Não se sabia isto há já muito tempo? 

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 31/10/2025)

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A teoria do agenda-setting já é bem velhinha e foi explicada por Maxwell McCombs e Donald Shaw, em 1972, no livro The Agenda-Setting Function of Mass Media. Aí se explica que os meios de comunicação não dizem ao público o que deve pensar, mas sim sobre o que deve pensar. 

Sabemos isso há muito tempo, mas aceitamos que André Ventura torne temas centrais dos noticiários a imigração, a criminalidade ou a “subsidiodependência”. Saúde, habitação, salários, impostos, leis laborais ou guerra passam a assuntos secundários. 

São tantos, à minha volta, os que estudaram a teoria do framing (enquadramento), inicialmente definida em 1954 por Gregory Bateson e que, combinada nos anos 70 com a teoria do priming, defende que a representação de um fenómeno social como “ameaça” ou “injustiça” molda a forma como o público o entende, mesmo que não exista aí qualquer ameaça ou injustiça real. 

Porém, demos cobertura à associação sistemática entre “imigração” e “crime”, “subsídios” e “insegurança”, que André Ventura construiu para ativar um quadro moral de medo e ressentimento. 

Murray Edelman, também no longínquo ano de 1964, no livro The Symbolic Uses of Politics, explicou que os líderes políticos constroem imagens e rituais que satisfazem emoções coletivas mais do que argumentos racionais. 

Ventura compreendeu essa lógica. Os seus outdoors provocatórios, como o “Isto não é o Bangladesh”, comunicam aos seus eleitores que ele é “um dos nossos” contra “eles”: o sistema, os privilegiados, os estrangeiros. 

Noam Chomsky e Edward Herman escreveram, em 1988, Manufacturing Consent, onde afirmam que os media reproduzem os interesses do poder. 

Ventura inverte essa ideia e apresenta-se como vítima desse poder mediático, acusando os jornalistas de censura e manipulação. É uma contra-agenda: ao atacar a comunicação social, obriga-a a falar dele. 

Sabemos tudo isto há décadas – está estudado, debatido, documentado – e, no entanto, André Ventura continua a usar com sucesso todas estas velhas técnicas de propaganda e dá espetáculo cheio de conflito, drama, linguagem básica, declarações curtas. A imprensa, que vive da urgência e da controvérsia, da caça à audiência, “come” toda esta papinha. 

Que fazer?… Tenho uma sugestão: 

Quando André Ventura fala de “Salazar”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala de “ciganos”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala de “corrupção”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala de “sistema”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala de “subsídio-dependentes”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala de “insegurança”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala “Isto não é o Bangladesh”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala de “burcas”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala de “República podre”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Quando André Ventura fala de “bandalheira”, devíamos responder “pacote laboral”. 

Enfim, quando André Ventura abre a boca, devíamos responder “pacote laboral” e, em vez de barafustar com ele, deixá-lo a berrar sozinho – e confrontar, antes, Luís Montenegro: esse sim, está a meter-se na nossa vida com as novas leis laborais que pretende aprovar, provavelmente com o apoio de André Ventura, que, sobre isso, anda muito caladinho. 

Putin abre as zonas cercadas aos jornalistas ocidentais

(João Gomes, in Facebook, 30/10/2025)


Numa reunião recente com militares russos, o presidente Vladimir Putin surpreendeu ao propor o acesso de jornalistas – incluindo repórteres internacionais e ucranianos – às zonas de combate onde, se encontram unidades ucranianas cercadas. A declaração, transmitida pela televisão estatal russa, surgiu acompanhada de uma oferta insólita: a suspensão temporária das hostilidades por “duas, três ou seis horas” para permitir a entrada controlada da imprensa nas áreas de encirclement.

Putin afirmou estar disposto a garantir a segurança dos jornalistas durante a visita, desde que, segundo as suas palavras, “não haja provocações do lado ucraniano”. A proposta, feita em tom informal mas público, evocou o precedente de Azovstal – a siderurgia de Mariupol onde, em 2022, soldados ucranianos resistiram semanas antes de se renderem. O presidente russo sugeriu que uma exposição mediática direta poderia influenciar “a liderança política da Ucrânia” na decisão sobre o destino das tropas atualmente cercadas.

A intervenção incluiu também referências técnicas e simbólicas: o ensaio bem-sucedido do torpedo nuclear “Poseidon” e o agradecimento pessoal de Putin a soldados que, segundo disse, lhe enviaram ícones religiosos como presente de aniversário. O ambiente da reunião combinou, assim, elementos de ação militar com gestos de humanização e apelo à narrativa de transparência.

Até ao momento, não há confirmação de que o Moscovo tenha formalizado convites a organizações de imprensa estrangeiras, nem de que o cessar-fogo temporário tenha sido implementado. No entanto, o simples facto de a proposta ter sido feita publicamente – e amplamente difundida pelos meios estatais russos – representa uma abertura retórica pouco comum.

Num conflito marcado pela censura, pela propaganda ocidental e pelo controlo rígido da informação, o convite de Putin, ainda que condicionado, pode ser lido como um sinal de autoconfiança e de tentativa de legitimação política perante a opinião pública internacional. Ao declarar-se disposto a receber jornalistas ocidentais nas zonas mais sensíveis do conflito, o Kremlin procura transmitir a imagem de que não tem nada a esconder – e de que domina militar e moralmente a situação no terreno.

Se essa promessa se concretizar, poderá constituir um dos raros momentos de contacto direto entre a imprensa internacional e as realidades da frente leste, quebrando o cerco informativo que tem marcado a guerra.

Até lá, o gesto permanece simbólico – mas, ainda assim, significativo como expressão de uma Rússia que tenta demonstrar força e, ao mesmo tempo, abertura política.

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De joelhos perante o todo-poderoso

(Pedro Marques Lopes, in Revista Visão, 30/10/2025)


Pior mesmo do que o caso das investigações a Ivo Rosa só a imensa cobardia dos nossos principais políticos.


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Sei como agora funciona a agenda mediática: as televisões exploram um tema durante 24 horas e convidam mil pessoas para abordar todos os ângulos do tema, organizam-se debates de preferência muito polarizados para termos o necessário berreiro e as redes sociais explodem de comentários. Mas no dia seguinte é como se nada tivesse acontecido porque há um outro tema que, agora sim, é de uma importância extraordinária. 

Curiosamente, o tema que insisto em trazer (ainda escolho as minhas batalhas e o Rui Tavares Guedes, o melhor diretor do mundo, deixa-me combatê-las) nem essa dignidade teve. As televisões não deram qualquer importância ao facto de o Ministério Público estar a atentar gravemente contra o Estado de direito e o princípio da separação de poderes ameaçando e intimidando os juízes na pessoa de Ivo Rosa. Ainda houve uns minutinhos de atenção quando se soube da investigação iniciada por uma anedótica denúncia anónima, mas quando o Expresso noticiou que afinal foram oito – e sete delas na sequência das decisões de Ivo Rosa na Operação Marquês –, foi como se estivesse sol em agosto. 

Os jornais e demais órgãos de comunicação social deram-lhe a relevância que, pelos vistos, o assunto lhes merece: umas palavritas numa página interior. Mesmo o ótimo trabalho do Micael Pereira no Expresso a expor o caso não teve grande destaque.

(Não abordo, por pudor, pasquins e televisões que, na melhor das hipóteses, fazem por venalidade a defesa de todas as falhas e ataques à Justiça por parte de alguns setores do Ministério Público). 

Normal. Quando há um tema tão relevante como banir a burca que ninguém usa, que importância poderá ser dada a essas coisas vagas que são a independência e a irresponsabilidade dos juízes? Se um fascista desbragado diz que quer três Salazares e que a Constituição não deixa punir a pedofilia (ai, as obsessões sexuais que vão na cabeça do dr. Ventura), que interessa essa abstração chamada Estado de direito? 

Pode ser que a esmagadora maioria dos cidadãos não queira saber do tema, que seja algo que lhes está muito distante, que princípios como a separação de poderes, a independência e a liberdade dos juízes lhes digam pouco. Que nem saibam que a mentalidade de justiceiro do regime que o Ministério Público exibe está instalada e que não faltam procuradores que adoram mostrá-la. Que desconheçam que esta instituição vital para a democracia funciona sem qualquer tipo de controlo e que chega ao limite de demitir governos e intimidar juízes sem qualquer outra razão que não seja exibir o seu poder.

Não há imprensa livre sem democracia. É assim fundamental que os média percebam que a liberdade traz a responsabilidade de defender e promover os princípios basilares da democracia liberal. Há direta ou indiretamente uma espécie de mandato de defesa do regime por parte dos média e jornalistas que acreditem na democracia.

Este ataque à independência dos juízes é um ataque à democracia, repito. Guiar-se por um suposto desinteresse das pessoas por temas tão essenciais não mais é do que contribuir para que as pessoas percam de vez a noção da importância vital destes temas para as suas próprias vidas. 

Mas por muito indignado que esteja com os média por praticamente ignorarem um caso de tanta importância para a comunidade, nada se compara ao que sinto em relação ao poder político. 

Como se explica que o órgão de soberania que garante o regular funcionamento das instituições assista a este evidente ataque direto e feroz e fique em silêncio? Que confiança podemos ter num Presidente da República que vê os juízes serem ameaçados por uma instituição com dignidade constitucional e fica mudo e quedo?

E o primeiro-ministro repetirá o disparate do anterior e dirá o brocado atentatório da democracia, o do “à política o que é da política e à justiça o que é da justiça”? O homem que tem a responsabilidade de conduzir os destinos do País vê o Estado de direito ser ameaçado e nada diz, nada faz, nada reflete, nada questiona?

E José Luís Carneiro aonde anda? O líder do Partido Socialista ainda está preso ao caso Sócrates e treme de medo como os que o antecederam? Acha tudo isto normal?

Os mais relevantes políticos portugueses, em que incluo os candidatos à Presidência da República, nada dizem quando um juiz é alvo de oito investigações durante anos sem outra aparente razão que não seja a intimidação de toda uma classe e o castigo a um juiz que não seguiu as teses do todo-poderoso Ministério Público.

Se isto não é um problema político, o que diabo será um problema político?

O poder político está de joelhos perante o Ministério Público.

Quando se consagrou a tese de que uma simples investigação leva à demissão imediata de um cargo público, abriu-se a porta para a entrega dum poder desmesurado a um qualquer procurador.

Quando se tornou rotina a exibição de escutas e outras peças processuais para condenar na opinião pública o que não se consegue no Tribunal, entregou-se o poder de investigar, condenar e executar a pena ao Ministério Público.

Quando os maiores desmandos investigatórios, as acusações sem qualquer fundamento, o evidente desconhecimento do funcionamento das empresas e do Estado e a exibição gratuita de poder se tornaram evidentes, mas toda a gente olhou para o lado, deixou de haver limites à sua atividade. 

Os agentes políticos foram olhando para o lado quando eram os adversários a ser atingidos. O exemplo de como Luís Montenegro cavalgou a Operação Influencer e agora se sente muito ofendido com a Spinumviva é só mais um.

Já todos perceberam que não se pode deixar as coisas como estão, que não é possível alguém ter um poder tão desmesurado sem um mínimo de controlo. Mas há um medo – que é real – de qualquer pessoa poder ver a reputação destruída se puser em causa um poder absoluto que está a fazer abanar os alicerces do regime.

Pior mesmo do que o caso das investigações a Ivo Rosa só a imensa cobardia dos nossos principais políticos. 

O Ministério Público mostrou que pode derrubar um governo sem qualquer razão legítima e agora quer intimidar e condicionar juízes. Como cereja no topo do bolo e para mostrar que não há poder que o limite, até se recusa a dar a Ivo Rosa a possibilidade de saber porque foi sujeito a um inquérito e o que foi vasculhado.

A bênção é dada pelo Presidente da República, pelo primeiro-ministro, pelo líder da oposição e por todos os nossos representantes.