O charme discreto da União Europeia

(Manuel Augusto Araújo, In AbrilAbril, 24/02/2025)


A União Europeia assinala o dia 24 como o início de uma guerra em que a Rússia começaria pela Ucrânia a invadir toda a Europa até às Berlengas, não se percebendo qual o interesse da Rússia em invadir a Europa, a não ser que tivesse decidido alinhar com Mark Rutte para acabar com os gastos dos países do Sul em vinho e mulheres...


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Esta segunda-feira assinala-se o terceiro ano da invasão da Ucrânia pela Federação Russa, um salto qualitativo na guerra que se tinha iniciado em 2014, depois do golpe de Estado de Maidan, em que os bandos armados nazi-fascistas e o exército ucraniano procuravam liquidar as populações russófonas. Na realidade, a guerra era entre a NATO e a Rússia por interposta Ucrânia, com o objectivo de implodir a Federação Russa, dividindo-a em vários estados, devastar a sua economia submetendo-a à voracidade com que os EUA queriam apropriar-se dos seus recursos naturais. Projecto antigo dos neocons, sobretudo democratas mas também republicanos, neocons que têm a curiosidade de terem nas suas fileiras uma quantidade não negligenciável de ex-trotskistas à semelhança da esmagadora maioria dos soixante huitards franceses que agora militam nas direitas e extremas direitas. 

A manipulação da opinião pública pela comunicação social, actualmente controlada universalmente de forma esmagadora pelas oligarquias, e as redes sociais dos magnatas direitinhas tem construído uma sólida narrativa que atira qualquer evidência para as urtigas. Assinala o dia 24 como o início de uma guerra em que a Rússia começaria pela Ucrânia a invadir toda a Europa até às Berlengas, não se percebendo qual o interesse da Rússia em invadir a Europa, a não ser que tivesse decidido alinhar com Mark Rutte para acabar com os gastos dos países do Sul com os fundos europeus em vinho e mulheres, para os trazer para as virtudes dos frugais europeus que por seu turno seriam invadidos para os eslavos se rebolarem nos jardins do Borrell. 

Aturdidos com as marteladas que Trump está a dar no atlantismo, sem perceberem que ele é o grande vencedor desta guerra a que quer colocar um rápido ponto final para lucrar o mais possível com os seus destroços, a União Europeia (UE) manca e rota envia Dupond e Dupont a Kiev para visitar, aplaudir e acarinhar Zelensky, que, na sua barraca de tiro, dispara sobre tudo o que pode colocar em causa a sua imediata sobrevivência. Nem tudo são passos de dança como o que tentou engraxar os sapatos de Trump comprando os direitos de tradução para ucraniano das Memórias de Melanie Trump, como relatou o New York Times. Os outros lances são bem reveladores dos seus instintos ditatoriais no exercício de poder.  Uma das mais recentes vítimas foi o general Serhii Naiev, comandante das forças conjuntas do exército desde 2020,  afastado por ter criticado e considerar inaceitável um processo contra três comandantes acusados de não terem sabido defender a região de Kharkiv em maio de 2024. Nada de inesperado se for relembrado que outro general, Valerii Zaluzhnyi, comandante em chefe das Forças Armadas foi despachado para Londres como embaixador quando notoriamente a sua popularidade é muito superior à de Zelensky.

O último tiro foi em Petro Poroshenko, presidente depois do golpe de Maidan de 2014 a 2019, possível candidato em futuras eleições, e mais quatro oligarcas com o pretexto de negócios realizados antes de 2020, sancionados como traidores, proibidos pelo Conselho de Defesa e Segurança Nacional, um órgão do Estado directamente dependente de Zelensky, de saírem, de se movimentarem no país, de terem acesso aos seus bens. A situação é tão escandalosa que a advogada Oleksandra Matviichuk, laureada com o prémio Nobel da Paz em 2022, deplora nas redes sociais «A pior coisa a fazer na situação que atravessamos é desencadear uma guerra política interna numa altura em que é importante agir como uma só equipa nacional na cena internacional». Nada ou praticamente nada disto é relatado nos media e não comove a pandilha dos burocratas de Bruxelas que envia Ursula e Costa para as louvaminhas de dia 24. Fingem não perceber que o que interessa a Zelensky e à sua camarilha é safarem-se entre os pingos da forte chuva que está a desabar, protegendo as suas negociatas entre as curvas e contracurvas de uma possível paz que está a ser agenciada entre os EUA e a Federação Russa, os verdadeiros sujeitos no terreno. Toda essa gentalha, políticos, comentadores, jornalistas ainda conseguem encher a boca com a democracia na Ucrânia, a legitimidade democrática de Zelensky, depois de ter proibido todos os partidos da oposição, ter prendido, até mesmo assassinado dirigentes e militantes desses partidos o que toleraram como os três macacos que cobrem os olhos, tapam os ouvidos, fecham a boca mesmo agora quando ataca sem fás nem nefas potenciais rivais que têm estado ao seu lado. Continuam descaradamente a afirmar que se está a defender militar e politicamente uma democracia!  

A UE, dispensada de qualquer participação imediata e significativa, procura ficar na fotografia assistindo a essas facécias zelenskianas. Lá vão Ursula e Costa visitar a barraca de tiro de Zelensky começando por assistir ao documentário Timisoara12 filmado em Butcha, para depois entre variados números de beijos e abraços reafirmarem o seu inabalável apoio até à Rússia ser derrotada, ainda que aturdidos com a realidade da frente de batalha. Antes de partirem, a alucinada Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Kaja Kallas, tinha-os confortado com as suas certezas: «Vladimir Putin não conseguiu atingir nenhum dos seus objectivos estratégicos (…) A Rússia quer que o mundo acredite que pode manter esta guerra indefinidamente, mas a realidade é diferente. Os limitados ganhos territoriais da Rússia são acompanhados de baixas militares insustentáveis e de uma economia em colapso e o tempo não está do lado da Rússia». Os limitados ganhos territoriais são quase 25% do território ucraniano e, de facto, a Rússia enfrenta um grave problema com a inflação. Todos os outros dados económicos contrariam Kallas e as suas certezas de pacotilha. Enquanto, em 2024, a UE cresceu 1,1% e a zona euro 0,9%, a Rússia cresceu 4,1%. Se atentarmos na dívida pública e externa, a da Rússia é de 21% e 14,8%, respectivamente, enquanto a das principais economias da UE são: Alemanha 72,8% e 157,70%; França 122,51% e 266,67%; Itália 158,93% e 128,67%; Espanha 123,61% e 171,51%, fora da UE, o Reino Unido 112,5% e 301%. Isto deve-se, sobretudo, à política de sanções, especialmente as dirigidas à energia, entre quatro a cinco vezes superiores ao que custava quando o principal fornecedor era a Federação Russa, o que para alegria de Trump, já agora dos seus antecessores, coloca a Europa na sua dependência com as indústrias a deslocalizarem-se para a China e também para os EUA.

Kaja Kallas, se tivesse uma migalha de senso comum, devia olhar para o seu país, a Estónia, e para os outros estados bálticos, Letónia e Lituânia, que recentemente se desligaram da rede eléctrica controlada pela Rússia, pondo fim a essa dependência energética,  para se integrar no sistema eléctrico da União Europeia, através da ligação à rede da Europa Ocidental. O que foi festejado e aplaudido em festanças com as donas constanças, Ursula e Kallas. O resultado, menos de quinze dias depois, é o avolumar de uma crise económica, porque muitas empresas não podem suportar o aumento de 350% (!!!) dos custos de electricidade. São estas as vitórias do bando de burocratas não eleitos que comandam a UE! São os mesmos que ainda não perceberam porque Trump tanto os despreza e está a acelerar a paz na Ucrânia. É o grande vencedor desta guerra, não quer perder tempo em sacar mais lucros, além dos já obtidos com a venda de armas, são perto de 150 mil milhões de dólares gastos, de que o complexo militar industrial norte-americano é de longe o maior fornecedor. O que está agora a exigir à Ucrânia, a exploração dos seus recursos minerais, a que Zelensky vai ceder com a espada do Starlink sobre a sua cabeça, se o Starlink for desligado, como Trump já ameaçou, terá consequências imediatas fatais na frente de batalha. Adicionam-se as mais de 70% de terras aráveis adquiridas pelas multinacionais Cargill, DuPont e Monsanto/Bayer, que uma alteração do actual governo ucraniano à Constituição permitiu serem transacionáveis com estrangeiros, ao controle das finanças que está a ser exercido pelos fundos BlackRock e Vanguard. A pressa de Trump é a exploração o mais rápido possível dessa sua colónia europeia, que tanto lhe faz seja integrada ou não na UE, o que apesar das promessas de Bruxelas não é assim tão líquido, lembrem-se os boicotes dos agricultores polacos, romenos e húngaros à circulação dos produtos agrícolas ucranianos, isso antes de se conhecer como a França, a grande beneficiária da Política Agrícola Comum, irá reagir. 

Bem podem Macron e Starmer ir a Washington bajular Trump, procurando convencê-lo que é do seu interesse continuar a guerra, bem podem Ursula e Costa garantir o que não podem garantir sem o apoio dos EUA que é continuar a guerra, os interesses dos EUA são outros, pelo que o mundo está a mudar e eles aí não têm lugar.

Como é bem visível nas duas propostas na ONU a pretexto da guerra na Ucrânia, uma dos norte-americanos, outra dos europeístas, em que os norte-americanos ao contrário dos europeístas não classificam os russos de agressores nem referem a reversão dos territórios conquistados pelos russos, apelam ao fim rápido da guerra. Lamentável são muitas esquerdas, que aceitando a abstracção da leis e da ordem neoliberal por terem abandonado o marxismo e negado as lutas de classe, estrebuchem imbecilmente alienando-se das perspectivas de paz independentemente do que se pense e julgue sobre os beligerantes, fazendo análises lúcidas sobre esta guerra.   

O título «Charme discreto da União Europeia» é uma referência ao filme de Bunuel O Charme Discreto da Burguesia, que é uma crítica radical aos costumes burgueses, aos códigos , às convenções que validam e dão consistência à superficialidade e às aparências.

1. Timisoara, Roménia, no final de 1989, é a grande falsificação de um massacre que não existiu, encenado, pago e filmado pela BBC, um exemplo paradigmático da manipulação da opinião pública pela comunicação social. Agamben, filósofo que faz parte das elites dominantes, apesar de ser seu crítico, escreveu: «Pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres acabados de enterrar ou alinhados nas mesas das morgues foram desenterrados à pressa e torturados para, em frente das câmaras, simular o genocídio que devia legitimar o novo regime. O que o mundo inteiro teve debaixo dos olhos em directo nos ecrãs da televisão como sendo verdade era a não verdade absoluta; e, embora a falsificação por vezes fosse evidente, era de qualquer modo autenticada como uma verdade pelo sistema mundial dos meios de comunicação, para que se tornasse claro que a verdade passara a ser apenas um momento do movimento necessário da falsidade.»


O Almirante Gouveia e Melo vai à escola

(Raquel Varela, in raquelcardeiravarela.wordpress.com, 25/02/2025, Revisão da Estátua)


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O Governo anuncia que o melhor para a falta de professores é fechar-se turmas, para a falta de médicos é encerrar urgências. E abrir o quê? Uma indústria de morte a que chamam, numa completa imoralidade, “investimento em defesa”? Economia de guerra.

Neste cenário, temos na linha da frente, entre outros do mesmo lado, o Almirante Gouveia e Melo. O mesmo homem que, na frente de todo o país, voou para a Madeira para humilhar, em frente das TVs, os marinheiros que se recusaram a embarcar num navio que nos dias seguintes deitava fumo em frente das mesmas TVs…

O Ministério Público resolveu acusar o Almirante de negligência, assédio, abuso de poder ou, vá lá, narcisismo? Não, resolveu outra coisa, acusar os 13 marinheiros de insubordinação. Num país onde os acidentes de trabalho são uma vergonha, onde os trabalhadores estão em risco todos os dias para que os mercados não se arrisquem, o exemplo destes 13 homens devia orgulhar-nos.

O mesmo Almirante Gouveia e Melo que declarou que se “Se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para a defender”. Morrer quem? Ele? Os filhos dele? Os netos dele? É que os nossos filhos não estão disponíveis para serem carne para canhão.

Nem meses passaram depois desta ignóbil declaração, que podia ter sido feita por qualquer ditador – já que afirma que tem nas mãos a vida e a morte dos cidadãos -, e ficou claro que a NATO são os EUA, (mas alguém duvidava?), cuja burguesia/corporações empresariais, desde Obama, se virou para o ataque à China, tentando obrigar esta a abrir o comércio externo na totalidade às Bolsas, procurando assim salvar o pagamento dos empréstimos trilionários feitos para salvar o capitalismo norte-americano na crise de 2008.

A Europa não existe, existem burguesias europeias, a alemã, a francesa (que já foi passear com Trump, enquanto a loucura de Leyen e Costa ia para Kiev), e a inglesa, que agora, num giro de 180 graus pedem para acabar com o que resta do Estado Social e produzir armas – diga lá quem deve morrer agora Sr. Almirante e em nome de quê?

Eu penso nos marinheiros do Báltico que se recusaram a continuar a guerra na Alemanha em 1918, e penso nos marinheiros do Chile que avisaram Allende que Pinochet, nomeado pelo mesmo Allende a 28 de Agosto, iria dar um golpe, e deu, a 11 de Setembro, 30 mil mortos foi o resultado; e penso nos marinheiros que na revolução portuguesa em 74-75 estiveram ao lado do povo contra os fautores da guerra.

Penso também em todos os trabalhadores portugueses que são submetidos a condições de trabalho que os colocam em perigo, seja porque os materiais não têm manutenção, seja porque os horários de trabalho colocam em causa a sua vida, seja porque são assediados, humilhados e mal tratados por gente que abusa do poder.

Nos últimos meses ficámos a saber coisas extraordinárias protagonizadas pelo Almirante Gouveia e Melo e a hierarquia da Marinha, desde uma perícia ao navio feita com base “em documentos” (por telepatia, portanto), ao facto que não lhes terem sido comunicados, aos marinheiros, os seus direitos; parte destas ilegalidades foram anuladas pelo Tribunal Administrativo, cujo Presidente recebeu estes dias o Chefe de Estado-maior da Marinha… (facto que ficámos a saber hoje pela defesa, de uma enorme dignidade, dos marinheiros, feita pelos advogados Paulo Graça e Garcia Pereira, que hoje publicam um artigo fundamental – ver aqui).

Toda esta loucura em que o mundo está a ser mergulhado por – literalmente – menos de 0,1% das pessoas (grandes proprietários),  tem na figura deste Almirante, o seu lado mais risível, já que ele se despede da Marinha para tentar ser Presidente da República, fingindo estar acima dos “partidos” mas apoiado pela direita, extrema- direita e Igreja, depois de vários processos internos de colegas, ao lado de D. João II como “Príncipe Perfeito”.

O que era óbvio – que a burguesia alemã e norte-americana iriam caminhar para uma guerra – o Almirante “perfeito” não adivinhou. E 6 meses depois a sua NATO não existe como tal. Erro crasso?

Não tão crasso quando está a querer levar-nos para uma guerra de lucros que ameaça a nossa vida e o nosso bem-estar social. E contra a qual resistiremos de pé!

Repouso as minhas esperanças em nós, seres imperfeitos, que saberemos resistir à guerra e à humilhação. Deixo aqui o meu respeito aos cidadãos que se insubordinam contra a injustiça. Ao espírito de cisão, essa vontade férrea que nos faz ser de espinha ereta e estar de bem connosco próprios.

A Alemanha pode confiar em Friedrich Merz?

(Thomas Fazi, In UnHerd.com, 22/02/2025, Trad. Miguel Brites Correia, in Facebook)


O vencedor das eleições alemãs é um falso populista.


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O verdadeiro vencedor das eleições alemãs não é Merz, mas sim a BlackRock. Até há poucos anos, o líder da CDU era o principal representante do megafundo norte-americano na Alemanha. Com o seu governo, o capital americano terá rédea solta para continuar a canibalizar a economia alemã.

Aos 69 anos, Friedrich Merz esperou décadas por este momento. Antes das eleições de domingo, já está à espera de ser o novo chanceler, com a sua União Democrata-Cristã (CDU) a obter 30% dos votos. Terá de reunir uma nova coligação de partidos díspares, mas Merz não se importa. Na segunda-feira de manhã, terá conseguido uma das mais notáveis reviravoltas da história política recente.

Merz juntou-se ao partido há décadas, quando era estudante. Mas, hoje, está a concorrer com uma plataforma “Tornar a Alemanha Grande de Novo” – uma tentativa calculada de ganhar votos à Alternativa para a Alemanha (AfD), deslocando o seu partido para a direita em questões como a imigração. O seu cinismo não deve ser subestimado: tal como Donald Trump na América, o milionário Merz é um rei corporativo vestido com roupas conservadoras.

Merz, não esqueçamos, há muito que representa os interesses de algumas das elites empresariais e financeiras mais poderosas do mundo, nomeadamente como representante-chave da BlackRock na Alemanha entre 2016 e 2020. De facto, se Merz for eleito, a Alemanha tornar-se-á o primeiro país a ser governado por um antigo funcionário da BlackRock. Mas as suas ligações às instituições de elite são muito mais antigas: durante mais de duas décadas, mesmo antes de entrar para a BlackRock, encarnou a porta giratória entre política, negócios e finanças.

Após as eleições federais de 2002, Angela Merkel, a então líder da CDU, assegurou a presidência do grupo parlamentar, enquanto Merz foi nomeado seu deputado. No entanto, a relação entre os dois não era nada fácil e Merz demitiu-se dois anos depois, retirando-se gradualmente da política até deixar o Parlamento em 2009. No entanto, já antes da sua saída do Parlamento, Merz tinha encontrado o ouro. Em 2004, foi contratado como advogado sénior pela firma internacional de advocacia e lobbying Mayer Brown, um peso pesado do sector com um volume de negócios anual de milhares de milhões.

Aqui, Merz descobriu uma relação muito mais frutuosa. Como explica Werner Rügemer, autor de BlackRock Germany, na Mayer Brown, Merz ajudou a facilitar negócios que promoviam os interesses do capital americano na Alemanha, encorajando os investidores americanos a comprar empresas na República Federal. O resultado foi a venda e reestruturação de milhares de empresas alemãs, o que implicou a redução de postos de trabalho e o congelamento de salários – uma abordagem abertamente elogiada por Merz no seu livro Dare to Be More Capitalist. Sem dúvida, para dar corpo à tese do seu livro, Merz também fez parte, durante este período, dos conselhos de administração e de supervisão de várias grandes empresas. Foi então que a BlackRock, provavelmente uma das empresas mais poderosas de sempre, lhe bateu à porta. Como é que Merz podia recusar? Produtos farmacêuticos, entretenimento, meios de comunicação e, claro, guerra – não há praticamente nenhum sector em que a BlackRock não tente lucrar.

O interesse em contratar Merz não é difícil de perceber. Ele facilitou reuniões entre o diretor executivo da BlackRock, Larry Fink, e políticos alemães, ajudando a moldar as políticas que beneficiariam a empresa e a sua vasta carteira de investimentos. Sob a influência de Merz, por exemplo, a BlackRock tornou-se um dos maiores acionistas não alemães em muitas das empresas mais importantes do país – do Deutsche Bank à Volkswagen, da BMW à Siemens. No entanto, o seu trabalho não se limitou a aumentar os lucros dos acionistas; tratou-se também de moldar um ambiente político em que os interesses das empresas estavam alinhados com a política governamental. Por uma feliz coincidência, também criou um clima em que alguém como Merz podia facilmente flutuar entre as grandes empresas e o Bundestag.

E foi assim que, em 2021, Merz, munido de um saldo bancário avultado e de dois jatos privados, regressou à política como líder da CDU. A sua filosofia política está firmemente enraizada no neoliberalismo. É um defensor acérrimo da privatização e da desregulamentação. Esta é muitas vezes apresentada sob a forma de promessas de redução da burocracia e de atração de investidores estrangeiros. Mas, na realidade, este duplo discurso empresarial foi concebido para mascarar a sua ênfase nas soluções do sector privado para os problemas públicos.

Merz é um forte apoiante da privatização dos sistemas de segurança social – em benefício de empresas como a BlackRock, líder em regimes de pensões privados. Tradicionalmente, tem sido também um opositor acérrimo do salário mínimo e das leis contra o despedimento sem justa causa. Sob a sua direção, é muito provável que os trabalhadores alemães vejam os seus salários estagnarem ou piorarem.

Mas é difícil acreditar que o cidadão comum alemão seja a preocupação de Merz. Uma vez homem de Davos, sempre homem de Davos – e a sua longa história de representação de indústrias poderosas, incluindo o sector químico, o financeiro e o metalúrgico, sugere que ele terá outras prioridades. Como chanceler, por exemplo, Merz poderia ser chamado a regulamentar sectores aos quais está associado há muito tempo – e que Mayer Brown, o seu antigo empregador, ainda representa.

Recorde-se, também, que, sob a liderança de Merz, a CDU recebeu milhões de euros em donativos de campanha dos mesmos interesses empresariais que ele representou no passado – mais do que qualquer outro partido. Para os lobistas alemães e mundiais, ter Merz – um antigo colega – como chanceler seria um sonho tornado realidade. Ou, como diz Rügemer: “Isto é pôr a raposa a tomar conta do galinheiro”.

Não se trata apenas de uma questão económica: As ligações empresariais de Merz também influenciam a sua política externa. No fundo, é um atlantista convicto e acredita firmemente no papel da América como garante da ordem mundial. Esta posição ideológica levou Merz a alinhar com os EUA em questões como o gasoduto Nord Stream 2, apelando ao cancelamento do projeto muito antes da escalada da crise na Ucrânia. A sua posição de falcão em matéria de política externa, nomeadamente no que se refere ao seu apoio musculado à Ucrânia, ilustrou ainda mais o seu alinhamento com as antigas prioridades geopolíticas dos Estados Unidos – mesmo à custa dos interesses fundamentais do seu próprio país. Afinal, uma das principais razões para a contração da economia alemã e a desindustrialização em curso é a sua decisão de se desligar do gás russo sob forte pressão dos EUA.

Agora, é claro, Washington tem uma política muito diferente em relação à Ucrânia. Então, será Merz forçado a abandonar as suas convicções atlantistas? Não necessariamente. Embora a sua forte posição anti-russa e as suas tendências militaristas pareçam estar em desacordo com os esforços de Trump para desanuviar o conflito, a realidade é que as suas visões estão mais alinhadas do que inicialmente poderia parecer. O que é que, afinal, Trump exige da Europa? Um aumento das despesas com a defesa e um papel significativo na assunção das responsabilidades financeiras e estratégicas pela segurança pós-guerra na Ucrânia, algo que poderia mesmo envolver o envio de uma força europeia de “manutenção da paz”.

Estas políticas estão em perfeita sintonia com a visão do próprio Merz. Desde há muito que defende o aumento do orçamento da defesa alemã, uma posição bem acolhida pelos seus aliados empresariais do complexo militar-industrial alemão. Agora, de facto, juntou-se ao coro que apela à Europa para “tomar a sua segurança nas suas próprias mãos”. Trump não podia pedir mais. Esta convergência estratégica, juntamente com as inclinações conservadoras de Merz, os laços profundos com os sectores financeiro e empresarial dos EUA e o atlantismo enraizado, fazem com que esteja bem posicionado para se tornar o “vassalo-chefe” europeu da América na nossa era pós-liberal. Isto colocaria a Alemanha de novo ao leme de uma União Europeia economicamente mais fraca e militarmente mais forte – embora permaneça estrategicamente à deriva.

Este acordo será acompanhado de muita retórica sobre a “autonomia” alemã e europeia – e possivelmente até de desacordos públicos acesos entre Berlim e Washington. Na realidade, porém, seria em grande parte uma fachada, pois a nova dinâmica serviria apenas as elites europeias e americanas. As primeiras continuariam a alimentar o medo da Rússia como forma de justificar mais despesas com a defesa, desviando fundos dos programas sociais e legitimando a sua contínua repressão da democracia. Quanto às segundas, continuariam a beneficiar da dependência económica da Europa em relação aos EUA. Ao mesmo tempo, pessoas como Merz estariam bem posicionadas para ajudar a canibalizar ainda mais a Europa às mãos do capital americano.

Não que isso nos deva surpreender. Nas últimas duas décadas, Merz, tal como Trump, provou ser um homem de negócios em primeiro lugar e um político em segundo. No entanto, ao contrário de Trump, que pelo menos tem algumas credenciais populistas, a vitória de Merz será celebrada nas salas de reuniões da BlackRock e de outras grandes empresas, que podem esperar ver os seus saldos bancários começarem a subir constantemente. Mas, como tantas vezes acontece, os eleitores comuns não devem esperar que esta recompensa lhes chegue.

Fonte aqui.