(Por José Gabriel, in Facebook, 24/06/2025, Revisão da Estátua)
Balofas carnes de balofas tetas (…), canta António Botto, logo no primeiro verso do seu poema quase épico “A puta dança”, verso que me ocorreu – o primeiro e os últimos – quando o nosso Ministro das Finanças, representando o Governo, em entrevista televisiva, fez um ar viril, marcial e altaneiro e declarou, do alto do seu semblante de pudim flan fora de prazo: “não ficaremos para trás!”.
Referia-se aos 5% que os vampiros da NATO, pela voz do seu Secretário-geral, aquele rapazola que dá saltinhos e trejeitos em jeito de adolescente retardado neurótico, querem impor aos países pertencentes à organização que, hoje, tem mais a estrutura e objectivos de uma máfia Internacional do negócio da morte – sem ofensa para os homens de honra, como se designam a si próprios os verdadeiros mafiosos – que de uma organização de defesa.
Este “não ficaremos para trás” tenta convencer os pobres de espírito de que seguir uma tal loucura é uma prova de que somos iguais aos melhores, valentaços, não nos ficamos, somos exigentes e machões. Nós, ficar para trás? Nunca! Vamos a eles! – a quem, não se sabe, mas os rapazes das televisões e dos jornais, se lhes pagarmos bem, arranjam uns inimigos jeitosos.
Hoje, na sequência da concordância dos paspalhos sádicos e microcéfalos que governam os países europeus, o tal excitadinho da NATO veio anunciar que os tais 5% tinham vingado e a Europa – não a Europa, mas os cachorros de trela curta europeus que sempre obedecem ao dono – estava, em unanimidade, com a medida.
Estão os europeus? Eu não. Milhões de outros também não. Sabemos fazer contas e vemos o caminho suicidário que nos querem impor. Sabemos o muito que vamos perder e o nada que vamos ganhar. Isto não é uma medida política. Isto é um crime político e social. Com dolo e premeditação.
Podem estar contentes os governantes que a maioria de vós teve o mau gosto de eleger e que, agora, fazem, não o que prometeram, mas o que lhes dá na real gana. Quem manda neles são, como nas matilhas, os cães grandes e, por cima de todos, os que providenciam os cifrões para engordar a canzoada. E os vampiros exultam. Os fascistas babam-se. Os idiotas festejam com mais um bagaço.
Esta gente desconhece a moral e a ética de que tanto fala. Desprezam a soberania nacional e acham o patriotismo – mesmo que dele encham a boca – um valor risível. Têm, sobretudo, um total desprezo pelo seu povo, e riem-se dos votos e dos votantes que os elegeram. Padecem de uma falta de empatia que os aproxima de um sociopata.
Noutros tempos, eu odiava o regime fascista e os seus mandantes. Hoje, olhando para os actuais governantes, não é o ódio que me move. É o mais absoluto desprezo. Gente volúvel, desprezível, recorte último dos eunucos.
(Dmitri Medvedev, in Telegram, canal Geopolítica Z 22/06/2025)
Dmitri Medvedev, ex-Presidente e ex-Primeiro-ministro da Rússia
1. A infraestrutura crítica do ciclo nuclear, ao que tudo indica, não foi atingida ou sofreu danos insignificantes.
2. O enriquecimento de materiais nucleares – e agora pode-se dizer claramente: a futura produção de armas nucleares – continuará.
3. Vários países estão prontos para fornecer diretamente a carga nuclear ao Irã.
4. Israel está sob ataque, explosões ressoam, as pessoas estão em pânico.
5. Os EUA estão envolvidos em um novo conflito, com possibilidade de operação terrestre.
6. O regime político do Irã foi preservado, e com grande probabilidade se fortaleceu.
7. O povo se unifica em torno da liderança espiritual, inclusive aqueles que antes não simpatizavam com ela.
8. Trump, que chegou como presidente pacificador, iniciou uma nova guerra para os EUA.
9. A esmagadora maioria dos países do mundo está contra as ações de Israel e dos EUA.
10. Com esse “sucesso”, Trump não verá o Prêmio Nobel da Paz – mesmo com toda a corrupção da indicação. Um ótimo começo, parabéns, Sr. Presidente!
Segue agora um excelente texto de análise a estas declarações de Medvedev.
Medvedev avisa: o pesadelo nuclear do império está desencadeado
(Por Gerry Nolan, in Telegram, canal Sófia Smirnov, 23/06/2025)
A encenação da águia à meia-noite sobre os céus iranianos prometia um espectáculo de choque e pavor, a “obliteração” das instalações nucleares que, como nos garantiram, desarmaria Teerão para sempre.
Mas a poeira baixou de forma diferente. Dmitry Medvedev, o feroz cirurgião geopolítico da Rússia, calmamente realizou a autópsia: “A infraestrutura crítica permanece intacta. O enriquecimento continuará. E agora, vários países estão prontos para entregar ao Irão as suas próprias ogivas nucleares.”
Leia entre as linhas cuidadosamente escolhidas de Medvedev e verá não apenas um aviso, mas uma declaração multipolar de independência, que reduz as palhaçadas unilaterais dos Estados Unidos a meros acessos de raiva num palco cada vez menor.
O espetáculo americano do bombardeiro B-2, anunciado como decisivo, foi apenas uma propaganda performativa, uma miragem poderosa projetada para aplacar as ansiedades israelitas e apaziguar os egos neoconservadores. O Irão minimizou o ataque, recuperando-se com facilidade e sinalizando que a sua trajetória nuclear permanece inalterada. De facto, o ataque do Império não passou de um ato de desespero.
E então veio Medvedev, brandindo palavras mais afiadas que as destruidoras de bunkers:
“Israel está sob ataque, explosões estão a abalar o país e as pessoas estão em pânico.” Trump, antes aclamado como o “presidente da paz“, agora encontra os seus Estados Unidos enredados em mais um conflito, com uma guerra terrestre iminente e o Prémio Nobel da Paz a ser apenas uma piada. Como brincou Medvedev com sarcasmo letal: “Um óptimo começo, parabéns, Sr. Presidente!“
Lembre-se do Iémen, onde meses de bombardeamentos implacáveis deixaram os houthis não enfraquecidos, mas sim encorajados. Washington e Londres acabaram por implorar por negociações de cessar-fogo mediadas pelo Omã, forçados a negociar a partir da fraqueza. O Iémen, minúsculo em comparação com o Irão, tornou-se um padrão humilhante para a impotência ocidental.
Agora, ampliando o Iémen cem vezes, temos o Irão. Teerão não é um Estado incipiente, é um Estado-civilização ancestral com mísseis hipersónicos, redes de proxy em expansão e alianças profundas com a Rússia, a China e amigos potencialmente dotados de armas nucleares, prontos para oferecer ajuda atómica.
As implicações da confirmação enigmática de Medvedev são sísmicas. Pela primeira vez reconhecidas abertamente por um peso-pesado global, as transferências nucleares de “terceiros” para o Irão podem em breve tornar obsoleta a exclusividade nuclear ocidental sionista no Médio Oriente. O Sul Global, a Eurásia – e até mesmo alguns estados europeus cautelosos -, estão a alinhar-se, tácita ou abertamente, com essa nova realidade, reconhecendo que o domínio unilateral israelo-americano, nuclear ou não, é um artefacto do passado.
Em suma, as aventuras noturnas do Império inadvertidamente prepararam o cenário para um futuro nuclear multipolar, um futuro que Washington não pode controlar nem ditar. Mas pode agradecer a si mesma por acender o pavio.
Trump, o autoproclamado presidente antiguerra que prometeu diplomacia em vez de destruição, abraçou agora plenamente o pesadelo neoconservador. As aspirações ao Prémio Nobel da Paz evaporam nas areias do deserto de Natanz, Fordow e Esfahan. Os parabéns irónicos de Medvedev: “Que jeito de começar, Sr. Presidente!”, captam a amarga ironia. O legado de Trump, rotulado como populismo pacifista, alinha-se agora irrevogavelmente ao militarismo imperial.
A mensagem de Medvedev ressoa claramente: as regras do jogo geopolítico mudaram irrevogavelmente. Rússia, Irão e aliados não aceitarão mais ataques unilaterais ou estrangulamento económico silenciosamente. Multipolaridade significa equilíbrio nuclear, equilíbrio estratégico e, em última análise, o fim das pretensões unipolares.
Teerão sobrevive, fortalecida, unida sob uma causa que o Império lhes entregou de bandeja. Entretanto, Telavive recupera-se de vulnerabilidades sem precedentes, com a sua aura outrora poderosa fragmentada por ataques iranianos de precisão, como parte da Operação Promessa Verdadeira 3.
A manobra imprudente do Império, executada com miopia estratégica, saiu-lhe espetacularmente pela culatra. Washington, presa em ciclos perpétuos de conflito, enfrenta agora uma ordem multipolar cuja construção ajudou inadvertidamente a acelerar.
Medvedev falou. O pesadelo nuclear do Império começou.
(Por General Pezarat Correia, in O diario.info, 18/06/2025)
Israel é uma fortaleza militar, pilar do poderio dos Estados Unidos da América (EUA) numa das áreas geoestratégicas mais sensíveis da Terra, a bacia do Mediterrâneo euro-afro-asiático.
Acresce que Israel é produto do processo de descolonização do Império Otomano, na sequência da Guerra Mundial 1914-1918 (IGM) que, maquiavelicamente, como sempre foi marca da política imperial britânica, Londres procurou gerir por forma a preservar os seus interesses. Por mandato da Sociedade das Nações (SDN) ao Reino Unido (RU) coubera, entre outros territórios, a administração da Palestina, onde coabitavam, pacificamente, comunidades cristã, judaica e muçulmana. Esta era largamente maioritária enquanto a judaica era apenas de cerca de 50.000 pessoas, distribuídas por vários colonatos, pela cidade portuária de Telavive e com significativa presença em Jerusalém, partilhada com cristãos e muçulmanos. Em 1919, o secretário de estado dos Negócios Estrangeiros britânico Arthur Balfour, pressionado pela influente comunidade judaica do RU, difunde a célebre Declaração Balfour prometendo aos judeus o “lar judaico na Palestina”. À maioria árabe, que não foi ouvida nem achada nesta decisão arbitrária da potência para-colonial, limitou-se a dizer “cheguem-se para lá que isto agora passa a ser terra judaica”. Foi neste contexto que, em 1948, depois da Segunda Guerra Mundial (IIGM), nasceu o estado de Israel.
Com ele nascia também o conflito na Palestina, com a sistemática perseguição e expulsão da comunidade árabe e atração de judeus para alterar a correlação demográfica das várias comunidades, com a progressiva e violenta expansão territorial de Israel à custa dos Estados vizinhos, com a transformação de Israel num Estado de regime de apartheid onde a maioria árabe foi forçada à emigração ou à sujeição a um estatuto discriminatório na sua própria terra. À Palestina, com um território privado de continuidade, com acesso aos recursos aquíferos vitais para uma comunidade maioritariamente camponesa controlado por Israel, com circulação nas estradas condicionada, com acessos ao exterior limitados, é negada a possibilidade de constituir um Estado. Entretanto Israel, a seu bel-prazer e com proteção armada face a uma autoridade palestiniana desarmada, vai construindo colonatos nas terras da Palestina potencialmente mais produtivas.
Toda esta política de Israel tem sido objeto de reiterada condenação pela Organização das Nações Unidas (ONU). Israel é o Estado membro com maior número de resoluções da ONU por cumprir. Beneficiando de um estatuto de exceção e impunidade, não respeita nenhum acordo, mesmo aqueles que assinou. O Acordo de Oslo, concluído em 1993 que, apesar de leoninamente favorável a Israel, consagrava a solução dos dois Estados, selou-se pelo assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin por um israelita a mando nunca se apurou de quem. É hoje letra morta para os atuais dirigentes sionistas. Com a complacência dos dirigentes políticos ocidentais que patrocinaram aquele acordo.
Quando, depois da vitória na IIGM, os EUA se substituíram ao RU como potência marítima global, assumiram por inteiro o patronato de Israel como a fortaleza garante do seu domínio imperial no Médio Oriente. Pelo valor posicional geoestratégico no cruzamento dos eixos norte-sul e leste oeste, pelo controlo regional dos recursos energéticos, como agente perturbador numa zona civilizacionalmente muito instável, Israel é uma praça fundamental de Washington na sua ambição de preservar um estatuto que, na realidade, já não detém, o de líder de um sistema mundial unipolar.
Por isso chegou ao ponto de, violando todos os acordos, nomeadamente o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, dotar Israel de armas nucleares. Mas clandestinamente, porque não se assume como tal. Daqui a inqualificável hipocrisia com que vemos Israel, com o apoio do ocidente alargado, proclamar que o Irão nunca poderá dotar-se de armas nucleares. Israel é o último Estado com legitimidade para esta exigência. O certo é que, fazendo-o, está à beira de lançar o mundo numa terceira guerra mundial que, a acontecer, atingirá o paroxismo de um conflito com armas nucleares.
Ninguém quer ver o óbvio: a desnuclearização do Médio Oriente não passa pelo impedimento do Irão à arma nuclear, passa, isso sim, pelo desarmamento nuclear de Israel. Então, sim, será legítimo impedir que o Irão atinja esse patamar.
Como a hipocrisia não tem limites, Israel, o Estado mais agressivo e desestabilizador em todo o Médio Oriente, tem, no dizer das cabeças iluminadas que nos governam, o direito a defender-se. Direito que é negado aos palestinianos, há décadas sujeitos à permanente pressão agressiva de Israel, que atualmente se traduz no genocídio cruel, racional, a frio, de um povo, ao qual o mundo assiste passivamente.
Deixo aqui uma profecia para o futuro, a que já não assistirei: a paz na Palestina já não passa pelos dois Estados. Israel tornou essa solução uma miragem. A solução passará por um só Estado, a Palestina, laico, onde conviverão todos, cristãos, judeus, muçulmanos, ao qual regressarão os milhões de palestinianos que a perseguição sionista obrigou ao exílio.
Nós, europeus, todos, temos pesos nas consciências pelas perseguições a que, durante séculos, condenámos os judeus. Que atingiu as raias do inimaginável na Alemanha nazi e nos países por ela ocupados. Agora estamos a procurar sanar as nossas culpas e aliviar as nossas consciências, solidarizando-nos com os judeus à custa dos palestinianos. Só que não foram os palestinianos os agentes das perseguições seculares aos judeus. FOMOS NÓS.