A falácia do rearmamento da Europa

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/11/2024)


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Falar hoje, finais de 2024, de criar e desenvolver uma “indústria de defesa europeia” para se opor aos malvados russos de Putin é uma dupla falácia de quem não tem qualquer pudor em mentir.

Paulo Portas, no seu sermão dominical, falou na necessidade de a Europa investir em defesa para se opor a que Putin “venha por aí abaixo”. O homem que enquanto ministro da Defesa foi o vidente que viu as provas de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, tal como o outro vidente da altura, o recompensado Durão Barroso, que por ter visto o milagre recebeu o prémio de chefe dos comissários europeus.

“Putin vem por aí abaixo!” Repete o coro de comentadores avençados, em sintonia com alguns militares que deviam saber dos “temas” de tática dos cursos de comando e estado-maior, os “garranos”, que a vinda dos russos por aí abaixo apenas terminava com um regimento de infantaria da URSS junto ao rio Lizandro, defendido por um batalhão português saído do Convento de Mafra, assim impedindo o bravo coronel russo que atravessara o Reno e o Danúbio, os Alpes e os Pirenéus e acabava vencido, sem poder tomar banho na Ericeira. É esta a primeira falácia, uma narrativa delirante e até ridícula. Os russos não veem por aí abaixo, Os mesmos que o garantem são os mesmos que sublinham as dificuldades de progressão para atingirem o rio Dniepro, as cidades de Zaporija e de Kharkiv. Ou bem que vêm por aí abaixo, e há que detê-los, ou bem que não vêm e não há necessidade de gastar dinheiro a defendermo-nos de um tigre de papel que não consegue atravessar a Ucrânia.

A segunda falácia diz respeito à necessidade de construir uma indústria de defesa europeia. Uma necessária observação: nenhum estado europeu desde a idade moderna aos nossos tempos se defendeu, a não ser a Rússia, por duas vezes, uma contra Napoleão e outra contra Hitler. A Polónia, nas várias versões territoriais e de soberania nunca se defendeu, mas a teocracia que a governa e constitui o estado mais vassalo dos Estados Unidos realizou o número mediático de instalar uns obstáculos de cimento — ursos — para impedir os tanques russos de avançar, nem o império austro-húngaro, nem a Itália, nem a França, nem a Espanha, nem Portugal, em qualquer época se defenderam, todas os estados atacaram os outros, segundo os seus interesses e os “aparelhos militares” foram sempre de defesa apenas do grupo dominante dentro do Estado, foram sempre, no dizer do rei Luiz XIV de França, a última “razão do rei” contra os seus súbitos. Continuando hoje a ser esse o papel das instituições militares, aquelas que Max Weber considerou serem as únicas legitimadas para o uso da força nos Estados. Do que se trata, então, quando alguém fala em defesa é a defesa de um poder instalado, de um regime, de um grupo no poder ou de dispor de meios para conquistar objetivos noutros espaços.

A questão da “defesa” da Europa é muito clara: O único aparelho militar credível do Ocidente Global é o dos Estados Unidos. Após o final da Segunda Guerra, aproveitando a imposição da desmilitarização da Alemanha nazi e a destruição das indústrias europeias, os Estados Unidos iniciaram a passagem de forças com meios convencionais de controlo das suas armas para os sistemas digitais Nos anos 60 introduziram a internet e a computação na sua panóplia de armas, e partiram para a conquista do espaço não apenas com as operações de demonstração de capacidade tecnológica com a ida à Lua, mas com a criação de uma verdadeira malha de satélites para fins militares de observação e espionagem, de transmissão de dados — que deram origem a duas famílias de instrumentos da guerra espacial e da sua articulação com a guerra no ar, em terra e no mar, os GNSS (Global Navigation Satelite System) de que o GPS é filho, e os GEOSS (Global Earth Observation Satelite System).

Desde os anos 70 do século passado, que as grandes potências, a URSS e a China se aperceberam da importância dos sistemas globais de navegação por satélite. Os americanos desenvolveram o GPS inicialmente apenas para fins militares — o sistema é gerido pelo Departamento de Defesa através da Força Aérea dos Estados Unidos, a União Soviética desenvolveu o seu sistema GLONASS também para fins militares, a China o seu BDS. A União Europeia, finalmente, criou um programa civil que designou por Galileo em 1990, quando os Estados Unidos e a Rússia tinham os seus sistemas operacionais em 1995! Com a operacionalidade dos sistemas GPS e GLONASS, na segunda metade da década de 90, a União Europeia (UE) percebeu a importância estratégica, económica, social e tecnológica da navegação por satélite! Excelente a previsão dos dirigentes europeus. Os mesmos, ou os clones, dos que agora apelam: às armas, europeus!

Também foi já década de 90 que os dirigentes da União Europeia perceberam a importância de programas cooperativos de desenvolvimento de sistemas de armas. Foram então criados programas para desenvolvimento de um caça europeu — o Eurofigther Thiphoon, um fracasso que desapareceu da cena — o programa de um helicóptero naval e de forças terrestres, o Nato Helicóptero, que não revelou ser um sucesso, um programa para uma NATO Fregate que nunca viu a luz do dia. Não foi uma partida brilhante, mas proporcionou ensinamentos, apagados da memória, porque os americanos apresentavam soluções chave na mão. Recebendo o devido pagamento e ainda eliminavam futura concorrência.

Hoje, todos os sistemas de armas europeus estão dependentes dos sistemas de informação, navegação e comunicação americanos. E vão estar pelo menos durante os próximos trinta anos, que é o ciclo de vida mínimo previsto para os sistemas de armas. Todos os aviónicos e sistemas de informação dos cockpits dos aviões, das pontes de comando dos navios, das torres dos carros de combate, das salas de operações das unidades terrestres, das cabeças dos misseis táticos ou estratégicos são e serão americanos. A título de exemplo, a Alemanha adquiriu 50 aviões caça bombardeiros americanos F 35, a Bélgica 30, em detrimento do Raphale francês. Durante os próximos 30 anos, todas as armas europeias terão a “inteligência” americana e apenas poderão ser usadas com o acordo dos Estados Unidos.

Falar em investir na indústria de armamento europeia é uma falácia. A Europa perdeu a oportunidade de ter autonomia estratégica nos anos 90 e essa perda não é remediável! Investir na indústria de armento na Europa significa tão simplesmente substituir a falência da indústria produtiva europeia — as fábricas de automóveis alemãs e francesas, por exemplo, também a Michelin, a Bosch — por inúteis fábricas de peças de artilharia, de carros de combate, que apenas se orientarão nos campos de batalha com os olhos do GPS americano!

A título de exemplo, quando a Agência Espacial Europeia (ESA) comunicou aos Estados Unidos a intenção de desenvolver o Galileo e que o desejava compatível com o GPS, os Estados Unidos avisaram que destruiriam os satélites europeus se estes interferissem com a operação o seu GPS! O governo norte-americano não autoriza outras nações a participarem da manutenção e desenvolvimento do GPS, dado os seus fins militares. Apenas em 2005 foi lançado o primeiro satélite do sistema Galileo o segundo em 2008, dois satélites em 2011 e outros dois em 2012. A primeira determinação de posição utilizando a constelação Galileo foi realizada em março de 2013 e em dezembro de 2016 havia um total de 26 satélites Galileo.

De 1990 a 2024, trinta e quatro anos, a Europa, a U E viveu no doce ripanço, a ver o mundo passar, sem receios de inimigos, entregue aos braços do amigo americano, que dispunha de bases na Alemanha, no Reino Unido, em Itália, armas nucleares nestes três países, além da Bélgica e de Israel. O governo dos Estados Unidos, uma autodenominada democracia liberal, estabelecia parcerias publico privadas com as grandes companhias das novas tecnologias, caso da Microsoft, a grande software house mundial, do Google, da Amazon, do Twiter, hoje X, do Facebook, hoje Meta, da Apple, da Starlink e da Space X de Elon Musk. Não deixa de ser curioso que os dois mais recentes satélites dos sistema Galileo tenham sido lançados por foguetões da Space X, de Elon Musk!

Indiferentes a estas evidências, os manipuladores da opinião impingem a mensagem: é necessário desenvolver uma indústria de material de guerra (eufemisticamente designada por indústrias de defesa europeia). Os e as warmongers fazem o seu trabalho, tocam cornetas e rufam tambores para receberem as suas comissões e prémios à custa dos europeus. A Declaração de Budapeste, da conferência de líderes europeus, que terminou a neste 8 de Novembro, defende “investimentos significativos públicos e privados no setor da Defesa”. O primeiro-ministro português declarou à saída que a indústria portuguesa também pode entra nesta farsa, em especial a indústria têxtil — camuflados para a tropa, atoalhados para as messes… botas e estandartes, presume-se que seja a nossa contribuição depois do envio de ferro velho representado por helicópteros Kamov, uns velhos M113, uns inúteis Leopard.

O inútil rearmamento da Europa significa uma nova era, os recursos que estão dedicados ao investimento produtivo serão desviados para produtos que são mera despesa. Esta transferência traduz-se em pobreza geral e fim do estado de bem-estar, será feita à custa do estado social. Mesmo os sistemas de duplo uso militar e civil num caso geram riqueza, noutra despesa. Colocar um motor num trator ou num carro de combate não é igual. A transferência de recursos para as indústrias militares provocará uma mudança de paradigma civilizacional da Europa, aumentará as desigualdades, a injustiça, a repressão. É o futuro que nos está a preparar esta nova seita de pregadores.

A proposta dos armamentistas lançadores de fogo pela boca, é a de enfiarmos a cabeça num laço e esperar que assim nos salvaremos!

Trump, um produto da falência moral do partido democrata

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 07/11/2024, revisão da Estátua)

A derrota de Kamala é, assim, a vitória da demagogia política, do messianismo providencialista e do Supremacismo, do qual o Partido Democrata não se libertou e o qual também contribuiu para normalizar, permitindo a Trump ganhar, apesar dele, e da forma exacerbada como o defende.


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Imigração, aborto, wokismo, guerra da Ucrânia, guerras eternas, reindustrialização e proteccionismo. Com excepção do aborto e wokismo (identitarismo), que se tratam de questões de consciência e não de política estrutural, todas representam, de alguma forma, algumas das consequências mais brutais do neoliberalismo nos EUA, figurando entre as grandes causas da derrota de Kamala e da vitória de Trump.

A desindustrialização, esgrimida por Trump como uma das grandes causas da perda de poderio da sua América, aconteceu como causa directa da financeirização da economia (acelerada pelo republicano Nixon) tornando a economia de casino no motor económico dos EUA. Sem indústria veio a deterioração do poder real resolvido com a criação de conflitos eternos. As guerras eternas comportam um penoso custo sobre a economia ocidental (também na Europa) e um entrave ao investimento público em infra-estruturas e outras necessidades. A pilhagem que elas possibilitam à Blackrock, Monsanto, Golden Sachs e outras, não reverte para o povo norte-americano, mas para acumulação de uns poucos.

Como forma de desviar atenções, assustar e anestesiar as massas, recupera-se a russofobia, a guerra fria e promove-se o identitarismo, provocando a atomização social e a fractura dos movimentos sociais que poderiam contestar, de forma consistente e coerente, esta situação. O resultado é a instalação de um sentimento de instabilidade e precariedade, relativamente a todos os aspectos da vida.

Trump surgiu como a solução que concretizará a aspiração à estabilidade e a uma certa “normalidade” nos costumes, na economia, no trabalho, na família. Kamala nunca se libertou da acusação de que pretende a continuidade dos factores que causam esta desagregação social.

A anunciada vitória de Trump demonstra que os “sucessos” económicos de Biden não eram reconhecidos pela população. Os ganhos oligárquicos, nunca chegaram ao bolso dos trabalhadores. O Partido Democrata recusou-se a constatar esse facto, ao fazê-lo, garantiu a vitória de Trump.

Explicada a causa, falta então estabelecer os seus constituintes, que passo a enumerar, de forma aleatória:

  1. O papel das guerras eternas

Trump utilizou de forma magistral esta bandeira, capitalizando factores como o medo de uma guerra mundial, a opacidade do complexo-militar industrial, o seu descontrolo nas despesas e o facto de operar para além das regras democráticas, sem auditoria, escrutínio ou necessidade de justificar os gastos. Acresce que, a mais do que previsível derrota da NATO na Ucrânia, traz consigo outra novidade, que consiste num certo descrédito na mítica – mas nunca comprovada – capacidade militar dos EUA. Trump apresentou-se como o candidato que iria resolver os conflitos eternos, libertando o povo americano desse fardo, mas, ao mesmo tempo, recuperando o misticismo militar perdido. Uma espécie de nacionalismo do fim dos impérios, pelo qual todos passam.

Este pressuposto tem dois problemas: o primeiro, é que o discurso da paz, e do fim da guerra, deveria, conceptualmente, estar do lado de Kamala; o segundo, é que, acreditar que Trump conseguirá, quererá, sequer, colocar um ponto final no militarismo norte-americano, é, no mínimo, risível. Trump até pode arrefecer alguns conflitos, mas agravará outros, em linha com a sua prepotência e narcisismo, próprias do providencialismo ideológico norte-americano comum a todas as suas poderosas facções.

Como se verá, contudo, Trump não apenas aumentará os gastos militares, em linha com o que prevê o Mandate 2025 da Heritage Foundation, como terá de alimentar conflitos para os justificar. Provavelmente mais conflitos frios que quentes, mas, mesmo assim, conflitos. A Europa será uma das grandes penalizadas pela sua própria cobardia. Trump não deixará de extorquir dos cobardes políticos europeus, o que considera constituir a sua justa contribuição para uma NATO que só dá jeito aos EUA e a ninguém mais.

Trump alimenta-se da falta de um discurso pacifista, defendendo o fim das guerras eternas, o que não quer dizer “o fim das guerras” e, certamente, não quer dizer “o fim dos conflitos” e tensões militares.

  1. A imigração, culpa os responsáveis errados

A utilização desta bandeira não é nova. Contudo, lá como por cá, o que Trump não diz, é que, quem exige aos governos ocidentais, a abertura das “portas” migratórias, são os próprios patrões. Nenhum migrante se desloca para um país, se considerar que aí não vai encontrar trabalho. É a susceptibilidade de encontrar trabalho que os atrai. Essa informação circula pelas redes de traficantes e chega aos povos mais pobres, que agarram a possibilidade.

E quem propaga a informação? Basta olhar, por exemplo, para o posicionamento das associações patronais europeias sobre o assunto. Consideram que são necessários mais migrantes. Afinal, necessitam de mão-de-obra barata, disponível, bem-comportada, descartável e que pressione para baixo os custos salariais dos povos autóctones. Sobre isto, Trump, e a extrema-direita, nada dizem.

A extrema-direita capitaliza, sim, e de forma massiva, os problemas de exclusão social ligados aos fluxos de migrantes e dos seus descendentes. E esta exclusão social é culpa, uma vez mais, do partido democrata. O Partido Democrata responde ao patronato com manutenção ou aumento do stock migratório, mas o dinheiro que deveria ser usado para integrar estas pessoas, e os seus filhos, é usado para a guerra e para financiar as grandes corporações. O pacote anti-inflação de Biden (o Inflaction Reduction Act) financiou, em centenas de biliões de dólares, a compra de capital em bolsa, pelas próprias corporações, para que se valorizem artificialmente. Esse dinheiro não foi usado para melhorar o acesso à saúde, habitação ou segurança social, bandeiras do Partido Democrata. Este partido foi penalizado por tratar os migrantes como os trata o Partido Republicano quando está no poder.

  1. O descalabro democrata na questão palestiniana

O Partido Democrata perdeu muito do capital de confiança que a juventude norte-americana lhe colocava, na questão palestiniana. Se até aqui, mal ou bem, os jovens progressistas e os adultos antissionistas viam no Partido Democrata uma espécie de apaziguador – pelo menos –, face ao anti arabismo republicano, com Biden e Kamala, tudo se esfumou.

É com Biden e Kamala que o mundo assistiu a um inadmissível genocídio em directo. É sob uma administração democrata que os EUA embarcaram numa guerra em duas frentes, uma das quais sob um povo indefeso, e qual delas com as consequências mais imprevisíveis.

Kamala e o PD não conseguiram, desta forma, estabelecer uma diferença substancial para Trump e se alguém capitalizou voto, nesta matéria, terá sido mesmo a candidatura deste último. Pelo menos terá captado algum voto a que antes não teria tido acesso. O facto de defender o fim das guerras eternas e dizer que não quer guerra com o Irão, acabou por estabelecer uma diferença importante, também nesta matéria.

  1. A antipatia gerada pelas figuras que são hoje a cara do Partido Democrata

establishment estava convencido de que o povo norte-americano gostava de Hillary Clinton. Estava enganado. Hillary era “Killary” e não nutria simpatia alguma. Os mesmos estavam convencidos de Kamala não falharia. Bastaria colocá-la à frente de um teleponto e estava resolvido. Não era preciso falar muito, e pensar, menos ainda. Ninguém conseguiu capitalizar o que quer que fosse de positivo sobre Kamala. Das vezes que ficou sem teleponto, o improviso foi estarrecedor. A sua incapacidade oratória, retórica e teórica, foi tornada evidente.

Mas o facto de ser mulher, associado ao facto de ser “Brown”, não poderia falhar. A cartada tinha dado certo com Obama, porque haveria agora de falhar? Obama foi o genocida mais simpático da história. Enquanto fazia desfilar a sua enorme capacidade discursiva, encerrava crianças em jaulas na fronteira sul, ameaçava a Síria de invasão, criava condições para a entrada do Estado Islâmico na Síria e Iraque, destruía a Líbia e apoiava neonazis na Ucrânia.

Esta aposta numa figura inócua, apagada e incapaz não é nova e representa um enorme vazio de liderança real. Biden foi o último dos líderes da máquina democrata e norte-americana. Gente como Cornel West, Jill Stein, ou Bernie Sanders, foram impedidos, pelos grandes doadores, de dar voz às ansiedades populares de jovens e trabalhadores. Eis a “democracy” norte americana em toda a sua extensão.

  1. Capitalizar a antipatia pelo sistema e pelo estado de coisas

A precariedade da vida, a agrura das condições, a estagnação ideológica do sistema e o apagamento das luzes da alternativa, e com a estagnação, o apodrecimento e deterioração, associadas à ausência de alternativas, criam as contradições ideais para o surgimento de movimentos que defendem, mesmo que aparentemente apenas, a alternativa. É uma lei da vida. Se a água não for por um lado, vai pelo outro.

Contudo, o Partido Democrata, como os partidos social-democratas na Europa, foram controlados pelo neoliberalismo. A deterioração, durante os seus mandatos, dos serviços públicos tornou-se evidente, o que resultou numa desmoralização ideológica, não apenas da social-democracia, mas de todas as forças progressistas e democráticas consideradas moderadas. As radicais são persona non grata e estas deixaram de constituir uma diferença efectiva para as outras forças da direita.

Quando temos um Partido Democrata a defender a hegemonia e o globalismo neoliberal, um partido socialista ou social-democrata a defender a Europa neoliberal e o revisionismo histórico, aliando-se a neoliberais e neoconservadores, abre-se o espaço para o surgimento de aparências de alternativa à direita. A realidade nunca pára.

Trump, acaba a surgir como alternativa ao sistema que o constrói e de que se alimenta. E consegue-o porque o establishment transformou o sistema partidário ocidental num amplo campo de direita neoliberal e neoconservadora, em que desfilam figuras diferentes na aparência, mas iguais na substância, domadas pelas elites, apenas com o objectivo de manter a aparência de movimento democrático, quando, na prática, não existe.

Afinal, é JD Vance, Vice de Trump, quem aparece a opor-se às deslocalizações para México e China. Não deveriam ter sido os democratas a fazê-lo? Quando vemos Biden a aplicar tarifas, para que as marcas chinesas não entrem nos EUA, vale a pena perguntar se ele não se deveria ter lembrado de o fazer, com as empresas norte-americanas, que se deslocalizaram para América latina e Ásia. Porque foi o Partido Democrata conivente com a destruição da capacidade industrial dos EUA?

  1. O aborto e a preocupação com os vivos

Não foi apenas o aborto, bandeira capitalizável numa sociedade reaccionária e muito religiosa. Não vale a pena as Kamalas do mundo virem dizer que, a um Trumpista, ou republicano tradicional, importam mais os fetos humanos do que a vida dos seres já nascidos, se depois mantêm os salários congelados durante mais de 40 anos, deixam a riqueza voltar a concentrar-se, ao nível do que acontecia nos anos 30 do século XX, não criam uma rede de cresces gratuitas, não apoiam a constituição de famílias e a natalidade, e por aí fora. O seu discurso é contraditório com o que fazem na realidade.

Onde está a moral para defender o aborto numa situação destas? Mesmo que exista, ela é muito condicionada pelo insucesso das políticas sociais do PD. Como dizer que o aborto é defensável como último recurso, quando se é responsável direto por não criar condições de apoio à natalidade, que tornam esse “ultimo recurso”, no primeiro dos recursos?

  1. A defesa da “normalidade”

A ligação do Wokismo (identitarismo) neoliberal à esquerda, e da propaganda LGBTQ aos movimentos da esquerda, é culpa também do Partido Democrata e dos partidos social-democratas que deixaram cair o universalismo, passando a apostar na atomização da identidade e na liberalização do género.

Passam a escolher-se mulheres, homossexuais, latinos, negros, trans, apenas por o serem e não por aquilo que são. Escolher um homossexual incapaz, apenas porque o é, constitui um enorme desserviço para o movimento homo, escolher uma mulher incapaz, apenas porque o é, é um desserviço para a causa das mulheres. Uma Von Der Leyen, sendo mulher, perpetua a guerra. Um Rangel (Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal), sendo homossexual, perpetua a guerra. O que ganha o povo com isto?

Usado como bandeira oportunista, o wokismo atomiza a identidade, atomiza a sociedade. A propaganda woke é usada como bandeira política e sinal de sofisticação e liberdade mental, contudo, o efeito da mesma é o de transmitir à sociedade que a sua “normalidade” está em causa. Podemos questionar se a “normalidade” comporta ou não outras identidades, mas sempre como parte de um conjunto, naturalmente. O sistema apenas deve garantir que, escolha o que se escolha, com naturalidade, se tenha direito ás mesmas condições de vida que os demais.

Ao invés, o Partido Democrata deixou apanhar-se pela ideia de que o mais importante é podermos afirmar a nossa identidade e até fazê-lo com afronta e panfletarismo. O que importa é poderes escolher ser trans, homo ou não binário, embora possas ter de viver na rua e sem emprego. Trata-se de uma inversão das prioridades. O que garante a liberdade na escolha da identidade são as condições universais básicas necessárias à sobrevivência. E não o contrário. Defender a primeira, secundarizando as segundas, transmite uma mensagem da subversão das coisas, o que destrói a aparência de normalidade e a ideia de estabilidade social. Provocando a reacção.

Wokismo consiste numa liberalização da identidade e da possibilidade de escolha individual, em desconexão com a sua existência material. Trata-se, por isso, de um individualismo, divisivo, de um idealismo. O Partido Democrata nunca deveria embarcar num idealismo.

Ao fazê-lo, permitiu a Trump que se vendesse como o garante da normalidade. A extrema-direita vende-se como garante da normalidade!

  1. O erro da cartada Zelensky contra Trump

A associação de Trump a Putin e à Rússia visava capitalizar uma russofobia que nunca pegou realmente, a não ser nos que se alimentam e vivem do establishment. Ontem na Geórgia, Putin voltou à cena. Supostamente teriam vindo ameaças de bomba da Rússia. Já ninguém acredita nisto e os resultados na Geórgia demonstram uma certa e crescente imunidade popular aos golpes da imprensa corporativa.

A verdade é que já poucos acreditam em Zelensky e ainda menos conseguem ouvi-lo falar. Em total desconexão com o sentir popular, acreditaram que colocar Trump contra Zelensky, afectaria Trump. Ao contrário, deu a certeza, a muitos que duvidavam de que Trump acabaria com a guerra, de que esse era o voto certo.

Como o povo Ucraniano, também nós, ocidentais, estamos fartos desta guerra.

  1. O descrédito da Imprensa Mainstream

Toda a imprensa mainstream ocidental, mesmo a alinhada com o Partido Republicano (nos EUA têm de declarar o enviesamento partidário), fazia força por Kamala. Kamala tinha os falcões do seu lado.

A derrota da Kamala é a derrota da Imprensa corporativa. A derrota de Kamala é a derrota das narrativas encomendadas por Wall Street, Pentágono, CIA ou Casa Branca. Hoje, nos EUA, de acordo com a Gallup, já existem mais norte-americanos que não acreditam, de todo, na média mainstream, do que os que acreditam alguma coisa nela.

Trump usou isso de forma exaustiva. Da pós-verdade do primeiro mandato, ao descrédito total no segundo, Trump venceu a Imprensa Mainstream. Já Elon Musk e o seu Twitter desempenharam aqui um papel fundamental. O Twitter foi a força propagandística online de Trump. Nenhum ser deveria ter tanto poder como Musk, mas um dos responsáveis pela fabricação destes poderes “neofeudais” é o próprio Partido Democrata.

Em conclusão:

A derrota de Kamala é, assim, a vitória da demagogia política, do messianismo providencialista e do Supremacismo, do qual o Partido Democrata não se libertou e o qual também contribuiu para normalizar, permitindo a Trump ganhar, apesar dele, e da forma exacerbada como o defende. O Partido Democrata nunca o poderia desmontar na sua essência, pois os democratas também defendem a “liderança americana”, a “nação indispensável”, todos os slogans triunfalistas e neocolonialistas da elite estado-unidense, fabricados durante Clinton.

A vitória de Trump é a derrota das empresas de sondagens, denunciadas como instrumentos de construção de resultados, da democracia entendida com um sistema superior em que pessoas informadas e conscientes, fazem escolhas conscientes, de acordo com programas discutidos, reflectidos e debatidos.

O desfile de apoiantes de Trump sem o mínimo de decência política, intelectual ou ideológica, ou o desfile de apoiantes de Kamala sem a mínima capacidade de transmitir ideias, num e noutro caso, apenas chamados à ribalta em função da sua popularidade, constitui um dos tristes episódios deste decadente espectáculo circense, a que chamam eleições nos EUA.

Por fim, Kamala, desta feita, impediu, com a sua desinteligência, o Partido Democrata de capitalizar: os votos relacionados com a limitação do uso de armas, pois apresentou-se como alguém que as usa, falando disso com orgulho, o que não deixará de ter chocado muito boa gente; os votos dos migrantes e descendentes de migrantes, preocupados com a agressão constante, pelos EUA, aos seus países de origem (caso dos Chineses, Iranianos, Cubanos, Árabes e muitos outros); os votos pró-palestinianos e muitos votos das classes trabalhadoras.

Falhou em estabelecer uma diferença real para a política de Trump e, assim, ou provocou a desmobilização dos seus apoiantes e, pelos factores que referi, a deslocação de muitos para a outra candidatura. O peso das questões internacionais pode não ser muito grande, mas por elas vemos que pouco distancia Kamala de Trump. O que é inaceitável, em democracia.

No final a conclusão só pode ser uma: ganhasse quem ganhasse, o povo norte-americano perderia sempre. Votar em Trump para resolver os problemas das condições de vida das massas trabalhadoras norte-americanas é como deixar alguém no deserto, porque esse alguém está com sede!

Vejam lá o deserto estamos enfiados!

Fonte aqui.


Para o bem ou para o mal, ganhou quem o povo quis

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 07/11/2024)

The Deep State…

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Estas eleições nos EUA provaram, pelo menos, uma coisa: o Deep State e os poderes hostis ocultos, que conspiram nos bastidores e governam secretamente o país, não são todo-poderosos. Podem claramente ser derrotados quando o povo fica farto.

Neste ciclo eleitoral tentaram praticamente de tudo, e nenhum dos seus anteriores métodos foi suficiente para defraudar e roubar a eleição a favor do seu candidato. Desde a fraude nas máquinas de votação eletrónicas, à recolha de votos, votos por correio, sondagens e inquéritos falsos, resultados de sondagens fraudulentos no Google e noutros locais, até à grande questão e golpe: uma invasão em massa de migrantes ilegais, destinada a instalar um regime permanente de vitória do voto democrata, em perpetuidade.

Nada disto resultou, e Trump venceu à mesma e com uma vitória republicana esmagadora. Os republicanos ganharam o Senado e a Câmara dos Representantes, com vários lugares recuperados em cada uma das instituições. O lado republicano controla agora todos os pilares do governo e, poderá vir a dar carta-branca a Trump para este fazer grande parte da limpeza da casa que prometeu.

O outro enorme elefante na sala – que ficou absolutamente exposto com esta eleição – é que agora é um facto inegável e irrevogável que os resultados em 2020 foram completamente ROUBADOS.

Pois é. Vejam-se os números das contagens de votos nos candidatos Democratas das últimas cinco eleições, e tenha-se presente que nunca, como nas eleições de Obama, houve uma tão grande mobilização do eleitorado democrata… O gráfico que se segue diz tudo, de tal modo que até as virgens woke vão perceber a marosca.

2008 Obama – 69,5 M

2012 Obama – 65,9 M

2016 Hillary – 65,9 M

2020 Biden – 81,3 M

2024 Harris – 66,4 M