Os russos lembram-se da Grande Guerra Patriótica, os EUA não

(Larry C. Johnson, 08/05/2025, Trad. José Luís S. Curado in Facebook)


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No momento em que escrevo, são 22h15, hora do leste dos Estados Unidos. A guerra na Europa terminou oficialmente às 23:01 horas, hora da Europa Central, do dia 8 de maio de 1945. Em Moscovo, eram 00:01 horas, do dia 9 de maio de 1945. É por isso que os russos comemoram o dia 9 de maio, enquanto o Ocidente comemora o fim da guerra no dia 8 de maio.

Se perdeu o meu artigo, publicado na semana passada, “A grotesca mentira de Donald Trump sobre o papel dos EUA no teatro europeu na Segunda Guerra Mundial”, deixo aqui o link do artigo para sua conveniência. Dentro de poucas horas, mais de 100 milhões de russos vão reunir-se e marchar em memória dos seus antepassados que fizeram sacrifícios inimagináveis para derrotar o regime nazi de Hitler. Como observei no meu artigo (ver acima), os nazis, juntamente com os seus colaboradores romenos, italianos e húngaros, assassinaram entre 16 milhões e 19 milhões de civis russos.

Apenas um outro país sofreu baixas civis comparáveis… a China. De acordo com fontes académicas, cerca de 12 milhões de civis chineses morreram em resultado de ações militares japonesas, políticas de ocupação, massacres e fome e doenças induzidas pela guerra entre 1937 e 1945. Algumas fontes sugerem que o número total de mortes de chineses (incluindo civis e militares) pode chegar aos 20 milhões, sendo a grande maioria civis. Só o Massacre de Nanquim resultou na morte de pelo menos 100.000 a mais de 200.000 civis chineses e soldados desarmados em apenas algumas semanas, no final de 1937 e início de 1938.

Esta é uma das razões pelas quais o líder chinês, Xi Jinping, está em Moscovo. Tanto Putin como Xi compreendem que os invasores estrangeiros deixaram uma cicatriz permanente na psique cultural do povo russo e chinês… uma cicatriz que não é rapidamente apagada com o passar do tempo.

Nos EUA, a grande maioria das pessoas esqueceu o sacrifício que 189.577 soldados, aviadores e marinheiros americanos pagaram com sangue em batalhas no Norte de África, em Itália e no resto do teatro de operações europeu. Alguns preocupam-se, mas a maioria dos americanos não sabe de nada e continuou com as suas actividades normais hoje sem parar para reflectir sobre o fim da guerra na Europa. Se Donald Trump estivesse a falar a sério sobre honrar o sacrifício deles, deveria ter declarado o dia 8 de maio como feriado federal e ter realizado cerimónias no memorial da Segunda Guerra Mundial e no Cemitério de Arlington… Não fez nenhuma das duas coisas.

Gostaria de fazer uma pergunta aos meus concidadãos americanos, mas primeiro deixem-me definir os parâmetros. No início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a população dos Estados Unidos era de aproximadamente 130 milhões de pessoas. A título de comparação, a população da Rússia e da Ucrânia (onde se deu a maior parte das batalhas com os nazis) era de 150 milhões (110 milhões de russos e 40 milhões de ucranianos). Então eis a questão… Como teriam reagido os americanos depois de perderem 20% da sua população numa guerra com a Alemanha, e com os nossos aliados russos a iniciarem um programa no final dessa guerra que recrutou e contratou oficiais alemães como activos de inteligência? Isso irritar-los-ia? Isso fá-los-ia questionar as intenções da Rússia em relação à segurança nacional dos EUA?

Vista deste ângulo, temos uma perspectiva totalmente nova sobre o início da Guerra Fria. Porque foi isso mesmo que os Estados Unidos fizeram por cortesia da Operação Paperclip. A Operação Paperclip foi um programa secreto de inteligência dos EUA lançado em 1945 para recrutar cientistas, engenheiros e técnicos alemães — muitos dos quais trabalharam para a Alemanha nazi — e trazê-los para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Mas fizemos mais do que isso. A OSS, mais tarde substituída pela CIA, recrutou e geriu uma horda de antigos oficiais das SS especificamente pela sua experiência de espionagem da União Soviética.

Enquanto o povo russo se reúne a 9 de maio para recordar o enorme sacrifício dos seus pais, mães, avôs, avós e bisavós, recordam também que os Estados Unidos, apesar de serem aliados na guerra para acabar com Hitler, rapidamente mudaram de posição após a guerra e começaram a atacar a União Soviética. Eles lembram-se, nós não.

Fonte aqui.

Um Mundo sem fascismo nem nazismo

(João-Gomes, In Facebook, 09-05-2025)


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As palavras de Putin durante as comemorações do 9 de Maio, evocando a Rússia como “barreira impenetrável” contra o nazismo, a russofobia e o antissemitismo, devem ser lidas com o peso da História e não com a ligeireza seletiva que hoje domina muitos discursos políticos no Ocidente. A verdade é que, por mais que se tente obscurecer ou relativizar, a Rússia – especialmente o povo russo e os povos eslavos em geral – suportaram o fardo mais pesado da guerra contra o nazismo, tanto em perdas humanas como em resistência moral e militar.

Com o colapso da URSS, a Rússia iniciou um percurso ambíguo, sim, mas voltado para uma maior integração com a Europa e para o comércio internacional. No entanto, nunca abdicou da defesa da sua identidade histórica, marcada por resistências sucessivas às invasões napoleónicas, ao delírio expansionista do Kaiser, à brutalidade do Terceiro Reich e, mais recentemente, às tentativas de contenção e cerco geopolítico por parte da NATO. Essa resiliência não pode ser ignorada. Ela assenta em séculos de sofrimento e resistência, e é por isso que a memória da Grande Guerra Patriótica ainda molda o imaginário coletivo russo – com razão.

Putin relembra ao mundo, com firmeza, que a luta contra o fascismo e o ódio é uma tarefa permanente. Quando menciona a operação militar contra o regime de Kiev como continuação desse combate, podemos e devemos discutir os métodos e as consequências, mas não podemos ignorar a realidade complexa que se vive na Ucrânia, onde símbolos e figuras do colaboracionismo nazi, como Stepan Bandera, são ainda hoje reabilitados e celebrados em segmentos do Estado e das Forças Armadas. É um facto incómodo, mas real.

Neste contexto, é legítimo afirmar que a Rússia, com as suas contradições, continua a desempenhar um papel de resistência – não apenas militar, mas simbólica – contra o ressurgimento da extrema-direita europeia. Enquanto muitas democracias ocidentais se mostram complacentes, ou mesmo cúmplices, com o avanço de partidos abertamente xenófobos e revisionistas, Moscovo continua a assinalar com clareza e solenidade a vitória sobre o fascismo como um valor fundador da sua identidade nacional.

Este 9 de Maio deve, portanto, servir não só para lembrar os horrores do passado, mas também para refletir sobre o presente. Que lição retiram hoje os países da União Europeia da memória da Segunda Guerra Mundial?

Quando os valores democráticos são usados como fachada para tolerar – ou mesmo legitimar – o avanço de ideias que os negam, algo está profundamente errado. Nesse contraste, a firmeza russa, por mais criticada que seja no plano diplomático, emerge como um lembrete incómodo: a memória histórica não pode ser seletiva, e a luta contra o fascismo não pode ser apenas retórica.

O Despertar do Pesadelo da Civilização Ocidental

(Caitlin Johnstone, 05/05/2025, Trad. Estátua de Sal)


Não precisamos de filmes de terror. Estamos a criar os nossos próprios horrores em locais como Gaza. Não precisamos de ficção distópica. Estamos a viver uma distopia aqui mesmo na nossa própria sociedade. Não precisamos de histórias fantásticas sobre monstros assustadores. Os monstros assustadores controlam o nosso governo.


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Os ocidentais criam um pesadelo acordado, compartimentam psicologicamente a sua existência e depois vão ver um filme sobre um pesadelo acordado fictício para se emocionarem.

Ficaremos sentados na ponta da cadeira a ver histórias inventadas sobre assassinos psicopatas enquanto assassinos psicopatas dominam o mundo.

Viraremos as costas a atos horríveis de carnificina humana e, em seguida, assistiremos a atos fictícios de carnificina humana, superando qualquer desconforto que possamos sentir, lembrando-nos que aquilo a que estamos a assistir não está a acontecer na vida real.

Alguém nos meus comentários do Substack acabou de me perguntar se eu tinha considerado a possibilidade de que o mundo poderia ser melhor sem a Humanidade, por causa de todas as coisas horríveis que estão a acontecer enquanto a grande maioria de nós não faz nada para o impedir.

Há certamente muitas coisas feias no comportamento humano, e há forças dentro de nós que não merecem absolutamente existir. O nosso egocentrismo. A nossa competitividade. O nosso ódio e preconceito. A nossa tolerância aparentemente ilimitada por abusos insondáveis, desde que sejam infligidos a pessoas noutros países, cujos rostos angustiados não precisamos de olhar. As ilusões e os padrões de condicionamento baseados no trauma que temos transmitido de geração em geração desde o início da civilização. O mundo seria melhor sem estas coisas.

Mas, ao longo dos anos, também me familiarizei com dinâmicas dentro do organismo humano que poderiam transformar este mundo num paraíso, se conseguíssemos sair, do nosso condicionamento baseado em ilusões, o suficiente para as percebermos. Dentro de cada ser humano existe o potencial para ações altruístas e uma vasta compaixão. Todos nós temos dentro de nós a capacidade de curar. Todos nós temos dentro de nós a capacidade de nos livrarmos da consciência egoica, tal como um réptil se livra de escamas velhas.

Talvez seja disparatado, mas gosto de pensar nesta potencialidade como uma espécie de arma de Tchekov para a nossa espécie, ali no palco à espera de disparar enquanto a história da Humanidade se desenrola. Sei com certeza que os humanos têm o potencial de despertar do transe do ego de formas profundamente transformadoras, e escolho acreditar que o dramaturgo colocou lá esse potencial por alguma razão.

Toda a espécie acaba por chegar a um ponto em que precisa de se adaptar a condições mutáveis ​​que ameaçam a sua existência ou então serão extintas. Acontece que, no caso da humanidade, as condições mutáveis ​​que ameaçam a nossa existência são criações das nossas próprias mentes. Ecocídio. Temeridade nuclear. IA armada. Guerra biológica. Quanto mais os nossos egos nos conduzem pelo caminho da competição e da dominação, mais provável é que abramos a nós próprios algum perigo existencial do qual não há retorno.

Ou faremos as adaptações necessárias e encontraremos uma forma de desbloquear colectivamente o nosso potencial adormecido de funcionamento altruísta neste planeta, ou seguiremos o caminho dos dinossauros. Continuo a pensar assim porque já vi coisas estranhas e demasiado milagrosas na minha vida para acreditar que tal despertar seja impossível.

E a boa notícia é que temos a verdade do nosso lado. O ego humano é uma ilusão; o eu não existe. A iluminação já está aqui, mais perto de nós do que a nossa própria respiração, apenas a ser esquecida no meio dos devaneios da mente iludida. A publicidade é enganosa, e a verdade está cada vez mais exposta. Os humanos são cada vez melhores a partilhar ideias e informações sobre o que realmente está a acontecer no nosso mundo.

Só precisamos de abrir os olhos. Precisamos apenas de deixar a verdade falar. É tudo o que é necessário acontecer. Precisamos de parar de nos fixar em todas estas histórias inventadas nas nossas cabeças e nos nossos ecrãs, e olhar profundamente para o que realmente está a acontecer.

Fonte aqui.