Carta a uma ovelha

(Joana Amaral Dias, in Sapo, 19/02/2025)


Para quem preferiu o conforto do rebanho ao confronto com a realidade, ao pensamento crítico e independente, este momento talvez seja cru e cruel.


Três anos depois, tu que andaste a agitar bandeirinhas da Ucrânia ao som de John Lennon, a ir a manifestações (se é que não foste à fronteira apanhar refugiados), como te sentes agora que Trump negoceia diretamente com Putin? Tu que acreditaste nos milhares de programas e podcasts que te garantiam a vitória de Kiev, tu que ganhas mal mas apoiaste gordas remessas dos teus impostos para Zelensky, tu que creste no palhaço que virou herói tipo instantâneo, que sentes hoje, quando  a Rússia terá o que esperava?

Enfim, nesta altura é evidente que a Europa sofre de disfunção erétil, padece de Alzheimer estratégico e tem as rótulas rebentadas, em virtude da sua permanente genuflexão aos EUA. Sem tesão, cognitivamente comprometida e sem mobilidade… não vai longe. Não vamos longe.

Na verdade, todos estes desenvolvimentos só podem surpreender quem não entendeu que esta sempre foi uma guerra por procuração dos norte-americanos, quem papou a treta de ser possível derrotar Moscovo, engoliu a narrativa de que se tratava de “uma guerra na Europa” e de que salvar Kiev era salvar Berlim ou Paris. Ou Lisboa. A guerra sempre foi EUA-Rússia, logo, assim será solucionada. E salvar Kiev era mais enterrar Paris ou Lisboa, como se tem visto.

Para quem preferiu o conforto do rebanho ao confronto com a realidade, ao pensamento crítico e independente, este momento talvez seja cru e cruel. Compreendo. A minha solidariedade. Talvez seja fraco consolo, mas não foste só tu a ser enganado. Uma parte da elite europeia também. Outra só se vendeu. É a mesma que agora anda a mendigar um lugar cimeiro na mesa de negociações de paz. Na verdade, se a Europa tiver assento será na última fila, porque na primeira só está quem tem poder e não os da servidão voluntária. E, já agora, a cabeceira é para quem algum dia defendeu a Paz, coisa que, como sabes, a Europa jamais fez. De resto, a própria Ucrânia também só arranjará um lugar manhoso de visibilidade reduzida posto que aceitou ser carne para canhão dos EUA nos dias pares e corrupta nos ímpares (disfarçá-la  e continuá-la são os motivos pelos quais lhe interessa persistir  na guerra).  Enfim, António Costa, Von der Leyen ou Zelensky deviam saber que a criadagem nunca se senta à mesa dos patrões.

Tu até sabes disso, mas estás há demasiado tempo na gruta de Platão e os teus olhos já não suportam a luz. Repara: a única saída digna para a Europa seria pugnar por eleições livres, justas e fiscalizadas na Ucrânia (há muito que passaram o prazo). Só assim, conhecendo a real vontade do povo ucraniano, o poder político legitimado de Kiev teria condições para negociar a paz.

Mas não é isso que se avizinha. Enquanto Macron convidou os principais países europeus para debater a situação, Portugal ficou de fora, ainda que muitos milhões dos nossos impostos já lá estejam dentro. Sem V de volta. Ou seja, tudo indica que a Europa prescindirá do último trunfo que lhe restaria e vai acabar por pagar a reconstrução da Ucrânia. Enquanto isso, a exploração de matérias-primas, das terras-raras e dos metais valiosos ficará para os EUA. Faz parte da História. Portugal, já não. É pena. Mémé.

Ativista política 

Fonte aqui.

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Análise militar e geopolítica da guerra na Ucrânia e negociações EUA-Rússia

(Major-General Carlos Branco, in CNN, 18/02/2025)


Carlos Branco olhou para esta fotografia da reunião convocada por Macron onde está António Costa e diz que é “uma lástima”.


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Resumo das negociações EUA-Rússia:

1: Relações EUA-Rússia: Diplomacia e Economia em Destaque

O encontro entre os principais diplomatas dos Estados Unidos e da Rússia na Arábia Saudita teve como objetivo principal normalizar as relações entre as duas potências globais. A diplomacia será o principal campo de ação, mas também haverá discussões sobre economia e outros temas.

2: Ucrânia: Tema Presente, mas Separado

A Ucrânia foi um tema discutido na reunião, mas não foi o foco principal. O encontro serviu para preparar uma futura reunião entre os presidentes Putin e Trump, que discutirão os detalhes do conflito.

3: Foco na Economia

Os Estados Unidos foram afetados pelo conflito ucraniano em cerca de US$ 320 bilhões. A normalização das relações seria benéfica para o presidente Trump, que é sensível a esse argumento. A questão económica deve sobrepor-se a outros aspectos, pois terá um papel crucial na normalização das relações.

4: Implicações da Proposta de Metais Raros

A proposta de extração de metais raros na Ucrânia, apresentada pelo presidente Zelensky, não está sendo bem recebida por ele. Os Estados Unidos reivindicam 50% dos projetos em andamento e futuros, o que pode ter consequências para a economia ucraniana e sua possível adesão à União Europeia.

5: Europa Descoordenada

A visita do enviado especial dos EUA para a Ucrânia à Europa levantou questões sobre a coordenação na região. Os EUA enviaram um questionário aos países europeus, ultrapassando a OTAN e a UE. Isso indica uma postura política que deve ser considerada.

A Europa enfrenta desafios na liderança do processo de paz na Ucrânia. A falta de um representante especial e a ausência de uma reunião do Conselho Europeu para discutir o tema são vistos como erros estratégicos.

6: Quem Lidera o Processo de Paz?

O encontro em Paris, convocado por Macron, reuniu vários líderes europeus, mas não definiu quem lideraria o processo de paz na Ucrânia. Macron, Stoltenberg e outros fizeram declarações contraditórias sobre o envio de tropas e garantias de segurança.

A incapacidade da Europa em se coordenar e definir uma estratégia única é lamentável e prejudica seu papel no conflito. A União Europeia precisa nomear um representante especial para coordenar os esforços diplomáticos e liderar as discussões com a Rússia.

7: Garantia de Segurança: Um Desafio para a Europa

Os Estados Unidos descartaram fornecer garantias de segurança à Ucrânia. A Europa, no entanto, não tem capacidade ou intenção clara de assumir esse papel. A falta de clareza quanto ao objetivo estratégico e à missão militar na Ucrânia torna o debate sobre garantias de segurança fútil.

8: Forças Armadas Europeias: Capacidade Limitada

Os números do mapa de forças armadas dos países europeus mostram que eles não têm a capacidade militar necessária para oferecer garantias de segurança à Ucrânia. A vontade política e a capacidade de recrutar e manter tropas também são questionáveis.

De salientar que a diplomacia tem sido um “tabu” para a Europa neste conflito, o que pode causar ainda mais desconforto pela persistência da tomada de políticas de Biden, não estando ainda adaptada para uma nova realidade.

Podem abaixo ver o vídeo com toda a análise, obtido do canal do YouTube @PovoEnganado.

Analisando a análise do analista

(Tiago Franco, in Facebook, 18/02/2025, Revisão da Estátua)

Saia um camuflado para a Helena! Guerra é mesmo com ela! 🙂

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Dir-me-ão que analisar é uma especialidade ao alcance de poucos iluminados. Eu acho que não. Aliás, se pensarem nisso, não fazemos outra coisa na vida. Desde que acordamos até que nos deitamos, estamos sempre a analisar qualquer coisa.

A estrada mais desimpedida para chegar ao trabalho e fugir ao trânsito. A melhor solução para o problema colocado pelo chefe. Que broca usar para não fazer uma cratera enquanto penduras aquele quadro que está no chão há cinco meses. Como explicar aos miúdos que a vida não segue um roteiro do Netflix. Em que partido votar consoante a história que nos contam. Que parangona de primeira página tem um corpo de notícia que a confirme. Até se aquela casa de banho pública onde entraste no momento de aflição reúne os mínimos olímpicos para o alívio desejado.

Analisar é, perante um conjunto de dados, pensar no seu significado. Mais ou menos elaborado, é isto. Todos conseguimos analisar, uns explicam-se melhor, outros pior. Mas desde que tentemos dizer aquilo que vemos, tudo bem.

A minha carga laboral retira-me o tempo necessário para seguir os passos da atualidade como eu gostaria. Pelas minhas contas assim continuará por mais três anos e, como tal, procuro com a ajuda dos analistas de serviço para ir percebendo o que se passa.

Funcionam, para mim, como aquele resumo dos Maias, das edições Europa-América, que todos usámos para fazer a síntese, o resumo e a ideia geral da obra. Desde que trabalho para os camaradas chineses, esta é a única forma de saber para que lado roda a terra.

O meu método é simples mas moroso. Escolho um canal qualquer e vou ouvindo o que por lá explicam. Se passado algum tempo a realidade bate certo com o que ali dizem, seguimos juntos, como se diz na margem sul. Se vejo que é sempre ao lado, passo ao próximo, seja em que canal for.

Tirando o Rogeiro, o Sousa Tavares e mais dois ou três clássicos da RTP, eu não conhecia qualquer comentador da televisão portuguesa há uns três ou quatro anos. Por exemplo, o Luís Paixão Martins, que é um catedrático da comunicação, apareceu há uns anos num programa de futebol e eu não fazia ideia quem ele era. O mesmo para todos os que aparecem na CNN (conhecia a Anabela dos anos da AR) e da SIC apenas a rapaziada do Governo Sombra ou do Eixo do Mal.

Tentei ouvir uns quantos ao longo dos anos e fui percebendo, como todos nós, quem é que resumia a atualidade e quem é que espalhava “wishful thinking” que, no fundo, acabava por me fazer perder o dobro do tempo com verificação de factos. Se alguém me diz, durante três anos, que a Rússia está quase a colapsar, eu não consigo ouvir essa pessoa mais um minuto que seja. Porque, das duas, uma: ou é profundamente incompetente ou então tenta espalhar desinformação. Nenhum caso é particularmente apelativo.

Há um ror de exemplos de pessoas que, diariamente nas nossas televisões e sob a capa da “análise”, mentem descarada e repetidamente. Em alguns casos é até possível ver que, com o passar dos anos, o discurso vai-se radicalizando e a vergonha desaparecendo. Uma e outra vez dou por mim a ouvir um caderno de intenções próprias, pensamentos ideológicos e tiros que se afastam, em muito, do quotidiano.

Esclareço: eu nada tenho contra uma opinião, uma análise especulativa ou até um pressentimento com base na história e na experiência, do que será o amanhã. Mas por favor, não apliquem a mesma lógica para o que aconteceu ontem. Sobre o passado não dá para especular ou assumir. Os dados existem. Há que, com a melhor das capacidades, tentar explicar o que se passou.

E nada tenho contra quem se engana e assume o erro mas, como saberão, em Portugal, ninguém se engana. É preferível andar anos a vender uma história alucinante do que dizer: “enganei-me”. A nossa credibilidade depende de estarmos sempre certos. Mesmo quando é a fingir.

Zelensky disse que a Ucrânia não estará na conferência de paz. O enviado americano disse o mesmo. Já todos perceberam que a Ucrânia não conta para a discussão. Pois ainda ontem, o Isidro garantia que sem a Ucrânia não haveria conversa.

Do mural do X da HFG – Muita erudição

 Da mesma maneira que, durante a pandemia, a Helena Ferro Gouveia dizia que os não vacinados estavam a colocar as vidas dos outros em perigo ou ainda, ao fim de 10 000 crianças indefesas chacinadas em Gaza, repetia que “Israel tem o direito de se defender”.

 Da mesma forma que o João Marques de Almeida normaliza o Chega sempre que pode, comparando-o ao PCP e ao BE e o Sebastião Bugalho, na versão comentador, analisava sondagens e falava de estratégias eleitorais que raramente tocavam a realidade.

O Rogeiro também caiu nisso, depois de 30 anos de serviço, para nos dizer que os russos andavam descalços e a roubar máquinas de lavar, enquanto um fantasma do ar os arrasava.

Em tempos a Helena também disse que o PCP tinha votado contra o aborto. É um vale tudo desde que largou a DW e entrou no universo Galinha.

A Diana Soller andou por estes caminhos mas, aos poucos, foi moderando o discurso para mais próximo da realidade.

Mais do mural do X da HFG

Enquanto a Helena diz que o Hamas está destruído (o Twitter/X desta senhora é todo um novelo diário de ódio e propaganda), a Diana Soller já diz que está só enfraquecido. Vemo-los em cada sábado a fazer uma prova de força. Com propaganda, é verdade, mas estão lá. Não dá para dizer que foram todos apagados do mapa, pelo menos por enquanto.

E é isto que eu espero que me digam e analisem. O resumo do que aconteceu e o que imaginam que se seguirá. Não quero fretes, agendas ou mentiras em catadupa porque, enquanto espectador, essa merda dá-me um trabalho enorme para perceber a realidade. E falta-me tempo para isso. Tempo e paciência.

Por outro lado, escapa-me o interesse das televisões, que vivem de audiências, em albergar pessoal que, no essencial, estão lá para  criar narrativas alternativas e, pelo que vou vendo, ir arranjando umas colocações nos partidos e nas subvenções públicas. Acho pobre. Uma pessoa que “siga o mundo” através desta malta, forma opinião de uma realidade que não existe e vota também. Aliás, com o mesmíssimo peso de alguém que, de facto, percebe onde acaba a mentira descarada e começa a dúvida razoável. A comunicação social tem um peso importante na nossa formação, enquanto sociedade.

Nos dias que correm, fico-me pelo Daniel Pinéu, Carlos Branco, Tiago André Lopes, entre outros cujos nomes tenho mais dificuldade em guardar. Parecem-me sérios na análise e com conhecimento histórico que ajuda ao enquadramento.

Ela até mandava as filhas para a Ucrânia…

Acabo com um pedido ao CDS do Núncio e ao Chega do Frazão: não precisam lá de uma assessora que domine a geopolítica ao nível do genocídio do bem e do racismo aplicado ao falafel? O discurso já está há muito afinado, gosta de armas e tal como o Gouveia e Melo, também quer invadir umas cenas. Vejam lá isso. Os espectadores, com mais do que três neurónios, agradecem.