The show must go on

(Tiago Franco, in Facebook, 28/07/2024)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Sou um grande fã de volte-faces nas lides políticas. Um dia estamos a lamentar o pior atentado da história e a ver como um velhinho debilitado ficou ainda mais irrelevante e, no dia seguinte, batemos palmas a uma renovada Kamala enquanto ela recebe uma chamada da Michelle “we got your back” Obama.

Na Europa fazem-se coisas destas e, até em Portugal, transformamos políticos falhados em senadores do comentário televisivo. Mas os americanos, na arte de dar espetáculo, não pedem lições a ninguém. Tudo é Hollywood.

Reparem na montanha russa de emoções. Primeiro Biden está perdido perante a humilhação do debate e o seu estado físico. Trump, com apenas 78 anos é um jovem enérgico. Aparece o tiro na orelha e aquela foto à Che Guevara. Trump, o mais escroque que alguma vez ocupou a Casa Branca, é elevado a revolucionário e resistente.

A corrida está perdida para os democratas. Trump está virtualmente eleito e aparece na convenção seguinte como um moderado. Alguém que quer unir a América. Eu ainda estou a processar como é que mais de 100 milhões de eleitores apreciavam aquele discurso de ódio do dia anterior e, agora, tento perceber como é que alguém acredita naquele espetáculo montado.

Trump joga golfe durante o dia sem penso, à noite coloca o penso e vai para a convenção. Há centenas de idiotas que lá vão também com um bandex na orelha, por “solidariedade” com o novo herói.

São doses cavalares de estupidez acompanhadas de luz e cor. O show nunca para. Há sempre um novo idiota para enrolar.

Biden desiste. Kamala assume o palco. Pela primeira vez na história uma mulher com 60 anos é uma jovem. Michelle liga-lhe em direto e diz que “ma girl” e “got your back”, com a câmara ligada e o telefone em alta voz. Calma, calma. Os democratas não vão apenas rebolar. Também querem dar show.

A Kamala usa o currículo de combate ao crime para se atirar a Trump. O orange man larga o discurso de união e volta à praia do ódio. Chama-lhe marxista. Trump não faz puto de ideia de quem foi Marx e metade dos que o ouvem muito menos. Metade? Bom…adiante.

O circo está montado e na Europa começam as manifestações de apoio nas eleições que de facto mexem com a nossa vida. Entre dois maus candidatos, como é normal, escolhemos o menos mau.

Ao contrário das eleições europeias, as americanas influenciam mesmo o futuro dos povos da Europa. Pelo menos enquanto as Ursulas andarem por lá.

Zelensky já percebeu que a coisa pode ficar mais difícil e abriu as discussões de paz. A Europa mais moderada quer Kamala que seguirá o business as usual de Biden (e isso implica muito dinheiro para o lobby das armas). Os chineses sabem que terão sanções com qualquer candidato mas, em princípio, seguirão no controle de tudo. Com paciência como é seu timbre e com muito pouco espetáculo, luzes e cor.

Trump é um ser abjeto que deveria estar preso. Kamala vai-me dar cabo da prestação da casa. Trump vai apoiar, ainda mais, o genocídio em Gaza. Kamala vai contribuir para a militarização da Europa.

O que eu queria, mesmo, era que as eleições nos US and A, como dizia o Borat, fossem para o ca*****. Mas para isso acontecer tinham os destinos da Europa que ter estadistas à altura e não moços de recados.

Não sendo possível, pois continuem lá com o arranca-rabo entre elites.

De uma maneira ou de outra, o povo precisa de entretenimento and the show must go on.


Sair da História em barcos fluviais

(Por Régis de Castelnau in Reseau International, 28/07/2024, Trad. Estátua de Sal)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Não assisti à “cerimónia” de abertura da feira olímpica. Ainda assim, não convém passar ao lado.

Assistir a um espetáculo caro, concebido por Patrick Boucheron e Thomas Jolly, para permitir ao psicopata do Eliseu encenar-se, desculpem, há limites para o masoquismo. Sabíamos perfeitamente que lá íamos encontrar uma cultura extraordinariamente “baixa, vulgar, vistosa como um vidro de explorador” que um Ocidente globalizado, depois de ter arrancado as suas raízes, tenta impor ao mundo.

É evidente que não falhámos o prognóstico. Boucheron e Jolly deram-nos, previsivelmente, a quantidade certa de modernidade conformista e vendedora, com algumas provocações woke dirigidas ao público americano, como a dizer-lhe: “concordando com JD Vance, somos ‘clientes subservientes’, mas vejam, somos capazes de ser tão estúpidos como vocês”. Até à passagem da barcaça dos Estados Unidos, saudada com incríveis espasmos de adoração submissa, pelos comentadores televisivos.

Mas sentimos, quando muito, um cheiro agradável do tipo errado de alegria. Com a “blasfémia” da reprodução woke da Última Ceia cristã. Foi bastante nojento, mas é muito bem feito para os católicos. Que se opõem a todos estes excessos com um silêncio piedoso, complacente e cobarde. E que, mais uma vez, vão engolir a sua humilhação sem dizer uma palavra.

Também não vou entrar na questão desportiva, apesar de sempre ter adorado o desporto em geral e os Jogos Olímpicos em particular. Mas, parafraseando Philippe Bordas, diria que “o Olimpismo só durou um século. O que ainda se chama olimpismo e faz de si próprio um espetáculo não passa de uma farsa, um artefacto próprio de um mundo distorcido pelo dinheiro, pela genética e pelo bio-poder”.

A última vez que assisti a uma cerimónia de abertura foi nos Jogos de Pequim de 2008. A mensagem enviada ao mundo foi muito clara. Era a de Fernand Braudel na sua “História das Civilizações”:

“Imaginem uma civilização contínua no outro extremo do mundo, inalterada há milénios, governada por dinastias imperiais superiores às de Roma, ignorante da filosofia grega, do alfabeto, da democracia, do cristianismo, do individualismo, do feudalismo, do Renascimento ou do Iluminismo, cujo povo supera o nosso em inteligência e cujas instituições superam as nossas em eficácia. Imaginem-nos a prosperar hoje, ultrapassando-nos em todos os domínios de atividade”.

E enquanto isso, entre dois gaguejos de Biden – o nosso próprio Imperador -, reelegemos Macron e contemplamos com prazer o espetáculo da nossa saída acelerada da História.

Num desfile de barcos fluviais, não temos outra coisa para contar ao Mundo senão a nossa submissão.

Fonte aqui.


Abertura das Olimpíadas de Paris: A Civilização Ocidental revela-se sem máscaras aos olhos do mundo

(Raphael Machado in Twitter 27/07/2024)

Não há nada de surpreendente na abertura das Olimpíadas de Paris, exceto pelo fato de que, talvez, a maioria das pessoas não tenha visto uma concentração tão grande de inversões e deturpações históricas, culturais, simbólicas e axiológicas quanto nesse evento.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Para ser justo começarei por um elogio. A ideia de realizar uma abertura fora de um estádio, com o objetivo de valorizar a “paisagem” e os cenários típicos da cidade-sede, tem algo de interessante. Mas é isso. Essa foi a única coisa de interessante nessa abertura (houve também umas poucas referências cinematográficas e literárias interessantes no ponto em que se passou pelo cinema francês), e essa possibilidade nem mesmo foi bem aproveitada pela França.

Em primeiro lugar, os atletas olímpicos “desfilaram” em barcos, sob chuva, em um rio extremamente contaminado por poluição (fruto da decadência urbana de Paris, que fora dos bairros icônicos não é mais que uma favela). Os barcos pareciam improvisados, como se o governo tivesse “encampado” temporariamente barcos aleatórios, aproveitando-os para a abertura. Agora é torcer para que ninguém fique doente por causa da chuva (atletas de alto rendimento, às vezes apresentam fragilidades de saúde porque o esforço excessivo que é típico de suas atividades impacta em suas respostas imunológicas), e que ninguém tenha tido contato com a água do Sena.

Deixando isso de lado, porém, aproveito para elogiar principalmente as delegações africanas, asiáticas, pacíficas e árabe-islâmicas, porque foram as que mais consistentemente buscaram representar as suas identidades etnoculturais. Algumas delegações ibero-americanas idem.

Quanto aos europeus, eles ou têm vergonha daquilo que são, ou simplesmente esqueceram ou não sabem quem são, então as suas delegações são sempre genéricas, e têm mais de “ocidentais” do que de “europeias. Mas isso, claro, não tem nada a ver com a organização francesa da abertura em si.

Porque quanto à abertura o que nós vimos foi uma exibição do âmago da civilização ocidental. Eu não poderia aqui falar em “coração”, porque o âmago da civilização ocidental está, na verdade, em sua “cloaca” – que foi exatamente o que vimos.

Em geral, as aberturas olímpicas tentam contar um pouco da história do país-sede. Passa-se por séculos ou mesmo milênios de história. Os povos buscam mostrar ao mundo as suas raízes longínquas, os seus ancestrais heroicos, os grandes feitos de seu passado. Nas Olimpíadas de Paris não tivemos nada disso.

Nenhum elemento da França pré-Revolução Francesa se fez presente. E esse é um fato importante que precisa ser esmiuçado e enfatizado. De fato, o “neo-iluminismo” foi o tema geral da Abertura das Olimpíadas, ou seja, a atualização do Iluminismo setecentista para a pós-modernidade woke. São os mesmos valores, mas adaptados para a era do pós-indivíduo e da sobreposição das pulsões à razão “patriarcal” e “fascista” – que não é senão a consequência lógica de elevar a razão acima de seus limites.

A impressão que se tem, de fato, é que a França nasceu em 1789. E realmente, a França de Macron nasceu em 1789. A França pré-1789 – aquela França de Vercingetorix e dos celtas, de Carlos Magno e dos paladinos, de Luís IX e dos cruzados, de Joana d’Arc e da Guerra dos 100 Anos, e mesmo a já modernizante França de Luís XIV – é outro país.

Não sou “eu” que estou dizendo. Macron e os seus caminham sobre os chãos franceses como se fossem parasitas alienígenas que vagam sobre as ruínas de uma civilização inimiga conquistada. Não foi casual que Macron reagiu com indiferença ao incêndio da Catedral de Notre-Dame. Ele não se emocionou porque há 2 Franças, a França europeia e a França ocidental. E era isso que se fez questão de evidenciar nessa abertura.

Entenderam o porquê de eu sempre insistir na existência de uma distinção fundamental entre uma “civilização europeia”, adormecida, sedimentar, oculta, e uma “civilização ocidental”, disposta sobre as ruínas e fragmentos dessa civilização anterior e cujos valores são antitéticos e descontínuos em relação aos seus valores? Não sou apenas “eu” dizendo. A própria elite francesa exibe isso aos olhos do mundo. Não precisam crer em mim. Vejam.

Que se tenha escolhido o injusto assassinato de Maria Antonieta para expor as “origens” da França é significativo. Essa é uma França que nasce de uma traição maçônico-frankista que culmina em um assassinato ritualístico do “Sol” (encarnada na figura do Rei). Aquilo que nasce desse ritual e que se espalha pelas capitais europeias e cujo centro é, posteriormente, deslocado para os EUA, é precisamente o espírito obscuro da subversão contra iniciática e da dissolução universal. A chuva de sangue é o “sacramento” satânico da França de Macron.

Aqui precisamos apontar, ademais, que mesmo de uma perspetiva técnica essa abertura foi sofrível. Crianças de grupos amadores de dança seriam capazes de organizar algo melhor. Não havia qualquer coordenação motora ou sincronia, por exemplo, na exibição de “cancã” realizada por pessoas vestidas de rosa. Comparemos isso com a sincronia absoluta das exibições da abertura das Olimpíadas de Pequim, por exemplo. Uma dança posterior, no estilo de “dança de rua”, dava a impressão de que os dançarinos estavam fantasiados de mendigos – talvez uma homenagem ao lúmpem francês, a classe que serve de sustentação quantitativa para o macronismo.

Foi curiosa a pretensão de que as Olimpíadas de Paris estavam, em sua abertura, “celebrando a mulher” em um sentido geral, quando ela havia acabado de exibir uma mulher decapitada pelos jacobinos. Mas é necessário entender que quando o Ocidente celebra “as mulheres” é de uma maneira muito peculiar. Não são “todas as mulheres”, não são as “mulheres francesas”, mas as “mulheres ocidentais da França” – o que obviamente incluiu, na seleção de “10 ícones”, mulheres que não eram etnicamente francesas; com as que eram etnicamente francesas só podendo ser, obviamente, abortistas, anarquistas, feministas e, naturalmente, a pedófila Simone de Beauvoir.

Em outra parte da abertura, celebra-se um poliamorismo pós-gênero, com um triângulo amoroso entre um homem, uma mulher e uma pessoa andrógina de sexo não esclarecido. Além de, obviamente, celebrar a desconstrução de conceções tradicionais de “homem”, “mulher”, “amor” e “família” (em paralelo, dançarinos em roupas que não diferenciavam entre sexo deixavam bem claro que se tratava, ali, precisamente, de um impulso pós-gênero e, portanto, transumano), é necessário aí fazer referência à inversão satânica do mito do andrógino.

O mito do andrógino (presente mesmo no Cristianismo, bastando que recordemos que Adão já continha nele Eva antes de Deus retirar a sua “costela”) aponta para um certo princípio de unidade cósmica. Ela não é meramente sexual, mas é um símbolo do Um, o qual é alcançado, simultaneamente, por uma “conexão ritual” com o elemento do sexo oposto que subsiste em nosso interior (o “animus/anima” de Jung), bem como por meio do casamento enquanto rito sagrado, o qual só pode ser concretizado com uma pessoa do sexo oposto.

Pretender alcançar o “Um” materialmente por meio da indeterminação e fluidez sexual e por meio de práticas sexuais “desconstrucionistas” não é senão uma paródia, uma inversão do casamento tradicional e dos ritos tradicionais dos povos. Não é a ascensão na direção do Um, é a queda na dissolução caótica, como um nigredo sem fim.

Um terceiro elemento ritualístico aparece na paródia da Santa Ceia, protagonizada por elementos que representavam precisamente essa ponte entre “desconstrução do gênero” e “transumanismo”. Nesse cenário da paródia profana, que tinha como mote a “diversidade” e a “representatividade”, incluiu-se inclusive uma criança, para o horror de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Depois de exibir uma overdose de diversidade pós-gênero, o fato de ser uma paródia da Santa Ceia é confirmada pelo fato de que a cena culmina num “banquete”. Nesse banquete, uma estranha paródia de Baco é trazida seminua em uma bandeja – uma referência ao canibalismo ritual e, nesse sentido, à conotação da ingestão do corpo de Cristo na Eucaristia.

O fato do Baco, porém, parecer castrado, bem como o próprio cenário e contexto geral, mostra que esse Baco é aquela perversão de Dioniso engendrada pelos sacerdotes de Cibele – é o Dioniso visto a partir das “profundezas”, aquele que no lugar da transcendência imanente é apenas imanência, submersão do “zangão” no colo da “Deusa-Mãe” das monstruosidades titânicas.

Considerando que essa cena foi disposta numa ponte sob a qual as delegações tinham que passar em seus barcos representou, intencionalmente, um gesto de humilhação para as delegações pertencentes a povo que ainda estão ligados às suas Tradições. Passar sob a ponte da paródia da Santa Ceia era como uma demonstração do triunfo desses elementos demoníacos sobre os povos do mundo.

Nada mais precisa ser dito sobre essa abertura das Olimpíadas de Paris. Foi, claramente, a pior abertura olímpica da história, tanto de uma perspetiva técnica e estética quanto de uma perspetiva simbólica e espiritual.

A comparação com as aberturas mais recentes, como a de Pequim, Rio ou Atenas é suficientemente chocante e deixa absolutamente claro quão profundo é o buraco no qual a civilização ocidental está se afundando e pretende afundar o resto da humanidade.

Mas se isso ficou evidente dessa maneira, então devemos saudar essa abertura. Sempre que o inimigo se exibe de forma tão evidente e inequívoca o nosso trabalho de convencimento é facilitado.

As distinções entre “nós” e “eles” tornam-se naturais e automáticas, e resta apenas que cada um se alinhe com o próprio bando para travar a necessária guerra cultural.

A meu ver, a reação a essa abertura é tão determinante politicamente quanto a posição em relação a Ucrânia e em relação à Palestina.

Aqueles que sentiram nojo dessa abertura são nossos amigos, aqueles que ficaram encantados com ela são nossos inimigos.