Triliões

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 04/11/2025)

(Em tempos idos a Dona Clara era visita assídua da Estátua de Sal. Depois foi perdendo gaz e brilho, vieram as guerras, veio ao de cima o seu “americanismo” meio blasé, pelo que tem andado arredada. Só que, a Dona Clara sempre foi grande escriba e, confesso, este texto surpreendeu-me pela positiva. Fala de uma realidade de que ninguém fala, nem partidos políticos, nem sindicatos, nem a esquerda e muito menos a direita: os “excluídos” em contraponto com a riqueza pornográfica dos bilionários.

Pelo que só me resta publicar esta incursão da Dona Clara. Para a Estátua valem as mensagens, independentemente dos amores ou antipatias de estimação que tenha pelos mensageiros.

Estátua de Sal, 04/11/2025)


Os sentimentais e divulgadores de piedades, os cantores e artistas melancólicos, gostam de dizer que é o amor que faz mover o mundo, mas não é verdade. É o dinheiro.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Um a um, meia dúzia de homens e uma mulher deitaram-se encostados a um edifício abandonado na principal rua de Madrid. A Gran Via. O edifício, uma monstruosidade em vias de reabilitação e muito investimento, estava entaipado na face que dava para a rua, num dos cruzamentos mais concorridos, e durante o dia não tinha ninguém em frente. Não sei se o primeiro a chegar foi um rapaz loiro de uns 30 anos, com um cartaz que dizia que tinha uma doença mental e tinha fome. Deem qualquer coisa para comer. Esse aparecia durante o dia, ao contrário dos outros que viajavam a coberto da noite. A noite estava fria, aquele frio seco que faz gretas nas mãos e na boca e envelhece as caras. Muito diferente do verão é o inverno de Madrid.

Estenderam umas mantas ou sacos-camas sujos e velhos no chão, sujo e velho também, e aninharam-se em fila. O do cartaz era agora outro com outro cartaz também sobre doença mental. Numa das camas improvisadas, aninhavam-se dois sem-abrigo que se aqueciam um ao outro. Por trás, a decoração era de graffiti e slogans, com preponderância para Free Palestine. As cidades europeias são agora iguais às cidades americanas nos anos 80, quando os pavimentos, cantos e vãos foram invadidos por vagabundos e restos de humanidade caídos para fora da malha social. Veteranos da guerra com trauma, alcoólicos, drogados, desempregados, doentes, sobretudo os doentes mentais que os asilos e hospitais despejaram na rua de um dia para o outro, em nome da liberdade e da proibição do encarceramento. E por razões económicas.

As operações de limpeza do mayor Giuliani completaram o quadro. Nas ruas e subúrbios da América tropeçava-se nesta população que acabaria a construir cidades dentro das cidades, em tendas e tetos improvisados. Assim aconteceu em Los Angeles, Skid Row, ou em São Francisco, hoje uma metrópole onde os techies ocuparam as casas e inflacionaram as rendas e os preços, ajudando a expulsar os antigos habitantes que não acompanharam. A distância entre a miséria e a opulência é pequena se medida em metros.

As cidades da Europa são agora assim. O Estado social arranjou um nome para esta gente, os excluídos, e continuam a enxamear as ruas e becos, os vãos das pontes e viadutos, os cantos dos bancos desertos de noite. Ou bancos de jardins, mais expostos às intempéries. Alguns penetram nos aeroportos, donde são expulsos. De manhã, mudam de poiso e disfarçam a condição para não serem perseguidos. Os samaritanos entregam comida e tentam ajudar, e as instituições oficiais do Estado, os abrigos dos sem-abrigo, são repudiados pela insegurança e pelo ambiente perigoso e insalubre. As mulheres temem as violações. Preferem a rua e a liberdade.

Há doentes mentais, desencarcerados, desacompanhados, alcoólicos, desempregados, adolescentes fugidos, refugiados, toxicodependentes, velhos sem família e sem dinheiro, imigrantes, tal como naquela rua de Madrid. Na Gran Via, um destes vagabundos era uma mulher da América Latina, que de dia se escondia dentro do saco-cama com uma criança lá dentro e dormia o tempo todo com um copo de plástico ao lado para as moedas. Há sempre uns que escrevinham em bocados de papel, nada frustrados com a falta de esmola, que a digitalização tornou mais difícil. Ninguém, a não ser os mais pobres, carrega moedas.

Embora sejam inofensivos, o cheiro e o medo da visão desta solidão ou da loucura fazem com que as pessoas não se aproximem. São hoje tantos e tão banais que passaram a ser ignorados. Nos anos 80, quando não se podia caminhar no centro de cidades como Filadélfia sem tropeçar em dezenas de vagabundos, eram uma excentricidade. Nas cidades europeias havia pedintes, mas não havia a crise da habitação e a crise das migrações, e a economia capitalista ainda não tinha evoluído para o ponto em que hoje está.

Ninguém representa a gente sem voz nem voto, e ninguém os quer representar. São os “excluídos”, excluídos até pelas esquerdas que defendem sempre os pobres, os funcionários do Estado e os imigrantes com toda a virtude, mas nunca se pronunciam sobre os “excluídos”. Os excluídos não votam. Restam os samaritanos e a Igreja, mais os restos do Estado social que trata destes assuntos sem grande empenho. E sem dinheiro.

O problema tem-se agravado, como se vê por qualquer passeio pelas nossas cidades. Durante a guerra civil síria, nas ruas de Paris viam-se famílias inteiras a dormir na rua. No rescaldo da guerra do Afeganistão, viam-se tendas montadas num canto de Hyde Park, com refugiados afegãos lá dentro. Foram varridos.

Saiba mais aqui

 

Na outra ponta do espectro social está o dinheiro, muito dinheiro, muito mais dinheiro do que alguma vez a Humanidade deteve ou acumulou. O capital, a única força que faz mover o mundo. Os sentimentais e divulgadores de piedades, os cantores e artistas melancólicos, gostam de dizer que é o amor que faz mover o mundo, mas não é verdade. É o dinheiro.

E o dinheiro deixou de ser contado em milhões, é agora em biliões ou milhares de milhões. Nasceu a novíssima unidade, o trilião. O trilião é comum. Elon Musk pretende ser aumentado para um trilião antes da reunião de acionistas da Tesla. Se não for, deixa o cargo de CEO. Um trilião em “performance-based compensation package”. Este o nome. E quase de certeza ganhará, porque sem Musk as empresas valeriam muito menos e os acionistas perderiam. Um trilião é um valor incontável, incalculável, e fácil de torrar em aventuras espaciais ou nas aventuras da IA, que nesta fase precisa de torrar biliões para recolher triliões, tal como vaticinou Bill Gates.

Gates deixou de se preocupar com as alterações climáticas porque a Microsoft precisa de investir biliões na parceria com a Open AI de Sam Altman. E sabe que a IA precisa de água e de energia sem fim, consumindo recursos naturais finitos. Recomendou às Nações Unidas que se deixassem de climas e se preocupassem com a “pobreza” e a “doença” sabendo bem que as alterações climáticas trarão ainda mais doença e mais pobreza.

A benemerência acaba aqui e acaba assim. A IA é hoje o suporte fundamental da economia americana, ao ritmo de triliões. Quantidades de dinheiro em que se move uma empresa como a Nvidia. E em breve se moverão a Apple. Ou a Meta. Ou a Alphabet, mais conhecida por Google. O bilião é manifestamente insuficiente para quantificar a realidade. Os seis bilionários da tech, Elon Musk, Larry Ellison, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Larry Page e Sergey Brin já ultrapassaram os 200 biliões da riqueza pessoal e juntos detêm 1,7 triliões. Musk sozinho tem 475 biliões. E faz o ultimato para o trilião. As grandes tecnológicas valem mais do que muitos países. Portugal podia ser comprado por eles, e nem tem valor residual. Bezos é agora o terceiro mais rico, ultrapassado por Musk e Ellison, que está a comprar os media americanos porque os filhos se interessam por cinema e televisão.

É claríssimo que nenhum político, liberal ou não, controla este universo opaco e virtual, que não compreende ou pode compreender. A plebe, com os dados capturados sem resistência, não se importa de ser pastoreada pela tecnologia, que lhe facilita a vida e vai criando empregos e subempregos e cada vez mais inovação. E dinheiro. E destituição.

O poder político é como o amor. Pensa que o mundo se move pela sua força, não é verdade. Musk enfrentou e combateu Trump e nada aconteceu, desiludindo os liberais que viam ali um mortal combate de gladiadores com mútua destruição. Cada um ficou no seu canto e Trump pode ameaçar verbalmente Musk mas não o pode contrariar ou impedir. O poder está no dinheiro e um tem mais dinheiro do que tem o outro. Todo o Napoleão tem o seu Waterloo.

À esquerda, defunta e faminta, restam as causas remotas, Palestina, migrações, uma teoria universal dos direitos humanos, e, se a História se repetisse, a revolução. Mas não se repetirá. A esquerda, como toda a gente, é ignorante sobre este dinheiro e sobre a ciência, a sapiência, as técnicas que o sustentam, e está capturada pela tecnologia. Incapaz de parar o futuro.

Os vagabundos irão morrer longe, longe da vista. O darwinismo social pode ser pseudocientífico sem deixar de ser uma experiência humana.


E pronto, money, money, money

Mas que grande sova no MST…

(Hugo Dionísio, in Estátua de Sal, 03/11/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos do Miguel Sousa Tavares (ver aqui). Pela sua atualidade e a sua – talvez até polémica – acutilância, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 04/11/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Estou muitas vezes de acordo com Miguel Sousa Tavares (MST). As vezes em que não estou, a discordância é normalmente violenta e até epidérmica. MST tem a inteligência dos sábios, mas a arrogância mental dos aritocratas ociosos. O que o torna extremamente contraditório e paradoxal.

O que também nunca esconde – ele tem o condão de nada esconder, o que é bom – é a sua visão de classe: MST não se julga “trabalhador”, não se julga “povo”, julgando-se aristocrata, o que é tão contraditório vindo de onde vem (pelo menos em parte).

Neste texto, conseguimos ver esse MST em cada vez que mudamos de parágrafo. Se num parágrafo somos incitados a quase bater-lhe palmas, no outro levamos uma chapada para nos acordar. Um exemplo: ao referir que Ventura elogia oportunisticamente Salazar, também diz que o faria por Estaline. Nada mais falso! Em nenhum dia do mundo ouviríamos Ventura elogiar Estaline. Talvez na Rússia, onde, por razões que a maioria dos russos bem explicará, Estaline seja uma figura reconhecida, mas a maioria dos ocidentais não compreenderá (como MST), Estaline. E então, em Portugal, jamais.

Ventura faz do reacionarismo, da pequenez fascista e salazarista, da estupidez obscurantista e da demagogia cobarde as suas bandeiras preferenciais, tendo como alvo do ataque precisamente o PCP, e não é por acaso: o PCP representa o contrário, o antagonismo, o culpado que persegue. E tanto o faz que arrastou o centrão para essa luta ingrata, invejosa e demagógica contra o PCP, tão própria do ser português tacanho e de rebanho que MST refere.

E quem se deixou arrastar pelo Chega (por cagaço ou oportunismo) não foram o PCP, ou mesmo o BE, os “da esquerda radical”. Foram os “moderados” que MST tenta apaziguar no seu texto quando dá em Salazar e, depois, em Estaline,. como que querendo deixar a mensagem:: Eu estou a dizer isto tudo do fascismo, mas eu sou do centro e da democracia, estão a ver?

As elites de que MST fala, são as que, como ele, também dizem: Somos moderados, somos do centro! Mas são essas elites, as tais que “fazem avançar o mundo”, que foram responsáveis pela entrega de empresas públicas à alta corrupção de tipo salazarista, privatizando monopólios para que todos paguemos mais – e por serviços piores -, e sem retorno para o Estado.

São essas elites quem destruiu o SNS, quem é incapaz de resolver os problemas da habitação, quem criou, com a sua ganância, ociosidade, arrogância e oportunismo, o grave problema da habitação. São também essas elites quem explora e promove a monocultura do turismo que MST critica, e bem.

Ou seja, perante os danos causados ao povo português (o povo, somos todos, nós, por isso é que eu não gosto do termo, preferindo “trabalhadores” e “pobres”), com exceção das elites – que MST admira e que podem pagar aos privados pelo serviço público que destruíram em nome da “democracia” e da “justiça” -, que, na opinião de MST, o Chega abomina, MST opta por odiar o povo, o povo lumpenizado por 45 anos de fascismo. E lumpenizado também pela destruição do Estado social, pelos salários baixos, a precariedade e, sobretudo, porque as elites que MST elogia, nunca foram capazes de generalizar uma educação universal de qualidade, que não distinga entre filhos dos pobres e filhos das elites que MST admira.

Então, porque tudo falha, porque essas elites – que o remuneram a peso de ouro para dizer o que também muitos outros diriam (porque pertencendo à elite MST não é único) -, falharam na criação de um Estado verdadeiramente democrático, apesar de terem recebido todas as possibilidades para tal (industria, sector empresarial público com energia barata, pescas, agricultura), MST opta por culpar os que são como são, precisamente porque estão do lado recetor dessas elites, as mesmas que, na SIC, TVI e outros canais, tanto mentem, desinformam e promovem Ventura.

Mas onde se vê que, afinal, MST não gosta de todas as elites mas apenas de algumas, porventura as “sofisticadas” e “aristocratizadas”, que vivem à margem das dificuldades do mundo, é quando MST critica os “sindicalistas da função pública”! Afinal, nesse caso, MST já não gosta de elites, abominando quem organiza o povo trabalhador para que os trabalhadores da função pública também não sofram os efeitos produzidos pela tal elite que MST considera da “democracia e da justiça”. MST disse mesmo que Montenegro era o melhor PM possível, p. ex., e que é responsável por tal estado de funcionamento das coisas. Como se os trabalhadores da função pública fossem uns privilegiados, discurso que tão bem cabe ao Chega. Afinal, MST também é capaz desse discurso demagógico, como se todos os trabalhadores e todos os sindicalistas da função pública fossem iguais.

O problema de MST é mesmo de classe e é por isso que ele não reconhece o papel de certas elites, mas sim de outras. Mas, sobretudo, é o seu enviesamento de classe – para o lado das classes proprietárias –, que faz com que considere o Chega um resultado do acaso, algo de insolúvel, como se, em períodos de esperança, de maior aposta nas condições de vida, crescimento salarial, de maior força sindical da CGTP-IN e do PCP e de capacidade deste em arrastar o PS, não tivesse sido essa esperança que, à data, foi bloqueando o Chega, a reação, o fascismo.

Tal, demonstra que o Chega não é um problema raro ou um mero anacronismo do passado. Não, o Chega representa a desistência de uns e a vitória de outros ao derrotarem as forças progressistas – de classe – que empurravam este país para o desenvolvimento, que fizeram o 25 de abril, as nacionalizações no PREC, promoveram a democratização e a Constituição, destruindo com isso a esperança e fomentando o obscurantismo.

Para destruírem essas forças e ficarem com o monopólio do centrão, tais forças, “democráticas e moderadas”, não apenas fomentaram a mentira, a concentração e a censura na comunicação social, a inevitabilidade da guerra, do desemprego, da perda da habitação.

Nesse desespero, que é causado pelos “moderados”, prolifera o Chega. Mas o Chega é também o resultado do apoio de muitos empresários, que o MST raramente critica. MST tem razão quando refere que o fascismo é a corrupção e o Chega mente. Mas MST também mente quando aparenta não saber porque raio existe um Chega e quem permitiu que ele existisse. É que, se são as elites que comandam o mundo, como pôde chegar-se a tal situação, quando temos uma Constituição que proíbe os partidos como o Chega?

Afinal, MST também se preocupa com os seus salários, e talvez seja por isso que coloca os “sindicalistas” ao nível dos “influencers das redes sociais”. Uns e outros, ameaçam interesses que MST representa, uns porque combatem os seus interesses de classe, outros porque roubam o negócio de onde provém o seu avultado salário. Não, MST, afinal, não é assim tão livre!

Nunca sirvas quem serviu

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 31/10/2025)

O que mais me impressionou pelo ridículo foi a ideia, passada por toda a direita, de que adquirir a nacionalidade portuguesa é um privilégio raro, como se fôssemos um país de excelência e de referência.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

André Ventura é novo demais para ter conhecido na pele o que foi, no seu sufocante dia-a-dia, o Estado Novo, de Oliveira Salazar. Mas isso não é desculpa que sirva: eu também não vivi o nazismo mas não finjo não saber o que foi. André Ventura não ignora — apenas mente, omitindo os factos — que o regime anterior era corrupto até à medula, era corrupto por natureza e da forma mais amoral possível. A corrupção não se pagava habitualmente em dinheiro, pagava-se com empregos ou oportunidades de negócio, de um lado, e com lealdade política, do outro. A “cunha”, o “empenho”, a “palavrinha”, era aquilo que o corruptor de baixo buscava, dando em troca juras de fidelidade a Salazar. Era assim, por exemplo, que a PIDE recrutava muitos dos seus, que lhe chegavam pelo empenho do primo do ministro, do chefe local da Legião ou do partido único, ou mesmo do padre da aldeia. Vir para Lisboa trabalhar na PIDE era mais do que um emprego: era uma forma de promoção pessoal e social e um lugar de poder e intimidação. Em troca, os novos recrutas começavam o “estágio” por participarem “voluntariamente” nas sessões de espancamento dos presos políticos, subindo depois na escala da lealdade e das patifarias (e por isso é que em 25 de Abril de 74 não havia pides inocentes). Mas também havia a alta corrupção, aquela reservada exclusivamente aos fiéis do regime, não apenas aos lugares superiores da Administração Pública (onde só se acedia mediante uma jura de fidelidade), como igualmente aos grandes negócios, no continente e nas colónias, depois de demonstrada suficientemente a obediência inquestionável a Salazar. António Champalimaud atreveu-se a discordar e pagou isso com anos de exílio. Salazar, um homem intelectualmente cobarde, incapaz de enfrentar a discordância e mesmo o debate, foi o grande corruptor da nação, um corruptor de almas e de consciências, a pior das modalidades de corrupção (“O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/a podridão lhe agrada e os seus discursos/têm o dom de tornar as almas mais pequenas.”)

Ventura não é ignorante, como finge para melhor cativar a legião de ignorantes que votam no Chega, nem é, menos ainda, estúpido, como outros que o rodeiam. Duvido muito que seja até saudoso do salazarismo ou de um regime como foi o do Estado Novo. O que ele é, sim, é um oportunista e um demagogo sem freio nem vergonha. Para corromper almas e conquistar votos entre a turbamulta dos alienados que o seguem, ele não tem escrúpulos em dizer-lhes tudo o que eles querem ouvir, seja o elogio de Salazar ou o de Estaline, se vier a propósito.

Sim, já oiço os “chegados”dizerem: este é um texto elitista de quem despreza o povo que vota no Chega e que se acha superior só porque leu uns livros e viu uns filmes (e não tem redes sociais). Pois bem, lamento desarmá-los logo: este é mesmo um texto elitista e, sim, eu tenho um profundo desprezo pelo povo do Chega. Mais, não acredito no futuro feliz de uma nação em que o “povo” — ou os políticos como Salazar ou Trump — se empenha numa batalha mortal pelo silenciamento das suas elites. São elas que fazem progredir os países, são elas que lançam as discussões que interessam para o futuro dos povos e para um mundo fundado na liberdade e na justiça. O povo, esse, está mais interessado e mobilizado em votar nas eleições no Benfica do que em votar para defender a democracia nas eleições políticas. E quando o povo ou os políticos obtêm êxito no silenciamento e afastamento das elites, triunfa a mediocridade, o oportunismo e a obediência de rebanho.

Saiba mais aqui

 

De facto, eu não tenho grande admiração pelos portugueses, fui deixando de a ter à medida que eles próprios se foram achando cada vez melhores. Claro que conheci e conheço alguns portugueses notáveis, na sua profissão ou nos seus princípios, mas raramente vi serem-lhes reconhecidos e aproveitados os seus méritos. Ser pensionista, ser sindicalista da Função Pública ou ser influencer das redes sociais é mais reconhecido e mais gratificante. É por isso que eu jamais seria capaz de fazer política, de andar por aí, de aldeia em aldeia, a escutar respeitosamente o estimado povo, gritando que bons que eles são e que horrendos que são os políticos “corruptos” — o discurso de André Ventura. Não, definitivamente não enxergo a superioridade patriótica da ignorância militante ou a vantagem do saudosismo ditatorial.

Neste recente debate parlamentar sobre a nova lei da nacionalidade — feito sob bullying do Chega e cagaço do PSD — o que mais me impressionou pelo ridículo foi a ideia passada por toda a direita de que adquirir a nacionalidade portuguesa é um privilégio raro, como se fôssemos um país de excelência e de referência onde toda a gente quer viver e de que toda a gente gostaria de ser nacional — não podendo, infelizmente para eles, sentirem “o mesmo sangue português a correr nas veias”, na imortal declaração da deputada Cristina Rodrigues, do Chega. Como país de excelência, convém recordar que, a despeito da imensa carga fiscal a que o Estado recorre todos os anos para sustentar o seu sempre maior desvario despesista e a clientela eleitoral dos Governos, nada do que é importante e que o Estado deveria assegurar funciona: a saúde, a educação, a habitação, o investimento público, a justiça, o combate aos incên­dios, as fronteiras dos aeroportos, o que quer que seja. Apostamos tudo na monoindústria do turismo de massas, mas nem sequer somos capazes de montar um sistema decente para que os turistas não precisem de horas para passar a fronteira. Não estamos particularmente motivados para fazer filhos ou trabalhar, preferindo antes depender de mão-de-obra importada e mal paga, mas ainda nos damos ao luxo de tratar os imigrantes como indesejáveis e de afixar cartazes a avisá-los de que “Isto não é o Bangladesh” (querendo sugerir o quê? Que se vão embora e deixem avançar para as suas tarefas o povo trabalhador do Chega?). Passaremos a exigir agora aos candidatos “à honra e responsabilidade” de se tornarem cidadãos portugueses (Luís Montenegro dixit), além de saberem falar a língua e estarem cá há 10 anos, conhecimentos da cultura portuguesa, da organização política e valores democráticos da sociedade portuguesa e uma declaração escrita de “adesão aos princípios da República” — coisas que raros votantes e poucos deputados do Chega seriam capazes de ultrapassar sem batota.

Na verdade, os portugueses não têm assim tantas razões de queixa: acreditam que os dinheiros europeus, que nos sustentam há 50 anos, nunca terão fim; acreditam que nunca terão de ser eles a lavar as ruas, tratar dos velhos, apanhar frutos vermelhos ao sol de Verão, andar a pôr tijolos nas casas de que os nossos filhos têm necessidade; acreditam que podem tratar do alto da burra quem veio para cá fazer tudo isso, porque eles, felizes por estarem a viver num país tão extraordinário como Portugal, tudo encaixarão sem se irem embora, e acreditam ainda que, apesar de se trabalhar cada vez menos e pior, a situação deles vai ter obrigatoriamente de melhorar — nem que para isso seja preciso recorrer ao fantasma de Oliveira Salazar ou ao espantalho de André Ventura. Tudo visto, só se arrisca a democracia, que não é assim tão importante. Mas numa coisa somos bons: a fazer ditados para as ocasiões. Como este: nunca sirvas quem serviu.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia