A Paz não pode ser uma língua morta

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 19/10/2024)

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A atribuição do Prémio Nobel da Paz à organização japonesa Nihon Hidankyo revela, por entre o “som e a fúria” que varre o mundo, um Comité Nobel ainda capaz de visar o essencial. Os derradeiros sobreviventes japoneses de Hiroxima e Nagasáqui foram escolhidos, não como tributo retrospetivo, mas por serem os únicos seres humanos que já viveram o inferno para onde toda a Humanidade será empurrada se continuarmos por este caminho abissal.

Há qualquer coisa de justificadamente desesperado neste prémio. Ela consiste numa tentativa de revelar ao auditório mundial, pelas consequências, aquilo que ele não parece conseguir apreender pelo conhecimento das causas. E esse auditório não é a massa dos milhares de milhões de seres humanos para quem a luta diária para sobreviver e cuidar dos filhos já é suficientemente épica. Estou a referir-me aos milhares de decisores – por esse Ocidente fora, sobretudo na velha Europa – sentados, distraidamente, nas cadeiras do poder.

O Prémio Nobel da Paz coloca, indiretamente, o dedo na ferida: o maior risco de ocorrência de uma guerra nuclear é de natureza epistemológica.

Muitas das pessoas que se encontram em posições relevantes, nas diferentes etapas do processo de decisão político-militar, aparentam carecer de conhecimento suficiente para evitar uma catástrofe. Sublinho que, mesmo em condições ótimas de competência, o risco de uma guerra nuclear acidental pode ocorrer. Não é isso que está em causa.

Dou alguns exemplos de posturas grosseiras por parte de responsáveis ocidentais. As derradeiras declarações de Jens Stoltenberg, ao sair do secretariado-geral da NATO, e as primeiras afirmações de Mark Rutte, ao assumir essa mesma função, ilustram uma inaceitável ausência de compreensão de aspetos vitais da dissuasão nuclear. Perante a recente revisão da doutrina russa de eventual uso de armas nucleares, suscitada pela possível autorização a Kiev do uso de mísseis ocidentais de longo alcance contra alvos na Rússia, ambos responderam num tom de desafio, acusando Putin de fazer “bluff”.

O risco de vida ou morte que paira sobre milhões de europeus exige estadistas e não jogadores de poker. O mesmo se aplica à multidão de eurodeputados que insiste em bombardear Moscovo (meu artigo DN 28.09.2024, ver aqui).

Desconhecem o preço que pagaríamos pelo que desejam. Se alguma vez a existência da Rússia estivesse em causa por um ataque convencional maciço da NATO, ou se a Ucrânia lhes causasse danos inaceitáveis com armas convencionais Ocidentais, Moscovo daria uma resposta dolorosa aos responsáveis por essas ações.

O mesmo aconteceria com os Estados Unidos, se estes estivessem numa situação semelhante à da Rússia hoje. Imaginemos o que faria Washington a travar uma guerra não só no território do México, mas no seu próprio solo, no Texas, por exemplo! Unamuno, se estivesse vivo, certamente reconheceria que, afinal, a pulsão suicida não é um exclusivo da alma portuguesa…

Quer consideremos ter a Guerra Fria terminado com a queda do Muro de Berlim (1989), ou com a implosão pacífica da União Soviética (1991), percebemos que estamos a uma distância de mais de três décadas. Quase duas gerações passaram, nesta época vertiginosa. Muitos dos políticos e militares de hoje têm uma memória indireta dos 40 anos desse mundo bipolar, vivendo na sombra, simultaneamente, ameaçadora e protetora da dissuasão nuclear.

O facto de a Humanidade ter saído incólume da Guerra Fria, tem uma componente miraculosa (não antecipável concetualmente), mas também uma explicação racional.

Entre 1947 e 1989-1991 foram desenvolvidas várias teorias do uso das armas nucleares (retaliação maciça, resposta flexível, dissuasão do fraco ao forte…). Quando uma teoria militar prevalece num país, transforma-se numa doutrina. Quando potenciais inimigos partilham da mesma doutrina, assistimos à construção de um sistema unificado. A língua comum que permitiu o fim pacífico da Guerra Fria foi o sistema baseado na consensualização da doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD, em inglês): numa guerra nuclear só haveria vencidos. A partir da paridade nuclear entre EUA e URSS e da Crise de Cuba (1962), a diplomacia ganhou vantagem sobre as armas. Só o assassinato do presidente Kennedy (22.11.1963) travou a rápida continuação de passos já tão importantes como o da criação de uma linha de comunicação permanente entre a Casa Branca e o Kremlin – o lendário “telefone vermelho” -, e a assinatura do tratado de proibição parcial de testes com armas nucleares, em 7 de outubro de 1963.

Paradoxalmente, foram as armas nucleares, com o seu potencial infinito de destruição, que, ao eliminarem a categoria de vitória, tornaram a guerra global uma anomalia, abrindo o caminho para um primado obrigatório da política e da diplomacia na resolução de conflitos.

Essa linguagem do imperativo da paz, decorrente do sistema da MAD, não é ainda uma língua morta, mas foi esquecida, quase totalmente na Europa e parcialmente nos EUA, devido ao predomínio da arrogância e frivolidade unipolar dos neoconservadores, que pulula no “complexo militar, industrial e congressional” (Eisenhower dixit). Talvez a fina linha entre o colapso e a continuação da odisseia histórica da Humanidade dependa de uma pequena, mas fundamental, diferença concetual identificada por Clausewitz, no seu tratado póstumo Da Guerra (1832): a guerra tem uma gramática própria, mas esta deve subordinar-se à única lógica, que é pertença exclusiva da política.

Digo com orgulho que sou mais preto que o Obama

(Carlos Marques, in Estátua de Sal, 18/10/2024, revisão da Estátua)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos sobre a atuação de Israel em Gaza, no Líbano e nas suas relações com a ONU, do Major-General Carlos Branco, (ver aqui).

Pela sua atualidade e por manifestar, em parte, algum exercício de contraditório, além da forma assertiva como põe a nu as atrocidades de Israel e desmonta o apoio do Ocidente ao genocídio em curso, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 18/10/2024)


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“As queixas do povo palestino não podem justificar os terríveis ataques do Hamas. E, esses ataques terríveis, não podem justificar a punição coletiva do povo palestiniano”. – citação do artigo.


A primeira frase é uma mentira e uma violação da lei mundial. A segunda frase é um facto que ninguém respeita. Sim, as queixas (invasão, ocupação, roubo de casas, terra arável e água, ditadura racista – isto é, apartheid, limpeza étnica constante, massacres frequentes, e genocídio lento, tornado rápido desde 7 de Outubro -, justificam tudo o que o Hamas e o Hezbollah fizerem. Aliás, o tribunal da ONU, o ICJ (sigla inglesa para Tribunal Internacional de Justiça), assim o decidiu: a resistência armada (isto é, violenta) contra o ocupante/agressor (o sionista “Israel”) é legalmente justificada, é um direito humano, é direito internacional, está na Carta da ONU.

Quanto à resposta dos nazi-sionistas ocidentais, via projeto colonial racista (“Israel”), tal como o ICJ decidiu, nada a justifica, nem assim nem assado. “Israel” é o agressor, e a Palestina é o agredido. O agressor/invasor não pode usar a resistência como desculpa para agravar a sua agressão/invasão. Esta decisão é do direito internacional, lei do mundo após tal decisão do ICJ ter transitado em julgado, como dizem os parolos dos advogados.

Ou seja, o Hamas tem o direito legal de repetir um 7 de outubro sempre que puder, especialmente legítimo quando feito em território da Palestina ocupada, que não fazia parte de “Israel” no mapa desenhado em 1947. Ou seja, “Israel” não pode entrar em Gaza nem na Cisjordânia e muito menos no Líbano, e já devia ter saído da Síria.

Ou seja, todos os que repetem “começou em 7 de outubro de 2023” estão a mentir e são, ou vítimas da propaganda nazi-sionista genocida, ou fazem parte do “polvo” de corrupção civil (por exemplo, as presstitutas pagas para mentir e manipular), ou de corrupção moral (por exemplo, quem acredita piamente na colonização da Mesopotâmia por homens brancos ocidentais, só porque são judeus).

Ou seja, estão a ser cometidos mais crimes contra a humanidade na Palestina ocupada diariamente, do que na guerra por procuração – já a caminho de 3 anos – dada aos nazis da NATO (EUA+vassalos), contra a Rússia.

Ou seja, andam à solta, na “democracia” liberal, monstros comparáveis a Hitler. E nenhum deles alguma vez será julgado como os outros foram em Nuremberga.

Ou seja, se há alguém que merecia sanções, bloqueio, isolamento, e ser levado de volta à idade das cavernas, são os países que vendem e até dão armas para que se continue um GENOCÍDIO, onde 99% das vítimas são civis, e onde 70% dos corpos despedaçados são de mulheres e crianças.

Ou seja, se alguém der um tiro no Biden, na Kamala ou no Blinken e companhia, no Trump, no Starmer, no Boris, no Sunak e companhia, no Scholz e na Baerbock, no Macron e na Meloni, na Leyen, no Stoltenberg e no Rutte, no Montenegro, no Marcelo e no Nuno Santos e companhia, e também nas presstitutas que fazem a propaganda desses porcos assassinos, isso não é um crime. É justiça. E eu adoro quando a justiça acontece.

Isto leva-me a outro ponto de discordância com o texto do Carlos Branco. É quando ele cita alguém que chama “sionismo fascista” a isto, por oposição a um alegado “sionismo liberal” supostamente benigno.

Porra! É preciso ser surdo e cego (mas não mudo) para, em 2024, não perceber que nazismo e genocídio, supremacismo branco e violação impune de direitos humanos, colonialismo e fascismo, são a base ideológica real do LIBERALISMO. Todo o paleio sobre “liberdade e democracia” é propaganda para enganar tolos. Liberalismo é o que está a passar-se em Gaza, em Kiev, e se passou no Vietname, Belgrado, Benghazi, etc.

Não existe uma diferença entre nazismo e liberalismo. Isto lembra-me uma notícia (omitida pelas presstitutas do nazi-sionismo genocida ocidental) sobre o Canadá há uns dias: queriam fazer um monumento para lembrar/homenagear as “vítimas da Rússia soviética”, mas quando foram ver os nomes dos cerca de 500 defuntos que queriam homenagear, constataram que mais de 300 dessas “vítimas” eram oficiais nazis (até mesmo das SS). Quando a notícia/escândalo se espalhou no Canadá, a construção do monumento não foi cancelada, foi suspensa até de corrigir o “mero lapso”.

Isto para lembrar que o Canadá é um dos líderes dos rankings da “Liberdade”, da “Democracia”, do Liberalismo em geral. É exatamente o mesmo regime que teve o Parlamento em pé a aplaudir um velhote das SS e, quando a coisa se tornou viral, em vez de pedirem desculpa, em vez de se demitirem, qualificaram às vozes antinazis como sendo “propaganda do Putin”.

Isto é o mesmo regime de todos os outros países do Ocidente: a mesma ideologia de todos os “democratas” liberais, desde a direção do Bloco de Esquerda até ao Chega, passando por todo o estrume do meio.

Isto é a mesma UE que proíbe a celebração do Dia Da Vitória – veteranos da Segunda Guerra até foram detidos pela polícia na Letónia! -, que compara o comunismo ao nazismo, que censura canais de notícias, que quer um “Ministério da Verdade” (tipo uma PIDE da UE/EUA), e que apoia descaradamente os nazis na Ucrânia (depois de passar décadas a apoiá-los às escondidas, ou a contratá-los para a máquina de terror da NATO). Isto é a ideologia da “democracia” liberal.

É só lembrar o seguinte: a tal da “Constituição dos EUA” que falava dos “homens iguais”, foi escrita durante a escravatura. Isto é a natureza dos regimes ocidentais, e infelizmente também de boa parte deste povo profundamente ignorante e racista, mas cheio de canudos universitários…

O facto de alguns países colocarem mulheres, jovens, negras e LGBT, à frente das câmaras e dos microfones, não muda a sua natureza. Apenas demonstra o quão maquiavélico o supremacismo branco se tornou. Mas a mim não me enganam. Estou vacinado contra a propaganda e manipulação. Sempre que vejo um Obama, sei que estou a olhar para um Hitler. E sempre que vejo uma Catherine Jean Pierre, sei que estou a olhar para o antigo homem branco que exterminou os nativos da América do Norte.

O racismo não acabou no Ocidente. Algo muito pior aconteceu: os pretos, latinos, etc, assimilaram completamente a ideologia do seu opressor. Agora chamam-lhe “progressismo”.

É por isso que quando veem um corpo de um bebé despedaçado em Gaza, repetem o que hoje diriam também Hitler, Goebbels, Himmler ou Göring: nós é que somos o lado bom, os outros são todos maus, por isso matá-los é justificado, é a defesa da nossa raça…

É isto o liberalismo. Nem mais, nem menos. É pior que o fascismo. Mas o que fazem estes nazi-sionistas genocidas no dia 25-Abril em Portugal? Colocam o cravo na lapela, e colocam-se de pé a aplaudir o discurso de um ditador nazi ucraniano que acha que glorificar os ucraNazis da antiga UPA/OUN e dos actuais Azov “é normal” – coloquei as aspas porque é uma citação do Zelensky! O palhaço que os liberais andaram a promover como o “campeão da democracia e da liberdade”.

É isso que estas duas palavras significam realmente na boca desta gentalha: nazismo, guerra, imperialismo, opressão, racismo, supremacia branca, colonialismo, mentira, violação dos direitos humanos, apartheid, massacres, invasões, tortura, terrorismo, sanções para provocar pobreza e fome, limpeza étnica, e um GENOCÍDIO em direto num campo de concentração com mais de 2 milhões de pessoas, 70% dos quais mulheres e crianças.

Por isso hoje digo com orgulho: sou antiliberal. Aliás, sempre fui, mas não sabia. E mesmo tendo a pele branca, posso também dizer com orgulho que sou mais preto do que o Obama.

PS: O Carlos Branco esqueceu-se também de dizer que o tal partido israelita que Einstein e Arendt compararam aos nazis, deu mais tarde origem ao Likud de Netanyahu, um partido que entretanto ganhou práticas e ideologia bem pior que o original, e é o mais votado pelos “inocentes” daquele projeto colonial racista e fanático religioso. O “Israel” é o JSIL (J substituindo a primeira letra do ISIL, sigla inglesa para “estado islâmico do Iraque e do Levante”) daquela região, tal como o jornalista do Greyzone uma vez disse: o Jewish State of Israel and the Levant.

Mas como essa explicação demora muito, eu prefiro ser mais direto: o “Israel” é uma ditadura colonial nazi-sionista, exterminadora de mulheres e crianças. Ou, como os liberais lhe chamam: “a única democracia do Médio Oriente

António Guterres tinha razão, mas não disse tudo

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 17/10/2024)

Israel nunca teve intenções de reconhecer um Estado palestiniano e a “comunidade internacional” nunca pressionou Telavive a fazê-lo. Mas ninguém se atreveu a criticá-lo com receio de represálias ou de ser mal visto por Washington.


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Numa reunião especial do Conselho de Segurança sobre a crise no Médio Oriente, o Secretário-geral da ONU António Guterres afirmou o óbvio: o evento de 7 de outubro de 2023 não aconteceu no vácuo. A declaração motivou uma reação descabida do embaixador de Israel nas Nações Unidas clamando pela sua resignação. A circunstância do cargo que ocupa impediu-o de ir muito mais longe no comentário.

No entanto, Guterres disse ainda que “o povo palestino foi submetido a 56 anos de ocupação sufocante”, e que “as queixas do povo palestino não podem justificar os terríveis ataques do Hamas. E, esses ataques terríveis, não podem justificar a punição coletiva do povo palestiniano”. Apesar destas importantes observações, não explicou as causas profundas do ataque do Hamas.

Há duas causas do 7 de outubro: uma afastada e outra próxima. A afastada relaciona-se com as atrocidades e o sofrimento causado pelos sionistas ao povo palestino durante décadas, nas quais se inclui o êxodo de mais de 700 mil árabes palestinos (Nakba) das terras de Israel, em 1948; e a próxima prende-se com o incumprimento dos Acordos de Oslo.

Sem elaborar extensivamente sobre a primeira – em que muitos acontecimentos tiveram impacto direto no presente – e sem a pretensão de fazer um varrimento histórico profundo, não se pode esquecer o massacre de Sabra e Chatila, perpetrado sob a supervisão de Ariel Sharon, mais tarde primeiro-ministro de Israel, e de todos os que o procederam. A marcha da morte de Lídia e os massacres de Deir Yassim, Kafr Kassem, Quiba, Jan Yunis, etc., para mencionar apenas alguns.

Quando se fala de terrorismo na região, não se pode deixar de fazer um regresso ao passado e à génese terrorista do Estado de Israel, começando em 1920 pelas organizações terroristas paramilitares como a Irgun, a Lehi, a Haganah e a Palmach, que em 1948 se fundiram para criar as IDF – Israel Defense Forces.

Menachem Begin, primeiro-ministro de Israel em mais do que um mandato, foi o chefe do Irgun e responsável pelo ataque terrorista ao Hotel King David, onde morreram mais de 92 pessoas, britânicos na sua maioria. Begin foi denunciado por um grupo de intelectuais judeus, entre eles nomes como Albert Einstein e Hannah Arendt, numa carta aberta publicada pelo “New York Times“, no dia 4 de dezembro de 1948, quando visitou os EUA, em que condenavam abertamente o partido político por si fundado – o “Partido da Liberdade” (Tnuat Haherut) – de ser “um partido político muito semelhante, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazi e fascista.”

Por seu lado, Yitzhak Shamir, também primeiro-ministro de Israel, foi dirigente da Lehi e responsável pelo assassínio do diplomata sueco Folke Bernardotte, enviado das Nações Unidas para a implementação da partição territorial da Palestina, tendo sido o Estado de Israel condenado internacionalmente. Ficaremos por aqui, sem deixar de sublinhar a relevância destes factos para melhor se entender o presente.

Passando à causa próxima. Em 1993, em Oslo, a OLP renunciou à luta armada e reconheceu a existência do Estado de Israel. Nas negociações em 2000, para concretizar o Acordo de Oslo, o então primeiro-ministro Ehud Barak apenas reconheceu a Autoridade Palestiniana (AP), mas não reconheceu a existência de um Estado palestino. Telavive fez tudo o que lhe estava ao alcance para inviabilizar a sua existência.

Com as suas ações, Israel foi corroendo e deslegitimando com sucesso a AP ao ponto de esta deixar de ser um ator credível aos olhos dos próprios palestinos, gerando a sua ineficácia espaço para a emergência e afirmação de outros grupos e grupelhos radicais, que ao não reconhecerem a existência do Estado judaico se tornaram de grande utilidade para Israel.

Quando lhe foi conveniente, Netanyahu apoiou o Hamas e serviu-se da sua aparente cegueira política. Dava-lhe jeito um Hamas forte e sectário para isolar internacionalmente a causa palestina. Por isso, durante muitos anos, as viaturas das IDF escoltaram malas carregadas de dólares, que chegavam ao aeroporto de Ben Gurion provenientes do Catar, até à Faixa de Gaza, onde eram transferidas para o Hamas (embora a transferência não fosse feita direta e automaticamente).

Também por isso, não se pode deixar de estranhar que a organização conhecedora da localização de toda a estrutura superior do Hezbollah, quando e onde se reuniam, não soubesse o que se estava a passar na Faixa de Gaza, em particular, a preparação do Hamas para um ataque a Israel, para o qual se treinavam às claras. Telavive terá sido informada e nada fez para o contrariar. A ser verdade, o Hamas poderá ter aparentemente caído numa cilada.

Em vez de fazer acontecer Oslo, a “comunidade internacional” assobiou para o ar, fingindo estar tudo bem em Gaza e na Cisjordânia. Independentemente do que Israel estivesse a fazer, o importante era que os palestinos não reivindicassem. A conjugação de uma AP mansa, ineficaz, corrupta e geriátrica, sem dar resposta aos problemas do povo – muito conveniente para Israel -, com a expansão sistemática dos colonatos e as humilhações diárias e permanentes gerou a revolta e o aparecimento de grupos como o Hamas, que vieram ocupar o espaço de contestação deixado vazio pela AP.

Afinal, a opção estratégica da OLP se transformar num movimento político e abandonar a luta armada não se traduziu em benefícios para a causa palestina, nos trinta anos que nos separam dos acordos de Oslo (1993) e nos 24 anos da Cimeira de Camp David (2000). A sua colaboração e o seu bom comportamento não foram recompensados.

Pelo contrário, durante a vigência da domesticada AP, o movimento palestino só averbou derrotas, e os progressos na direção do estabelecimento de um Estado foram pírricos. Paulatinamente, Israel ia consolidando o seu projeto de uma Grande Israel, em particular na Cisjordânia, apesar de ter tido de devolver o deserto do Sinai ao Egipto, conquistado na guerra do Yom Kippur.

Foi o sentimento de impotência e injustiça sentidos pelas massas palestinas, que não se sentiam politicamente representadas pela AP, que deu força a quem pensasse ser o regresso à luta armada o único método de alterar o rumo dos acontecimentos. Tinha-se tornado evidente ser inviável construir um Estado palestino apenas através da diplomacia e da luta política.

Oslo não só não falhou em criar um Estado palestino como criou as condições para Israel se expandir e prosperar como nunca na Cisjordânia. Netanyahu mostrava nas Nações Unidas, a quem quisesse ver, sem qualquer pudor e reparo, um mapa de Israel em que a Cisjordânia e Gaza não apareciam. Ninguém parecia importar-se com o problema palestino, que caminhava a passos largos para a irrelevância histórica. No dia 6 de outubro, a causa palestina estava moribunda, quase morta. A normalização das relações com os países do Golfo estava em curso. Teria sido a derrota definitiva se a Arábia Saudita tivesse aderido a esse processo. Israel esteve à beira da vitória.

Mas a resposta selvagem de Telavive em Gaza, onde já pereceram mais de 42 mil almas, na data em que este texto foi escrito, veio reverter desajeitadamente décadas de energias e de esforço para convencer os Estados do Golfo de que a criação de um Estado palestino não podia mais vetar as relações entre Israel e o mundo árabe e islâmico. Veio ressuscitar das catacumbas a causa palestina tornando-a no assunto número um da luta pelos Direitos Humanos a nível mundial. Não só se encontra agora no topo da agenda da justiça internacional, como ganhou uma dinâmica imparável. Os casos em curso no Tribunal Penal Internacional e no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, tornaram-se num movimento sem precedentes no passado recente.

Israel encontra-se agora mais isolado internacionalmente do que nunca na sua história. Como disse David Hearst, “esta guerra despojou Israel da sua imagem de um sionismo liberal”, mostrando a sua verdadeira face de um sionista fascista. “A imagem de Israel de um jovem duro tentando defender-se da sua vizinhança deu lugar à de um ogre regional sem qualquer bússola moral.”

É inegável e sobejamente conhecido o projeto messiânico de uma Grande Israel com o sul do Líbano, Gaza e Cisjordânia incluídas, que Netanyahu ambiciona construir. Israel nunca teve intenções de reconhecer um Estado palestiniano e a “comunidade internacional” nunca pressionou Telavive a fazê-lo. Mas ninguém se atreveu a criticá-lo com receio de represálias ou de ser mal visto por Washington. Se tivesse sido criado um Estado palestino, cinco anos após a assinatura dos Acordos de Oslo, seguramente que não existiriam hoje movimentos como o Hamas. Como também não teria sido criado o Hezbollah, se as forças de Israel não tivessem cometido as chacinas e a matança de libaneses, aquando da ocupação do Líbano, em 1982.

As grandes potências, umas mais de que outras, transformaram a AP numa entidade rentista, mantida em estado vegetativo, em troca do seu silêncio, até à extinção da sua razão de ser. Mas Yahya Sinwar e o 7 de outubro vieram estragar o plano.