O populismo alt-right à portuguesa e a justiça

(Pedro Marques Lopes, in DN, 16/03/219)

Pedro Marques Lopes

Alguns cidadãos, albergados no projeto político Observador, viram no clamor público contra Neto de Moura uma campanha encapotada contra a justiça. A coisa foi um bocadinho disfarçada, mas não muito. Escreveu-se e disse-se que sim, claro, que o que o ainda juiz escreveu era inaceitável, mas – e na adversativa estava a mensagem essencial – que os ataques de que foi alvo visavam o edifício judicial. Todas as pessoas que não estão envolvidas diretamente no processo político (humoristas, atores e comentadores de jornais) e que se insurgiram contra Neto de Moura foram tratadas por idiotas úteis. Os outros fazem parte duma conspiração sinistra contra a justiça.

O discurso não é o novo, é aliás repetido incessantemente. A justiça está sob ataque porque está a pôr em causa uma entidade vaga que o ativista Rui Ramos, toda a santa semana, trata como oligarquia. Um grupo de gente que inclui a classe política, mediática e económica (pôr neste rol o poder económico e ser um dos líderes Observador revela ou que não conhece os pagadores do projeto ou, digamos assim, um bocadinho de falta de vergonha). Ou seja, todos menos os que não estão no projeto político Observador. Uma espécie de dragão que terá de ser combatido por um São Jorge que os homens do Observadoresperam ansiosos . No entretanto, tentam melhorar, no pior sentido, as condições para que ele surja – e, infelizmente, elas existem.

Este tipo de narrativas e de movimentos já não são novidade para ninguém. Escolhe-se um conjunto de pessoas – a tal oligarquia, neste caso – e atira-se para cima dele todos os problemas que uma comunidade enfrenta. É o populismo em todo o seu esplendor: explicações simplistas para problemas complexos. Os emigrantes que destroem a segurança social e que espalham o crime, os corruptos que bloqueiam o país e o seu desenvolvimento, o suposto imperialismo americano, etc., etc. A face visível do discurso político é uma, apela aos instintos mais básicos, baseia-se em mentiras descaradas e é sistematicamente repetido. A agenda real vem escondida – e essa varia segundo a orientação política do movimento. A aparente sofisticação do discurso da alt-right Observador não é mais do que populismo puro e duro.

Não é em vão que esta gente insiste que a justiça está sob ataque. Alguns setores do poder judicial também embarcaram numa espécie de cruzada populista contra os “ricos e poderosos”, não hesitando em violar princípios básicos e direitos fundamentais em função de valores que eles definiram como superiores. Não faltam documentos de associações de profissionais da justiça que clamam a necessidade de a justiça combater o sistema, de o moralizar, de fazer uma limpeza ética.

Também não foi por qualquer preocupação com o bom funcionamento da justiça que o Observador fez uma campanha tão violenta a favor da continuação de Joana Marques Vidal (que simplesmente serviu de arma de arremesso nesta guerra e até por um ex-primeiro-ministro que fez uma tristíssima figura e mostrou uma falha imperdoável de sentido de Estado) ou que põe em causa de forma sistemática o trabalho do juiz Ivo Rosa. O objetivo é sempre o mesmo: fazer de alguma justiça uma aliada no combate que estão a travar. Para tal, não hesitam em fazer passar a ideia de que a independência do poder judicial está em causa e que a tal oligarquia está a tentar controlar o edifício judicial. A tentativa de instrumentalização é descarada, o desprezo pela estabilidade do funcionamento dos órgãos de soberania é desprezada. Na linha da velha extrema-esquerda vale tudo para atingir os objetivos. Uma variante da destruição criativa.

Os propósitos finais dos dois grupos são diferentes, mas, neste momento, coincidem: descredibilizar o poder político e dar a ideia de que há uma conspiração e que o poder judicial é o último bastião de defesa.

Não surpreende também que Rui Rio seja apontado a dedo como o campeão da luta contra a justiça e, em consequência, o símbolo da oligarquia. Não é de agora que o presidente do PSD fala dos problemas da justiça. Tem, verdade seja dita, dentro da classe política um histórico de denúncia do seu evidente mau funcionamento que não é feito em função de interesses políticos de ocasião. É, aliás, dos pouquíssimos políticos que têm tido coragem para falar deste tema desassombradamente e sem medo de perder popularidade.

Rui Rio é o político que mais interessa a esta alt-right populista destruir. É ele que eles julgam estar a impedir a tomada do PSD que tanto desejam (estão enganados porém, nunca esta linha conquistará o PSD). Nada, mais uma vez, que ver com justiça.

Desengane-se quem pensa que existe alguma preocupação com o bom funcionamento da justiça das pessoas que disseram que os ataques a Neto de Moura visavam pôr em causa a independência do poder judicial. Mais, são exatamente estes que mais desejam que os claros problemas que afetam o setor continuem a existir e se agravem. Tudo o que possa contribuir para o caos lhes interessa. São assim os populistas.


A lei de Vítor Melícias

Já se sabe que Vítor Melícias é um frade franciscano muito dado a causas terrenas. Nada a opor, claro está. Mas dado o seu convívio tão íntimo com as questões deste mundo e com os corredores do poder, apetece lembrar-lhe que não é ele que faz as leis nem é ele que define quais são as que se devem respeitar. Mas como tenho poucas dúvidas de que ele sabe perfeitamente o que é o Estado de direito e que a lei é para ser respeitada e que obriga tanto padres como presidentes de bancos e até secretariozecos, resta perguntar quem pensa ele que é para achar que os seus amigos estão acima da lei? Esta causa terrena vale assim tanto?


Viva o Ricky Gervais

Há uns anos, um tipo, durante um jantar, estava a dizer mal do Extras II. Do outro lado da mesa, um cidadão, claramente furioso, berrava que a série era fabulosa, que o Ricky Gervais era um absoluto génio e que qualquer pessoa que discordasse merecia ver ininterruptamente os Malucos do Riso com a participação especial do Badaró. Foi um momento muito constrangedor por duas razões. A primeira, é que o indivíduo que parecia enlouquecido de amor pelo Ricky ainda não tinha visto a série; a segunda, é que esse tipo era eu.

É este o tipo de fã que sou do Gervais, e tenho boas razões para isso. O Office, o Extras I e II e o Derek são absolutamente geniais. Mas há mais, o An Idiot Abroad, o Life Is Too Short, as longas-metragens, os shows de rádio, as apresentações nas cerimónias dos Óscares e nos Globos de Ouro, etc., etc. é tudo excelente. A verdade é que até as coisas menos boas do inglês são ótimas.

Agora, para a Netflix, o Ricky Gervais fez uma série que fica ao lado ou mesmo transcende o melhor que já tinha feito. Chama-se After Life e não pode deixar de ser vista. Fala das nossas fraquezas, da nossa fragilidade, dos nossos medos e anseios. Fala de nós.

É uma história sobre a vitória da bondade (como sempre no Gervais) e de redenção, contada com o seu fantástico humor e o seu imenso amor pela humanidade.



O sarilho em que eles se meteram

(Francisco Louçã, in Expresso, 29/12/2018)

LOUCA3

O “Observador” prossegue serenamente a sua carreira, militando pela reconstituição de uma direita de capa e espada. Fá-lo com a elegância que se esperaria, testando hipóteses, ora vamos lá a ver se os lusos ‘coletes verdes’ vingam, ora vamos lá ver se o Montenegro se amanda ao homem ou se o Passos regressa, ora vamos lá ver que é preciso deitar abaixo aquele de Belém, que atrapalha por demasia. Como um velho general, os seus fundadores perscrutam o horizonte e rabujam que falta liberalismo, falta ousadia, sobra acomodamento, ninguém levanta a voz para mostrar este declínio podre, parece que toda a canalha gosta do pardieiro em que a esquerda nos meteu. Mas por vezes surge um relâmpago de inspiração e foi o caso que vos venho relatar.

Pois meteu-se o “Observador” pelos misteriosos caminhos da religião, emboscando alguns eclesiásticos sobre as suas convicções: então como é que Maria teve Jesus? Dois deles responderam com a prudência de quem sabe da vida. Anselmo Borges explicou que com a metáfora bíblica sobre a virgindade de Maria apenas se pretende “dizer a importância de Jesus enquanto filho especial de Deus” e o bispo do Porto, Manuel Linda, advertiu que “nunca devemos referir a virgindade física” de Maria. Desencadeou-se a tempestade e o jornal, guloso, albergou a indignação.

Sugiro a quem lê estas páginas que se dedique a esse revelador encantamento natalício. Diz Isaías Hipólito que estes hereges recusam a “veracidade dos Evangelhos” ao abdicarem de “uma peça central do Credo cristão: o de que Jesus, Filho único de Deus, foi ‘concebido pelo poder do Espírito Santo’ e ‘nasceu da Virgem Maria’”. Mais ainda, “o Credo é para os cristãos o mínimo denominador comum que todos devem comungar. Retirar-lhe qualquer peça, por aparentemente descredibilizar a pretensão cristã, implica minar todo o edifício da fé”, a sabotagem a que se dedicam Anselmo Borges e o bispo do Porto.

João Bleck exige uma contrição: “Não ficava mal ao senhor D. Manuel Linda cumprir o dever de se retratar e pedir publicamente perdão pela ofensa”. E, para arrumar o assunto, cita o Catecismo, “que remete para o claríssimo cânone 3 aprovado na sessão do dia 31 de outubro do ano 649 do Concílio de Latrão, onde se estabelece o seguinte: ‘Se alguém não confessa, de acordo com os santos Padres, propriamente e segundo a verdade, por mãe de Deus à santa e sempre (semperque) virgem e imaculada (immaculatam) Maria, dado que concebeu nos últimos tempos sem sémen (absque semine) por obra do Espírito Santo, ao mesmo Deus Verbo própria e verdadeiramente, o qual, antes de todos os séculos nasceu de Deus Pai, e incorruptivelmente o gerou (et incorruptibiliter eam genuisse), permanecendo inviolada a sua virgindade mesmo depois do parto (indissolubili permanente et pos partum eiusdem virginitate), seja condenado’”. Condenem-se os atrevidos.

Gonçalo Portocarrero de Almada, um prelado da Opus Dei que aprecio sobremaneira porque já recomendou este ateu como “São Francisco Louçã”, arruma o assunto citando a dogmática de Ratzinger: “Por isso, estes dois pontos — o parto virginal e a ressurreição real do túmulo — são verdadeiro critério da fé. Se Deus não tem poder também sobre a matéria, então ele não é Deus”. Assim, a fé é reduzida à obediência. Na diferença entre a religião como entendimento da vida ou como crença reverente no impossível, aqui está a escolha cómoda.

Prosaicamente, Pessoa, ou Alberto Caeiro, contava outra história:

O seu pai era duas pessoas —
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
“Se é que ele as criou, do que duvido.” —
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.”

(extrato de ‘O Guardador de Rebanhos’)

Perdoem-me se acho este menino mais verdadeiro do que o do dogma.


2019 em três riscos

No dia 31 de janeiro deste ano que finda, Alan Greenspan explicou candidamente que havia duas bolhas, de obrigações e de ações. Uma semana depois, numa só hora, a bolsa teve a sua maior queda desde o subprime. Voltou logo tudo ao normal. Ninguém sabe o que aconteceu. Nas vésperas deste Natal, a mesma coisa, queda abrupta. Depois, subida confortável. Os mercados andam “nervosos”, dir-se-á. Pois há boas razões para isso.

GANÂNCIA

Greenspan dirigiu durante 19 anos o banco central dos EUA e dizia em 2002 que “grande parte da nossa comunidade empresarial parece ter sido dominada por uma ganância contagiosa (…). O problema é que os meios para manifestar essa ganância cresceram desmedidamente”. Mas nem por isso esses meios foram controlados e, assim, se desde 1945 até ao final dos 1970 não houve grandes crises bancárias, agora é a rotina.

Tanto era assim que, em 2005 Raghuram Rajan, então o economista-principal do FMI, provocou um escândalo numa conferência de homenagem a Greenspan, perguntando se “o desenvolvimento financeiro [teria] tornado o mundo um lugar mais arriscado”. A sua resposta foi que “o desastre poderá estar iminente”, pois os gestores têm “incentivos para aceitar riscos que estão ocultos dos investidores”. A reação dos colegas foi indignada. Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, terá respondido que Rajan era o que se traduziria por um “velho do Restelo”. De facto, a carreira de Greenspan constitui um sucesso na desregulação, o que ele explicava abertamente: “À medida que entramos no novo século, as forças regulamentadoras privadas de estabilização do mercado deverão substituir gradualmente muitas das estruturas governamentais incómodas e cada vez mais ineficazes. Trata-se de um futuro provável, pois os governos, pela sua própria natureza, não se conseguem ajustar com celeridade suficiente a um ambiente em mudança que tantas vezes segue rumos imprevistos”. No ano seguinte à sua reforma, veio o crash do subprime.

O primeiro risco de 2019 é este: a desregulação não só prosseguiu como, com juros baixos, foram estimuladas mais aventuras especulativas. Além disso, o crescimento das bolsas está muito preso às empresas tecnológicas, desde 2013 quase 40% do aumento do índice S&P depende de seis grandes (Alphabet, Amazon, Apple, FB, Microsoft, Netflix). Pode estar nelas o perigo de sobrevalorização. O “nervosismo” da finança é por se conhecer ao espelho.

MONTANHAS DE DÍVIDAS

O segundo maior risco de 2019 é a montanha de dívidas. As dívidas transfronteiriças são hoje de 30 biliões de dólares, eram 9 há vinte anos. A dívida pública chinesa é o dobro da de 2009, a das empresas chinesas é de 450 mil milhões em dólares, era então zero. O balanço do BCE triplicou para cerca de cinco biliões de euros. É certo que esta absorção de dívidas no BCE é estabilizadora, não é tão vulnerável a pânicos de empresas, e que a China tem reservas e um superavit que a protegem. Mas aqui entra o fator político, pois o terceiro risco é a turma de governantes do mundo.

Os governantes são um problema por dois motivos imediatos. Por um lado, o balanço do BCE não vai manter eternamente essas dívidas (podia e devia, mas não vai ser assim). E a escolha do momento e da forma para a vender pode ser desastrosa para as condições de financiamento dos Estados e empresas. A viragem à direita na União Europeia e a escolha do sucessor de Draghi agravam este risco. E, por outro lado, se houver uma perturbação financeira, e ainda nos últimos dias tivemos disso um sinal, a consistência da resposta dos bancos centrais e governos pode ser decisiva. Ora, se for precisa cooperação para responder a uma crise, na Casa Branca há Trump.

Obrigado, Passos Coelho 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/10/2017)

Daniel

Daniel Oliveira

(Excelente análise do Daniel Oliveira sobre a “orfandade” da direita neoliberal).


Tem sido comovente ler os vários artigos de opinião de colunistas que choram a partida de Passos Coelho. Colunistas que dizem que o País lhe deve a sua sobrevivência. Apesar de ser hoje sabido que, nas negociações com a troika, o governo aproveitou o embalo para medidas austeritárias que nem sequer nos eram exigidas por Bruxelas, num aproveitamento de uma situação de fragilidade para impor uma agenda que se sabia ultraminoritária. Apesar de sabermos que foi por convicção para lá da troika e que se não o tivesse feito ter-se-iam salvado pelo menos alguns empregos, algumas empresas, algumas partidas para o estrangeiro. Apesar de sabermos que Passos desejou a intervenção externa e até fez tudo para a facilitar e com ela poder chegar ao poder. Pelo que fez ao país, não devemos qualquer agradecimento a Passos Coelho. Mas a narrativa do salvador incompreendido é fundamental para evitar que as suas bandeiras caiam por evidente falta de sucessores políticos.

A agenda radical que Passos Coelho acabou por impor ao seu partido e ao país tem os seus cultores e não corresponde à tradição histórica do PSD. Ela tem crescido entre jovens vanguardistas apostados em vencer o que consideram ser o “status quo” socialista, a que nós chamamos apenas de Estado Social e que tem um fortíssimo apoio popular. Jovens que foram promovidos e protegidos por intelectuais que trocaram a revolução maoísta pela revolução liberal-conservadora, sem, nessa troca, terem perdido nenhum mau hábito antigo.

O seu órgão central é, como se sabe, o “Observador”, um projeto que apesar de defender as vantagens da economia de mercado depende do mecenato ideológico. O estilo radical casa a intolerância cultural que degenerou no trumpismo com experiências sociais e económicas que apenas foram testadas em ditaduras como o Chile. A moda do marxismo radical dos anos 70 foi substituída pela moda liberal-conservadora do início do século. Reagan ocupou o lugar de Mao no coração da elite enfadada. Sabemos para onde pende o disparate vendo para onde segue, sempre com a mesma rígida ortodoxia, José Manuel Fernandes.

Nenhum dos órfãos mediáticos de Passos alguma vez foi um passista. Eles não têm as suas raízes no PSD. Os mais velhos vêm da extrema-esquerda, os mais novos da academia e do sector financeiro. A carne assada nas campanhas internas é-lhes absolutamente estranha. O PSD profundo há de lhes causar um enorme tédio. Mas Passos foi o homem certo no lugar certo. Intelectualmente virgem, era fácil de moldar a umas ideias simples e salvíficas e fascinar-se com a tarefa de construir um país novo sobre as ruínas de estruturas caducas. As estruturas lá continuam todas, como não poderia deixar de ser num país pequeno e num capitalismo inevitavelmente dependente do Estado, a destruição é que não foi pequena.

Agora, despedem-se do jogo político. Mesmo que a pressão de poderes não eleitos em Bruxelas obrigue a cedências, a vitória de Passos significou a derrota das ideias que decidiu representar. Ninguém no PSD quer ser confundido com o seu legado. Ninguém quer sequer, mais uma vez, dizer que é de direita. Privatização voltou a soar mal, liberalização voltou a ser uma palavra feia.

A melhor forma de derrotar, no plano das ideias, o neoliberalismo é experimentá-lo. É mais ou menos como o socialismo real: quando toca na vida das pessoas é que se torna feio. E é por isso mesmo que nenhum afilhado de Passos Coelho avança para a liderança do PSD.

Nos próximos meses, nos próximos anos, o “Observador” e os seus avatares espalhados pela imprensa vão voltar ao tempo da blogosfera: a falar para os convertidos. É por isso natural que chorem a partida do homem que lhes deu acesso ao poder de Estado, tornando o seu radicalismo ideológico numa coisa vagamente respeitável. Claro que o poder das suas ideias vai continuar a fazer-se sentir através das instituições privadas que as patrocinam e do forte domínio mediático e académico que, como no passado aconteceu com a esquerda, foram conquistando. Mas, no combate político-partidário, não têm protagonista. Por isso junto a minha voz às deles: obrigado Passos Coelho, foste a vacina de que precisávamos para recentrar a vida política.