Um deserto de espelhos: A última guerra do Hegemon

(Pepe Escobar, in Sakerlatam, 23/09/2024)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Andrei Martyanov conquistou para si um lugar único, com auréola, quando se trata de um pensamento crítico profundo sobre todas as questões de guerra e paz.

Nos seus livros anteriores, em seu blog Reminiscence of the Future e em inúmeros podcasts, ele se tornou a fonte de referência quando se trata do funcionamento interno da Operação Militar Especial (SMO) na Ucrânia, bem como do panorama geral da guerra por procuração entre os EUA e seus asseclas do Ocidente Coletivo contra a Rússia

Ler artigo completo aqui.

Dois Estados na Palestina? Coma gelados com a testa!

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 22/09/2024)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

A tal solução dos dois estados, que tantas vezes foi invocada como panaceia para o “problema” da Palestina, onde está?

O exército israelita assaltou hoje o escritório da estação de televisão Al Jazeera, em Ramallah, a capital da Cisjordânia e sede da Autoridade Palestiniana. Fechou-a levando como justificação um édito escrito em hebraico. A Cisjordânia não existe. Tal como Gaza.

A longa operação de ocupação da Palestina após a Segunda Guerra, levada a cabo por grupos de judeus espalhados pelo mundo e tendo, como justificação doutrinária, uma interpretação conveniente da sua religião e o apoio mercantil e militar dos grandes interesses no domínio da região, que concentra uma das maiores reservas de petróleo mundiais, tem sido conduzida de embuste em embuste.

 O primeiro, o do direito à existência de Israel, que era uma entidade politicamente inexistente, assente no racismo religioso; o segundo o da possível convivência de dois estados, um israelita armado e financiado pelos Estados Unidos e o Ocidente Global,  e um palestiniano à mercê de interesses das potencias locais e dos seus caciques. Por fim, a invocação do direito à autodefesa de um Estado que nunca cumpriu qualquer decisão da comunidade internacional emanada da ONU, incluindo as obrigações resultantes da sua criação! 

Depois de ter transformado Gaza – uma das parcelas do futuro estado palestiniano, – num forno crematório, – Israel entra agora pela Cisjordânia, a outra parcela do Estado Palestiniano, fecha uma estação de televisão que não reproduz os seus comunicados e a sua propaganda, isto enquanto bombardeia campos de refugiados e infraestruturas e as suas milícias de colonos armadas expulsam na completa impunidade palestinianos das suas casas e propriedades!

A tese dos dois Estados serviu sempre para o mesmo que os rolos de papel higiénico.  Apenas acreditou nela quem não acreditava nela. Ou sofria de diarreia intelectual.

Hoje, aqueles que deram a cara por essa tese, começando por ilustres Secretários Gerais da ONU, eminentes políticos e chefes religiosos, bem podem sentar-se à porta de um WC a observar onde vai a tese dos dois estados. A observar onde os seus aliados israelitas desde há 70 anos a têm ritualmente evacuado, deixando-a seguir o caminho que lhe destinaram com uma descarga de autoclismo. Podem escolher o modelo de sanita.

Estou certo de sermos governados por seres que estão dependentes da necessidade fisiológica do alívio. Os defensores da tese dos dois estados devem estar hoje aliviados. Libertaram-se de um incómodo intestinal. Porque os incómodos de coerência há muito que devem ter ida pela pia.

Tenho alguma curiosidade em ver como se saem deste gozo de Netanyahu os primeiros ministros dos três estados da União Europeia que reconheceram a Palestina como um Estado e até o rei Filipe, nosso vizinho, apareceu numa fotografia toda pomposa  a receber as credenciais do embaixador da Palestina, que é um beco onde meia dúzia de jagunços de Netanyahu mandam calar quem não conta a sua história.

O dissolvente

(Por J.J. Faria Santos in Blog O vagar da penumbra, 22/09/2024)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Esta semana uma mudança tectónica ocorreu no complexo mediático-comunicacional de Belém: a troca de um jornal de referência por um tablóide na função de órgão de comunicação oficioso. O procedimento foi o usual: uma “fonte de Belém” jorrou ao Correio da Manhã que o Presidente convocará eleições se o Orçamento do Estado para 2025 for chumbado. É certo que a revelação, aparentemente, não proveio do próprio, mas se, digamos, um secretário de Estado é responsável pelas acções da sua secretária, o mesmo se aplica a esta situação, presumindo-se que um funcionário da Presidência não ande a divulgar informação sensível à revelia do supremo magistrado da nação. Acresce que, tendo em conta o “cadastro” de Marcelo na matéria, não é de afastar que tenha sido o próprio a promover a cacha, tornando-se irresistível rememorar as palavras que o mesmo pronunciou em Novembro de 2016: “a única fonte de Belém sou eu, é o Presidente”.

Marcelo estará preocupado com o efeito que a inexistência de orçamento aprovado terá no rating da República e nos pagamentos do PRR. Se a ameaça de convocar eleições é mais um recurso de alta pressão do que uma profissão de fé nas virtudes da “devolução da palavra ao povo” é o que resta para ver. O político que afirmou, na altura da demissão de Pedro Nuno Santos enquanto ministro da Infra-Estruturas, que “não podemos ter eleições todos os anos” e que o “experimentalismo não é a coisa melhor para a saúde das democracias” (citando uma conjuntura marcada por uma guerra, uma crise económica e financeira e um governo eleito há menos de um ano), é o mesmo que não muito tempo depois proclamava alegremente que “sem dramatizações, nem temores [era] preciso dar a palavra ao povo” para que do sufrágio resultasse um Governo que garantisse “estabilidade”. A única “estabilidade” discernível, tirando o facto de o orçamento ser o mesmo, é que passámos de um executivo com maioria absoluta no Parlamento para um outro que governa como se a tivesse.

Como impenitente homem de fé, Marcelo acreditava, há cerca de duas semanas, que iria “haver uma boa vontade grande para poupar o país a experiências de crise política”. Não sabemos se agora estará a passar por uma crise de fé, se deplora a arrogância delirante do primeiro-ministro pouco propícia à negociação ou se sente o apelo irresistível da dissolução. (Veremos que consistência terão as palavras do ministro dos Assuntos Parlamentares, invocando disponibilidade e interesse em “conversar, em negociar e em ceder onde for preciso ceder” para que o OE seja aprovado.)

Numa manobra enquadrável no estilo glutão de cobrir todos os ângulos (não confundir com a síndrome de cata-vento diagnosticada pelo Dr. Passos Coelho), a fonte de Belém teve mais uma aparição inesperada, desta vez no Observador (o enclave da direita radical versão elitista) para garantir que o Presidente acreditava na viabilização do Orçamento do Estado, mas não afastava a hipótese de eleições antecipadas.

Em Abril deste ano, Marcelo explicou que a dissolução “era um sonho antigo da direita portuguesa, desde 2016, mas só se concretizou porque houve essas duas ocasiões que se somaram: um processo que ninguém esperava nem imaginava e a demissão de primeiro-ministro e secretário-geral do PS”. As “ocasiões” fizeram a demissão, mas falta uma nesta análise e essa “ocasião” oculta é evidente: um Presidente demasiado empolgado em evocar o seu poder de usar a “bomba atómica” e com tiques de trigger-happy. Dá-se o caso feliz de a arma no arsenal do Dissolvente ser política e não militar.

Fonte aqui