Barbárie ou civilização

(Michael Hudson, entrevistado por Luca Placidi, in Resistir, 29/07/2014)

(Aconselho vivamente a leitura desta entrevista, apesar de ser longa e de certos enunciados só poderem ser, provavelmente, compreendidos por gente com formação na economia dos autores clássicos, muito para além do que se ensina hoje nas universidades: a vulgata neoliberal das loas aos mercados em roda livre. É que todas as questões candentes da atualidade são analisadas. Desde a economia mundial e do seu rumo, até à geopolítica dos conflitos em curso na Ucrânia e em Gaza, até ao futuro da Europa no mundo multipolar que se está a erguer lentamente. A não perder.

Estátua de Sal, 30/07/2024)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Luca Placidi: Sejam todos bem-vindos. É um grande prazer e uma honra ter hoje connosco o Professor Michael Hudson. Para quem ainda não o conhece, Michael é professor de economia na Universidade de Missouri-Kansas City e investigador no Levi Economics Institute do Bard College.

Michael é também um antigo analista da Wall Street, consultor político, e é o anfitrião da Geopolitical Economy Hour juntamente com Radhika Desai, que é transmitida no canal YouTube de Ben Norton, Geopolitical Economy Report. Professor, bem-vindo e mais uma vez obrigado por estar connosco hoje.

Michael Hudson: Bem, obrigado pelo convite. Estou contente por poder falar para um público italiano.

Ler a entrrevista na íntegra aqui

Etologia europeia

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 26/07/2024)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Em tempos que parecem hoje quase lendários, por tão distantes e estranhos ao estado presente das coisas, a UE aparentava ter a visão de um desígnio estratégico comum. Promessas de paz, sustentabilidade, cooperação internacional davam-lhe rosto próprio.

Sobre isso se derramou muita tinta nas páginas de revistas de ciência política e relações internacionais. Será que o euro iria disputar a hegemonia global do dólar? Será que a condenação aberta, em 2003, por parte da França de Chirac e da Alemanha de Schröder, da ilegal, injustificada e sangrenta invasão norte-americana do Iraque, poderia prenunciar uma autonomia crescente da UE no seio de um mutável sistema internacional? Será que a proximidade entre Alemanha e Rússia, em matéria energética, poderia ser o embrião da formação do temível titã geopolítico, do Atlântico ao Pacífico, pensado pelos estrategistas Mackinder e Haushofer, e que nunca sai dos pesadelos anglo-saxónicos?

A guerra na Ucrânia revelou que Washington nada tinha a temer. A turbulenta Europa, que os EUA por duas vezes pacificaram, é hoje uma coleção de corpos políticos, unidos pela elementar pulsão do medo, que desagua no mimético impulso da submissão.

Hoje, a UE encontra-se desprovida de alma e projeto. Limita-se a reagir e a obedecer. Na verdade, poderia ser de outro modo? Será que os sobreviventes de duas guerras, que dizimaram o escol da juventude europeia, teriam o engenho e ousadia de partilhar a responsabilidade pelo futuro?

Os governantes europeus seriam hoje incapazes de perceber a frustração de Jean Monnet quando viu fracassar, em 1954, o projeto da Comunidade Europeia de Defesa, cuja duração deveria prosseguir mesmo depois da extinção da NATO. A Defesa Europeia é hoje uma competição entre países, para saber qual deles tem a maior lista de compras de material de guerra ao complexo militar-industrial de Washington.

Uma lastimável demonstração da incondicional submissão europeia perante o Leviatã norte-americano ocorreu no final da Cimeira da NATO, quando os líderes europeus (Macron, Scholz, Melloni…) desfilaram, numa vénia servil perante Biden, considerando o colapso das suas faculdades intelectuais, à vista do mundo, como um vulgar “deslize de palavras”…

Depois de este, sem rebuço, ter sido defenestrado da recandidatura, cresceram as vozes europeias encantadas com o génio invisível de Kamala Harris.

Se, ou quando, Trump voltar à Casa Branca, não faltarão os protestos solenes, individuais e coletivos de vassalagem europeia. Quem quiser perceber o futuro próximo da UE deve renunciar às ciências sociais. Socorra-se antes de Konrad Lorenz e Desmond Morris. A Etologia explica mais fundo do que a teoria política.

Maduro Ganha na Venezuela!

(João-MC Gomes, In VK, 29-07-2024)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Fosse qual fosse o resultado das eleições os detratores e amigos das políticas ocidentais teriam sempre a “última palavra”. Se Maduro não tivesse ganho diriam: “finalmente reposta a verdade na Venezuela”. Como ganhou evidentemente que o que passam a dizer é que: “foi fraude”, embora se tenha registado a maior participação de sempre nas urnas. Quando, em 2019, Juan Guaidó se tornou amplamente conhecido ao autoproclamar-se “presidente interino da Venezuela”, e desafiando o governo de Maduro, nem sequer havia participado numa eleição presidencial específica nesse período. Depois, em 2020, ele e a maioria da oposição boicotaram as eleições, alegando falta de condições justas e transparentes.

É sempre esse o argumento e, evidentemente que as eleições foram amplamente criticadas internacionalmente por irregularidades e pela falta de participação de importantes partidos da oposição. São sempre criticadas pois aos opositores de Maduro e da sua política as coisas só “estarão bem” quando conseguirem o poder.

Quem teve oportunidade de ver as imensas filas de votantes tem que reconhecer que as eleições foram participadas por quem o quis fazer. Aliás, todos os comentadores ocidentais, imbuídos do “convencimento” de que – “desta vez é que ia ser” – iam assinalando “a imensa participação”. Quase saltavam de contentes ao ver as filas e filas de pessoas, novas e velhas, que até levavam bancos para se sentar e esperar as horas na fila. “Que lindo!”, diziam, “Que grande apego á democracia!”, afirmavam. Claro que esperavam a derrota de Maduro. Como ganhou, “foi fraude!”.

E é nisto que vamos continuar a andar enquanto os cidadãos ocidentais não perceberem que – também eles – são defraudados todos os dias em todas as eleições pelos seus representantes nos parlamentos nacionais e no Parlamento Europeu, o tal que junta as elites políticas para lixar os europeus e comer-lhes as papas na cabeça.

Viva a resiliência dos venezuelanos. Viva a resiliência dos cubanos. Viva a resiliência dos pobres sul-americanos e centro americanos, que há anos são colonizados pelo capital e interesses do norte-americanos e dos seus amigos da Europa.