Nunca esqueci o pedido do ministro Centeno a um clube de futebol, para assistir a um jogo, com o filho, na tribuna do presidente do clube, por razões de segurança. Foi a primeira tentativa de o travar. Até o Ministério Público entrou na habitual tentativa de difamação. Houve devassa ao seu gabinete ministerial. Podia haver contrapartidas. Até o inefável Presidente Marcelo, com a sua perfídia habitual, disse, desta vez fica…, mas…
Por isso, aguardei a entrevista de ontem com muito interesse. Depois da orquestração de suspeitas e da campanha de difamação e ataques de carácter a Mário Centeno, precisava de ser esclarecido. E fiquei esclarecido.
Perante as acusações de um governo infantil, esteve um adulto na RTP. Depois de ser dito, pelo ministro Leitão Amaro, que o futuro governador é o melhor e é independente, Centeno foi o adulto que defendeu o Banco de Portugal sem pôr em causa a legitimidade da proposta de Miranda Sarmento, a decisão do Governo na sua substituição ou o mérito do sucessor.
Perante gente tão mesquinha, Mário Centeno fez jus ao enorme mérito que o acompanha e à competência técnica de que deu provas em todos os cargos que ocupou. E mostrou a postura de Estado que falta ao governo que se habituou a difamar quem substitui.
Mário Centeno também é político, ninguém é governante sem o ser, mas não é o político saído do tráfico de influências ou o cidadão que chegou aos mais altos cargos manchado em negócios nebulosos.
Este governador do Banco de Portugal não precisa de quem o defenda, tem a dimensão ética, intelectual e técnica que falta aos homúnculos que povoam o atual governo.
Não me passa pela cabeça desejar qualquer mal ou censura sobre a Rádio Observador, mas tudo isto estaria bem se houvesse transparência política.
A Rádio Observador é um projecto profissional, bem conduzido, de qualidade muito acima das outras rádios existentes. Mas não é um projecto jornalístico, é um projecto político representando fortes interesses económicos no palco mediático e da ala mais à direita do espectro político. Isso significa duas coisas: tem recursos que nenhuma outra rádio tem ao seu dispor, e está no centro político e ideológico da influência crescente da direita mais à direita, da direita identitária cada vez mais forte do PSD, com o abandono do programa social-democrata de Sá Carneiro.
O Observador estende a sua influência fornecendo temas ao Chega e alargando o argumentário da Iniciativa Liberal como da ala direita do PS e o apoio aos candidatos oriundos dessa área. O Chega é muitas vezes atacado, não pelos seus temas, mas quando dificulta a actuação do PSD, que eles sabem muito bem ser quem pode aceder à governação. Mas isso não significa que não haja transporte dos temas e das prioridades do Chega para o Governo PSD-CDS, que, depois de “lavados” da sua origem malsã, são defendidos com unhas e dentes. O modo como o Chega trata a imigração é um exemplo perfeito, que, com todas as suas mentiras e sugestões de falsidade, está na origem da colocação da imigração e a sua suposta correlação com a criminalidade na centralidade da acção política desde a célebre declaração de Montenegro em horário nobre, seguida dias depois pelo espectáculo da rusga da Rua do Benformoso. A crítica da Provedoria da Justiça à rusga não é tema. A imigração era um problema, mas, a partir daí, tornou-se um outro problema, de natureza diferente.
O mesmo acontece, aí com mais proximidade política, com a Iniciativa Liberal, com a mesma lógica de proteger o Governo e o PSD dos excessos inconvenientes, como a motosserra de Milei, mas defender e ampliar a voz dos interesses económicos. E também o mesmo acontece com a sistemática promoção de tudo que surja na e da ala direita do PS, em particular do candidato presidencial António José Seguro, tratado com a máxima gentileza no Observador, em contraste com a violência com que Sampaio da Nóvoa, ou Santos Silva, ou Alexandra Leitão, ou Pedro Nuno Santos, são tratados.
A acção política do Observador é uma poderosa combinação que não se limita aos momentos mais directamente políticos no prime time, principalmente de manhã, mas estende-se pelo dia todo, pela forte presença de elementos da Rádio Observador nas estações de televisão noticiosas, amplificando os temas e o argumentário definido nas manhãs. Beneficia, aliás, de muita complacência nos outros órgãos de comunicação, que habitualmente colocam frente a frente um falcão do Observador com uma pombinha do PS.
Acresce que o Observador tem fontes privilegiadas, em particular no Ministério Público, nos partidos do Governo e no Governo, bem como nas confederações patronais, e conta com publicidade de grandes empresas. Se fosse apenas para apoiar um órgão de comunicação seria excelente, mas fontes e apoios estão directamente ligados com o programa político do Observador.
Seguem-se dois exemplos recentes do que disse e que mostram muito bem como funciona a Rádio Observador. Quando pareceu que o Governo poderia reconduzir Mário Centeno como governador do Banco de Portugal — uma manobra de spin, mas que poderia dificultar passar do elogio de Centeno à sua demonização —, apareceu o “caso” da nova sede, com a habitual sugestão de vários crimes e o apelo ao Ministério Público. Nunca ouvi o Observador fazer o mesmo com o caso Spinumviva.
Outro exemplo é o tratamento da decisão do Presidente da República de enviar a lei da nacionalidade para o Tribunal Constitucional, imediatamente atacada como sendo um frete à “esquerda”, como Marcelo traindo a sua base eleitoral — um curioso argumento para analisar a acção presidencial — e como uma gratuita demonstração de um poder cada vez mais póstumo.
Estes exemplos são do quotidiano da rádio, mas não custa ver o que aí vem com as alterações na legislação laboral, que toca com o núcleo duro da política do Observador, a defesa do lóbi mais agressivo do empresariado português. Esperem e vão ver, os comícios tipo orgasmo matinal do Observador.
Não me passa pela cabeça desejar qualquer mal ou censura sobre a Rádio Observador. Desejo-lhe muitos anos de vida, mas tudo isto estaria bem se houvesse transparência política e o Observador, em vez de se apresentar como um órgão de comunicação seguindo as regras deontológicas do jornalismo, fizesse uma declaração de interesses política. Não é o que estão sempre a pedir aos “outros”?
(Benedetta Sabene in SUBSTACK, 12/07/2025, Trad. Estátua de Sal)
Os dois conflitos do século — Ucrânia e Palestina — significam a morte política de Bruxelas. Resta apenas rearmar-se até aos dentes e criar inimigos imaginários para restaurar o seu sentido de existência.
As duas grandes crises internacionais que marcarão para sempre esta década, se não este século — a guerra na Ucrânia e o massacre em curso em Gaza — expuseram a total inconsistência política da União Europeia, privada de autonomia decisória e reduzida a um apêndice vazio da política externa dos EUA.
Apesar do desprezo coletivo pela guerra na Ucrânia, que deixou de ser um evento importante – que transformou quase todos os italianos em especialistas em geopolítica -, para se tornar um ruído de fundo entediante que já não desperta o interesse de ninguém, não se pode sequer considerar analisar o que está a acontecer em Gaza sem considerar o que está a acontecer em Kiev.
Falar da “incapacidade” da liderança europeia administrar as duas crises é extremamente tendencioso, visto que há uma dupla bitola moral que é aplicada à Ucrânia e à Palestina que não é um simples erro metodológico ou um problema moral, mas uma estratégia perfeitamente consistente com a estrutura das relações internacionais e a divisão do mundo em blocos militares e esferas de influência.
Com a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, a União Europeia demonstrou um ativismo humanitário sem precedentes: pacotes de sanções contra Moscovo, biliões de euros em ajuda militar e humanitária a Kiev, acolhimento incondicional de refugiados, censura de toda a mídia russa sob o pretexto de “combater a propaganda” (enquanto isso, a propaganda de Kiev estava a ser relançada na Itália: nos primeiros meses do conflito, eu pessoalmente desmascarei dezenas e dezenas de notícias descaradamente falsas relatadas pela nossa imprensa, copiadas e coladas diretamente do “The Kyiv Independent” e de outros meios de comunicação ucranianos envolvidos em propaganda de guerra implacável) e uma mobilização diplomática e mediática sem precedentes a favor do governo ucraniano.
O mesmo governo ucraniano que, durante o mandato do presidente Petro Poroshenko, foi culpado de inúmeros crimes de guerra, como o bombardeamento de infraestrutura civil no Donbass e o envio de batalhões paramilitares extremistas que, segundo o relato de organizações internacionais, cometeram as piores atrocidades contra dissidentes e civis. Já para não mencionar a catástrofe humanitária que desencadeou o conflito civil com os separatistas no Leste, contra os quais Kiev escolheu uma “mão pesada”, contribuindo para a deslocação interna de um milhão de pessoas e milhares de vítimas civis.
Na época, a União Europeia não se mostrou pronta para defender os civis ucranianos bombardeados por Poroshenko no leste do país, assim como agora titubeia para demonstrar solidariedade aos palestinianos massacrados às dezenas de milhares, espremidos numa faixa de terra da qual não há escapatória. Isso porque não é tanto a cor dos seus olhos e cabelos que importa – no Donbass eles também eram loiros de olhos azuis, como em Kiev –, mas sim o clube pelo qual você joga. Resta saber, no entanto, que racismo, islamofobia e russofobia foram e ainda são elementos fundamentais na narrativa e na perceção coletiva dos dois conflitos.
Crianças de Donbass escondendo-se dos bombardeamentos ucranianos, 2014.
Em fevereiro de 2022, Ursula von der Leyen não se conteve em condenar os crimes do governo de Putin contra civis ucranianos, as suas violações do direito internacional e os seus ataques à infraestrutura energética: todas as medidas possíveis e imagináveis foram adotadas para defender Kiev do “carniceiro” Putin, contra quem os epítetos mais malévolos foram cunhados naqueles meses.
Lembra-se? Na época, falava-se de um “despertar europeu“, de uma nova era em que o mundo humano e democrático, finalmente unido e coeso, atuaria como uma barreira ao autoritarismo e à violência dos “ogres russos“. Os valores europeus dos direitos humanos e do direito internacional, dos quais os países da UE se orgulhavam de ser bastiões, foram amplamente utilizados, tornaram-se pilares do discurso oficial e assim se propagaram num coro único.
Bem, no início funcionou. Quando comecei o meu trabalho como agente de divulgação, primeiro no Instagram e depois como jornalista e ensaísta, tentando expor as raízes profundas do conflito russo-ucraniano (que, ao contrário da grande maioria dos comentadores de última hora, eu acompanhava desde bem antes de 2022), o clima estava tão polarizado que recebi centenas, senão milhares, de insultos, ameaças de morte, ameaças de violação e todo tipo de ataques públicos ou privados. Alguns acusaram-me de ser paga diretamente por Putin, outros de repetir manuais de propaganda russa, outros de ser cúmplice do invasor e de ter sangue ucraniano nas mãos: a loucura e a histeria coletiva eram tão assustadoras que muitas vezes tive medo de me manifestar. Mas o mais assustador é que, assim que essa onda de ódio e raiva chegou, ela desapareceu com a mesma rapidez do debate público. É por isso que é crucial, agora, conectar as coisas.
A rapidez com que a Europa respondeu à agressão russa demonstrou que vontade política existe de facto, mas apenas quando converge com os interesses estratégicos dos Estados Unidos. Há pouco humanitarismo guiando as ações dos líderes de Bruxelas e dos governos europeus: o que importa é o que serve à estratégia dos EUA. Isolar a Rússia, romper o vínculo Moscovo-Berlim para conter a influência russa na Europa, romper o vínculo energético russo-alemão (e, portanto, russo-europeu), enfraquecer a Alemanha como força motriz da economia europeia e, assim, enfraquecer a autonomia política alemã, impedir a Rússia de se tornar uma potência euroasiática e, em vez disso, confiná-la exclusivamente ao continente asiático: isso, e simplesmente isso, é o que tem guiado a ação dos EUA e da Europa.
Isto é demonstrado pelo facto de que, desde outubro de 2023, quando Gaza foi submetida a uma ofensiva militar devastadora que resultou em dezenas — senão centenas — de milhares de mortes (principalmente mulheres e crianças), milhões de deslocados, hospitais destruídos, fome e a destruição sistemática das infraestruturas civis, a União Europeia tem sido extremamente tímida em condenar Israel.
Apesar do massacre ter sido imediatamente denunciado por dezenas de juristas, relatores da ONU e pelo próprio Tribunal Internacional de Justiça como um “possível genocídio“, a União Europeia não assumiu uma posição clara. Muito pelo contrário, na verdade. Entre as ações europeias mais notáveis nos últimos dois anos estão: a recusa em pedir um cessar-fogo imediato nos estágios iniciais do conflito e a repetição da ladainha sobre o direito de Israel de se defender; a suspensão do financiamento à UNRWA, com base em alegações não verificadas, enquanto a população de Gaza já corria o risco de uma grave crise alimentar; o apoio explícito a Israel por muitos Estados-membros, particularmente a Alemanha; a repressão interna de protestos pró-palestinianos, muitas vezes rotulados como “antissemitas“, mesmo quando apenas invocavam os direitos humanos e o direito internacional.
O conflito na Ucrânia desaparece, portanto, dos media e do discurso público porque a duplicidade de critérios é tão evidente que mesmo os menos familiarizados com a política internacional percebem imediatamente que algo não está certo. E esse “algo” é que Israel é um aliado estratégico dos Estados Unidos (e, portanto, da União Europeia, visto que esta é uma organização desprovida de qualquer autonomia em política externa), os quais estão dispostos a fazer qualquer coisa em sua defesa, inclusive bombardear o Irão e a impor sanções a funcionários das Nações Unidas.
O caso mais recente é o de Francesca Albanese, advogada e académica italiana, Relatora Especial da ONU para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinianos Ocupados desde 2022. Nessa função, ela publicou relatórios detalhados sobre a ilegalidade da ocupação israelita, as suas políticas de apartheid e as violações do direito humanitário durante a ofensiva em Gaza. As suas reportagens e denúncias monumentais tornaram-na uma das vozes mais influentes no debate público sobre a situação dos palestinianos na Faixa de Gaza.
O seu trabalho é rigoroso e está em conformidade com os mandatos das Nações Unidas. No entanto, ela tornou-se alvo de uma campanha cruel de deslegitimação pessoal e política, que culminou na imposição de sanções por Israel e pelos Estados Unidos. As acusações são (adivinhe?) antissemitismo, partidarismo e propaganda. Mas, analisando mais de perto, o crime fundamental de Francesca Albanese é essencialmente um só: aplicar o direito internacional a Israel.
Francesca Albanese
Como lembra o jornalista Paolo Mossetti, o presidente Sergio Mattarella foi rápido a demonstrar solidariedade ao ex-editor do La Repubblica, Molinari, quando este foi desafiado por estudantes num evento. Ele também chamou Giorgia Meloni quando um utilizador qualquer insultou a sua filha Ginevra, no Twitter/X. Mas quando uma cidadã italiana, unicamente devido ao desempenho legítimo do seu mandato nas Nações Unidas, é submetida a sanções e a uma campanha de difamação no Google, financiada pelo governo israelita, simplesmente por fazer o seu trabalho, nenhuma instituição italiana, até agora, se mostrou à altura de lhe demonstrar solidariedade.
Mas, embora a Europa se mostre totalmente dissociada da opinião pública, cada vez mais desiludida e desconfiada das políticas de Bruxelas desde o massacre de civis em Gaza, ela também tenta recuperar a legitimidade política por meio da guerra e da criação de um inimigo comum contra o qual se unir: a Rússia.
Uma invasão da Europa por Moscovo está a ser descrita como altamente provável e quase iminente, a ponto de ser urgente aumentar os gastos militares para 5% do PIB, apesar dos média europeus estarem a noticiar, ao mesmo tempo, que o exército russo, atolado na Ucrânia há mais de três anos, luta com pás e tem dificuldades para conquistar até mesmo alguns quilômetros quadrados de terra.
A crise da União Europeia não é meramente política, é existencial. Na ausência de um projeto político comum e dada a incoerência que demonstrou aos olhos dos cidadãos europeus, a única cola para recuperar a legitimidade política parece ser a ameaça externa. Neste contexto, o apoio à Ucrânia, embora legítimo do ponto de vista da solidariedade internacional, tem sido explorado não para defender a lei em si, mas para redefinir o papel da UE como um ator internacional relevante, ainda que exclusivamente de uma perspetiva militar.
A guerra na Ucrânia acelerou uma transformação já em curso: o ressurgimento da política de blocos militares como principal forma de organização geopolítica. De um lado, a expansão e o fortalecimento da NATO; do outro, o surgimento de alianças alternativas entre Rússia, China, Irão e outros atores do chamado “Sul Global“. Essa lógica marca uma rutura definitiva com a ilusão pós-Guerra Fria de um mundo em que o direito internacional gradualmente substituiria a força. Em vez disso, estamos a assistir ao retorno brutal de um mundo bipolar, cujos efeitos vemos na Ucrânia e na Palestina.
A União Europeia, que poderia ter-se apresentado como um terceiro polo autónomo, um estabilizador e mediador entre as duas potências, os EUA e a Rússia (e no Mediterrâneo com a Palestina), optou por se aliar acriticamente ao bloco atlântico: o resultado é uma subordinação diplomática e militar da qual parece não haver saída.
Mas, justamente porque o mundo se está a unir em torno da lógica militar, torna-se ainda mais urgente defender, redefinir e promover o papel do direito internacional como um fundamento comum: uma Europa que renuncia a essa tarefa não apenas se trai, mas contribui enormemente para a desestabilização de regiões inteiras, a eclosão de novos conflitos e a manutenção de um estado de guerra perpétua.
Em suma, a Europa morreu em Gaza, mas a lógica militar e o rearmamento não a salvarão. Assim como não salvarão os ucranianos nem os palestinianos.