Enquanto o Verão não chega

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/07/2018)

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Miguel Sousa Tavares

(Este texto do MST está dividido por tópicos, devidamente numerados. Nem todos os tópicos tem a mesmo valia para a Estátua. Assim, como o professor Marcelo, agora Presidente, já não pode dar notas, vou eu pontuar cada tópico de acordo com o meu grau de concordância.

Tópico 1 – Suficiente menos (à volta do 11). Tópico 2 – Um bom pequeno (à volta do 15). Tópico 3 – Um bom grande (16 sem dúvidas). Tópico 4 – Muito bom (Um 18 sem hesitação). Tópico 5 – Suficiente mais (Um 13 um pouco puxado).

Comentário da Estátua, 28/07/2018)


 1

Mário Centeno fez o favor de lembrar a quem anda esquecido que o Orçamento do Estado não é apenas um instrumento para servir os interesses dos funcionários públicos, dos professores ou dos interesses eleitorais do PCP, do BE e dos sectores do PS que não desejam perder o poder, inesperadamente conquistado há três anos. Perante a persistente insistência dos entrevistadores do “Público” (ai, que saudades do defunto “DN”!), Centeno disse esta coisa óbvia: o OE é para todos os portugueses. É para servir todos os portugueses, pois é financiado com o dinheiro de todos os portugueses que pagam impostos e, como todos os bens escassos, para ser administrado com um sentido de justiça e de prioridade que não pode ser determinado pela simples capacidade de influência de grupos de pressão socioprofissionais. A isto Centeno acrescentou outra coisa: que os sacrifícios que tantos pagaram na pele com a falência do Estado merecem o mínimo de memória e de respeito. Ou seja, não podem ter sido em vão e terem de ser repetidos em breve para satisfazer reivindicações sectoriais de grupos organizados. Não é só uma questão de finanças públicas, é uma questão de moralidade nas finanças públicas.


2

 Não é todos os dias que Portugal é manchete de capa do “The New York Times”, como sucedeu esta quarta-feira. Sob o título “A recuperação em Lisboa desafia os credores”, o artigo reflecte o que várias pessoas, eu incluído, escrevemos à época: que a célebre e tão louvada TINA (“There Is No Alternative”), a política de “empobrecimento criativo” imposta pela troika a troco do empréstimo de 78 mil milhões de euros, e tão entusiasticamente seguida pelo Governo de Passos Coelho e Paulo Portas, era um desastre económico e uma crueldade social sem sentido. Tudo resumido, consistiu em fazer a economia pagar a falência do Estado, sem no entanto diminuir um euro ao endividamento deste. Devolvendo dinheiro às pessoas e às empresas, António Costa e Mário Centeno, reactivaram a economia e, com isso, aumentaram a receita fiscal, diminuíram o défice e, sobretudo, trouxeram de volta a confiança aos agentes económicos — o que, como qualquer aluno de Economia sabe, é o factor principal para a retoma. Não era assim tão difícil imaginar, desde que não se tivesse a cabeça formatada por um espírito de credor de mercearia.


3

Foi ontem à praça, tendo sido a entrega adiada, a Herdade da Comporta, a emblemática jóia da coroa do falido império Espírito Santo e talvez a última área na zona costeira portuguesa onde ainda será possível fazer qualquer coisa de qualidade — uma vez que deixar como está não faz parte do nosso ADN. Três concorrentes disputavam o bolo e só um, o princípe-jardineiro francês Louis-Albert de Broglie, apresentou um projecto que, no essencial preservava as características naturais do espaço, ocupando apenas 15% com construção. Se bem que sejam os credores quem tem o direito de decidir conforme a proposta que mais bem lhes pague, atendendo ao que está em causa, custa acreditar que o Estado e o adormecido Ministério do Ambiente não tenham uma palavra a dizer sobre o assunto. Eu atrevo-me a prognosticar, je ne sais pourquoi, que o vencedor será o consórcio formado pelo francês que anda a comprar e a lançar no mercado tudo o que é habitação de luxo em Lisboa e o casal novo-rico da moda, que afirma ter trazido o “conceito de luxury” para Portugal e que ameaça varrer com a classe média e mesmo média-alta da Avenida da Liberdade e do centro de Lisboa, pois aquilo é valioso de mais para eles. Ele, que grava no balcão do seu restaurante o nome dos clientes que mais gastam e que declara que o cúmulo do chique é ver uma mesa de russos acompanhar uns simples pregos no pão com garrafas de champanhe Crystal, a 550 euros a garrafa. Ela, que declara que têm “outros valores e princípios” que os falidos ex-donos da Comporta. A mim, tanto se me dá como se me deu: não gosto do “conceito Comporta”, não gosto do “conceito luxury”, e só há dias, por acaso, provei um golo de champanhe Crystal que me puseram à frente — e não gostei. Definitivamente, prefiro um prego com imperial.


4

Suponho que neste momento, em resultado das teses revisionistas em vigor, seja interdito o ensino de grande parte da nossa História nas escolas. Não se pode falar em Descobertas, pois afinal não descobrimos nada: já lá estava alguém antes de lá termos chegado (com excepção de Madeira, Açores, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, se não se importam…). Não se pode falar de colonização porque é sinónimo de exploração dos recursos naturais dos povos indígenas — mesmo quando nos pomos a pensar que, com excepção do pau-brasil, todos os ciclos de prosperidade agroflorestal do Brasil, por exemplo, ficaram a dever-se a plantas que levámos para lá: coqueiros da Índia, cana-de-açúcar da Madeira, algodão, tabaco, café, árvore da borracha. Não podemos falar do que construímos porque foi tudo resultado de trabalho escravo, a começar logo pela Escola de Sagres, que o Infante D. Henrique lançou apenas a pensar nas terras que os portugueses iriam descobrir, perdão encontrar, para povoarem de escravos. Portanto, não se ensina História às criancinhas porque isso seria envolvê-las numa deturpação ideológica para a qual não são chamadas. De caminho, em breve teremos de banir “Os Lusíadas”, essa epopeia poética nacionalista, onde se condensa toda a exaltação desse mal. E agora vêm “Os Maias”, cuja leitura fica ao critério das escolas — onde, aliás, esta e outras leituras, ditas obrigatórias, já eram aprendidas em textos resumidos ao alcance do nível de preguiça instalado na cabeça das criancinhas. “Os Maias”, caramba! O mais fácil, o mais sedutor, o mais actual romance da nossa literatura! Se nem ao Eça chegam, como poderão chegar um dia ao Camilo e descobrir como esta nossa língua, tão mal tratada nas escolas, nas televisões, no Acordo Ortográfico, nas redes sociais, nas novelas, já foi um dia uma língua de uma riqueza deslumbrante?

Nestes tempos do facilitismo irresponsável, pensei durante muito tempo que, pelo menos, haveria uma recompensa para os que fugissem à regra da facilidade e da alarvidade reinante: que o futuro pertenceria, não a quem tivesse mais canudos ou mais dinheiro, mas a quem tivesse mais conhecimentos e mais cultura. Todavia, olhamos para o mundo como ele está, vemos o triunfo dos que hoje mandam no mundo e somos forçados a perceber que já nem isso é uma esperança. Quando a maioria é formada na ignorância e é a maioria que escolhe quem manda, manda a ignorância.


5

Na mesma semana em que João Semedo foi a enterrar, Marcelo resolveu condecorar a título póstumo outro dirigente do BE, Miguel Portas, com a Ordem da Liberdade. Esforçando-me, não consigo recordar que actos tão relevantes deve a causa da liberdade em Portugal a Miguel Portas — pois que quando o Presidente condecora alguém, não o faz apenas em seu nome pessoal, mas em nome de todos os portugueses. Certamente tão afectuoso gesto não se terá ficado a dever ao facto de ele ter sido membro das juventudes comunista e trotskista, depois fundador do BE e depois deputado europeu: um percurso político como outro qualquer, incapaz de justificar a Ordem da Liberdade e, ainda por cima, no seu grau máximo, a Grã-Cruz — deixando-o num pedestal onde estão, por exemplo, Mário Soares e Salgueiro Maia.

Já João Semedo falava tão baixo quanto Miguel Portas falava alto. Conheci-o insuficientemente demais para dele falar com a legitimidade que falaram, e bem, pessoas mais próximas como Marisa Matias, Catarina Martins e Francisco Louçã. Conheci-o apenas o suficiente para perceber que podíamos ter tido o princípio de uma bela amizade, não tivesse a doença vindo interpor-se entre nós. Neste país que já consagrou alguns 5 mil comendadores em pouco mais de 40 anos de democracia, se eu pudesse, dava a João Semedo uma condecoração que não existe: a Grã-Cruz da Ordem da Humildade.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Sob a condição humana

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/06/2018)

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Miguel Sousa Tavares

(Caro MST. Este texto, presume-se, foi escrito com raiva, a raiva que qualquer alma bem formada sente perante a resposta que a Europa, mormente a Itália, está a dar ao problema dos emigrantes e refugiados. E, quando a razão se combina com a emoção na dose certa, as palavras podem ganhar a acutilância de pequenos punhais. E assim sucedeu aqui. Que não te doa a pena porque ainda há muita gente viva que te lê, e que mais viva ainda fica quando assim escreves.

Comentário da Estátua, 16/06/2018)


Matteo Salvini, novo vice-primeiro-ministro e ministro do Interior de Itália, fascista, xenófobo, líder da Liga Norte, que em tempos defendeu a separação do norte italiano rico do sul subsidio-dependente e que agora recolheu abundantes votos no sul, prometeu e cumpriu: fechou os portos de Itália ao “Aquarius”, o navio de uma ONG transportando a bordo 629 refugiados africanos recolhidos à beira do naufrágio no Mediterrâneo. Malta acompanhou a Itália na mesma decisão e, sem condições de sobrevivência a bordo do “Aquarius”, os 629 emigrantes — homens, mulheres e crianças, seres humanos, com nomes, vidas, projectos, tal qual como nós — só não foram abandonados à morte no mar porque Espanha e o novo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, chamaram a si o resgate do que resta de dignidade europeia. O seu homólogo italiano, Giuseppe Conte, um fantoche nas mãos de Salvini, lavou as suas mãos do assunto e olhou para o lado, como se não avistasse o mar do Palácio do Quirinale. E, todavia, Conte é professor de Direito, herdeiro longínquo do mais extraordinário império que a Humanidade já conheceu, pois que fundado pela espada, como todos os impérios, estabeleceu-se pela superioridade e justiça da sua lei, sob cuja alçada os povos conquistados preferiam viver. Tudo isso acabou no dia em que o Governo de Itália, em perfeita consciência do alcance do seu gesto, decidiu abandonar em alto-mar 629 almas à sua sorte, coisa só antes vista por parte de piratas ou de animais disfarçados de homens. Ninguém pode contestar que a Itália, juntamente com a Grécia, tem suportado quase sozinha o esforço de acolher a vaga de refugidos africanos que atravessam o Mediterrâneo em direcção às suas costas, apenas porque ficam mais perto. E tem-no feito perante o alheamento dos seus parceiros europeus, que, com excepção da Alemanha, por estrita vontade pessoal de Angela Merkel, preferem fazer de conta que, estando longe, o problema não lhes diz respeito. Não impede que na passada segunda-feira, a Itália, a Europa e a Humanidade dita civilizada tenham ultrapassado uma fronteira sem retorno: perante um SOS lançado por 629 seres humanos à deriva no mar, responderam-lhes que não queriam saber do assunto.

Mas não ficaram sós, os italianos. Em seu apoio e aplauso vieram as sombras negras que pairam sobre a Europa nos dias que correm. Os polacos, esse país tantas vezes invadido, pelo Ocidente e pelo Leste, pelo Norte e pelo Sul, e por todos odiado, mas protegido pelos franceses — talvez porque Napoleão se tenha apaixonado por uma rapariga polaca encontrada na estrada a caminho de Moscovo ou porque Frederic Chopin, a única grandiosa contribuição da Polónia para a história da Humanidade, esteja intimamente ligado a França. E a Eslováquia e a República Checa, herdeiras do Império Austro-Húngaro e tal como a Polónia, das primeiras vítimas de Hitler e de Estaline, mas a quem a longa privação da liberdade não ensinou nada de definitivo. Ou a minúscula Eslovénia, com dois milhões de habitantes, um crescimento de 5% ao ano e apenas 200 emigrantes recenseados, que acaba de eleger um governo com um programa anti-emigrantes. Ou o bávaro Horst Seehofer, da CSU, os aliados da CDU de Merkel, que contestam a sua política de acolhimento de emigrantes, agora praticamente extinta, e o jovem chanceler austríaco, Sebastian Kurtz, o outro berço do nazismo, e, tal como Salvini, grande admirador de Donald Trump, xenófobo, racista e nacionalista de extrema-direita. Ou essa besta do húngaro Viktor Orbán, um fascista sem disfarce, representando a primeira nação a revoltar-se contra a ocupação soviética em 56, e que agora construiu um novo muro de Berlim contra os emigrantes e instituiu sem disfarce uma ditadura contra tudo o que reza a carta dos direitos europeus. Todos eles representam países-membros da UE, todos eles, não apenas se recusam a adoptar qualquer política solidária em matéria de absorção de emigrantes vindos de África, como ainda irão, na cimeira europeia de 28 e 29 deste mês, impor à UE a sua visão da Fortaleza Europa. Mas se a Europa se fundou justamente na ideia da dignidade da pessoa humana, o que resta da Europa quando os povos europeus escolhem livremente líderes para quem essa dignidade não significa nada?

Olhem para a célebre fotografia da Cimeira do G7 em Charlevoix, no Canadá. É daquelas fotografias que ficarão para a História. Um contra todos. Um, Donald Trump, que nem sequer se digna levantar-se para enfrentar os outros seis, que estão de pé, à roda da mesa, tentando em vão demovê-lo de partir para uma guerra comercial contra dois terços da população mundial. Trump nem se levanta, nem responde, nem contesta, nem sequer os olha. Parece um menino mimado, a fazer uma birra. Um menino mal-educado, que chegou tarde ao encontro e partiu antes de todos, despedindo-se à francesa e insultando o seu anfitrião depois de partir e mais uma vez rasgando o mísero acordo, só de palavras, que havia assinado. Acham que ele se preocupou? Não, com aquela fotografia ganhou a reeleição e nem vai precisar da ajuda dos russos nem da batota da Cambridge Analytica para ser reeleito. O comum dos americanos gosta daquela pose — “America first”. O comum dos americanos não vê além do próprio umbigo, são medíocres, ignorantes e arrogantes, como o seu Presidente. E o comum dos americanos é a maioria. Antes, Obama ganhou porque o seu adversário, McCain, não era suficientemente mau, antes pelo contrário, para atrair o comum dos americanos. Pela democracia se destrói a democracia: Trump é a demonstração perfeita. Mas também o ‘Brexit’, Kurtz, Orbán, Salvini e tutti quanti.

Ao contrário do que sucedeu no Canadá, não sei por que razão a maior parte dos analistas não anteviu que o encontro Trump-Kim Jung-un ia ser um sucesso. Dois iguais reconhecem-se quando se encontram e têm tudo para se entenderem por instinto, tal como Trump previra. Encontraram-se dois aldrabões de feira, dois despenteados mentais, dois tresloucados nucleares ao estilo “Dr. Strangelove” do Kubrick, dois vaidosos compulsivos que primeiro satisfizeram os respectivos egos a ameaçar o mundo com uma destruição apocalíptica e depois se rebolaram de puro prazer autocontemplando-se perante 2000 jornalistas como os anjos milagreiros que tinham salvo a Humanidade da guerra que eles próprios iam lançar. No seu íntimo, já se imaginam em Estocolmo, a receber a meias o Prémio Nobel da Paz — e não é sonho fora do alcance. Se tudo isto acabará, de facto, no desarmamento nuclear da Coreia do Norte ou com Kim a comer um McDonald’s na Casa Branca, ninguém sabe ao certo. Tudo é feito de aparências, de egoísmos, de muros, de fachadas, de fake news e tweets no lugar onde antes estava a informação, das redes sociais onde antes estavam os livros, dos aldrabões e demagogos onde antes estavam os líderes.

Talvez no fim reste apenas a música e a música será aquilo que nos permitirá não endoidecer, à medida que vemos tudo o resto perder o sentido. E esperaremos, quietos, indefesos, impotentes. Assistiremos ao triunfo dos porcos, à morte acelerada da natureza — até à morte da natureza humana. Talvez tenha sido disto que Anthony Bourdain quis fugir. Ou talvez já não haja fuga, apenas espera. Talvez, como escreveu Cesare Pavese, já estejamos mortos, mas não sabemos.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

 

E lembraram-se de Marx!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/06/2018)

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Miguel Sousa Tavares

1 Já se passaram quinze dias sobre o Congresso do Partido Socialista e, como é habitual nos tempos que correm, quinze dias torna qualquer acontecimento uma antiguidade. É como se as coisas que não são imediatamente faladas e discutidas perdessem a importância, deixando de existir. Mas houve uma ou duas coisas no Congresso do PS, de que a eutanásia dos dias me roubou espaço e tempo de reflexão, e que poderão vir a revelar-se importantes num futuro a médio prazo.

Refiro-me ao discurso de Pedro Nuno Santos no primeiro dia de trabalhos e à subtil resposta para bom entendedor que António Costa lhe deu. Já tinha ouvido dizer que Pedro Nuno Santos era um representante da ala esquerda do PS, mas confesso que desconhecia que fosse também um ideólogo da mesma e um futuro candidato a secretário-geral em representação dela. Ao que parece, segundo análise unânime da imprensa, assumiu-se agora em ambas as condições e, para que dúvidas não restassem, até recorreu à exumação solene do cadáver de Karl Marx, 135 anos depois da sua morte e 44 anos depois da então ala esquerda do PS tentar arrastar os recém-filiados do partido com o slogan “Partido Socialista/Partido Marxista”. Os mesmos militantes que depois, para grande alívio deles, Mário Soares conduziria às batalhas inesquecíveis da Fonte Luminosa, do “Caso República”, da luta contra a Unicidade Sindical e do 25 de Novembro — ou seja, das batalhas pela liberdade — antes de os conduzir à Europa, trocando o marxismo pela modernidade e os slogans pela realidade.

Caminho esse que depois foi feito alternadamente com o PSD, por vezes aliado ao CDS, e sempre contra a resistência dos que se reclamam herdeiros do marxismo e do leninismo. E se hoje vivemos há dois anos e meio sob uma composição de poder que parecia impossível e absurda face a todo o histórico anterior é essencialmente por duas razões: porque os eleitorados do BE e do PCP (sobretudo este) se cansaram de ter apenas uma posição de exigência e pressionaram os seus directórios para experimentar viabilizar um governo PS; e, sobretudo, porque a desmesurada viragem à direita do PSD sob Passos Coelho, a sua insensibilidade social e o seu desprezo pela raiz centrista da sua origem, abriram caminho a uma maioria sociológica e parlamentar capaz de fazer diferente com melhores resultados — ou até mesmo de fazer igual parecendo fazer melhor. Ora, quando Pedro Nuno Santos comete a ousadia de afirmar que o PS nunca mais precisará do PSD para nada e, em contrapartida, parece entregar-se todo nos braços dos seus actuais e circunstanciais parceiros de poder, ele não apenas está a enfraquecer a posição negocial futura do PS para com estes, está também a cometer, à esquerda, o mesmo erro que Passos Coelho cometeu à direita: afrontar e desprezar a classe média, o célebre milhão de votantes que decide as eleições, os mais alfabetizados politicamente, os grandes pagadores de impostos. Rezam as crónicas que o congresso se levantou a aplaudir a tirada, o que é compreensível: sendo o PSD o principal rival de poder do PS, tudo o que seja atacá-lo entusiasma as massas. E, quando se está no poder, tudo entusiasma as massas. Aliás, também rezam as crónicas que, embora não tanto quanto a Pedro Nuno Santos, o congresso aplaudiu tudo e o seu contrário. Como é próprio dos partidos felizes, que não precisam de pensar.

Abençoado PS, que aplaude de pé uma liderança de futuro, que reclama a herança de Marx. De quem?

Não foi o caso de António Costa, que levava uma moção de estratégia muito bem pensada, mas a que ninguém ligou, o que também não quer dizer nada. Mas ele, sim, ligou ao que disse Pedro Nuno Santos e deu-lhe uma resposta ao nível do seu finíssimo jogo de cintura. Começou por dizer, como se se dirigisse a todos em geral, e não a ele, especificamente, que ainda não pensava reformar-se: “Esperem, que o vosso tempo ainda não chegou e atrás de tempo, tempo virá”. Depois, não teve uma palavra sobre os seus parceiros de coligação nem sobre alianças no futuro. E, numa semana em que a Comissão Europeia avisara contra os gastos excessivos na Saúde e poucos dias antes de ser a OCDE a recomendar cautela com os aumentos na Função Pública — duas das principais reivindicações apadrinhadas pelo BE e pelo PCP — António Costa não teve uma palavra sobre isso e preferiu afirmar como principal prioridade aquilo de que a CGTP e os partidos da extrema-esquerda nunca se lembram: o regresso dos que tiveram de emigrar durante a recente crise. Com isso, António Costa não apenas colocou as prioridades na ordem do que é mais justo e mais deveria mobilizar o país, como creio que também quis passar uma mensagem que refreasse alguma euforia patente entre os socialistas. É preciso ver além da espuma dos dias, como ele disse.

E, além da babugem e da crista da onda, está um mar a encrespar-se. Na frente interna, assistimos a uma desaceleração da economia, arrastada pelo abrandamento das exportações — que nos ensina que, a médio e longo prazo, a aposta nas exportações como fonte principal de crescimento é totalmente incerta e dependente de factores externos. Mais seguro é apostar na inovação e na produtividade e tentar substituir cada vez mais produtos importados por produtos made in Portugal. E, se o défice se mantém sob controlo, o enorme elefante da dívida continua na sala — igualmente enorme e inamovível. Na frente externa, tudo é mais incerto do que nunca. A queda de Rajoy e a sua substituição por Pedro Sánchez, em Espanha, está longe de garantir que Costa vá encontrar de imediato alguém que, juntamente com Macron, possa continuar a tentar demover a obstinada teimosia alemã em fazer o que precisa de ser feito para salvar o projecto europeu. E depois há o caso italiano, para seguir de respiração suspensa.

Nunca devemos subestimar os italianos, politicamente. Aliás, nunca se deve subestimar os italianos em nada, porque são o povo mais civilizado do mundo. Se eles agora escolheram para os governar uma coligação entre um partido xenófobo e quase fascista e outro criado por um palhaço e que se declara anti-sistema; se ambos se afirmam anti-União Europeia e fazem gala em dizer que não recebem ordens de Berlim nem de Bruxelas e que não temem sair do euro nem rebentar com a moeda única, tenham medo porque estamos a falar da terceira economia europeia, mas olhem com muita atenção para tentar perceber por que razão um país onde o debate político sempre foi mais avançado chegou a este ponto.

E se algumas das medidas radicais que o novo Governo projecta ensaiar — como o imposto sobre o rendimento de taxa universal de 15% para todos, sem isenção alguma, ou o rendimento garantido, igualmente universal e igual para todos — forem avante e se revelarem, não o desastre financeiro que todos os economistas prevêem, mas um detonador económico jamais ensaiado, fiquem estarrecidos porque é todo o sistema social europeu, todas as verdades que tínhamos como inabaláveis para sempre, que ficam em causa, de repente. E isso é apenas uma pequena parte do assustador mundo que temos pela frente, com as quatro grandes ameaças de que falava Stephen Hawking, por ordem de importância: a inteligência artificial, uma guerra nuclear, as alterações climáticas, a questão demográfica. Abençoado PS, que aplaude de pé uma liderança de futuro, que reclama a herança de Marx. De quem?

2 Não há nada a fazer com os alemães: são mesmo arrogantes, convencidos de que têm de dar lições a todos os outros. Há cinco anos, no auge da crise, cuja dimensão em grande parte nos impuseram sem necessidade, Angela Merkel, dignou-se visitar-nos por umas horas. Quando um jornalista lhe perguntou humildemente se a Alemanha nos poderia ajudar, respondeu que sim, poderiam importar alguns engenheiros portugueses (porque, surpreendentemente, em algumas áreas, os nossos engenheiros são melhores do que os alemães). Recebi isto como um insulto: nós pagávamos a formação dos engenheiros com os nossos impostos e, uma vez ela terminada, a Alemanha dava-nos a “ajuda” de os receber nas suas fábricas de excelência, onde se factura o maior excedente comercial do mundo. Desta vez, de visita de dois dias, António Costa levou-a a ver o que de melhor produz a tecnologia portuguesa ao serviço das multinacionais alemãs em Portugal. E, de caminho, lembrou que também tínhamos bons vinhos para exportar. “Nein!”, disse a chanceler Merkel, “na Alemanha também temos excelentes vinhos!”. A sério, Angela? Aquela droga do Riesling? Nem os vinhos, Angela? O país com piores vinhos do mundo nem sequer está aberto a importar vinhos decentes dos seus parceiros europeus? E depois de matarem a Europa com essa visão de Tio Patinhas, o que vão vocês fazer, sentados em cima de pilhas de dinheiro acumulado e de Mercedes e BMW que ninguém terá dinheiro para vos comprar?


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia