo de Moammar Qaddafi.

A busca dos EUA pela hegemonia, que era arrogante e insensata em 1992, é absolutamente ilusória hoje, uma vez que o país claramente enfrenta rivais formidáveis, capazes de competir com os ele no campo de batalha, na implantação de armas nucleares e no desenvolvimento e implantação de tecnologias avançadas. O PIB da China é hoje cerca de 30% maior do que o dos EUA quando medido a preços internacionais, e a China é a produtora e fornecedora mundial de baixo custo de muitas tecnologias verdes essenciais — incluindo 5G, energia fotovoltaica, energia eólica, veículos elétricos, energia nuclear modular e outras. A produtividade da China tornou-se tão grande que os EUA reclamam do “excesso de capacidade” chinês.

Infelizmente, e de forma alarmante, a declaração da OTAN repete as ilusões dos neoconservadores.

A Declaração declara falsamente que “a Rússia é a única responsável por sua guerra de agressão contra a Ucrânia”, apesar das provocações dos EUA que levaram à eclosão da guerra em 2014.

A Declaração da OTAN reafirma o Artigo 10 do Tratado de Washington, segundo o qual a expansão da aliança para o leste não é da conta da Rússia. No entanto, os EUA nunca aceitariam que a Rússia ou a China estabelecessem uma base militar na fronteira dos EUA (por exemplo, no México), como os EUA declararam pela primeira vez na Doutrina Monroe em 1823 e têm reafirmado seguidamente desde então.

A Declaração de 2024 reafirma o compromisso da OTAN com as tecnologias de biodefesa, apesar das crescentes evidências de que os gastos dos EUA com biodefesa nos chamados Institutos Nacionais de Saúde(NIH) financiaram a criação em laboratório do vírus que pode ter causado a pandemia de Covid-19.

A Declaração da OTAN proclama a intenção de continuar a instalar mísseis antibalísticos Aegis (como já se fez na Polônia, Romênia e Turquia), apesar de a retirada dos EUA do Tratado Anti-Mísseis Balísticos (ABM) e a instalação de mísseis Aegis na Polônia e na Romênia terem desestabilizado profundamente a arquitetura de controle de armas nucleares.

A Declaração da OTAN não expressa nenhum interesse em uma paz negociada para a Ucrânia.

A Declaração de 2024 reforça o “caminho irreversível da Ucrânia para a plena integração euro-atlântica, incluindo a adesão à OTAN”. No entanto, a Rússia nunca aceitará a adesão da Ucrânia à OTAN, e portanto trata-se de um compromisso “irreversível” com a guerra.

Washington Post relata que, na preparação para a cúpula da OTAN, o presidente Joe Biden tinha sérias dúvidas sobre a promessa de um “caminho irreversível” para a adesão da Ucrânia à OTAN, mas seus assessores ignoraram essas preocupações.

Os neoconservadores criaram inúmeros desastres para os EUA e para o mundo, inclusive várias guerras fracassadas, um acúmulo maciço da dívida pública norte-americana impulsionado por trilhões de dólares de gastos militares desnecessários com guerras e o confronto cada vez mais perigoso com a China, a Rússia, o Irã e outros. Os neoconservadores levaram o Relógio do Juízo Final (da guerra nuclear) a apenas 90 segundos para a meia-noite, em comparação com 17 minutos em 1992.

Para o bem da sua segurança e da paz mundial, os EUA devem abandonar imediatamente a busca neocon pela hegemonia em favor da diplomacia e da coexistência pacífica.

Fonte aqui.


JEFFREY D. SACHS

Jeffrey D. Sachs é Professor da Universidade de Columbia, é Diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia e Presidente da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ele atuou como conselheiro de três secretários-gerais da ONU e atualmente atua como advogado dos ODS sob o secretário-geral António Guterres.