(Pacheco Pereira, in Público, 26/07/2025)

Não me passa pela cabeça desejar qualquer mal ou censura sobre a Rádio Observador, mas tudo isto estaria bem se houvesse transparência política.
A Rádio Observador é um projecto profissional, bem conduzido, de qualidade muito acima das outras rádios existentes. Mas não é um projecto jornalístico, é um projecto político representando fortes interesses económicos no palco mediático e da ala mais à direita do espectro político. Isso significa duas coisas: tem recursos que nenhuma outra rádio tem ao seu dispor, e está no centro político e ideológico da influência crescente da direita mais à direita, da direita identitária cada vez mais forte do PSD, com o abandono do programa social-democrata de Sá Carneiro.
O Observador estende a sua influência fornecendo temas ao Chega e alargando o argumentário da Iniciativa Liberal como da ala direita do PS e o apoio aos candidatos oriundos dessa área. O Chega é muitas vezes atacado, não pelos seus temas, mas quando dificulta a actuação do PSD, que eles sabem muito bem ser quem pode aceder à governação. Mas isso não significa que não haja transporte dos temas e das prioridades do Chega para o Governo PSD-CDS, que, depois de “lavados” da sua origem malsã, são defendidos com unhas e dentes. O modo como o Chega trata a imigração é um exemplo perfeito, que, com todas as suas mentiras e sugestões de falsidade, está na origem da colocação da imigração e a sua suposta correlação com a criminalidade na centralidade da acção política desde a célebre declaração de Montenegro em horário nobre, seguida dias depois pelo espectáculo da rusga da Rua do Benformoso. A crítica da Provedoria da Justiça à rusga não é tema. A imigração era um problema, mas, a partir daí, tornou-se um outro problema, de natureza diferente.
O mesmo acontece, aí com mais proximidade política, com a Iniciativa Liberal, com a mesma lógica de proteger o Governo e o PSD dos excessos inconvenientes, como a motosserra de Milei, mas defender e ampliar a voz dos interesses económicos. E também o mesmo acontece com a sistemática promoção de tudo que surja na e da ala direita do PS, em particular do candidato presidencial António José Seguro, tratado com a máxima gentileza no Observador, em contraste com a violência com que Sampaio da Nóvoa, ou Santos Silva, ou Alexandra Leitão, ou Pedro Nuno Santos, são tratados.

A acção política do Observador é uma poderosa combinação que não se limita aos momentos mais directamente políticos no prime time, principalmente de manhã, mas estende-se pelo dia todo, pela forte presença de elementos da Rádio Observador nas estações de televisão noticiosas, amplificando os temas e o argumentário definido nas manhãs. Beneficia, aliás, de muita complacência nos outros órgãos de comunicação, que habitualmente colocam frente a frente um falcão do Observador com uma pombinha do PS.
Acresce que o Observador tem fontes privilegiadas, em particular no Ministério Público, nos partidos do Governo e no Governo, bem como nas confederações patronais, e conta com publicidade de grandes empresas. Se fosse apenas para apoiar um órgão de comunicação seria excelente, mas fontes e apoios estão directamente ligados com o programa político do Observador.
Seguem-se dois exemplos recentes do que disse e que mostram muito bem como funciona a Rádio Observador. Quando pareceu que o Governo poderia reconduzir Mário Centeno como governador do Banco de Portugal — uma manobra de spin, mas que poderia dificultar passar do elogio de Centeno à sua demonização —, apareceu o “caso” da nova sede, com a habitual sugestão de vários crimes e o apelo ao Ministério Público. Nunca ouvi o Observador fazer o mesmo com o caso Spinumviva.
Outro exemplo é o tratamento da decisão do Presidente da República de enviar a lei da nacionalidade para o Tribunal Constitucional, imediatamente atacada como sendo um frete à “esquerda”, como Marcelo traindo a sua base eleitoral — um curioso argumento para analisar a acção presidencial — e como uma gratuita demonstração de um poder cada vez mais póstumo.
Estes exemplos são do quotidiano da rádio, mas não custa ver o que aí vem com as alterações na legislação laboral, que toca com o núcleo duro da política do Observador, a defesa do lóbi mais agressivo do empresariado português. Esperem e vão ver, os comícios tipo orgasmo matinal do Observador.
Não me passa pela cabeça desejar qualquer mal ou censura sobre a Rádio Observador. Desejo-lhe muitos anos de vida, mas tudo isto estaria bem se houvesse transparência política e o Observador, em vez de se apresentar como um órgão de comunicação seguindo as regras deontológicas do jornalismo, fizesse uma declaração de interesses política. Não é o que estão sempre a pedir aos “outros”?
O autor é colunista do PÚBLICO
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