Os direitos civis estão a ser destruídos em todo o Ocidente ao serviço de Israel

(Caitlin Johnstone, 08/02/2025, Trad. Estátua de Sal)


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O jornalista britânico Richard Medhurst está a ser perseguido mais uma vez pela polícia federal em mais uma nação ocidental por causa das suas reportagens sobre os abusos de Israel e dos seus apoiantes ocidentais, desta vez na Áustria. A polícia austríaca e os serviços de inteligência supostamente detiveram Medhurst em Viena na segunda-feira, depois revistaram a sua casa e apreenderam dispositivos eletrónicos, dizendo que o fizeram sob suspeita de ele ser um membro do Hamas.

Em agosto, Medhurst foi preso pela polícia antiterrorista britânica  com base na Seção 12 da Lei de Terrorismo do Reino Unido de 2000 e detido por durante horas, supostamente por expressar opiniões políticas consideradas muito simpáticas para com um grupo terrorista proibido.

Por outras palavras, um jornalista ocidental foi alvo e perseguido pelas autoridades policiais em vários países ocidentais por ter um discurso crítico sobre Israel.

Podem ver o vídeo com legendas em inglês (devem ser ativadas nas opções).

Isso aconteceu dias depois de o jornalista Ali Abunimah ter sido preso por duas noites pela polícia suíça por expressar juízos errados sobre Israel, e dá continuidade a uma tendência que vem aumentando desde o início do holocausto em Gaza.

Realmente, pasmem e reflitam no quão arrepiante e assustador é os direitos civis estarem a ser sistematicamente desmantelados em todo o mundo ocidental em nome da proteção dos interesses de informação de um estado genocida de apartheid no Médio Oriente.

Por ordem do presidente Trump, foi lançada nos EUA  uma task-force multi-agências com o propósito oficial de combater o antissemitismo nas escolas e nas universidades, e o propósito não oficial de visar ativistas pró-Palestina .

As coisas estão a ficar mal, também aqui na Austrália. Noutro dia, um jornalista desportivo foi demitido por partilhar no Twitter/X informações factuais sobre os abusos de Israel e foi informado de que a sua demissão tinha ocorrido porque as suas partilhas fizeram com que os judeus em Melbourne “se sentissem inseguros” ao ouvir a sua voz pela rádio. O chefe da emissora estatal australiana ABC acabou por dizer que é antissemita usar a frase “ocupação ilegal da Palestina”, justificando com esse argumento a demissão pela instituição da jornalista Antoinette Lattouf, que também foi demitida por tweetar factos sobre a criminalidade de Israel em Gaza.

Recentemente, percebi que eu mesma estou a ser seguida/monitorada no Twitter pelo presidente da Federação Sionista da Austrália, que desempenhou um papel de liderança  na eliminação das críticas a Israel e em atingir jornalistas no meu país. É uma sensação desconfortável perceber que esses malucos te estão a observar.

O ex-ministro da defesa israelense Yoav Gallant admitiu o facto já estabelecido de que as IDF causaram muitas das mortes e da destruição vistas em 7 de outubro, quando as suas forças começaram a atirar sobre israelitas para impedir que fossem feitos reféns, dando cumprimento, assim, à notória Diretiva Hannibal de Israel.

É isso mesmo, crianças, nunca se esqueçam de 7 de outubro, aquele dia terrível em que mil israelitas foram massacrados por balas, tanques e helicópteros israelitas, e também um pouco pelo Hamas.

Tudo o que temos visto em Gaza e na Cisjordânia tem sido o resultado de uma agenda para remover todos os palestinianos da Palestina por meio da morte ou deslocamento. Tudo. Nunca foi sobre combater o terrorismo. Não é sobre resgatar os palestinianos de um enclave em ruínas. Nunca foi sobre autodefesa. Nunca foi sobre reféns. Sempre foi sobre acabar com a existência de palestinianos na Palestina para que os seus territórios possam ser totalmente propriedade de judeus israelitas.

Isso tem sido verdade para todas as ações abusivas de Israel desde outubro de 2023, e foi verdade para todas as ações abusivas de Israel antes de outubro de 2023. É a isso que os palestinianos estão a resistir, e isso foi o principal motivo da ocorrência do 7 de outubro. Estamos a assistir a uma população indígena a utar contra uma agenda — uma agenda que é apoiada por um império global inteiro — para acabar com sua existência como um povo na sua terra natal.

É o cúmulo da submissão os Democratas estarem a considerar, esse plano de limpeza étnica, como um empurrão que surgiu do nada, quando Trump assumiu o cargo. A limpeza étnica SEMPRE foi o plano para o dia a seguir à demolição de Gaza. Eu mesma escrevi sobre isso constantemente durante o governo Biden , assim como muitos outros. Que Israel estava a usar o 7 de outubro como desculpa para outra apropriação colonial de terras era claramente óbvio desde o início , e tornou-se cada vez mais óbvio à medida que Israel sistematicamente transformava Gaza num deserto inabitável , destruindo deliberadamente tudo o que era necessário à vida humana.

O genocídio aconteceu enquanto Biden era presidente. Biden cometeu o assassínio, Trump é apenas o tipo que apareceu para ajudar Israel a livrar-se do corpo. São apenas partes diferentes do mesmo crime. Você não comete um assassínio sem um plano para se livrar do corpo, e você não pode livrar-se de um corpo sem ter cometido o assassínio primeiro.

Os fiéis do Partido Democrata apontam e gritam para o mafioso que está a afundar o corpo no rio, dizendo: “Olhem! Ele matou aquele tipo, sozinho!”, como se não tivéssemos todos presenciado o outro mafioso a dar um tiro na cabeça da vítima.

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Fonte aqui.


Volodymyr, chegou o momento de capitular

(Paulo Hasse Paixão, In Blog Contra Cultura, 11/02/2025)


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De certa forma, Volodymyr Zelensky merece algum crédito. Ao contrário da maioria dos líderes ocidentais, ele sabe como defender os seus próprios interesses e os interesses da sua causa.

Não há melhor exemplo do que as suas declarações da semana passada, proferidas numa entrevista grotesca que concedeu a Piers Morgan, que é um declarado fã do seu regime e abdicou da profissão de jornalista para fazer parte da claque. Nesse simulacro de entrevista, Zelensky afirmou que se os Estados Unidos não puderem garantir ao seu país um caminho rápido para a adesão à NATO, então aceitará armamento nuclear como prémio de consolação.

Vale a pena parar para reflectir bem nestas palavras. Ambas as possibilidades são essencialmente equivalentes. Se a primeira acontecer, a Ucrânia junta-se oficialmente à anacrónica e falhada aliança anti-Rússia do Ocidente, circunstância que dá direito à instalação de armas nucleares na Ucrânia. Isso significa que a Rússia partilharia uma fronteira com um adversário apoiado pelos EUA e armado com mísseis nucleares, o que, compreensivelmente, o Kremlin considera inaceitável. O segundo cenário teria exactamente o mesmo resultado. A Ucrânia recebe armas nucleares e, na melhor das hipóteses, a sua guerra com a Rússia arrasta-se como tem acontecido há três anos. Na pior das hipóteses, sucede o Armagedão.

Tudo isto é evitável. Zelensky pode fazer as exigências que quiser, mas o seu destino, em última análise, está nas mãos de Donald Trump. Tal como Israel, a Ucrânia está extremamente dependente do financiamento dos contribuintes americanos para continuar a guerra. A ameaça do presidente dos EUA de retirar o apoio financeiro e militar pode ser a única forma de conseguir uma mudança significativa que conduza à paz.

Mais: se Donald Trump quer fazer parte do processo de cessação das hostilidades, a sua única saída será mesmo essa – a de retirar todo o suporte a Kiev. Caso contrário, a guerra vai acabar apenas quando Vladimir Putin achar que os seus objectivos estão cumpridos.

E sendo que dificilmente não o serão, a missão pode durar ainda mais um ou dois anos a cumprir e custará mais centenas de milhar de mortos, pelo menos, a russos e ucranianos, e a destruição total da Ucrânia.

Chegou a altura de dar ao líder ucraniano uma notícia definitiva: o jogo acabou. A nova prioridade dos Estados Unidos deve ser acabar com o derramamento de sangue na Europa de Leste, e não continuar a doutrina Biden de prolongar ao máximo a chacina, sabe-se lá em nome de que objectivos. Se para isso for necessário que Zelensky faça concessões, como permitir as eleições a que, mesmo em tempo de guerra, a sua constituição o obriga, ceder os territórios do Dombass e desistir de aderir à NATO ou de adquirir subitamente um arsenal nuclear, então que assim seja.

Até porque o Kremlin não aceitará qualquer compromisso de paz que não passe por estas premissas básicas.

É muito simples, na verdade. Está na altura de acabar com a violência, a morte e a destruição por uma causa perdida. E capitular.

Fonte aqui.


Os órfãos da USAid

(Bruno Carvalho, in Manifesto74, 11/02/2025)


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Como afirmou o detective Lester na série The Wire, se seguirmos a droga encontraremos agarrados e traficantes, mas se começarmos a seguir o dinheiro não sabemos onde vamos acabar. Em muitos países, se procurarmos de onde vem o financiamento de certas organizações da oposição, de partidos, meios de comunicação social e ONGs é provável que acabemos em Washington. 

A seguir ao ataque da resistência palestiniana, a 7 de Outubro de 2023, as autoridades israelitas trataram de atribuir ao Hamas uma série de crimes inexistentes com o propósito de ganhar a opinião pública mundial para o seu lado. O mais mediático foi a morte de 40 bebés decapitados às mãos dos combatentes palestinianos. Mais tarde veio a descobrir-se que era mentira. Nessa operação de propaganda, Israel convidou, através das suas embaixadas no mundo inteiro, jornalistas, analistas, comentadores, académicos para servirem de veículos à sua narrativa. Portugal não foi excepção.

É comum que embaixadas, ou institutos culturais relacionados com outros países, promovam actividades de diferentes âmbitos que aproximem a intelectualidade portuguesa. A Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e o Goethe Institut são apenas alguns dos exemplos. Algumas destas entidades atribuem prémios e bolsas e apoios a diferentes projectos. De certa forma, funcionam como agentes de influência e cumprem uma estratégia que, parecendo inócua, tem objectivos políticos.

Apesar do genocídio em curso contra os palestinianos em Gaza, a despedida do então embaixador israelita em Lisboa, Dor Shapiro, não foi menos alegre ou menos participada. Para além de Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Rodrigo Saraiva (IL), Pedro Frazão (Ch), Pedro Delgado Alves e Sérgio Sousa Pinto (PS), Alexandre Poço (PSD) e Telmo Correia (CDS), estiveram presentes os comentadores Helena Ferro Gouveia, Nuno Rogeiro e Liliana Reis, professora universitária precisamente na área da política internacional e deputada do PSD. Podemos especular que a não haver genocídio teria havido muitos outros e que muitos dos que participaram nos briefings de propaganda da embaixada preferiram o recato.

Festa de despedida do embaixador israelita em Portugal. A Ferro Gouveia na linha da frente, como sempre, a apoiar genocidas.

Nesse sentido, não é novidade que os Estados Unidos têm diferentes ferramentas para interferir noutros países. A notícia da suspensão da USAid por Trump destampou precisamente de que forma chegava o financiamento norte-americano a associações, partidos, meios de comunicação social, ONGs, entre outros. Por exemplo, dedicou 26 milhões a três organizações relacionadas com o processo eleitoral na Geórgia em plena convulsão social. No caso da Colômbia, os guardas fronteiriços também eram pagos pela USAid, denunciou o próprio presidente Gustavo Petro, e, na Ucrânia, a maioria dos jornalistas depende de Washington para receber os seus salários. A muito questionável Repórteres Sem Fronteiras de forma hipócrita veio dizer que a suspensão da USAid vai atirar o jornalismo “independente” no mundo para o caos quando sabe perfeitamente que não há jornalismo totalmente livre, e muito menos independente, na Ucrânia. De acordo com a Columbia Journalism Review, a USAid apoiou 6.200 jornalistas, 707 meios e 279 organizações da sociedade civil do setor dos media em 30 países diferentes.

A verdade é que, de forma subtil, os Estados Unidos usam todas as ferramentas para interferir e destabilizar outros países. Em 2014, o The Guardian, jornal britânico insuspeito de simpatias com Cuba, noticiava que os Estados Unidos, através da USAid, tinham criado secretamente uma rede social para promover a revolta entre a população cubana contra o governo. A rede social chamava-se Zunzuneo, parecida com o Twitter, e começou a funcionar em 2010. A administração norte-americana propôs que se começasse com uma base de subscritores com conteúdos inócuos como poderiam ser notícias sobre desporto, música e alertas de furacões. De acordo com a Associated Press, criaram falsas empresas que usaram contas bancárias em paraísos fiscais e a rede social chegou a ter 40 mil utilizadores. 

Este é apenas um dos muitos exemplos de como os Estados Unidos utilizaram o dinheiro da USAid para financiar oposições, meios de comunicação social, golpes de Estado, etc. Tudo aquilo que acusam a Rússia e a China de fazer é, na verdade, concretizado pelos Estados Unidos a uma escala e com um alcance nunca antes vistos.

Quando vários países, incluindo a Rússia, decidiram proibir ou condicionar a actividade de ONGs financiadas pelo exterior sabiam bem o que estavam a fazer. Desde logo porque os Estados Unidos têm uma lei parecida. Para evitar que lhes façam a eles o que fazem aos outros. 

Fonte aqui