(Por José Gil, in Público, 05/10/2025)

Gaza tornou-se o epítome da nova moral da força que faz do princípio da violência e da morte do outro a norma que deve presidir às relações entre as nações, entre os povos e entre os indivíduos.
Vimos com horror o massacre dos israelitas cometido pelo Hamas a 7 de Outubro de 2023.
A barbárie que vitimou mais de mil civis atingiu um grau de crueldade inimaginável. Ninguém, no dia seguinte, negava a Israel o direito de responder tomando como alvo a organização terrorista. Hoje, dois anos depois, tornou-se escandalosamente difícil evocar o 7 de Outubro perante a destruição apocalíptica de Gaza. Porquê? Se não faz sentido estabelecer comparações morais entre crimes tão hediondos, as atrocidades do Hamas não são “piores” do que a matança da população palestiniana perpetrada pelo Exército israelita.
Afirmar o contrário é tentar justificar o assassínio de todo um povo. É supor que os israelitas têm o “direito de se defender” de qualquer modo, direito exclusivo que lhes adviria do seu passado histórico de discriminação e de sofrimento sem fim — e que culminou no Holocausto. Passado que fez do povo judeu a vítima eleita da injustiça dos poderes estabelecidos do Ocidente, isto é, vítima da humanidade inteira (e assimilar a humanidade ao Ocidente é já um preconceito eurocêntrico). Considera-se agora que a vida de cada judeu vale mais do que a de qualquer outro ser humano — julgamos assim redimir-nos do Holocausto, nós, herdeiros dos ocidentais culpados daquele crime.
É a crença no valor superior de um judeu — e, portanto, de um israelita — que justifica que se arrase Gaza com os seus dois milhões de palestinianos, que se abatam mulheres e crianças, que se atire a matar contra os que, esfomeados, acorrem aos locais de ajuda alimentar — e que se troque um soldado israelita por centenas de militantes do Hamas. A vida de um palestiniano vale menos do que a de um judeu. A vida de uma criança palestiniana vale menos do que a de uma criança israelita. Ora, a erosão deste princípio, produzida pela guerra de Gaza, faz com que se torne difícil lembrar o 7 de Outubro. Foi uma convicção deste tipo — mas, ao invés, desumanizando os judeus — que levou o anti-semitismo hitleriano ao Holocausto.
Poder para a guerra
Como foi possível esta reviravolta que converteu um povo mártir em responsável por um massacre tão abominável como o que sofreu na Segunda Guerra Mundial?
Ele, que devia ser o primeiro a afirmar e a praticar as normas mais básicas de respeito pelo outro, ergueu-se, arrogante e feroz, e decidiu vingar-se bombardeando e matando a que julga ser raça inferior. A lógica que levou os descendentes das vítimas dos campos da morte nazis a uma tal posição de poder prepotente mostra como o exercício do poder político, voltado essencialmente para fins de sobrevivência, se transforma em poder para a guerra, com todas as consequências bárbaras que acarreta, sobretudo quando detém uma enorme superioridade bélica.

A ameaça de morte de Israel brandida pelos Estados árabes foi constantemente amplificada pelo discurso paranóico do poder israelita que via nela a continuação do projecto de “solução final” do Holocausto; e, para dele definitivamente se livrar, virou-o contra o inimigo, começando pela expulsão brutal, em 1948, dos palestinianos e árabes das suas terras (Nakba), seguido pela política dos colonatos e pela transformação de Gaza num vasto campo de concentração. Projecto que culmina agora com a sua destruição. O processo que levou à guerra actual e à decisão de eliminar por completo a presença e a existência de um povo do seu território implicou a inversão imaginária da posição de vítima (do Holocausto) na de carrasco; e a inversão e projecção da ameaça de aniquilação total (reactivada pelo 7 de Outubro) sobre o inimigo árabe-palestiniano.

Gaza tornou-se um campo de extermínio de ratos humanos que fogem para todos os lados enquanto são bombardeados pelos aviões israelitas que os abatem à vontade, às dezenas, todos os dias. No meio de escombros e de lixo, os palestinianos dormem ao relento ou em tendas, correm humilhados e esfomeados para a ajuda humanitária que não chega, vivem sem cuidados médicos, sem higiene, doentes, feridos, mutilados, constantemente escorraçados. Vão de um sítio para outro, supostamente seguro, mas onde são baleados, despedaçados, mais uma vez desapossados da sua condição de humanos.
Nas imagens e nos relatos que nos chegam, é como se víssemos desenrolar-se, a céu aberto, uma outra versão da vida dos prisioneiros de Auschwitz. Gaza transformou-se no laboratório social de um Mengele genocidário: testa-se a resistência de um povo que, morrendo todos os dias um pouco, há-de acabar por abandonar a sua terra ou ser expulso por cinco mil dólares por pessoa — deixando-a livre, para os grandes empreendimentos imobiliários construírem a “Riviera do Médio Oriente” sonhada por Trump.
À frente dos nossos olhos
Tudo isto se passa diante dos nossos olhos com a cumplicidade da Europa, dos Estados Unidos e das nações democráticas que se calam perante os crimes de Israel. Neste sentido, Gaza é hoje o revelador sintomático de uma situação geopolítica mundial abstrusa, absurda, que nos afecta a todos, individual e colectivamente: as relações de força que determinam as estratégias e acções políticas das grandes potências, que condicionam a guerra e a paz e, directamente, a vida dos indivíduos, cessaram de se mascarar com ideologias, doutrinas políticas, religiões ou normas de direito internacional, para aparecer na sua nudez, na sua crueza ou crueldade brutas — e serem aceites como “normais”.
A visibilidade (não a transparência) dos acontecimentos, processos e iniciativas que giram à volta dessas relações de força alcançou um tal grau de intensidade e extensão que os valores jurídicos e a moral política já não contam — vale apenas a força, não há sequer lugar para o cinismo, a mentira ou a denegação, que tendem a desaparecer, dissolvidos na universalidade e clareza da violência que ocupa todo o campo político. Putin e os seus “crimes contra a humanidade” perpetrados na Ucrânia; Netanyahu e o assassínio colectivo de uma população indefesa; a repressão brutal das revindicações femininas pela polícia de Teerão; a inimaginável crueldade dos taliban contra as mulheres afegãs; a morte pelas bombas e pela fome das crianças palestinianas são “admitidos” com indiferença pelas democracias ocidentais.
Putin, Netanyahu, Trump e outros autocratas e criminosos de gravata continuam a exibir-se na cena mediática internacional, atraindo simpatias, elogios, posturas reverenciais, como se nada fosse. Porque acontece que esses homens não são apenas pessoas, representam a força de uma política que impõe aos povos um estado de espírito. Os sistemas autocráticos actuais concentram todo o tipo de poder (político, militar, económico, judicial) num só indivíduo. Deste, dos seus interesses e da sua vontade, depende a vida de milhões de seres humanos — o destino dos ucranianos nas mãos de Putin; as vidas dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia sacrificadas para que Netanyahu escape à justiça do seu país. Estes factos escandalosos, a sua impunidade ofensiva, a ausência de uma instância que os impeça e os puna — quando, por outro lado, a sua presença é cada vez mais exigida pelo sentimento de injustiça que vai emergindo na opinião pública — são mais uma faceta do bloqueio e da passividade a que a consciência política das nações parece condenada.
Gaza reflecte uma situação planetária paradoxal: a democracia de Israel comporta-se como uma autocracia; o povo descendente da Shoah apoia a “solução final” que os seus dirigentes programaram para os palestinianos; as vítimas tornaram-se verdugos, o “bom” é agora “mau” e cruel — e são eles os nossos aliados, depositários do mais profundo legado de humanidade, aquele que, precisamente, deveria fundar a nossa fé na democracia, depois do Holocausto.
Neste sentido, Gaza espelha da forma mais aguda o que acontece hoje às democracias, minadas pela violência da extrema-direita: os seus mecanismos institucionais políticos e jurídicos tendem a funcionar ditatorialmente, enquanto o discurso e os rituais de ostentação se mantêm aparentemente “democráticos”, afirmando a liberdade para o povo. Uma mesma lógica distorcida tece o fio que liga afectiva e politicamente Netanyahu a Orbán, Orbán a Putin, Putin a Trump, Trump a Bolsonaro, a Milei e a Meloni. Mas essa lógica deixa atordoados os jovens que se iniciam na democracia: será mesmo Putin o responsável pela guerra da Ucrânia? As atrocidades do Hamas no 7 de Outubro não justificam a retaliação empreendida por Israel?
A moral política evaporou-se, os fins agora justificam os piores meios porque o que está constantemente em jogo é, alegadamente, a sobrevivência das nações — foi uma questão “existencial”, como diz Putin, que levou a Rússia a invadir a Ucrânia; é uma questão de “segurança nacional” que faz Trump afirmar que os Estados Unidos “precisam de ter” a Gronelândia; é a sobrevivência de Israel que legitima a sua política bélica contra os palestinianos e os árabes. Porque os fins são derradeiros, todos os meios — e, antes de mais, a guerra — são bons para os atingir.
No discurso polarizado extremista do MAGA invoca-se a necessidade de matar para o renascimento da América; e todo o discurso xenófobo e racista dos movimentos populistas europeus fazem da morte do inimigo a condição primeira da sobrevivência. Gaza tornou-se o epítome da nova moral da força que faz do princípio da violência e da morte do outro a norma que deve presidir às relações entre as nações, entre os povos e entre os indivíduos. O genocídio dos palestinianos viabiliza a vida do povo israelita — aceitá-lo é aceitar a nova ordem mundial.
A política da força
A impunidade com que Netanyahu, Putin e Trump conduzem a sua obra de destruição vem da supremacia que a violência adquiriu nas relações entre Estados. O império da força leva à impotência dos povos e dos indivíduos. Nunca como agora essa impotência se manifestou tão agudamente: desde as manifestações de centenas de milhares de bielorrussos, ou de iranianas, durante semanas e semanas, de que só resultaram a repressão brutal e o reforço dos regimes autoritários até ao massacre, executado na impunidade, dia após dia, aos olhos de todos, dos palestinianos de Gaza, é toda uma série crescente de crimes cometidos pela pura violência do poder que paralisa, sidera e petrifica as vontades. É um terror legal, de Estado, que se abate sobre a população mundial.
A violência é política, física e mental, intelectual e emocional, e violência bélica letal. Gaza concentra em si a visão da impunidade obscena de todos os assassinos e violadores do direito internacional. As resoluções da ONU ou do Tribunal Internacional de Haia, as iniciativas das ONG, as denúncias dos media, os protestos populares revelam-se impotentes para conter a injustiça. A violência desfaz o simbólico: as manifestações de massa, as greves da fome, as imolações públicas, os sacrifícios mais corajosos perdem toda a sua eficácia. A impunidade vem da estratégia da violência, mas também da espécie de dilema a que ela condena todo o tipo de resistência possível: porque é da sobrevivência da nação prepotente que se trata, ou se aceita a eliminação do inimigo — por qualquer meio —, ou se é eliminado por ele. Ou se apoia o morticínio dos palestinianos para salvar Israel e os reféns, ou se é destruído pelo Hamas. Ou o Governo americano (e os Governos europeus) expulsa os imigrantes (“assassinos e violadores”), ou o seu país desaparecerá.
Este dilema em forma de extremo duplo impasse violenta e bloqueia o pensamento e a acção, deixando o campo aberto à política da força que avança sempre arrasando tudo à sua frente, sem hesitações, sem culpabilidades nem escrúpulos. É a lógica da violência neofascista. É ela que está a reduzir Gaza a cinzas. É ela que sufoca os resistentes que, não se deixando vergar aos ditames desta lógica, procuram ainda meios de lutar contra a ignomínia que nos atinge a todos.


