O justo direito à indignação…

(Manuel Augusto Araujo, in Facebook, 13/01/2025), revisão da Estátua)


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Estou estupefacto!

Muito atento às preclaras, inteligentíssimas, informadíssimas e seguríssimas intervenções das Dianasoleres, Botelhosmonizes, Isidrosmoraispereiras e demais tropa fandanga de comentadores da mesma estirpe – as únicas que nos guiam, autênticos faróis iluminantes na complexidade das relações internacionais, em particular da guerra que se trava no território da Ucrânia -, estava eu convencidíssimo de, além da Ucrânia estar à beira de derrotar a Rússia, que Zelensky ia humilhar Putin, obrigando-o a negociar um cessar-fogo com todas as condições do seu plano de paz.

Afinal, sou subitamente surpreendido por ler a notícia em vários jornais internacionais de que Trump e Putin se preparam para negociar um possível fim da guerra na Ucrânia sem convidarem o Zelensky, a Ursula, a Kallas, o Rutte, para essa negociação!

Estou mesmo aparvalhado! Como é possível acabar por acontecer um encontro Trump/Putin deixando à porta – e sem direito a abrirem a boca – tão excelsos políticos? E sem darem ouvidos aos excelentíssimos comentadores nacionais que desmentiam e punham em causa as análises dos majores-generais Agostinho Costa e Carlos Branco e também do Tiago André Lopes?!

 É um desaforo! Estou indignado! Gente tão inteligente e brilhante afinal andou – e ainda vão continuar a andar -, a pregar aos peixes!

O testamento do “presidente” Blinken

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 10/01/2025)

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Antony Blinken, secretário de Estado da Administração Biden, concedeu no dia 2 uma entrevista de 50 minutos à jornalista Lulu Garcia-Navarro, do jornal The New York Times. Blinken (n. 1962) iniciou-se no poderoso e blindado círculo dos demiurgos da política externa norte-americana em 1994, ao tempo de Clinton, voltando em força nas Administrações Obama. Atingiu com Biden o topo da sua carreira, sendo hoje reconhecido como o verdadeiro presidente em exercício, em virtude do crepúsculo intelectual de Biden, cruelmente exposto perante o auditório universal. As suas decisões, que já causaram morte e sofrimento em vários continentes, não parecem ter abalado este homem, de ar sereno e tímido, conhecido pela sua perícia como guitarrista.

A entrevista vale pelo que manifesta e pelo que esconde. Comecemos pelos três principais temas colocados pela jornalista: Afeganistão, Ucrânia e Israel. Em todos eles, o entrevistado insistiu num balanço positivo (“a América está mais forte”), furtando-se em alta velocidade às observações incómodas da jornalista.

Não foi a retirada do Afeganistão um desastre humilhante, deixando milhões de mulheres sem esperança nem futuro? Não. Blinken congratula-se com o acabar de uma guerra de 20 anos, sem se deter na (ir)racionalidade da intervenção americana…

Em relação à Ucrânia, fugiu da tese oficial da “invasão não-provocada”, afirmando que os EUA prepararam militarmente a Ucrânia para a guerra. Isso significa reconhecer que Moscovo, afinal, atacou preventivamente um país que se tornara um membro de facto da NATO.

Ficou em branco quando interrogado sobre a ausência de esforço diplomático americano. Na verdade, Washington e Londres pressionaram Kiev a não aceitar a paz de Istambul, sacrificando a sociedade ucraniana, não por uma vitória impossível, mas visando “sangrar” a Rússia.

Blinken emudeceu quando interrogado sobre a sua responsabilidade pessoal no apoio dos EUA ao genocídio em curso de Israel contra o povo palestiniano. As suas respostas mostram como Washington se enredou na armadilha, já denunciada por Nixon, do “sionismo americano”: sacrificar os interesses dos EUA como potência global no altar da agenda expansionista do Grande Israel.

A entrevista ignorou o facto de este ser o período mais turbulento de transição presidencial desde a eleição de Lincoln em 1860, na véspera da Guerra Civil. Blinken esqueceu a escalada dos ATACMS lançados contra a Rússia, a desestabilização da Geórgia, o cancelamento das Eleições Presidenciais na Roménia, o assalto de terroristas “reciclados” a Damasco, concertado com a Turquia, Israel e Arábia Saudita (que abre o caminho para um eventual ataque ao Irão), o golpe de Estado falhado do presidente sul-coreano.

Nenhuma destas ocorrências, caracterizadas pela coerção e violência, seria possível sem envolvimento direto dos EUA. Em 2025 só mudou o calendário. As hipóteses de pacificação geral oscilam entre o improvável e o quimérico.

Professor universitário

A ferrovia e o fogo: um caminho de facilitação disfarçada

(João-MC Gomes, In VK, 14-01-2025, revisão da Estátua)


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Enquanto o fogo consome as terras do Vale Central da Califórnia, o projeto de trem de alta velocidade segue a sua trajetória de avanços, com promessas de modernidade e eficiência. Porém, uma curiosa coincidência parece desenhar um cenário de interesses interligados: as chamas destroem habitações e vidas, ao mesmo tempo que abrem caminho para uma infraestrutura que, se concluída, promete transformar uma vasta região agrícola e habitacional numa via de comunicação ultrarrápida entre Los Angeles e São Francisco.

Nas últimas semanas, as imagens da Califórnia devastada pelos incêndios tornaram-se rotina. Florestas e fazendas foram consumidas, cidades e vilarejos apagados, deixando apenas escombros e cinzas.

Enquanto isso, o traçado do California High-Speed Rail, que atravessa as mesmas áreas atingidas, não passou despercebido. A linha que corta o estado, separando cidades como Fresno e Bakersfield, e se estende até a região da Baía de São Francisco, acaba por coincidir, quase com precisão, com os locais mais atingidos pelos incêndios. Coincidência? Talvez. Mas a presença constante do fogo no caminho da ferrovia levanta questões.

O projeto, que se pretende uma solução para o transporte e a mobilidade no estado, esconde um potencial muito maior do que a simples promessa de trens rápidos e viagens sem pressa. Ele surge num contexto onde o estado da Califórnia, já assolado por desastres naturais e um mercado imobiliário em constante expansão, agora vê uma oportunidade disfarçada: a limpeza das áreas devastadas. Áreas antes densamente povoadas, agora reduzidas a escombros, tornam-se de repente ideais para um novo tipo de ocupação. As casas queimadas podem nunca mais ser reconstruídas nos mesmos locais, mas o traçado da ferrovia, esse, continuará intacto.

E a pergunta que fica no ar é: estamos diante de uma limpeza forçada para facilitar a expansão de um projeto ambicioso? O fogo, que destrói, parece atuar também como um agente de mudança social e urbana. As áreas devastadas pelo incêndio são agora zonas de risco para reconstrução, com o governo da Califórnia, no interesse da segurança pública e da modernização, oferecendo novas formas de ocupação, mais alinhadas com a infraestrutura do futuro. O traçado da ferrovia, que nunca passaria por áreas habitacionais mais desenvolvidas, parece encontrar a sua rota justamente onde o fogo já cumpriu o seu papel de transformação.

Não seria mais do que uma estratégia para reorganizar o espaço, deslocando populações e criando novas oportunidades de desenvolvimento, onde o capital privado vê não só a urgência da reconstrução, mas a possibilidade de maximizar lucros em terrenos anteriormente desvalorizados. Os incêndios, ao fazerem desaparecer as comunidades locais, abrem um caminho de terras vazias, prontas para receberem novos projetos urbanos, mais “compatíveis” com os requisitos modernos, onde a ferrovia será a espinha dorsal do progresso.

Esse jogo de interesses não é novo. Ao longo da história, grandes projetos de infraestrutura, como ferrovias e rodovias, muitas vezes coincidiram com processos de deslocamento forçado de comunidades, seja por guerras, desastres ou interesses económicos. O incêndio pode não ter sido planeado, mas certamente oferece a chance de reconfigurar a paisagem da Califórnia, permitindo que as terras que antes abrigavam casas simples e fazendas familiares agora sejam transformadas em corredores para o futuro.

E assim, à medida que o trem de alta velocidade avança, percorrendo um caminho traçado pela devastação, é necessário questionar: até que ponto as tragédias naturais não acabam, também, sendo aproveitadas como peças-chave em um grande projeto de transformação? O fogo, que destrói vidas e casas, pode ser o mesmo que pavimenta o caminho para o desenvolvimento de um futuro que, em grande parte, se constrói sobre os destroços do passado.